Sutra do Lótus
Sutra do Lótus
Sutra do Lótus
Saddharma pundarika sutram * 妙法蓮華經
Sutra do Lótus
Saddharma pundarika sutram
Sutra do Lótus
Miao Fa Lian Hua Jing – Sutra do Lótus – Saddharma pundarika sutram
* 妙法蓮華經
The Mahayana Sutra do Lótus (Saddharma pundarika sutram * 妙法蓮華經):
The Mahayana Sutra do Lótus (Saddharma pundarika sutram * 妙法蓮華經):
妙法蓮華經 * Sutra do Lótus
Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
O Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Apresentação
Este trabalho foi realizado a partir da tradução inglesa de Burton Watson. A sua intenção é apenas disponibilizar o texto para aqueles menos familiarizados com o inglês. Foi realizado sem qualquer formação específica de tradução e com um conhecimento muito superficial do Budismo. Não pretende, por isso, ser a versão portuguesa definitiva, nem tão pouco estar à altura da qualidade e beleza literária de muitas das passagens do texto original. Caso isso seja possível, deve ser utilizada a versão inglesa como referência e fonte de confirmação.
Os erros ou defeitos detectados no texto devem ser imputados a este tradutor, ilibando assim o texto original. Que nenhum desses erros desvie o leitor da compreensão recta e do espírito da boa Lei.
Que o mérito deste trabalho seja transferido universalmente, em benefício de todos os seres.
Que esta versão sobreviva ao meu nome e para sempre sirva o sagrado Dharma dos Buddhas.
João Rodrigues
Índice
Capítulo I: Introdução
Capítulo II: Meios Expeditos
Capítulo III: Metáforas e parábolas
Capitulo IV: Fé e Compreensão
Capitulo V: A Parábola das Ervas Medicinais
Capitulo VI: Atribuição de profecias
Capitulo VII: A parábola da cidade fantasma
Capítulo VIII: Profecia de iluminação para quinhentos discípulos
Capítulo IX: Profecias Conferidas aos Aprendizes e Adeptos
Capítulo X: O Mestre da Lei
Capítulo XI: O Aparecimento da Torre do Tesouro
Capítulo XII: Devadatta
Capítulo XIII: Admoestação Para Abraçar o Sutra
Capítulo XIV: Práticas Pacíficas
Capítulo XV: Emergindo da Terra
Capítulo XVI: A Duração da Vida do Tathagata
Capítulo XVII: Distinção de Benefícios
Capítulo XVIII: Os Benefícios da Alegre Aceitação
Capítulo XIX: Os Benefícios do Mestre da Lei
Capítulo XX: O Bodhisattva Nunca Desprezando
Capítulo XXI: Os Poderes Místicos do Tathagata
Capítulo XXII: Transmissão
Capítulo XXIII: Os Feitos Passados do Bodhisattva Rei da Medicina (Bhaishagyarâga)
Capítulo XXIV: O Bodhisattva Miozon (Gadvadasgara)
Capítulo XXV: A Passagem Universal do Bodhisattva Kanzeon (Avalokitesvara)
Capítulo XXVI: Dharani
Capítulo XXVII: Os Actos Passados do Rei Adorno Maravilhoso
Capítulo XXVIII: O Incentivo do Bodhisattva Universalmente Meritório (Smantabhadra)
Sutra acrescentado em – terça-feira, 28 de janeiro de 2003 às 10:20
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O Sutra do Lótus
O SUTRA DO LÓTUS
Traduzido a partir da versão inglesa de Burton Watson
Tradução ao Português de João Rodrigues.
Capítulo I:
Introdução
Assim eu ouvi:
Certa época, estava Buda em Rajagriha, no monte Gridhrakuta. A acompanhá-lo estava uma multidão de monges em número de doze mil. Todos eram Arhats cujas falhas tinham chegado ao fim, sem mais desejos mundanos, que tinham alcançado o que era de sua vantagem, pondo fim às cadeias da existência, e cujas mentes haviam obtido o estado de liberdade.
Os seus nomes eram Ajnata Kaudinya, Mahakashiapa, Uruvilvakashiapa, Gaiakashiapa, Nadikashiapa, Shariputra, Grande Maudgalyayana, Mahakatyayana, Anirudda, Kapphina, Gavampati, Revata, Pilindavatsa, Bakkula, Mahakaushtila, Nanda, Sundarananda, Purna Maitrayaniputra, Subhuti, Ananda e Rahula. Todos eram como estes, grandes Arhats bem conhecidos.
Aí estavam também duas mil pessoas, algumas das quais ainda estavam a aprender e outras tinham completado a sua aprendizagem.
Aí estava a monja Mahaprajapati com seis mil seguidoras. Aí estava também a mãe de Rahula, a monja Yashodhara, com as suas seguidoras.
Aí estavam bodhisattvas e mahasattvas, dezoito mil, todos sem regressão na busca de anuttara-samyak-sambodhi. Todos tinham ganho dharanis e eloquência, deleitado-se no ensinamento, e tinham feito girar a irreversível Roda da Lei. Tinham feito oferendas a centenas de milhares de Budas, na presença de vários Budas tinham plantado numerosas raízes de virtude, tendo sido constantemente louvados pelos Budas, treinaram-se na compaixão, sendo valorosos a entrar na sabedoria de Buda, penetraram completamente a grande sabedoria, atingindo assim a outra margem. A sua fama espalhou-se através de mundos incomensuráveis e foram capazes de salvar incontáveis centenas de milhares de seres viventes.
Os seus nomes eram Bodhisattva Manjushri, Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo [Avalokitesvara], Bodhisattva Investido da Grande Autoridade, Bodhisattva Esforço Constante, Bodhisattva Sem Descanso, Bodhisattva Palmeira de Jóias, Bodhisattva Rei da Medicina, Bodhisattva Dador Intrépido, Bodhisattva Lua de Jóias, Bodhisattva Luar, Bodhisattva Plenilúnio, Bodhisattva Grande Força , Bodhisattva Força Imensurável, Bodhisattva Transcendência do Triplo Mundo, Bodhisattva Bhradrapala, Bodhisattva Maitreya, Bodhisattva Tesouro de Jóias e Bodhisattva Grande Líder. Bodhisattvas e mahasattvas como estes em número de dezoito mil tinham acorrido.
Nessa altura, o Indra Shakra Devanam com os seus seguidores, vinte mil filhos de deuses, também acorreram. Aí estavam também os filhos dos deuses Lua Rara, Fragrância Penetrante, Brilho de Jóias, e os quatro Grandes Reis Celestiais, com os seus seguidores, dez mil filhos de deuses.
Estavam presentes os filhos dos deuses Liberdade e Grande Liberdade com os seus seguidores, trinta mil filhos de deuses. Estavam presentes o rei Brahma, Senhor do mundo Saha, o grande Brahma Shikhin e o grande Brahma Brilho Luminoso, todos com os seus seguidores, doze mil filhos de deuses.
Aí estavam oito reis dragões, o rei dragão Nanda, o rei dragão Upananda, o rei dragão Sagara, o rei dragão Vasuki, o rei dragão Takshaka, o rei dragão Anavatapta, o dragão Manasvin, o rei dragão Uptalaka, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.
Aí estavam quatro reis kimnara, o rei kimnara Grande Lei e o rei kimnara Sustentando a Lei, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.
Aí estavam quatro reis azura, o rei azura Balin, o rei azura Kharaskandha, o rei azura Vemachitrin e o rei azura Rahu, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.
Aí estavam também quatro reis garuda, o rei garuda Grande Majestade, o rei garuda Grande Corpo, o rei garuda Grande Plenitude e o reigaruda Satisfação dos Desejos, cada um com várias centenas de milhares de seguidores.
Cada um destes, depois de se prosternar em reverência aos pés de Buda, recuou e tomou assento a um lado.
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, rodeado pelos quatro tipos de crentes, recebeu oferendas e sinais de respeito e foi honrado e louvado. Em prol dos bodhisattvas, expôs o sutra do Grande Veículo intitulado Incomensuráveis Significados, uma Lei para instruir os bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Budas.
Quando Buda acabou de expor este sutra, sentou-se em posição de lótus e entrou no samadhi do Lugar de Incomensuráveis Significados, o corpo e mente imóveis. Nesse momento, caiu do céu uma chuva de flores de mandarava, de grandes flores de mandarava, de flores de manjushaka e de grandes flores de manjushaka, espalhando-se sobre Buda e sobre a grande assembleia e todo o mundo de Buda estremeceu em seis direcções diferentes.
Nessa altura os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, seres celestiais, dragões, yakshas, gandarvas, azuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos bem como os reis piedosos e os reis sábios que fazem girar a roda, todos na grande assembleia, tendo ganho o que nunca antes possuíram, encheram-se de alegria, e juntando as palmas das mãos, fitaram Buda com uma só mente.
Nessa altura, Buda emitiu um raio de luz do tufo de pêlo branco entre as suas sobrancelhas, um dos seus sinais distintivos, iluminando dezoito mil mundos na direcção Oeste. Não houve lugar algum onde a luz não penetrasse, alcançando desde baixo o inferno de Avishi até ao alto, o céu de Akanishtha.
Ficaram então visíveis os seres vivos nos seis reinos de existência em todos esses outros mundos. Da mesma forma, podiam ser vistos os Budas presentes nesse momento nessas outras terras e eram audíveis os sutras que esses Budas estavam a expor. Ao mesmo tempo, podiam ser vistos os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos que tinham encontrado o caminho e desenvolviam práticas religiosas. Podiam ser vistos os bodhisattvas e mahasattvas que, mediante várias causas e condições, vários tipos de fé e compreensão e diferentes formas e aspectos, cultivavam a via do bodhisattva. Podiam também ser vistos os Budas que tinham entrado no parinirvana e torres adornadas com os sete tesouros a serem erigidas para as suas relíquias.
Nesse momento, o Bodhisattva Maitreya teve este pensamento: O Honrado Pelo Mundo manifestou estes miraculosos sinais. Qual a causa destes auspiciosos indícios? Agora o Buda, o Honrado Pelo Mundo, entrou em samadhi. Um evento tão incompreensível como este é muito raro de presenciar. Quem poderei questionar acerca disto? Quem poderá responder-me?
E então, teve ainda este pensamento: Este Manjushri, filho de um reido Dharma, já pessoalmente assistiu e deu oferendas a um incomensurável número de Budas no passado. Decerto presenciou já estes raros sinais. Irei questioná-lo.
Nessa ocasião, os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, bem como os seres celestiais, dragões, espíritos e todos os outros tiveram este pensamento: “Este raio de luz vindo de Buda, estes sinais de poderes transcendentais – quem poderemos questionar acerca deles?”
Nessa altura o Bodhisattva Maitreya quis esclarecer as suas dúvidas quanto a essa questão. Além disso, podia ver o que ia na mente dos quatro tipos de crentes, os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, bem como os seres celestiais, dragões, espíritos e os outros que constituíam a assembleia. Então questionou Manjushri, dizendo, “Qual é a causa destes auspiciosos sinais, estes indícios de poderes transcendentais, esta emissão de um raio brilhante que ilumina os dezoito mil mundos na região Oeste de tal forma que podemos ver todos os adornos das Terras de Buda aí existentes?”
Então, o Bodhisattva Maitreya, desejando explicar-se novamente, fez a pergunta em verso:
Manjushri,
Por que é que desde o tufo branco entre as sobrancelhas
do nosso mestre e instrutor,
brilha esta grande luz?
Por que é que do céu
chovem flores de mandarava e manjushaka
e brisas perfumadas de sândalo
deliciam os corações da assembleia?
Devido a isto,
em toda a parte a terra está adornada e purificada
e este mundo
estremece em seis diferentes direcções.
Com isto, os quatro tipos de crentes
encheram-se de alegria e deleite,
e rejubilam no corpo e na mente,
tendo obtido o que nunca antes haviam conseguido.
O raio luminoso de entre as sobrancelhas
ilumina a direcção Oeste
e dezoito mil terras
são da cor do ouro.
Desde o inferno de Avichi
até ao Cume do Ser,
através dos vários mundos,
os seres vivos nos seis caminhos,
o plano para onde tendem os seus nascimentos e mortes,
as boas e más acções,
as agradáveis ou adversas recompensas que recebem –
tudo isto pode ser visto daqui.
Podemos também ver os Budas,
esses senhores da sabedoria, leões,
a expor e ensinar sutras subtis,
maravilhosos e supremos.
As suas vozes são claras e puras,
Emitem sons suaves e calmos,
enquanto ensinam inumeráveis milhões de bodhisattvas.
Os seus sons Brahma são profundos e maravilhosos,
provocam deleite em quem os ouve.
Cada um no seu mundo
expõe a Lei correcta,
segundo várias causas e condições
e emprega inumeráveis metáforas,
iluminando a Lei do Buda,
guiando seres vivos até à iluminação.
Se alguém tiver de encontrar problemas,
repugnando a velhice, a doença e a morte,
os Budas ensina-lhe acerca do nirvana,
e explicam-lhe como pôr fim a todas as dificuldades.
Se alguém for afortunado,
tendo no passado feito ofertas aos Budas,
determinado em procurar uma Lei superior,
os Budas expõe a via dos pratyekabuda.
Se houver filhos de Buda
que empreendam várias práticas religiosas,
procurando obter a sabedoria insuperável,
os Budas ensinam a via da pureza.
Manjushri,
tenho estado aqui,
a ver e ouvir desta forma
centenas de milhões de coisas.
Numerosas como são,
falarei delas abreviadamente.
Vejo nestas terras
bodhisattvas tão numerosos como as areias do Ganges,
que de acordo com várias causas e condições
procuram o caminho do Buda.
Alguns deles dão esmolas,
ouro prata, coral,
pérolas, lápis-lazúli,
madrepérola, ágata,
diamantes e outras raridades,
servas e servos, carruagens,
liteiras cravejadas de jóias, palanquins,
apresentando alegremente estes donativos.
Eles faziam tais ofertas à via do Buda,
no desejo de atingir o veículo
que detém a primazia nos três mundos
e é louvado pelos Budas.
Existem alguns bodhisatvas
que oferecem carruagens cravejadas de jóias, puxadas por quadrigas
com armações e pálios floridos
adornando os lados e o topo.
Vejo ainda bodhisattvas
que alegremente oferecem
a pele, mãos e pés,
ou as mulheres e os filhos,
na busca da via inexcedível.
Vejo também bodhisattvas
que alegremente dão
as suas cabeças, olhos, corpos e membros
na busca da sabedoria de Buda.
Manjushri,
vejo reis
a visitar o Buda
para o questionar acerca da via inexcedível.
Põem de lado as boas terras,
os palácios, os servos e servas,
rapam o cabelo e a barba
e envergam as roupas do Dharma.
Vejo também bodhisattvas
convertidos em monges,
a viver sozinhos em quietude,
deleitando-se com a recitação de sutras.
Vejo ainda bodhisattvas
a esforçar-se com vigor e bravura,
internando-se nas montanhas,
com os pensamentos no caminho do Buda.
E vejo-os a renunciar ao desejo,
constantemente imersos na vacuidade e na quietude,
a aprofundar a prática da meditação
até conquistarem os cinco poderes transcendentais.
E vejo bodhisattvas,
a repousar em meditação, as palmas das mãos juntas,
com mil, dez mil versos
a louvar o rei das doutrinas.
Vejo ainda bodhisattvas,
de profunda sabedoria e firme propósito,
que sabem como questionar os Budas
e aceitar e cumprir tudo o que assim ouvem.
Vejo filhos de Budas
proficientes quer na meditação quer na sabedoria,
que usam imensuráveis números de metáforas
para expor a Lei à assembleia,
que se deleitam no ensino da Lei,
convertem os bodhisattvas,
derrotam as legiões do demónio
e fazem soar os tambores do Dharma.
Vejo bodhisattvas
profundamente imóveis e silenciosos,
honrados por seres celestiais e dragões,
sem que isso os inebrie.
E vejo bodhisattvas
a viver em florestas, emitindo luz,
salvando os que sofrem no inferno,
fazendo-os entrar no caminho do Buda.
Vejo filhos de Buda
que nunca dormem
e que circulam pela floresta
diligentemente à procura do caminho do Buda.
E vejo aqueles que observam os preceitos
numa conduta sem mácula,
pura como jóias ou pedras preciosas,
e dessa forma procuram o caminho do Buda.
E vejo filhos de Buda
Que toleram com força inquebrantável
os insultos e agressões
de pessoas prepotentes e arrogantes,
e dessa forma procuram o caminho do Buda.
Vejo bodhisattvas
Que se furtam à frivolidade, ao riso
e às companhias tolas,
preferindo a companhia dos sábios,
unificando as suas mentes e dissipando a confusão,
pondo ordem nos seus pensamentos na montanha e na floresta
por mil, dez mil, um milhão de anos,
e dessa forma procuram o caminho do Buda.
Vejo bodhisattvas
com bebidas e iguarias deliciosas
e centenas de diferentes poções medicinais,
oferecerem tudo isso ao Buda e aos seus monges;
mantos finos,
vestuário luxuoso e de preço elevado,
ou mantos de valor incalculável,
oferecidos a Buda e aos seus monges;
mil, dez mil, um milhão
de variadas moradias feitas de sândalo
e inúmeros e maravilhosos artigos de enxoval,
oferecidos a Buda e aos seus monges;
imaculados bosques e jardins
onde abundam frutos e flores,
nascentes generosas e lagoas,
oferecidos a Buda e aos seus monges;
ofertas deste tipo,
em inúmeras e maravilhosas variedades
oferecidas de bom grado e sem hesitações
enquanto procuram a via inexcedível.
Ou ainda, bodhisattvas
que expõem a Lei da extinção tranquila
a inumeráveis seres viventes.
Ou ainda bodhisattvas
Que vêem a natureza dos fenómenos
como isenta de dualidade,
sendo como espaço vazio.
E vejo filhos de Buda
cujas mentes não têm apegos,
que usam esta sabedoria maravilhosa
para procurarem a via inexcedível.
Manjushri,
existem também bodhisattvas
que após o passamento do Buda
fazem oferendas às suas relíquias.
Vejo filhos de Buda
A construir torres votivas
tão numerosas como as areias do Ganges,
ornamentando com elas cada terra,
torres de jóias, altaneiras e maravilhosas,
quinhentas yojanas de altura,
comprimento e largura
exactamente duzentas yojanas,
cada uma destas torres votivas
com os seus mil estandartes e fitas,
com cortinas bordadas com jóias como orvalho
e sinos de jóias tinindo harmoniosamente.
Aí seres celestiais, dragões, espíritos,
seres humanos e não humanos,
com incenso, flores e música
fazem constantemente oferendas.
Manjushri,
estes filhos de Buda,
para fazer oferendas às relíquias,
adornam as torres votivas
de modo que cada terra, tal como é,
é tão excepcionalmente maravilhosa e encantadora
como o celestial rei das árvores
quando as suas flores abrem e desabrocham.
Quando Buda emite um raio de luz
eu e outros membros da assembleia
podemos ver essas terras
em todas as suas variadas e excepcionais maravilhas.
Os poderes sobrenaturais dos Budas
e a sua sabedoria são deveras raras;
emitindo um puro raio de luz,
os Budas iluminam terras sem conta.
Eu e os outros vimos isto,
e ganhamos algo antes desconhecido.
Filho de Buda, Manjushri,
peço-te que esclareças as dúvidas da assembleia.
Os quatro tipos de crentes olham em alegre antecipação,
fitando-nos ambos.
Porquê o Honrado Pelo Mundo
emitiu este raio de luz?
Filho de Buda, dá-me prontamente uma resposta,
esclarece estas dúvidas dando lugar à alegria!
Que ricos benefícios virão
da projecção deste raio de luz?
Deve ser o caso de o Buda querer expor
a maravilhosa Lei por ele obtida
quando se sentou no lugar da iluminação.
Ele deve ter profecias para outorgar.
Ele mostrou-nos terras de Buda –
com o adorno e pureza de múltiplos tesouros,
e nós vimos os seus Budas –
isto não pode ter sido feito sem razões válidas.
Manjushri,
os quatro tipos de crentes, os dragões e espíritos
olham-te cheios de expectativa,
imaginando que explicação irás dar.
Nessa altura Manjushri disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya e aos outros grandes homens: “Bons homens, suponho que o Buda, o Honrado Pelo Mundo, deseja expor agora a grande Lei, soprar a concha da grande Lei, bater o tambor da grande Lei, elucidar o significado da grande Lei. Bons homens, vi no passado estes auspiciosos fenómenos entre os Budas, que primeiro emitem um raio de luz como este, e a seguir expõem a grande Lei. Por conseguinte devemos entender que agora, quando o presente Buda manifesta esta luz, acontecerá o mesmo. Ele deseja que todos os seres vivos ouçam e compreendam a Lei, a qual é difícil de ser entendida pelo mundo. Assim manifestou ele estes auspiciosos fenómenos.
“Bons homens, uma vez, num tempo passado, há incontáveis, ilimitados, inconcebíveis asamkhia kalpas, existiu um Buda chamado Brilho do Sol e da Lua (Kandrasûryapradîpa), Tathagata, merecedor de oferendas, de conhecimento recto e universal, de clarividência e conduta perfeitas, bem sucedido, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, instrutor de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda, Honrado Pelo Mundo, que expôs a correcta Lei. A sua exposição era boa no início, boa no meio e boa no fim. O significado era profundo e vasto, as palavras eram hábeis e maravilhosas. Era pura e sem misturas, completa, limpa e sem mácula, ostentando as marcas das práticas Brahma.”
Em prol daqueles que procuravam tornar-se ouvintes, expôs a Lei das Quatro Nobres Verdades, de modo a transcenderem o nascimento, a velhice, a doença e a morte e assim alcançarem o nirvana. Em prol dos que procuravam tornar-se pratyekabudas ele expôs a Lei dos doze Nidanas (doze elos da causalidade interdependente). Em prol dos aspirantes a bodhisattvas expôs as seis paramitas, fazendo-os atingir anuttara-samyak-sambodhi e adquirir a sabedoria que abarca todas as espécies.”
“Nessa altura, havia outro Buda também chamado Brilho do Sol e da Lua, e ainda um outro Buda também chamado Brilho do Sol e da Lua. Aí existiam vinte mil Budas como este, todos com o mesmo título, todos chamados Brilho do Sol e da Lua. E todos tinham o mesmo apelido, o apelido Bharadvaja. Maitreya, deves compreender que do primeiro ao último Buda, todos tinham o mesmo título, todos eram nomeados Brilho do Sol e da Lua. Eram merecedores de todos os dez epítetos e a Lei que expunham era boa no início, boa no meio e boa no fim.”
O último desses Budas, quando não tinha ainda deixado a vida familiar, tinha oito filhos príncipes. O primeiro chamava-se Dotado de Intenção, o segundo Boa Intenção, o terceiro Intenção Desmedida, o quarto Intenção de Jóias, o quinto Intenção Reforçada, o sexto Intenção Limpa de Dúvidas, o sétimo Intenção Reverberante e o oitavo Intenção da Lei. A dignidade e a virtude eram-lhes fáceis e cada um presidia a um reino de quatro continentes.”
“Quando estes príncipes ouviram dizer que o pai tinha abandonado a vida familiar e ganho anuttara-samyak-sambodhi, renunciaram todos às suas posições principescas e seguiram-no, deixando também as suas famílias. Concebendo um desejo pelo Grande Veículo, levaram constantemente a cabo práticas Brahma, e todos se tornaram mestres da Lei. Tinham plantado já raízes de virtude na companhia de mil, dez mil Budas.”
Nessa ocasião o Buda Brilho do Sol e da Lua ensinou o sutra do Grande Veículo intitulado Imensuráveis Significados, uma Lei para instruir os Bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Budas. Quando o ensinamento do sutra chegou ao fim, sentou-se em posição de lótus e entrou no samadhi do Lugar de Incomensuráveis Significados, com o corpo e a mente imóveis. Nesse momento, caiu do céu uma chuva de flores de mandarava, grandes flores de mandarava, flores de manjushaka e grandes flores de manjushaka, espalhando-se sobre o Buda e sobre a grande assembleia e todo o mundo de Buda estremeceu em seis direcções diferentes”.
“Nessa altura os monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, seres celestiais, dragões, yakshas, gandarvas, azuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos na assembleia, bem como os reis piedosos e os reis sábios – todos na grande assembleia, obtiveram o que nunca tinham possuido antes e, cheios de alegria, juntaram as palmas das mãos e fitaram o Buda com uma só mente.”
“Nessa altura, Buda emitiu um raio de luz do tufo de pêlo branco entre as suas sobrancelhas, um dos seus sinais distintivos, iluminando dezoito mil mundos na direcção Oeste. Não houve lugar onde a luz não penetrasse, tal como o viste iluminar agora estas terras de Buda ”.
Maitreya, deves entender isto; nessa ocasião estavam presentes na assembleia vinte milhões de bodhisattvas, alegres e ansiosos por receberem a Lei. Quando estes bodhisattvas viram esse raio de luz que iluminou em toda a parte as terras de Buda, ganharam o que nunca tinham obtido. Eles quiseram conhecer as causas e condições que ocasionaram essa luz.
“Nessa altura existia um bodhisattva chamado Maravilhosamente Brilhante (Varaprabha) que tinha oitocentos discípulos. Então o Buda Brilho do Sol e da Lua despertou do seu samadhi e devido ao bodhisattva Maravilhosamente Brilhante, expôs o sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa (Saddharma-Pundarika), uma lei para instruir os bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Budas. Por dezasseis pequenos kalpas o Buda permaneceu no seu lugar, sem se levantar, e os ouvintes na assembleia também permaneceram sentados por dezasseis pequenos kalpas, com os corpos e mentes imóveis. No entanto, parecia-lhes terem escutado o Buda ensinar durante não mais do que o tempo de uma refeição. Nessa ocasião não havia na assembleia uma única pessoa que no corpo ou na mente tivesse o menor sentimento de cansaço.”
Quando o Buda Brilho do Sol e da Lua acabou de expor este sutra após um período de dezasseis pequenos kalpas, dirigiu estas palavras aos Brahmas, demónios, shramanas e Brahmans, bem como aos seres celestiais e humanos e aos azuras na assembleia: “Esta noite, à meia noite, o Tathagata extinguir-se-á entrando no nirvana absoluto.”
“Nessa altura existia um bodhisattva chamado Repositório de Virtudes. O Buda Brilho do Sol e da Lua outorgou-lhe uma profecia, anunciando aos monges, “Este bodhisattva Repositório de Virtudes será o próximo a tornar-se um Buda. Ele será chamado Puro Corpo, Tathagata, arhat, samiak-sambuda.”
Depois do Buda ter acabado de fazer esta profecia, à meia noite entrou no nirvana absoluto.”
Após a extinção do Buda, o bodhisattva Maravilhosamente Brilhante promoveu o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa por um período de oito pequenos kalpas completos, expondo-o para outros. Os oito filhos do Buda Brilho do Sol e da Lua reconheceram Maravilhosamente Brilhante como seu mestre. Maravilhosamente Brilhante ensino-os e converteu-os, criando neles a firme determinação de alcançarem anuttara-samyak-samboddhi. Estes príncipes fizeram oferendas a imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Budas, e depois disso todos eles atingiram a Iluminação. O último a tornar-se um Buda foi chamado Tocha Ardente.”
Entre os oitocentos discípulos de Maravilhosamente Brilhante havia um chamado Ávido de Fama. Ele ansiava por feitos e aplausos, e apesar de ler e recitar numerosos sutras, não os entendia, mas antes esquecia-os na sua maior parte. Daí ser chamado Ávido de Fama. Apesar disso, porque este homem tinha plantado várias raízes de virtude, foi capaz de encontrar imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Budas e de fazer-lhes oferendas, de honrá-los, venerá-los e louvá-los.”
“Maitreya, deves entender isto. O Bodhisattva Maravilhosamente Brilhante que então viveu, pode ele ser por ti conhecido? Ele não era senão eu. E o Bodhisattva Ávido de Fama eras tu.”
Quando agora observo estes auspiciosos fenómenos, vejo que não diferem do que eu já vi antes. Daí que eu suponha que o Honrado-Pelo-Mundo está em vias de expor o sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei para instruir os Bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Budas.”
Então Manjushri, querendo expor novamente, perante a grande assembleia, o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Lembro que numa era passada
há imensuráveis, inumeráveis kalpas
houve um Buda, o mais honrado dos homens,
chamado Brilho do Sol e da Lua.
Este Honrado Pelo Mundo expôs a Lei,
salvando imensuráveis seres viventes
e um sem número de milhões de bodhisattvas,
fazendo-os entrar na sabedoria de Buda.
Os oitos filhos príncipes que este Buda gerou
antes de deixar a vida de família,
quando viram que este grande sábio deixara a família
fizeram o mesmo, levando a cabo práticas brahma.
Nessa altura o Buda ensinou o grande Veículo,
um sutra chamado Imensuráveis Significados,
e no meio da grande assembleia
pelo bem das pessoas estabeleceu distinções.
Quando o Buda acabou de expor este sutra
tomou o assento da Lei,
e sentou-se de pernas cruzadas no samadhi
chamado “lugar de imensuráveis significados”.
Dos céus choveram flores de mandarava,
tambores celestiais soaram por si,
e os seres celestiais, dragões e espíritos
fizeram oferendas ao mais honrado dos homens.
Todas as terras de Buda de imediato tremeram grandemente.
O Buda emitiu uma luz de entre as suas sobrancelhas,
manifestando sinais raramente vistos.
Esta luz iluminou a direcção Oeste,
dezoito mil terras de Buda,
mostrando como todos os seres viventes
aí eram recompensados em vida e morte pelas suas acções passadas.
Podíamos ver essas terras de Buda,
adornadas com numerosas jóias,
brilhando com reflexos de lápis-lazúli e cristal
devido à iluminação da luz de Buda.
Podíamos ver também Tathagatas
a alcançar naturalmente a Via de Buda,
de corpos da cor de montanhas douradas,
rectos, imponentes, subtis e maravilhosos.
Era como se do meio de puro lápis-lazúli
surgissem colunas de ouro verdadeiro.
No meio da grande assembleia os Honrados pelo Mundo
expunham os princípios da profunda Lei.
Em sucessivas terras de Buda
incontáveis multidões de ouvintes,
mercê da iluminação da luz de Buda,
ficaram visíveis com suas grandes assembleias.
Aí também existiam monges
a residir no meio de florestas,
esforçando-se por manter puros os preceitos
como se guardassem uma jóia rara.
Podíamos ver também bodhisattvas
A dar esmolas, sendo pacientes,
numerosos como areias do Ganges, devido à iluminação da luz de Buda.
Podíamos também ver bodhisattvas
absorvidos na pratica da meditação,
de corpos e mentes tranquilos e imóveis,
dessa forma procurando a via insuperável.
Podíamos ver também bodhisattvas
cientes de que os fenómenos são marcados pela tranquilidade e pela extinção,
cada um na sua respectiva terra
ensinando a lei e buscando a suprema iluminação.
Nessa ocasião, os quatro tipos de crentes
ao ver o Buda Brilho do Sol e da Lua
manifestar os seus enormes poderes transcendentais,
rejubilaram nos seus corações,
perguntando-se mutuamente
a causa destes eventos.
O honrado por seres celestiais e humanos
despertou do seu samadhi
e louvou o Bodhisattva Maravilhosamente Brilhante, dizendo,
“Tu és o olho do mundo,
refúgio para todos, em quem podemos ter fé,
capaz de honrar e promover o repositório do Dharma.
A lei que eu ensino –
só tu lhe podes fazer jus.”
O Honrado Pelo Mundo, tendo conferido este louvor,
que fez rejubilar Maravilhosamente Brilhante,
expos o Sutra do Lótus
por dezasseis completos pequenos kalpas.
Ele nunca saiu do seu lugar,
e a suprema e maravilhosa Lei por ele exposta
foi aceite e promovida na íntegra
por Maravilhosamente Brilhante, mestre do Dharma.
Após o Buda ter exposto o Sutra do Lótus,
fazendo toda a assembleia rejubilar,
nesse mesmo dia
anunciou à assembleia de seres celestiais e humanos,
“Já vos transmiti
o significado da verdadeira entidade de todos os fenómenos.
Agora, quando a meia noite chegar
entrarei no nirvana.
Sejam zelosos de todo o coração
e evitem a indolência e a lassidão,
é muito difícil encontrar um Buda –
apenas uma vez em cada milhão de kalpas.”
Quando os filhos do Buda
ouviram dizer que o Honrado Pelo Mundo ia entrar no nirvana,
ficaram cheios de pesar
perguntando-se o porquê da sua eminente partida.
O senhor da sabedoria, Rei do Dharma,
confortou e apaziguou a incontável multidão,
dizendo, “Quando eu entrar no nirvana
não deveis inquietar-vos ou temer!
Este bodhisattva Repositório de Virtudes
após completar o seu percurso sem falhas
será o próximo Buda, chamado Puro Corpo,
e também ele salvará multidões imensuráveis.”
Nessa noite o Buda extinguiu-se,
tal como um fogo se apaga quando se esgota o combustível.
Eles dividiram e acondicionaram as suas relíquias
e construíram um número incontável de torres,
e os monges e monjas
numerosos como as areias do Ganges
redobraram os seus esforços,
procurando alcançar a via insuperável.
O mestre do Dharma, Maravilhosamente Brilhante,
honrado e sustentado pelo repositório do Dharma dos Budas
durante oitenta pequenos kalpas,
propagou largamente o Sutra do Lótus.
Esses oito príncipes
que Maravilhosamente Brilhante converteu
ativeram-se firmemente à via insuperável
sendo assim capazes de encontrar inumeráveis Budas.
Após terem feito oferendas a esses Budas
seguiram a prática do Grande Caminho
e um após outro sucederam-se como Budas,
cada um profetizando o destino do seu sucessor na via de Buda.
O último a tornar-se Buda
foi chamado Tocha Ardente [Dipankara].
Como líder e mestre
salvou imensuráveis multidões.
Este mestre do Dharma, Maravilhosamente Brilhante,
tinha nessa altura um discípulo
cuja mente estava sempre ocupada pelo torpor e pela indolência,
ávido de fama e vantagem;
sempre insaciável por glória
negligenciava e esquecia o que tinha estudado.
Devido a isto foi ele chamado Ávido de Fama
Mas ele tinha também levado a cabo muitas acções meritórias
tendo assim sido capaz de conhecer inumeráveis Budas.
Ele fez ofertas a esses Budas
e seguiu-os praticando o grande caminho,
esmerando-se nas seis paramitas,
e agora ele encontrou o leão dos Shakyas.
No futuro ele tornar-se-á o próximo Buda
e o seu nome será Maitreya,
salvará seres viventes
em números para lá de qualquer cálculo.
Esse que então era o discípulo indolente do extinto Buda
eras tu, e o mestre do Dharma,
Maravilhosamente Brilhante – era eu.
Os sinais são agora como os anteriores fenómenos auspiciosos,
este é um meio hábil usado pelos Budas.
Agora que o Buda emite este raio de luz
está em vias de revelar o sentido da verdadeira natureza dos fenómenos.
Os seres humanos ficarão agora a conhecê-lo.
Juntemos as mãos e aguardemos com uma só mente.
O Buda fará cair a chuva da Lei
que refresca e satisfaz os que buscam o caminho.
Tu que procuras os três veículos,
se tens dúvidas ou inquietações,
o Buda resolvê-las-á para ti.
^^^^^
Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Segundo:
Meios Expeditos
Nesse momento o Honrado Pelo Mundo despertou calmamente do seu samadhi e dirigiu-se a Shariputra, dizendo: ”A sabedoria de Buda é infinitamente profunda e imensurável. O acesso a esta sabedoria é difícil de compreender e difícil de transpor.
Nenhum dos ouvintes ou dos pratyekabudas é capaz de a compreender.
“Por que razão assim é? Um Buda seguiu uma centena, um milhar, dez milhares, um milhão, um incontável número de Budas, tendo completado um número infinito de práticas religiosas. Esforçou-se com bravura e vigor, e o seu nome é universalmente conhecido. Realizou a Lei profunda nunca antes conhecida, e ensina de acordo com o que é apropriado. A sua intenção, porém, é difícil de compreender.
“Shariputra, desde que atingi o Despertar, tenho exposto o meu ensinamento através de várias causas e metáforas e tenho utilizado incontáveis meios hábeis para guiar os seres viventes e levá-los a renunciar aos apegos. Porque assim é? Porque o Tathagatha realizou plenamente os meios hábeis e a paramita da sabedoria.
“Shariputra, a sabedoria do Tathagatha é profunda e de grande alcance. Possui misericórdia incomensurável, eloquência ilimitada, poder, coragem, concentração, emancipação e samadhis, penetrou profundamente o ilimitado e despertou para a Lei nunca antes obtida.
“Shariputra, o Tathagata sabe como fazer vários tipos de distinções e como expor habilmente os ensinamentos. As suas palavras, suaves e agradáveis, deliciam os corações da assembleia.
“Shariputra, direi em resumo: o Buda realizou inteiramente a Lei ilimitada, nunca antes alcançada.
“Mas pára, Shariputra, não direi mais. Porquê? Porque o que o Buda obteve é a Lei mais rara e mais difícil de entender. A verdadeira natureza dos fenómenos só pode ser compreendida e partilhada entre Budas. Esta realidade consiste na aparência, natureza, ser, poder, influência, causa inerente, relação, efeito latente, efeito manifesto e a sua consistência do princípio ao fim.”
Então, o Honrado Pelo Mundo, querendo expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
O herói do mundo é incompreensível.
Entre seres celestiais ou entre as pessoas do mundo,
entre todos os seres viventes,
nenhum pode compreender o Buda.
Ninguém consegue calcular ou abarcar
o poder, coragem,
emancipação e samadhis
e todos os outros atributos de um Buda.
Previamente, sob a orientação de incontáveis Budas, praticou e adquiriu inteiramente várias vias,
doutrinas profundas, subtis e maravilhosas,
difíceis de encontrar e difíceis de entender.
Durante imensuráveis milhões de kalpas
praticou deste modo
até que no lugar da iluminação atingiu o objectivo.
Já testemunhei e conheço inteiramente
esta grande meta e recompensa,
o sentido destas várias naturezas e características.
Eu e os outros Budas das dez direcções
podemos agora entender estas coisas.
Esta Lei não pode ser descrita
e as palavras esgotam-se perante ela.
Entre os outros tipos de seres viventes
nenhum existe que a possa compreender,
excepto aqueles muitos bodhisattvas
que são firmes no poder da fé.
Os muitos discípulos dos Budas
deram no passado oferendas aos Budas,
cessaram já as suas falhas
e encontram-se agora na sua última encarnação.
Mesmo o poder destas pessoas
está aquém do necessário.
Mesmo que todo o mundo
fosse repleto de homens como Shariputra,
ainda que eles esgotassem todos os seus pensamentos
e unissem as suas capacidades,
não poderiam conceber a sabedoria de Buda.
Mesmo que as dez direcções estivessem cheias de homens como Shariputra
ou como outros discípulos,
apesar de esgotarem os seus pensamentos e unirem as suas capacidades,
ainda assim não poderiam compreender.
Se pratyekabudas, de apuradas faculdades,
sem falhas, no seu último renascimento,
enchessem os mundos nas dez direcções
tão numerosos como bambus no Ganges,
mesmo que se juntassem numa só mente
por um milhão ou por incontáveis kalpas,
esperando conceber a verdadeira sabedoria dos Budas,
não poderiam entender a mais pequena parte dela.
Se bodhisattvas recentemente embarcados no seu caminho
fizessem oferendas a inumeráveis Budas,
dominassem completamente o intento de várias doutrinas
sendo também capazes de ensinar efectivamente a Lei,
numerosos como plantas de arroz ou cânhamo, bambus ou juncos,
enchendo as terras nas dez direcções,
se com uma única mente, com todo o seu maravilhoso conhecimento,
por kalpas numerosos como as areias do Ganges,
juntassem os seus pensamentos e capacidades,
não poderiam entender a sabedoria de Buda.
Se bodhisattvas que não mais retornarão,
em número igual ao das areias do Ganges,
com uma única mente ponderarem e buscarem em conjunto,
também eles não poderão compreender.
Também te anuncio, Shariputra,
que esta Lei, profunda, subtil e maravilhosa
sem falhas, inescrutável,
foi por mim alcançada na sua totalidade.
Apenas eu entendo as suas características,
tal como a entendem também os Budas das dez direcções.
Shariputra, deves saber que os mundos dos vários Budas nunca diferem.
Para com a Lei ensinada pelos Budas
deves cultivar uma grande e poderosa fé.
O Honrado Pelo Mundo expôs longamente as suas doutrinas
e agora deve revelar a verdade.
Anuncio a esta assembleia de ouvintes
e a todos os que seguem o veículo de pratyekabuda:
Tornei possível às pessoas escaparem às cadeias do sofrimento
e atingirem o nirvana.
O Buda, através do poder dos meios hábeis,
mostrou-lhes os ensinamentos dos três veículos,
libertando os seres viventes de quaisquer quaisquer apegos e
permitindo-lhes obter alívio.
Nessa ocasião estavam na grande assembleia muitos ouvintes, Arhats cujas falhas tinham chegado ao fim, e Ajnata Kuandinya, seguido por duzentas pessoas. E havia monges e monjas, irmãos e irmãs leigos, que conceberam o desejo de se tornarem ouvintes ou pratyekabudas. Cada um destes tinha este pensamento: Por que razão o Honrado Pelo Mundo louva tão veementemente os meios hábeis e afirma que a Lei alcançada pelo Buda é tão profunda e difícil de compreender, que nem um dos ouvintes ou dos pratyekabudas consegue entendê-la?
Se o Buda expõe apenas uma doutrina de emancipação, então também deveríamos abarcar esta Lei e alcançar o estado de Nirvana. Não conseguimos seguir o fio do seu discurso.
Então Shariputra entendeu as dúvidas que perpassavam pelas mentes dos quatro tipos de crentes e ele próprio não conseguiu compreender. Dirigiu-se assim a Buda, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, que causas e condições te levam a louvar tão veementemente os meios hábeis, os superiores instrumentos dos Budas, a profunda, subtil e maravilhosa Lei que é difícil de compreender? Nunca no passado ouvi este tipo de discurso transmitido pelo Buda. Agora os quatro tipos de crentes têm dúvidas.
Rogamos que o Honrado Pelo Mundo explique o sentido destes louvores à Lei que é profunda, subtil, maravilhosa e tão difícil de compreender.”
Então Shariputra, querendo expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Filho da sabedoria, grande e venerável sábio,
extensamente expuseste esta Lei.
Tu próprio declaraste ter alcançado
poder, coragem, samadhis,
concentração, emancipação e outros atributos,
e a Lei que está além da compreensão –
essa Lei, alcançada através da iluminação,
sobre a qual ninguém te pode questionar.
“A minha intenção é difícil de conceber,
e ninguém pode questionar-me.”
Ninguém questiona, ainda assim tu mesmo ensinas,
louvando o teu caminho.
A tua sabedoria é subtil e maravilhosa,
é a sabedoria obtida pelos Budas.
Os arhats, livres de falhas
e todos os que buscam o nirvana
caíram nas malhas da dúvida,
perguntando-se qual o motivo deste ensinamento de Buda.
Os que aspiram a pratyekabuda,
monges e monjas,
seres celestiais, dragões e espíritos,
bem como os gandarvas e outros,
olham uns para os outros, cheios de perplexidade,
fitando o mais honrado dos bípedes.
Qual é o sentido de tudo isto?
Rogo ao Buda que nos explique.
Entre a assembleia de ouvintes
o Buda disse que sou o mais dotado,
ainda assim sou falho de sabedoria
para resolver estas dúvidas e perplexidades.
Terei de facto atingido a suprema Lei,
ou estarei ainda no caminho da prática?
Os filhos nascidos da palavra de Buda
juntam as mãos, olham-te reverentemente e esperam.
Rogamos-te que soltes subtis e maravilhosos sons
e que agora nos expliques as coisas tais como são.
Os seres celestiais, dragões, espíritos e os outros,
em número igual ao das areias do Ganges,
os bodhisattvas que aspiram a tornar-se Budas
numa grande multidão de oitenta mil,
bem como os Reis que Fazem Girar a Roda
vindos de milhares de milhões de terras,
todos reverentemente juntam as palmas das mãos
desejando ouvir o ensinamento de perfeitos atributos.
Nessa altura o Buda dirigiu-se a Shariputra, dizendo, “Parem, parem! Não há utilidade em expor esta assunto. Se falar mais, então os seres celestiais e humanos de todos os mundos ficarão estupefactos e incrédulos.”
Shariputra falou a Buda uma vez mais dizendo, “Honrado Entre os Homens, rogamos-te que ensines! Porquê? Porque esta assembleia de incontáveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de asamkias de seres viventes viram os Budas no passado; as suas faculdades são vigorosas e apuradas e a sua sabedoria é brilhante. Se eles ouvirem o Buda ensinar, serão capazes de acreditar reverentemente.”
Então Shariputra, querendo expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Rei do Dharma, honrado como ninguém,
falai, nós te rogamos, sem reservas.
Nesta assembleia de inumeráveis seres
alguns há capazes de reverente fé.
O Buda repetiu, “Pára, Shariputra! Se falar deste assunto, os seres celestiais, humanos e azuras de todos os mundos ficarão atónitos e incrédulos. Os monges de arrogância intolerante cairão num grande fosso.”
Então o Honrado Pelo Mundo repetiu em verso o que antes tinha dito:
Pára, pára, não é preciso falar!
A minha Lei é maravilhosa e difícil de ponderar.
Aqueles que são de suprema arrogância
quando a ouvirem nunca mostrarão fé reverente.
Nessa altura, Shariputra falou de novo a Buda, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, rogamos-te que ensines! Nesta assembleia as pessoas como eu contam-se às centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões. Era após era seguimos os Budas e recebemos instrução. Pessoas deste tipo são certamente capazes de fé reverente. Através da longa noite eles ganharão paz e tranquilidade e usufruirão de muitos benefícios.”
Então Shariputra, desejando expor novamente o sentido das suas palavras falou em verso, dizendo:
Supremamente honrado entre os seres de duas pernas,
rogamos-te que exponhas esta Lei suprema.
Eu, que sou visto como o mais velho dos filhos de Buda,
peço-te que nos favoreças ensinando-nos as distinções.
Os incontáveis membros desta assembleia
são capazes de prestar fé reverente a esta Lei.
Já em eras sucessivas os Budas
ensinaram e converteram desta forma.
Com uma só mente e de mãos unidas
Todos desejamos ouvir e receber as palavras de Buda.
Eu e os outros doze mil do nosso grupo,
bem como os outros que aspiram a tornar-se Budas,
rogamos-te que em prol desta assembleia
nos favoreças ensinando-nos as distinções.
Quando ouvirmos esta Lei
sentiremos imensa alegria.
Então o Honrado Pelo Mundo disse a Shariputra, “Três vezes expuseste o teu veemente pedido. Que posso fazer senão ensinar? Agora deves ouvir com atenção e ponderar cautelosamente. Irei analisar e explicar o assunto.”
Quando acabou de dizer estas palavras, uns quinhentos monges, monjas, irmãos e irmãs leigos imediatamente se levantaram dos seus lugares, fizeram uma vénia ao Buda e retiraram-se. Por que razão? Estas pessoas tinham numerosas e profundas raízes de culpa, e eram ainda soberbas e arrogantes. Presumiam ter alcançado o que ainda não tinham alcançado e supunham compreender o que não tinham compreendido. E por terem esta falha, não ficaram nos seus lugares.
O Honrado Pelo Mundo ficou silencioso e não tentou demovê-los.
Nessa altura o Buda disse a Shariputra, “Agora esta minha assembleia está livre de ramos e folhas, constituída apenas pelo que é firme e seguro. Shariputra, é bom que estas pessoas de arrogância intolerante tenham saído. Agora ouve com cuidado que vou dar-te o ensinamento.”
Shariputra disse, “Assim seja. Estamos desejosos de ouvir!”
O Buda disse a Shariputra, “Uma Lei maravilhosa como esta é ensinada pelos Budas, os Tathagatas, em certas ocasiões. Mas tal como o florir da udumbara, esses momentos são muito raros. Shariputra, tu e os outros devem acreditar em mim. As palavras que o Buda profere não são ocas ou falsas.
“Shariputra, os Budas expõe a Lei de acordo com o que é apropriado, mas o seu significado é difícil de compreender. Porque é assim? Porque nós empregamos incontáveis meios hábeis, discutindo causas e condições e usando metáforas e parábolas para expor os ensinamentos. Esta Lei não é susceptível de ser entendida pela ponderação e análise. Apenas Budas podem entendê-la. Porquê? Porque os Budas, os Honrados Pelo Mundo, aparecem no mundo por uma só grande razão. Shariputra, o que significa dizer que os Budas, os Honrados Pelo Mundo, aparecem no mundo por uma só grande razão?
“Os Budas, os Honrados Pelo Mundo, desejam abrir a porta da sabedoria de Buda a todos os seres viventes, para lhes permitir que alcancem a pureza. É por isso que aparecem no mundo. Desejam acordar os seres viventes para a sabedoria de Buda, e por isso aparecem no mundo. Desejam induzir os seres viventes a entrar no caminho da sabedoria de Buda, por isso aparecem no mundo. Shariputra, esta é a grande e única razão pela qual os Budas aparecem no mundo.”
O Buda disse a Shariputra, “Os Budas, os Tathagatas, simplesmente ensinam e convertem os Bodhisattvas. Tudo o que fazem é em todas as ocasiões motivado por este propósito. Querem simplesmente mostrar a sabedoria de Buda aos seres viventes e despertá-los para ela.
“Shariputra, os Tathagatas têm apenas um veículo de Buda que empregam de modo a ensinar a Lei aos seres viventes. Não têm qualquer outro veículo, nenhum segundo ou terceiro. Shariputra, a Lei exposta pelos Budas das dez direcções é igual a esta.
“Shariputra, os Budas do passado usaram meios hábeis em número infinito, várias causas e condições, metáforas e parábolas, de modo a exporem as doutrinas em benefício dos seres viventes. Estas doutrinas são ensinadas em prol do único veículo de Buda. Estes seres viventes, ao ouvirem as doutrinas dos Budas, estão todos eventualmente aptos a alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies.
“Shariputra, quando os Budas do futuro fizerem a sua aparição no mundo, também eles usarão meios hábeis em número infinito, várias causas e condições, metáforas e parábolas de modo a exporem as doutrinas em benefício dos seres viventes. Estas doutrinas serão ensinadas em prol do único veículo de Buda. Estes seres viventes, ao ouvirem as doutrinas dos Budas, estarão todos eventualmente aptos a alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies.
“Shariputra, os Budas, os Honrados Pelo Mundo, que existem presentemente nas incontáveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de terras de Buda, nas dez direcções, beneficiam e trazem paz e felicidade aos seres viventes. Também estes Budas usam meios hábeis em número infinito, várias causas e condições, metáforas e parábolas, de modo a exporem as doutrinas em benefício dos seres viventes. Estas doutrinas são ensinadas em prol do único veículo de Buda. Estes seres viventes, ao ouvirem as doutrinas dos Budas, estão todos eventualmente aptos a alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies.
“Shariputra, estes Budas simplesmente ensinam e convertem os Bodhisattvas. Eles fazem-no pois querem mostrar a sabedoria de Buda aos seres viventes. Eles fazem-no pois desejam usar a sabedoria de Buda para iluminar os seres viventes. Eles fazem-no porque desejam levar os seres viventes a entrar no caminho da sabedoria de Buda.
“Shariputra, também irei agora fazer o mesmo. Sei que os seres viventes têm variados desejos e apegos que estão profundamente implantados nas suas mentes. Tendo noção desta sua natureza básica, irei por isso usar várias causas e condições, metáforas e parábolas e o poder dos meios hábeis e expor-lhes a Lei. Shariputra, faço isto para que todos possam alcançar o único veículo de Buda e a sabedoria que abarca todas as espécies.
“Shariputra, quando a era é impura e os tempos caóticos, as impurezas dos seres viventes são graves, são gananciosos e invejosos lançando raízes malsãs. Por isso, os Budas utilizam o poder dos meios hábeis, aplicam distinções ao único veículo de Buda e ensinam como se existissem três.
“Shariputra, se algum dos meus discípulos presumir que é um arhat ou um pratyekabuda e ainda assim não tiver noção nem compreender que os Budas, os Tathagatas, simplesmente ensinam e convertem os Bodhisattvas, então ele não é meu discípulo, nem arhat nem pratyekabuda.
“E ainda, Shariputra, se houver monges ou monjas que presumam terem já alcançado o estado de arhat, estarem na sua última encarnação, terem atingido o nirvana final e que portanto não tenham intenção de procurar anuttara-samyak-sambodhi, então deves saber que pessoas como essas são de suprema arrogância. Porque digo isto? Porque se forem monges que verdadeiramente tenham alcançado o estado de arhat, então é impensável que não acreditem nesta Lei. A única excepção seria num tempo em que o Buda se tivesse já extinguido, quando não houvesse qualquer Buda presente no mundo. Porquê? Porque depois de o Buda se ter extinguido será muito difícil encontrar alguém capaz de abraçar, recitar e compreender o sentido de sutras como este. Mas se nessa altura as pessoas encontrarem outro Buda, então obterão um entendimento decisivo no que respeita a esta Lei.
“Shariputra, tu e os outros devem acreditar e aceitar as palavras dos Budas com uma única mente. As palavras dos Budas, os Tathagatas, não são ocas nem falsas. Não existe outro veículo, há um só veículo de Buda.
“Então, o Honrado Pelo Mundo, desejando declarar uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Existem monges e monjas
que se comportam com suprema arrogância,
leigos cheios de auto estima,
leigas falhas de fé.
Entre os quatro tipos de crentes, os iguais a estes
são cinco mil.
Não vêm os seus erros,
são descuidados e negligentes no que respeita aos preceitos,
apegados aos seus defeitos e sem vontade de mudar.
Mas estas pessoas de diminuta sabedoria já se foram embora;
o joio desta assembleia
retirou-se perante a autoridade do Buda.
Estas pessoas eram pobres de mérito e virtude,
incapazes de receber esta Lei.
Esta assembleia está agora livre de ramos e folhas,
composta apenas pelo que é firme e seguro.
Shariputra, ouve cuidadosamente
como esta Lei foi obtida pelos Budas
e como eles a ensinam em prol dos seres viventes
através do poder de incontáveis meios hábeis.
Os pensamentos que estão na mente dos seres viventes,
os diferentes caminhos por eles seguidos,
os variados desejos e naturezas,
as boas e más acções por eles praticadas em suas prévias existências –
de tudo isto o Buda toma conhecimento
e então emprega causalidades, metáforas e parábolas,
palavras que incorporam o poder dos meios hábeis,
de forma a agradar e alegrar a todos.
Por vezes ensina sutras,
versos, histórias das vidas passadas de discípulos,
histórias de vidas passadas do Buda, de coisas sem precedentes.
Noutras alturas ensina atendendo a causas e condições,
usa metáforas e parábolas, passagens de poesia
ou discursos.
Para aqueles de escassas capacidades
que se deleitam na pequena Lei,
que avidamente se apegam ao nascimento e à morte,
e apesar dos inumeráveis Budas,
não praticam a profunda e maravilhosa Lei
mas estão perplexos e confusos por uma miríade de problemas –
para esses ensina o nirvana.
Crio estes meios hábeis
e assim faço-os entrar na sabedoria de Buda.
Até agora nunca vos disse
que vós certamente ireis atingir a via de Buda.
A razão de nunca ter ensinado dessa forma
foi não ter ainda chegado o momento para isso.
Mas agora é o tempo certo
em que devo ensinar decididamente o Grande Veículo.
Uso estes nove expedientes,
adaptando-os aos seres viventes enquanto ensino,
sendo o meu objectivo conduzi-los ao Grande Veículo,
e é por isso que ensino este sutra.
Estes são filhos de Buda cujas mentes são puras,
que são serenas e de apuradas capacidades,
que sob os auspícios de inumeráveis Budas
praticaram a profunda e maravilhosa via.
Para estes filhos de Buda transmito este sutra do Grande Veículo.
E prevejo que estas pessoas
numa futura existência atingirão a via de Buda.
Porque no mais íntimo deles mesmos pensam no Buda
e praticam e mantêm os preceitos,
estão certos de alcançar o estado de Buda
e ouvindo isto, os seus corpos são inundados de grande alegria.
O Buda conhece as suas mentes e práticas
e por isso lhes ensina o Grande Veículo.
Quando os ouvintes e os bodhisattvas
ouvem esta Lei que eu ensino,
assim que ouvem um só verso
todos sem qualquer dúvida ficam certos de atingir o estado de Buda.
Nas terras de Buda das dez direcções
só existe a Lei do veículo único,
não há dois, não há três,
excepto quando o Buda assim ensina como um meio hábil,
empregando nomes e termos provisórios
unicamente para conduzir e guiar os seres viventes
e ensinar-lhes a sabedoria de Buda.
Os Budas aparecem no mundo
apenas por esta razão, que é verdadeira;
as outras duas não o são.
Nunca usam um veículo inferior
para salvar os seres viventes e levá-los na travessia.
O próprio Buda reside neste Grande Veículo
e adornado com o poder da meditação e da sabedoria
que acompanha a Lei por ele obtida,
ele usa-o para salvar os seres viventes.
Ele próprio é testemunha da via insuperável,
o Grande Veículo, a Lei na qual todas as coisas são iguais.
Se usasse um veículo inferior
para converter ainda que fosse uma só pessoa,
seria culpado de agressão e ganância,
mas tal coisa seria impossível.
Se uma pessoa acreditar e tomar refúgio no Buda,
o Tathagata nunca a engana,
nem alguma vez mostrará ganância ou ciúme.
Porque exterminou o mal de entre os fenómenos.
Por isso através das dez direcções
apenas o Buda é desprovido de medo.
Adorno o meu corpo com as características especiais
e faço brilhar a minha luz sobre o mundo.
Sou honrado por inumeráveis multidões
e para elas ensino a insígnia da realidade das coisas.
Shariputra, deves saber
que no início fiz um voto,
esperando tornar todas as pessoas
iguais a mim, sem qualquer distinção entre nós,
e o que há muito esperava
foi agora consumado.
Converti todos os seres viventes
e fi-los entrar na via de Buda.
Se, quando encontro seres viventes,
lhes ensinasse apenas a via de Buda
os que não possuem sabedoria ficariam baralhados
e na sua confusão seriam incapazes de aceitar os meus ensinamentos.
Sei que esses seres viventes nunca no passado cultivaram boas raízes
mas antes se apegaram obstinadamente aos cinco desejos,
e a sua loucura e ânsia deram origem à aflição.
Os desejos são a causa pela qual caem nos três maus caminhos,
permanecendo no ciclo dos seis reinos de existência
e padecendo toda a sorte de sofrimentos e dores.
Existência após existência eles crescem
do ventre ao cemitério.
Pessoas de escassa virtude e pequeno mérito,
são perturbados e assolados por inúmeros sofrimentos.
Extraviam-se pela densa floresta das visões erróneas,
discutindo o que existe ou o que não existe
e no final apegando-se a essas visões,
abraçando todas as sessenta e duas.
Estão constantemente comprometidos com falsas e vãs doutrinas,
agarrados firmemente a elas, incapazes de as pôr de lado.
Arrogantes e ufanos de auto estima,
aduladores e invejosos, de mente insincera,
durante mil, dez mil, um milhão de kalpas
não ouvirão o nome de Buda,
nem ouvirão a correcta Lei –
essas pessoas são difíceis de salvar.
Por estas razões, Shariputra,
estabeleci, para o seu bem, meios hábeis,
ensinando a via que põe um fim a todo o sofrimento
e mostrando-lhes o nirvana.
Mas, embora lhes exponha o nirvana,
essa não é a verdadeira extinção.
Todos os fenómenos, desde o mais remoto,
trazem sempre consigo as marcas
da extinção tranquila.
Uma vez consumadas estas práticas, os filhos de Buda,
numa existência futura, estarão aptos a tornar-se Budas.
Empreguei o poder dos meios hábeis
para expor e demonstrar esta doutrina dos três veículos,
mas os Honrados Pelo Mundo
sempre ensinam a via do único veículo.
Agora, perante esta grande assembleia,
devo esclarecer todas as dúvidas e perplexidades.
Não existe discrepância nas palavras dos Budas,
há apenas um veículo, não dois.
Por inumeráveis kalpas no passado,
incontáveis Budas que agora estão extintos,
cem, mil, dez mil, milhões em número incalculável –
esses Honrados Pelo Mundo,
usando diferentes tipos de causas, metáforas e parábolas
e o poder de incontáveis meios hábeis,
expuseram as características dos ensinamentos.
Todos estes Honrados Pelo Mundo
expuseram a doutrina do veículo único,
convertendo incontáveis seres viventes
e fazendo-os entrar na via de Buda.
Todos estes grandes Senhores da Sabedoria,
conhecendo os desejos mais profundos
dos seres celestiais e humanos e dos outros seres viventes
de todos os universos,
empregaram ainda outros meios hábeis
para ajudar a iluminar a suprema verdade.
Se existem seres viventes
que encontraram estes Budas do passado,
e se escutaram a sua Lei, ofereceram esmolas,
mantiveram os preceitos, mostrando tolerância,
sendo assíduos, praticando meditação e sabedoria, e nesse sentido,
cultivaram vários tipos de mérito e virtude,
pessoas como estas
atingiram todas a via de Buda.
Após estes Budas se terem extinto,
se existirem pessoas de mente boa e serena,
então esse tipo de seres viventes
atingiram todos a via de Buda.
Depois dos Budas se terem extinguido,
se fizerem oferendas às relíquias,
erigindo dez mil ou um milhão de variedades de torres votivas,
usando ouro, prata, cristal,
madrepérola e ágata,
coral, lápis-lazúli, pérolas,
para as purificar e adornar extensamente,
ou se construírem templos mortuários de pedra,
ou de sândalo ou aloés,
hovénia ou outros tipos de madeira,
ou de tijolo, terracota ou argila,
se no meio dos vastos campos
amontoarem terra para fazer um templo mortuário para os Budas,
ou mesmo se crianças a brincar
juntarem areia para fazer uma torre votiva,
então, pessoas como estas
atingiram todas a via de Buda.
Se existirem pessoas que em prol dos Budas
criem e construam imagens,
esculpindo-as com os trinta e dois sinais distintivos,
então todos terão atingido a via de Buda.
Ou se fizerem as imagens com os sete tesouros,
ou com cobre, estanho, chumbo, bronze,
madeira, barro ou resina,
para representar e adornar imagens de Buda,
pessoas como essas alcançaram todas a via de Buda.
Se eles empregarem pigmentos para pintar imagens de Buda,
conferindo-lhes os cem sinais sagrados,
feitas por si ou encomendadas a outros,
então terão todos alcançado a via de Buda.
Mesmo se crianças a brincar
usarem folhagem ou galhos,
ou mesmo com a unha
riscarem imagens de Buda,
pessoas como essas
pouco a pouco irão acumulando mérito
e tornar-se-ão inteiramente dotadas de uma mente compassiva;
todos eles alcançaram a via de Buda.
Simplesmente pela conversão dos bodhisattvas
elas trazem a salvação e o alívio a inumeráveis multidões.
E se alguém, na presença dessas torres votivas,
essas imagens de jóias ou figuras pintadas,
com uma mente reverente fizer ofertas
de flores, incenso, faixas ou dosséis,
ou se contratarem músicos para tocar,
batendo tambores, soprando trompas ou conchas,
tocando flautas, alaúdes ou harpas,
tangendo guitarras, címbalos e gongos,
e se essas variadas e maravilhosas notas
forem entendidas como oferendas;
ou se alguém com uma mente radiante
cantar uma canção em louvor à virtude de Buda,
mesmo que apenas uma curta nota,
todos os que assim procedem alcançaram a via de Buda.
Se alguém com uma mente confusa e distraída,
pegar nem que seja numa flor
e a oferecer a uma imagem,
um dia acabará por ver inumeráveis Budas.
Ou se uma pessoa fizer uma vénia
ou se prestar obediência,
ou simplesmente juntar as palmas das mãos,
ou apenas levantar uma só mão,
ou conceder não mais do que um ligeiro aceno de cabeça,
e se isto for oferecido a uma imagem,
então a seu tempo ele chegará a ver incontáveis Budas.
E se ele mesmo alcançar a via insuperável
e espalhar a salvação por incontáveis multidões,
ele entrará no nirvana não residual
tal como um fogo se extingue quando se esgota o combustível.
Se pessoas com mentes confusas e distraídas
entrarem em torres votivas
e uma vez exclamarem, “Homenagem aos Budas!”
então terão alcançado a via de Buda.
Se dos Budas passados,
quando ainda estavam no mundo ou uma vez extintos,
eles ouvirem nem que seja o nome da Lei,
então todos terão alcançado a via de Buda.
Os Honrados Pelo Mundo do futuro,
cujo número será incalculável,
esses Tathagatas
também empregarão meios hábeis para ensinar a Lei,
e todos estes Tathagatas,
através de incontáveis meios hábeis
salvarão e trarão alívio aos seres viventes,
de modo a que estes entrem na sabedoria de Buda
que é livre de imperfeições.
Se houver quem ouça a Lei,
então nem um deixará de atingir a Iluminação.
O voto original dos Budas
foi de que a via de Buda, por eles mesmos praticada,
seja partilhada universalmente entre os seres viventes
de modo a que também eles possam alcançá-la da mesma forma.
Os Budas de eras futuras,
ainda que ensinem centenas, milhares, milhões,
incontáveis doutrinas,
na verdade fazem-no em prol do veículo único.
Os Budas, mais honrados de entre os humanos,
sabem que os fenómenos não têm natureza constante e permanente,
que a semente da Iluminação brota da causalidade,
e por essa razão eles ensinam o veículo único.
Mas que estes fenómenos são parte de uma Lei perpétua
e as características do mundo são sempre manifestas –
isto eles ficaram a conhecer no lugar da iluminação
e como líderes e mestres eles utilizam meios hábeis.
Os Budas actuais das dez direcções,
a quem os seres celestiais e humanos fazem oferendas,
que em número são como as areias do Ganges,
apareceram no mundo
de modo a trazer a paz e o conforto aos seres viventes,
e também eles ensinam a Lei desta forma.
Compreendem a verdade original da extinção tranquila
e por isso usam o poder dos meios hábeis
e embora indiquem vários caminhos diferentes,
na verdade fazem-no em prol do veículo de Buda.
Eles entendem as acções dos seres viventes,
os pensamentos que jazem no fundo das suas mentes,
as acções cometidas no passado,
os desejos, a natureza, o poder dos seus esforços,
se as suas capacidades são apuradas ou fracas,
e assim empregam várias causas e condições,
metáforas, parábolas e outras palavras e frases,
adoptando quaisquer meios hábeis que sejam adequados ao seu ensinamento.
Agora também sou assim;
por forma a trazer paz e conforto aos seres viventes
emprego várias doutrinas diferentes
para disseminar a via de Buda.
Através do poder da minha sabedoria
sei a natureza e os desejos dos seres viventes
e com meios hábeis exponho estas doutrinas,
fazendo com que todos os seres viventes alcancem contentamento e alegria.
Shariputra, deves compreender
que vejo as coisas através do olho de Buda,
vejo os seres viventes nos seis reinos,
quão pobres e angustiados são, sem mérito ou sabedoria,
como entram na perigosa estrada do nascimento e da morte,
os seus sofrimentos continuando sem cessar,
quão profundamente apegados estão aos cinco desejos,
como um iaque enamorado da sua cauda,
cegando-se com a ganância e a presunção,
a sua visão deteriorada até nada conseguirem ver.
Eles não procuram o Buda, com o seu grande poder,
ou a Lei que pode pôr fim aos seus sofrimentos,
mas embrenham-se em noções erróneas,
esperando libertar-se do sofrimento com mais sofrimento.
Pelo bem destes seres viventes gero uma mente de grande compaixão.
Quando no início ocupei o lugar da iluminação,
pelo espaço de três vezes sete dias ponderei este assunto,
fitando a árvore aí existente e andando à sua volta.
A sabedoria que obtive, pensei,
é subtil, maravilhosa e suprema,
mas os seres viventes estão embotados pela ignorância,
dependentes do prazer e cegos pela estupidez.
Com pessoas como estas,
que posso dizer, como posso salvá-las?
Nessa ocasião os reis Brama,
em conjunto com o rei celestial Shakra,
os Quatro Reis Celestiais que guardam o mundo
e o rei celestial Grande Liberdade,
na companhia de outros seres celestiais
e das suas centenas de seguidores,
juntaram reverentemente as palmas das mãos e prosternaram-se,
rogando-me que fizesse girar a roda da Lei.
De imediato pensei para comigo
que se meramente louvasse o veículo de Buda,
os seres viventes, atolados no seu sofrimento,
seriam incapazes de acreditar nesta Lei.
Assim, por rejeitarem a Lei e não crerem nela,
cairiam nos três maus caminhos.
Seria melhor que não ensinasse a Lei
mas antes entrasse rapidamente no nirvana.
Então os meus pensamentos viraram-se para os Budas do passado
e para o poder dos meios hábeis por eles empregues,
e pensei que a via que tinha então alcançado
devia igualmente ser ensinada como três veículos.
Quando assim pensei,
todos os Budas das dez direcções me apareceram
e com sons Brahma confortaram-me e instruíram-me.
“Muito bem, Shakyamuni!” disseram eles.
“Supremo líder e mestre,
alcançaste a Lei insuperável.
Mas seguindo o exemplo de todos os outros Budas,
empregarás o poder dos meios hábeis.
Nós também obtivemos a mais maravilhosa, a suprema Lei,
mas em prol dos seres viventes
fazemos distinções e ensinamos os três veículos.
Pessoas de pequena sabedoria deleitam-se numa pequena Lei,
incapazes de acreditar que eles mesmos se podem tornar Budas.
Por isso empregamos meios hábeis,
fazendo distinções e expondo vários objectivos,
Mas ainda que ensinemos os três veículos,
fazemo-lo por forma a instruir os bodhisattvas.”
Shariputra, deves entender isto,
quando ouvi estes santos leões
e a sua profunda, pura, subtil, maravilhosa voz,
rejubilei e a chorar disse “ Homenagem aos Budas!”
Então pensei para comigo,
vim a este impuro e malévolo mundo
e de acordo com o que estes Budas ensinaram,
devo agir segundo o seu exemplo.
Após ter tido estes pensamentos
segui de imediato para Varanasi.
As marcas da extinção tranquila de todos os fenómenos
não podem ser expressas por palavras,
por isso usei o poder dos meios hábeis
para ensinar os cinco ascetas.
A isto chamei “girar a roda da Lei”,
também utilizei os sons “nirvana”,
“arhat”, “Dharma” e “Sangha” –
vários termos para indicar distinções.
“Desde há infinitos kalpas no passado
tenho elogiado e ensinado a Lei do nirvana,
pondo fim ao longo sofrimento do nascimento e da morte.”
Assim costumo ensinar.
Shariputra, deves saber isto,
quando olhei para os filhos de Buda,
vi incalculáveis milhares, dezenas de milhar, milhões
que decidiram seguir a via de Buda,
todos com uma mente respeitosa e reverente,
todos vindo ao encontro do lugar do Buda,
pessoas que no passado ouviram outros Budas
e ouviram a Lei ensinada segundo meios hábeis.
De imediato pensei
que a razão do aparecimento do Tathagata
é ele poder expor a sabedoria de Buda.
Agora é precisamente o momento para isso.
Shariputra, deves compreender
que pessoas de fracas capacidades e pequena sabedoria,
apegadas às aparências, orgulhosas e arrogantes,
são incapazes de acreditar nesta Lei.
Agora , alegre e destemido,
ponho de lado francamente os meios hábeis,
e exponho unicamente a Via insuperável.
Quando os bodhisattvas ouvirem esta Lei,
serão libertados de todas os emaranhados da dúvida.
As doze centenas de Arhats,
também eles atingirão a Iluminação.
Seguindo o modelo que os Budas
dos três tempos
empregam para expor a Lei,
farei agora da mesma forma,
ensinando a Lei que é isenta de distinções.
Os tempos em que os Budas aparecem no mundo
são muito espaçados entre si
e difíceis de encontrar.
Mesmo quando aparecem no mundo
é-lhes difícil expor a Lei.
Através de incalculáveis, inumeráveis kalpas
é raro esta Lei ser ouvida
e alguém capaz de a ouvir é igualmente raro.
É como a flor da udumbara
que deleita o mundo, adorada por todos,
olhada como rara por seres celestiais e humanos,
e que aparece apenas uma vez em muitas eras.
Se uma pessoa ouve esta Lei,
se deleita com ela e a louva,
mesmo que profira apenas uma palavra,
faz com isso oferendas a todos os Budas dos três tempos.
Mas uma pessoa assim é rara de encontrar,
mais do que a flor da udumbara.
Não deveis ter dúvidas,
sendo o rei das doutrinas,
faço esta proclamação a toda a grande assembleia.
Emprego apenas a via do veículo único
para converter e instruir os bodhisattvas,
não tenho discípulos ouvintes.
Tu, Shariputra,
e todos os ouvintes e bodhisattvas,
devem compreender que esta maravilhosa Lei
é o segredo essencial dos Budas.
Neste mundo maligno das cinco impurezas
esses que apenas se apegam aos desejos
deleitando-se com eles,
seres viventes como esses,
no final nunca procurarão a via de Buda.
Quando pessoas malévolas de eras futuras
ouvirem o Buda expor o veículo único,
ficarão confusas, sem o acreditar ou aceitar,
rejeitarão a Lei e cairão nos maus caminhos.
Mas quando existirem pessoas modestas e puras,
determinadas a procurar a via de Buda,
então, para o bem deles,
devo louvar a via do veículo único.
Shariputra, deves entender isto,
assim é a Lei dos Budas.
Empregando dez mil, um milhão de meios hábeis,
eles ensinam a Lei de acordo com o que é apropriado.
Os que não são versados neste assunto
não podem compreender inteiramente.
Mas tu e os outros já sabem
como os Budas, os mestres do mundo, empregam meios hábeis
de acordo com o que é apropriado.
Não tereis mais dúvidas ou perplexidades
mas, com as mentes plenas de alegria,
sabereis que vós mesmos haveis de atingir o estado de Buda.
sabereis que voz mesmos haveis de atingir o Estado Búddhico.
^^^^^
Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Três:
Metáforas e Parábolas
Nessa altura a mente de Shariputra dançou de alegria. Levantou-se então de imediato, juntou as palmas das mãos, fitou reverentemente o rosto do Mais Honrado e disse a Buda, “Neste preciso momento, quando ouvi o Honrado Pelo Mundo, esta voz da Lei, a minha mente pareceu dançar e eu ganhei o que nunca antes possuí. Porque digo isto? Porque no passado, quando ouvia do Buda uma Lei deste tipo e via como os boddhisattvas recebiam as profecias de que a seu tempo atingiriam a Iluminação, eu e os outros sentíamos que éramos alheios a esse assunto. Ficávamos profundamente magoados por pensar que nunca ganharíamos a imensurável percepção do Tathagata.
“Honrado Pelo Mundo, eu vivi constantemente na floresta montanhosa ou sozinho debaixo das árvores, umas vezes sentado, outras a caminhar da mesma forma, e sempre pensei para comigo que se eu e os outros a entramos da mesma forma na natureza da Lei, porque razão o Tathagata utiliza o Veículo Menor para nos trazer a salvação?
“Mas a falha é nossa, não do Honrado Pelo Mundo. Porque digo isto? Se ele tivesse podido esperar que o verdadeiro sentido de anuttara-samyak-sambodhi fosse ensinado, teríamos seguramente obtido alívio através do Grande Veículo. Mas não chegamos a percer que o Buda estava a usar meios hábeis e a ensinar o que estava de acordo com as circunstâncias. Portanto, quando primeiro ouvimos a Lei do Buda, imediatamente acreditámos nela e a aceitámos, supondo ter obtido compreensão.
Honrado Pelo Mundo, por um longo tempo, de dia e de noite, eu me penalizei repetidamente com este pensamento, mas agora ouvi do Buda o que nunca tinha ouvido antes, uma Lei nunca antes conhecida, e que pôs fim a todas as minhas dúvidas e lamentações. O meu corpo e a minha mente estão descontraídos e obtive uma maravilhosa sensação de paz e segurança. Hoje compreendi finalmente que sou o filho do Buda, nascido da sua boca, nascido através da conversão à Lei, ganhando a minha parcela da Lei de Buda!”
Então Shariputra, desejando expor o sentido das suas palavras uma vez mais, falou em verso, dizendo:
Quando ouvi o som desta Lei,
obtive o que nunca antes possuí.
A minha mente foi invadida pela alegria,
fiquei liberto das cadeias criadas pela rede da dúvida.
Desde tempos passados tenho recebido os ensinamentos do Buda
e nunca o Grande Veículo foi negado.
O som de Buda é raramente escutado,
mas consegue libertar os seres viventes da aflição.
Já tinha posto um fim a todas as falhas,
e ao ouvir isto, estou livre de aflições e cuidados.
Vivi nos vales das montanhas
ou sob as árvores da floresta,
por vezes sentado, por vezes a andar,
e pensava neste assunto constantemente –
quão severamente me penalizei!
“Porque fui iludido?” dizia.
“Eu e os outros também somos filhos de Buda,
entrámos da mesma forma na Lei que é sem falhas,
porém nos tempos vindouros nunca seremos capazes de expor a via insuperável.
O corpo dourado, as trinta e duas características,
os dez poderes, as várias emancipações-
ainda que partilhemos uma mesma Lei,
isso nunca haveremos de obter!
Os oitenta tipos de maravilhosas características,
as dezoito propriedades exclusivas-
méritos como esses
estão todos perdidos para nós!”
Quando deambulava sozinho,
vi-a o Buda entre a grande assembleia,
a sua fama percorria as dez direcções,
levando bem longe os benefícios aos seres viventes,
e eu pensava para mim mesmo,
estou privado desses benefícios!
O quanto eu fui iludido!
Constantemente, de dia e de noite,
quando ponderava sobre isto,
queria perguntar ao Honrado Pelo Mundo
se de facto tinha sido privado ou não de algo.
Constantemente via o Honrado Pelo Mundo
A louvar os boddhisattvas,
então, de dia e de noite
matutava neste assunto.
Mas agora ouvi a voz de Buda
e vejo que transmite a Lei de acordo com o que é apropriado,
e utiliza esta doutrina sem falhas, difícil de conceber,
para levar as pessoas ao lugar da iluminação.
Anteriormente eu estava apegado a noções erróneas,
agindo como mestre para os Brâmanes.
Mas o Honrado Pelo Mundo,
sabendo o que me ia na mente,
desenraizou os meus erros
e ensinou o nirvana.
Fiquei livre de todos os erros
e ganhei a compreensão da Lei da vacuidade.
Nessa altura a minha mente disse-me
que atingira o estado de extinção,
mas agora reconheço
que essa não era a verdadeira extinção.
Quando vier o tempo de me tornar um Buda,
então possuirei as trinta e duas características
e os seres celestiais e humanos, os muitos yakshas,
dragões, espíritos e outros prestar-me-ão reverência.
Quando esse tempo chegar,
então poderei dizer
que por fim tudo foi removido sem deixar resíduo.
No meio da grande assembleia, o Buda
declarou que eu me tornaria um Buda.
Quando ouvi o som desta Lei,
as minhas dúvidas e remorsos foram todos removidos.
A princípio, quando ouvi o ensinamento do Buda,
fiquei atónito e em dúvida.
“Não será este um demónio a fazer-se passar pelo Buda,
a tentar perturbar e confundir a minha mente?”- pensei.
Mas o Buda empregou várias causas,
metáforas e parábolas, expondo eloquentemente.
A sua mente era pacífica como o mar,
e conforme ia ouvindo, ia sendo libertado das redes da dúvida.
O Buda disse que em eras passadas
os incontáveis Budas que passaram à extinção,
apoiaram-se nos meios hábeis e neles se estabeleceram,
e todos da mesma forma ensinaram a Lei.
Os Budas do presente e do futuro,
cujos números estão para lá de qualquer cálculo,
irão também utilizar meios expeditos,
e ensinar igualmente esta Lei.
Assim o presente Honrado Pelo Mundo,
tendo nascido e mais tarde deixado a sua família,
alcançado a iluminação e feito girar a roda da Lei,
igualmente emprega meios hábeis no seu ensinamento.
O Honrado Pelo Mundo expõe a verdadeira via.
Papiyas não procederiam da mesma forma.
Daí que tenho a certeza
que este não é um demónio a fingir-se de Buda.
Mas por eu ter caído nas redes da dúvida
pensei ser isto um trabalho do demónio.
Agora eu ouço o suave e delicado som do Buda,
profundo e de longo alcance, extremamente subtil e maravilhoso,
discursando e expondo a pura Lei,
e a minha mente está cheia de alegria.
As minhas dúvidas e remorsos acabaram para sempre,
repousarei e permanecerei na verdadeira sabedoria.
Estou certo de que me tornarei um Buda,
reverenciado por seres celestiais e humanos,
girando a roda da Lei insuperável
e ensinando e convertendo os boddhisattvas.
Nessa ocasião o Buda disse para Shariputra, ”Agora, no meio desta grande assembleia de seres celestiais e humanos, shramanas, Brâmanes e outros, eu digo: no passado, sob os auspícios de vinte mil milhões de Budas, pelo bem da Lei insuperável, constantemente te converti e ensinei; e tu, através da longa noite, seguiste-me e aceitaste a minha instrução. Agora, porque quero que lembres a via que inicialmente fizeste o voto de seguir, pelo bem dos ouvintes estou a expor este sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei para instruir os Boddhisattvas, uma Lei que é guardada e conservada em mente pelos Budas.
“Shariputra, em épocas vindouras, após incontáveis, inconcebíveis números de kalpas terem passado, tu terás feito oferendas a alguns milhares, dezenas de milhares de milhões de Budas, e honrado e sustentado a correcta Lei. Tu cumprirás cada aspecto da via dos boddhisattvas e estarás apto a tornar-te um Buda com o nome de Brilho da Flor [Padmaprabha], Tathagata, merecedor de oferendas, de recta e universal sabedoria, clareza e conduta perfeitas, bem aventurado, compreendendo o mundo, de inexcedível mérito, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda, Honrado Pelo Mundo.
“O teu mundo será chamado Livre de Impureza [Viraga], a terra será plana e suave, pura e adornada com beleza, pacífica, generosa e feliz. Seres celestiais e humanos irão aí multiplicar-se. O chão será de lapiz-lazuli, as estradas cruzá-lo-ão em oito direcções e cordões de ouro marcarão as suas bermas. Junto a cada estrada crescerão renques de árvores formadas pelos sete tesouros, que constantemente darão flores e frutos. Este Tathagata Brilho da Flor empregará os três veículos para ensinar e converter os seres viventes.
“Shariputra, quando este Buda aparecer, ainda que não se trate de uma era malévola, devido ao seu voto original ele ensinará segundo os três veículos. O seu kalpa será chamado Adornado Com o Grande Tesouro [Mahâratnapratimandita].Porque será assim chamado, Adornado Com o Grande Tesouro? Porque nessa terra os boddhisattvas serão olhados como um grande tesouro. Esses boddhisattvas serão incontáveis, ilimitados, em número inconcebível, para lá do alcance de qualquer cálculo ou de qualquer metáfora ou parábola. Onde quer que estes boddhisattvas desejem ir, flores de jóias sustentarão os seus pés.
“Estes boddhisattvas não terão apenas concebido o desejo de atingir a iluminação, mas todos terão despendido um longo tempo a plantar as raízes da virtude. Sob os auspícios de incontáveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Budas, eles terão levado a cabo sem qualquer falha práticas Brahma, e serão perpetuamente louvados pelos Budas. Terão constantemente cultivado a sabedoria de Buda, adquirindo grandes poderes transcendentais e compreendendo cabalmente os acessos a todas as doutrinas. Eles serão rectos de carácter, sem duplicidade, firmes de mente e intenção. Boddhisattvas como estes abundarão nessa terra.
“Shariputra, a duração da vida do Buda Brilho da Flor será de doze pequenos kalpas, sem contar os tempos em que ele será ainda príncipe e antes de se tornar um Buda. As pessoas dessa terra viverão por oito pequenos kalpas. Quando o Tathagata Brilho da Flor tiver vivido por doze pequenos kalpas, ele profetizará que o boddhisattva Pleno de Firmeza [Dhritiparipûrnan] alcançará annutara-samyak-sambodhi. Ele anunciará aos monges, “Este boddhisattva Pleno de Firmeza será o próximo a tornar-se um Buda. Ele será chamado Pé de Flor de Andar Seguro [Padmavrishabhavikrâmin], Tathagata, arhat, samiak-sambuda. A sua terra de Buda será como a minha”.
“Shariputra, após o Buda Brilho da Flor se ter extinguido, a era da sua Correcta Lei terá a duração de trinta e dois pequenos kalpas e a era da sua Lei Adulterada durará por outros trinta e dois pequenos kalpas.”
Então o Honrado pelo Mundo, desejando afirmar uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
“Shariputra, numa época vindoura
tu tornar-te-ás um Buda,
de sabedoria universal, venerável,
portador do nome Brilho da Flor,
e salvarás incontáveis multidões.
Farás ofertas a inumeráveis Budas,
e serás dotado com as práticas do boddhisattva,
os dez poderes e outras bênçãos,
e realizarás a via insuperável.
Após incontáveis kalpas terem passado,
o teu kalpa será chamado Adornado Com o Grande Tesouro.
O teu mundo chamar-se-á Livre de Impureza,
puro, sem falha ou mácula.
A terra desse mundo será feita de lápiz-lázuli,
as suas estradas demarcadas com cordões de ouro,
e árvores feitas dos sete tesouros
numa mistura de cores
darão constantemente flores e frutos.
Os boddhisattvas desse reino
serão sempre firmes de pensamento e intenção.
Poderes transcendentais e paramitas-
cada um será dotado com todos eles,
e sob os auspícios de inumeráveis Budas
diligentemente estudarão a via do boddhisattva.
Então esses grandes homens
serão convertidos pelo Buda Brilho da Flor.
Quando o Buda era ainda um príncipe,
ele abandonou o seu país, abandonou a glória mundana,
e na sua encarnação final
deixou a sua família
e alcançou a via da Iluminação.
O Buda Brilho da Flor continuará no mundo
por um tempo de vida de doze pequenos kalpas.
As numerosas pessoas desta terra
terão uma esperança de vida de oito pequenos kalpas.
Após esse Buda se ter extinguido,
a Correcta Lei perdurará no mundo
durante trinta e dois pequenos kalpas,
salvando seres viventes em toda a parte.
Quando a Correcta Lei tiver passado,
a Lei Adulterada perdurará por trinta e dois pequenos kalpas.
As relíquias do Buda circularão largamente;
seres celestiais e humanos em toda a parte lhes farão oferendas.
As acções do Buda Brilho da Flor serão todas como eu disse.
O mais santo e venerável dos seres humanos será excelente e sem igual.
Deves rejubilar e sentires-te afortunado pois tu serás esse Buda!
Nessa altura, quando os quatro tipos de crentes, nomeadamente, monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, bem como os seres celestiais, dragões, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas e outros na grande assembleia viram Shariputra receber esta profecia do Buda de que ele alcançaria anuttara-samyak-sambodhi, os seus corações encheram-se de alegria e não pararam de dançar. Cada um despiu o manto exterior que estavam a usar e apresentou-o como oferenda ao Buda. O indra Shakra Devanam, o Rei Brahma e os incontáveis filhos de deuses, fazendo cair flores celestiais de mandarava e de grande mandarava, despiram da mesma forma os seus maravilhosos mantos celestiais e ofereceram-nos ao Buda. Os mantos celestiais por eles espalhados ficaram suspensos, girando no ar. Os seres celestiais compuseram música, com uma centena, um milhar, dezenas de milhares de variedades de instrumentos musicais celestes, tocando no ar ao mesmo tempo, e ao fazer chover uma profusão de flores celestiais, proferiram estas palavras: “No passado, em Varanasi, o Buda fez girar pela primeira vez a roda da Lei. Agora ele faz girar novamente a roda da Lei insuperável, da mais suprema Lei!”
Então os filhos de deuses, desejando afirmar uma vez mais o sentido das suas palavras, falaram em verso dizendo:
No passado em Varanasi
das quatro nobres verdades,
fazendo distinções, ensinando que todas as coisas
nascem e se extinguem,
sendo compostas pelos cinco agregados.
Agora tu fazes girar a roda da mais maravilhosa,
da insuperável grande Lei.
Esta Lei é muito profunda e obscura;
poucos são os que nela podem acreditar.
Desde tempos passados nós ouvimos
o Honrado Pelo Mundo ensinar,
mas nunca ouvimos esta profunda,
maravilhosa e suprema Lei.
Desde que o Honrado Pelo Mundo ensina esta lei,
todos a acolhemos com alegria.
Shariputra com a sua grande sabedoria
recebeu agora esta venerável profecia.
Também nós, da mesma forma,
iremos seguramente ser capazes de alcançar a Iluminação,
que em todos os mundos
é o mais venerável e supremo objectivo.
A via do Buda é difícil de conceber,
mas tu ensinarás com meios hábeis,
de acordo com o que é apropriado.
As acções meritórias que fizemos
nesta ou em passadas existências,
e as bênçãos ganhas ao ver os Budas,
tudo isto aplicaremos no caminho de Buda.
Nessa altura Shariputra disse para Buda: “Honrado Pelo mundo, agora não tenho mais dúvidas ou remorsos. Recebi pessoalmente do Buda esta profecia de que atingirei annutara-samyak-sambhodi. Estas doze mil pessoas aqui presentes, cujas mentes são livres no passado permaneceram no nível de aprendizado e o Buda constantemente as ensinou e converteu, dizendo, “A minha Lei pode libertar-vos do nascimento, da velhice e da morte e possibilitar-vos atingir por fim o nirvana.” Estas pessoas, algumas das quais estão ainda a aprender e outras já completaram a sua aprendizagem, cada uma acreditou que, uma vez que abandonaram as noções de “ego” bem como as noções de “existência” e de “não existência”, tinham já atingido o nirvana. Mas agora, do Honrado Pelo Mundo eles ouvem o que nunca ouviram antes, caindo todos em dúvida e perplexidade.
“Pois bem, Honrado Pelo Mundo. Eu rogo-te que pelo bem dos quatro tipos de crentes expliques as causas e condições tornando possível que eles dissipem as suas dúvidas e remorsos.”
Então o Buda disse para Shariputra, “Não te disse antes que quando os Budas, os Honrados Pelo Mundo citam várias causas e condições e usam metáforas, parábolas e outras expressões, empregando meios hábeis para expor a lei, o fazem sempre em prol de anuttara-samyak-sambhodi? Tudo o que é ensinado é sempre com vista à conversão dos boddhisattvas.
Ainda assim, Shariputra, também agora eu farei uso de uma parábola para melhor clarificar esta doutrina. Através de metáforas e parábolas os que são sagazes podem atingir a compreensão.
“Shariputra, supõe que numa certa cidade de um certo país havia um homem muito rico. Estava já entrado em anos e a sua riqueza não tinha medida. Possuía muitos terrenos, casas e servos. A sua casa era grande e complexa, mas tinha só uma porta. Muita gente morava na casa – cem, duzentas ou mesmo quinhentas pessoas. Os salões e quartos eram velhos e decrépitos, as paredes estavam a derrocar, os pilares ruindo pela base e as vigas e traves retorcidas e descaídas.
“Então, subitamente, ateou-se um fogo que atingiu toda a casa, galgando as suas paredes. Os filhos desse homem rico, dez, vinte, talvez trinta, estavam no interior. Quando o homem viu as enormes chamas saindo pelos lados da casa, ficou extremamente alarmado e apavorado pensando para si mesmo, “Eu consigo escapar com segurança por entre a porta em chamas, mas os meus filhos estão lá dentro entretidos com os seus jogos, alheados de tudo, sem alarme ou medo. O fogo está a cercá-los, estão ameaçados pela dor e pelo sofrimento, porém as suas mentes não têm noção do perigo e não pensam em tentar escapar!
“Shariputra, este homem rico pensou para si próprio, ”Eu tenho força no meu corpo e membros. Podia embrulhá-los num cobertor e carregando-os no colo, traze-los para fora da casa. Mas então teve um outro pensamento, ”A casa tem apenas uma porta que ademais é estreita e pequena.
Os meus filhos são muito novos, eles não têm entendimento, e gostam dos seus jogos, estando tão absortos neles que correm o risco de morrerem queimados. Tenho de lhes explicar porque estou tão alarmado. A casa já está em chamas e eu tenho que tirá-los dali rapidamente e salvá-los do fogo!
“Tendo pensado isto, começou a chamar pelos filhos desta forma, “Venham cá para fora depressa!” Mas apesar dos chamamentos do pai, cheio de preocupação, os filhos estavam tão absorvidos nos seus jogos que nem lhe deram ouvidos. Além disso, não perceberam os riscos da sua situação, com o fogo e a decrepitude da casa. Correram neste e naquele sentido sem atenderem aos apelos do seu pai.
“Então, o homem teve este pensamento: a casa já está em chamas com este grande incêndio. Se os meus filhos não saírem de imediato, decerto ficarão queimados. Devo por isso inventar um meio hábil que torne possível às crianças escapar ilesas.
“O pai compreendia os seus filhos e conhecia os vários brinquedos e objectos curiosos de que eles gostavam e que poderiam deleitá-los. Então disse-lhes, “O tipo de brinquedos de que vocês gostam são raros e difíceis de encontrar. Se não aproveitarem as oportunidades para os conseguirem decerto virão a arrepender-se. Por exemplo, coisas como carros, puxados por cabras, por veados ou por búfalos. Eles estão agora no exterior da casa onde podeis brincar com eles. Por isso têm de sair desta casa incendiada de imediato. Então, qualquer brinquedo que queirais eu o oferecerei!
“Quando os filhos ouviram o seu pai falar-lhes acerca desses raros brinquedos, porque esses eram exactamente os que eles queriam, ficaram entusiasmados e, empurrando-se uns aos outros, saíram precipitadamente da casa em chamas.
“Então, o homem rico, vendo que os seus filhos tinham saído sãos e salvos e estavam todos sentados no exterior, livres de perigo, ficou muito aliviado e a sua mente dançou de alegria. Nessa altura cada um dos filhos disse ao pai, “os brinquedos que nos prometeste, os carros de cabras, veados e búfalos, por favor entrega-os agora!”
“Shariputra, nessa ocasião o homem rico deu a cada um dos seus filhos uma grande carruagem de igual tamanho e qualidade. As carruagens eram altas e espaçosas, ricamente adornadas. Tinham a toda a volta um gradeamento com campainhas. Um dossel estava armado no topo, decorado com um sortido de preciosas jóias. Cordões de jóias e grinaldas de flores pendiam à volta e o interior era acolchoado e com almofadas púrpuras. Cada carruagem era puxada por um búfalo branco, de pele pura e limpa, formoso e forte, capaz de puxar a carruagem suave e firmemente, num andamento rápido como o vento. Além disso, muitos cocheiros e criados se perfilavam para servir e para guardar a carruagem.
“Qual a razão de tudo isto? A fortuna desse homem rico era ilimitada e ele tinha imensos armazéns a abarrotar de mercadoria. Ele pensou para si mesmo, “As minhas posses não têm fim. Não estaria certo se eu desse aos meus filhos carruagens de qualidade inferior. Estes pequenos são todos meus filhos e eu amo-os sem parcialidade. Tenho incontáveis números de grandes carruagens adornadas com os sete tesouros. Devo ser equânime e dar uma a cada um dos meus filhos, sem fazer qualquer discriminação. Porquê? Porque mesmo distribuindo estes bens por cada uma das pessoas do meu reino eu não esgotaria as minhas posses, muito menos dando-as aos meus filhos.
“Nessa altura, cada um dos filhos subiu para a sua carruagem, ganhando o que nunca antes possuíra, algo que excedia quaisquer das suas expectativas. Shariputra, o que pensas disto? Quando este homem rico deu com imparcialidade estas grandes carruagens aos seus filhos, adornadas com raras jóias, foi culpado de falsidade ou não?”
Shariputra disse, “Não, Honrado Pelo Mundo. Esse homem rico apenas tornou possível aos seus filhos escapar do perigo do fogo e preservar as suas vidas. Ele não incorreu em falsidade. Porque digo isto? Porque ao salvarem as suas vidas eles receberam já uma oferta excelente, principalmente quando, através de um meio hábil, conseguiram escapar da casa em chamas! Honrado Pelo mundo, mesmo que o homem rico não lhes tivesse dado qualquer carruagem, ele ainda assim não seria culpado de falsidade. Porquê? Porque originalmente, a sua intenção foi empregar um meio hábil para fazer os seus filhos escapar. Usar um artificio deste género não é falsidade. Muito menos quando ele sabia que a sua fortuna era ilimitada e tencionava enriquecer e beneficiar os seus filhos dando a cada um deles uma grande carruagem.”
O Buda disse a Shariputra, “Muito bem, muito bem. É tal como disseste. Shariputra, assim é o Honrado pelo Mundo. Ele é um pai para o mundo. Os seus medos, preocupações e ansiedades, ignorância e incompreensão chegaram há muito ao fim, sem que tivessem deixado resíduo. Ele foi completamente bem sucedido na aquisição de imensurável sagacidade, poder e liberdade perante o medo, tendo ganho poderes sobrenaturais e o poder da sabedoria. Está investido com os meios expeditos e com a paramita da sabedoria, a sua misericórdia e grande compaixão são constantes e sem esmorecimento; em todas as ocasiões procura o que é bom para beneficio de todos.
“Ele nasce no triplo mundo, numa casa em chamas, velha e decrépita, por forma a salvar os seres viventes das fogueiras do nascimento, da velhice, da doença e da morte, da preocupação e do sofrimento, da estupidez, da incompreensão e dos três venenos; para ensiná-los e convertê-los permitindo-lhes alcançar anuttara-samyak-sambhodi.
“Ele vê os seres viventes atormentados e consumidos pela velhice, doença e morte, preocupação e sofrimento, vê-os incorrer em muitas formas de dor devido às suas ganâncias e apegos e lutar assoberbados por numerosas penas na sua presente existência, e vê-os incorrerem depois na pena de nascerem no inferno ou como animais ou espíritos esfomeados. Mesmo que nasçam no reino dos seres celestiais ou no reino dos humanos, eles padecem a dor da pobreza e da necessidade, a dor da separação dos entes queridos, a dor do encontro com aqueles que detestam – todas estas diferentes formas de dor.
“Apesar de afundados no meio de tudo isto, os seres viventes divertem-se e deleitam-se, inconscientes, alheados, sem alarme ou medo. Não têm qualquer repugnância e não fazem qualquer tentativa para escaparem. Nesta casa em chamas que é o triplo mundo, correm para Este e Oeste, e apesar de encontrarem grandes dores, não ficam aflitos por se libertarem.
“Shariputra, quando o Buda vê isto, pensa para si mesmo, eu sou o pai dos seres viventes e devo resgatá-los dos seus sofrimentos e dar-lhes a alegria da imensurável e ilimitada sabedoria de Buda de modo a que possam regozijar-se.
“Shariputra, o Tathagata tem também este pensamento: se meramente empregasse poderes sobrenaturais e o poder da sabedoria; se puser de lado os meios hábeis e, pelo bem dos seres viventes, louvar apenas o Tathagata na sua sagacidade, poder e liberdade perante o medo, então os seres viventes não seriam capazes de conquistar a salvação. Porquê? Porque os seres viventes ainda não escaparam do nascimento, velhice, doença, morte, preocupação e sofrimento, mas estão consumidos pelas chamas da casa a arder que é o triplo mundo. Como podem eles ser capazes de entender a sabedoria do Buda?
“Shariputra, esse homem rico, ainda que dotado da força dos seus braços, não a usou. Utilizou meramente um meio hábil cuidadosamente planeado e foi assim capaz de resgatar os seus filhos do perigo da casa em chamas, e depois, deu a cada um deles uma grande carruagem adornada com jóias raras. O Tathagata procede da mesma forma. Apesar de possuir poder e liberdade perante o medo, ele não os usa. Meramente emprega a sabedoria e os meios hábeis para resgatar os seres viventes da casa em chamas que é o triplo mundo, expondo-lhes os três veículos, o veículo do ouvinte, o do pratyekabuda e o veículo do Buda.
“Ele diz-lhes, “Não devem contentar-se em ficar nesta casa em chamas do triplo mundo! Não sejam ávidos pelas suas grosseiras e ordinárias formas, sons, odores, sabores e sensações! Se ficarem apegados a elas e aprenderem a gostar delas, acabarão queimados! Devem sair deste triplo mundo de imediato de modo a adquirirem os três veículos, o veículo do ouvinte, o do pratyekabuda e o veículo do Buda. Eu prometo-vos que os conseguirão obter, e essa promessa nunca se mostrou falsa. Têm apenas que se aplicar com esforço diligente!”
“O Tathagata emprega este meio hábil para atrair os seres viventes à acção. E diz-lhes, “Vocês devem compreender que estas doutrinas dos três veículos foram louvadas pelos sábios. Eles são livres, sem peias, não havendo mais nada que procurem ou de que dependam. Subam para estes três veículos, ganhem raízes sem falhas, poderes, consciência, meditação, emancipação, samadhis, a via, e depois alegrem-se. Vocês ganharão o deleite da paz e segurança imensuráveis”.
“Shariputra, se existirem seres viventes que sejam por natureza intimamente sábios, que procurem o Buda, o Honrado Pelo Mundo, ouçam a Lei, acreditem nela e a aceitem, e esforçando-se diligentemente, desejem escapar rapidamente do triplo mundo e procurem atingir o nirvana, devem ser chamados [condutores do] veículo do ouvinte. São como aqueles filhos que saem da casa em chamas na esperança de encontrar o carro puxado por cabras.
“Se existirem seres viventes que procurem o Buda, o Honrado Pelo Mundo, ouçam a Lei, acreditem nela e a aceitem, e esforçando-se diligentemente, procurem a sabedoria por si mesmos, deleitando-se solitariamente na bondade e na tranquilidade, entendendo profundamente as causas e condições de todos os fenómenos, devem ser chamados [condutores do] veículo do pratyekabuda. São como aqueles filhos que saem da casa em chamas na esperança de encontrar o carro puxado por veados.
“Se existirem seres viventes que procurem o Buda, o Honrado Pelo Mundo, ouçam a Lei, acreditem nela e a aceitem, e esforçando-se diligentemente, procurem a sabedoria e a perspicácia do Tathagata, os poderes e a liberdade perante o medo, condoendo-se de inumeráveis seres viventes, confortando-os, trazendo benefícios a seres celestiais e humanos, salvando-os a todos, devem ser chamados [condutores do] Grande Veículo. Por os bodhisattvas procurarem este veículo são chamados mahasattvas. São como aqueles filhos que saem da casa em chamas na esperança de encontrar o carro puxado por búfalos.
“Shariputra, esse homem rico, vendo que todos os seus filhos tinham saído da casa em chamas, não correndo já qualquer perigo, recordou que a sua fortuna era imensurável e presenteou cada um deles com uma grande carruagem. O Tathagata procede da mesma forma. Ele é o pai de todos os seres viventes. Quando vê que incontáveis milhares de milhões de seres viventes, através do portal dos ensinamentos do Buda, conseguem escapar às dores do triplo mundo, o caminho medonho e perigoso, e atingem os deleites do nirvana, então o Tathagata tem este pensamento: eu possuo sabedoria ilimitada e imensurável, o repositório da Lei dos Budas. Estes seres viventes são todos meus filhos. Eu darei a todos eles sem distinção o Grande Veículo. Não haverá um nirvana particular para cada um, mas sim o nirvana absoluto do Tathagata.
“A todos os seres viventes que escaparam do triplo mundo, confere então os deliciosos dons da meditação, emancipação e concentração dos Budas. Todos estes dons são uniformes nas suas características e tipo, louvados pelos sábios, capazes de produzir o mais puro, maravilhoso, supremo deleite.
“Shariputra, esse homem usou primeiro os três tipos de carruagens para atrair os seus filhos, mas depois deu a cada um apenas a grande carruagem adornada com jóias, a mais segura e confortável de todas. Apesar disto, esse homem não é culpado de falsidade. O Tathagata faz o mesmo, e é isento de falsidade. Primeiro expoe os três veículos para atrair e guiar os seres viventes, mas depois emprega apenas o Grande Veículo para os salvar. Porquê? O Tathagata possui imensuráveis sabedoria, poder e liberdade perante o medo e possui o repositório da Lei. É capaz de dar a todos os seres viventes a Lei do Grande Veículo. Mas nem todos são capazes de a receber.
“Shariputra, por esta razão deves entender que os Budas empregam o poder dos meios hábeis. E porque o fazem, estabelecem distinções no veículo único dos Budas e expõe-no como sendo triplo.”
O Buda, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Supõe que existe um Homem rico
que possui uma grande casa.
Esta casa é muito velha
e arruinada e degradada também.
As paredes altas estão em condições perigosas,
as vigas e traves retorcidas e descaídas,
os alicerces e escadarias ruindo.
As paredes estão rachadas e com fendas e o reboco caiu.
O tecto de colmo está estragado ou caído, as goteiras dos beirais arrancadas.
As cercas que a rodeavam abateram e pilhas de lixo amontoam-se por toda a parte.
Umas quinhentas pessoas vivem na casa.
Papagaios, corujas, falcões, águias,
corvos, pegas, pombas,
lagartos, cobras, víboras, escorpiões,
centopeias, sapos, baratas,
doninhas, ratos, ratazanas,
hordas de criaturas malévolas
escapulindo-se por toda a parte.
Há lugares que fedem com excremento
inundados por regos de imundice,
onde as baratas e outros animais se juntam.
Raposas, lobos e chacais
roem e pisoteiam na imundice
ou desmembram cadáveres,
separando a carne dos ossos.
Devido a isto, matilhas de cães
correm para o local, raivosos e famintos,
procurando comida em toda a parte,
lutando e agarrando-se,
rangendo os dentes, rosnando e uivando.
Essa casa é medonha, assustadora,
tão alterado está o seu aspecto.
Em toda ela existem goblins e trolls,
yakshas e espíritos malignos,
que se alimentam de carne humana
ou de criaturas venenosas.
As várias aves malignas e bestas
procriam, chocando e alimentando as suas crias,
escondem-nas e protegem-nas,
mas os yakshas competem entre si
para as descobrir e devorar.
E depois de terem comido até à saciedade,
os seus corações malignos redobram de ferocidade;
o som das suas disputas e lutas
é deveras assustador.
Demónios kumbhanda
agacham-se em maciços de terra
ou saltam até meio metro de altura,
errando ociosamente aqui e ali,
divertindo-se conforme as suas inclinações.
Por vezes eles agarram um cão
por duas das suas pernas
e batem-lhe até ele perder a voz,
ou cravam o pé no seu pescoço,
deleitando-se a aterrorizá-lo.
Existem ainda demónios
com corpos altos e largos,
nus, emaciados e escuros,
vivendo lá constantemente,
que gritam com vozes horrendas,
berrando e exigindo comida.
Há outros demónios
cujas gargantas são como agulhas,
ou outros ainda
com cabeças iguais à de um búfalo,
alguns alimentando-se de carne humana,
outros devorando cães.
Com os cabelos como ervas daninhas emaranhadas,
cruéis, iracundos, ferozes,
dominados pela fome e pela sede,
eles correm guinchando e uivando.
Os yakshas e espíritos esfomeados
e as várias aves malignas e bestas
empurram-se famintas em todas as direcções,
espreitando pelas janelas.
Esses são os perigos desta casa,
ameaças e terrores sem medida.
Esta casa, velha e decrépita,
pertence a um certo homem
e esse homem ausentou-se
e não se encontrava longe
quando um incêndio
deflagrou subitamente pela casa.
De repente nos quatro lados da casa
as chamas propagaram-se.
Vigas e traves do tecto, pilares,
explodiram com estrondo, estremecendo, rachando,
partindo-se e ruindo
com o colapso das paredes e divisórias.
Os vários demónios e espíritos
juntaram as suas vozes num grande gemido,
os falcões, águias e outras aves,
os demónios kumbhanda,
estavam cheios de terror e pânico,
não sabendo como escapar.
As bestas malévolas e as criaturas venenosas
escondidas nos seus buracos e covis
e os demónios pishacha,
que também viviam aí,
por terem praticado tão pouco o bem,
estavam angustiados com as chamas
e atacavam-se uns aos outros,
bebendo sangue e comendo carne de goblin.
Os chacais e afins
já estavam mortos por esta altura
e a maioria das bestas maléficas
lutava para devorá-los.
O fumo infecto rodopiava e subia,
enchendo a casa por toda a parte.
As centopeias,
cobras venenosas e afins,
chamuscadas pelo fogo,
escapuliam-se dos seus buracos,
enquanto os demónios kumbhanda
atiravam-se a elas e comiam-nas.
Além disso os espíritos esfomeados,
com as chamas a incendiar as suas cabeças,
famintos, sedentos, atormentados pelo calor,
corriam em todas as direcções
aterrorizados e confusos.
Este era o estado dessa casa,
realmente assustadora e terrível;
afligida por inúmeros tormentos
e pelo desastre do fogo.
Nessa altura o dono da casa
estava no exterior quando ouviu alguém dizer
“Há algum tempo os teus vários filhos
foram brincar para o interior da casa.
Eles são muito novos e falhos de compreensão
e estão absortos nas suas diversões.”
Quando o homem rico ouviu isto,
correu alarmado para a casa em chamas,
determinado a resgatar os seus filhos
salvando-os de serem queimados pelo fogo.
Ele incitou os seus filhos
a ouvi-lo explicar os muitos perigos e ameaças,
os espíritos maléficos e as criaturas venenosas,
as chamas espalhando-se por toda a parte,
os inumeros sofrimentos que se sucederiam interminavelmente,
as cobras venenosas, lagartos e víboras,
bem como os muitos yakshas
e demónios kumbhanda,
os chacais, raposas e cães,
falcões, águias, papagaios, corujas,
insectos rastejantes e criaturas similares,
conduzidas e atormentadas pela fome e pela sede,
coisas realmente temíveis.
As enormes chamas do grande fogo
estão ateadas em todos os lados,
e apesar disto
os meus filhos ainda se agarram aos seus jogos.
Mas agora salvei-os,
fazendo-os escapar do perigo.
Essa é a razão, boa gente,
porque eu estou alegre.”
Nessa ocasião os filhos,
vendo o seu pai confortavelmente sentado,
foram junto dele e disseram-lhe:
“Dá-nos por favor
os três tipos de carruagens de jóias
que nos prometeste.
Disseste que se saíssemos da casa
nos darias três tipos de carruagens
e que cada um de nós escolheria aquela que mais gostasse.
Agora é a altura de no-las entregares!”
O homem rico era muito abastado
e tinha muitos armazéns.
Com ouro, prata, lápis lazuli,
madrepérola, ágata e outros materiais preciosos
construiu grandes carruagens
maravilhosamente adornadas e decoradas,
com uma balaustrada a toda a volta
e sinos pendentes dos vários lados.
Cordões de ouro entrançados,
redes de pérolas
ajustadas sobre o topo,
e franjas de flores douradas
penduradas por toda a parte.
Decorações multicolores
rodeando e envolvendo as carruagens,
sedas finas e gazes
servindo de almofadas,
cobertas com feltros de magnífica feitura
avaliados em milhares de milhões,
reluzindo brancos e puros.
Aí estavam grandes búfalos brancos,
lustrosos e robustos, de grande força,
de formas bonitas,
para puxar as carruagens de jóias,
e numerosos cocheiros e servos
para as acompanhar e guardar.
Estas maravilhosas carruagens,
o homem apresentou de igual modo
a cada um dos seus filhos.
Os filhos então dançaram de júbilo,
subindo para as carruagens de jóias,
conduzindo-as em todas as direcções,
deleitando-se e divertindo-se
livremente e sem estorvos.
Digo-te isto, Shariputra –
sou como esse homem rico.
Eu, o mais venerável dos sábios,
sou o pai deste mundo
e todos os seres viventes são meus filhos.
Mas eles estão profundamente apegados aos prazeres mundanos
e são falhos da mente da sabedoria.
Não há segurança no triplo mundo;
é como uma casa em chamas,
repleta com uma multitude de sofrimentos,
realmente temíveis,
constantemente assolada pelas amarguras e dores
do nascimento, da velhice, da doença e da morte,
que são como fogos,
propagando-se violentamente e sem cessar.
O Tathagata já deixou
esta casa em chamas do triplo mundo
e repousa em tranquila quietude
na segurança da floresta e da planície.
Mas agora este triplo mundo
é todo o meu domínio,
e os seres que nele vivem
são as minhas crianças.
Agora este lugar é assolado
por muitas dores e provações.
Sou a única pessoa
que pode salvar e proteger os outros,
mas apesar de os ensinar e instruir
eles não acreditam nem aceitam os meus ensinamentos,
porque, contaminados pelos desejos,
estão profundamente imersos
na ganância e no apego.
Assim, emprego um meio hábil,
descrevendo-lhes os três veículos,
fazendo todos os seres viventes
entenderem as dores do triplo mundo
e então apresento e exponho
a via pela qual eles podem escapar do mundo.
Se estas minhas crianças
simplesmente se decidirem nas suas mentes a fazê-lo
podem adquirir as três compreensões
e os seis poderes transcendentais,
podem tornar-se pratyekabudas
ou bodhisattvas que nunca retornam.
Digo-te, Shariputra,
pelo bem dos seres viventes
utilizo estas metáforas e parábolas
para expor o único veículo de Buda.
Se tu e os outros forem capazes
de acreditar e aceitar as minhas palavras,
estarão todos certos
de atingirem a via de Buda.
Este veículo é subtil, maravilhoso,
primeiro em pureza;
através dos mundos
permanece insuperável.
O Buda deleita-se nele e aprova-o,
e todos os seres viventes devem louvá-lo,
oferecer-lhe esmolas e prestar-lhe obediência.
Existem imensuráveis milhares de milhões
de poderes, emancipações, sabedorias
e outros atributos do Buda,
mas se a criança puder obter este veículo
ele permitir-lhe-á, dia e noite por inumeráveis kalpas,
encontrar agrado constante,
juntar-se aos bodhisattvas
e à multidão de ouvintes
montando este veículo de jóias
e prosseguir directamente para o lugar da iluminação.
Por estas razões,
ainda que alguém busque diligentemente nas dez direcções,
não encontrará quaisquer outros veículos
a não ser quando o Buda os ensina como meios hábeis.
Digo-te, Shariputra,
tu e os outros são todos meus filhos,
e sou como um pai para vós.
Durante sucessivos kalpas
vocês arderam nas chamas dos múltiplos sofrimentos,
mas salvar-vos-ei a todos
e farei com que escapem do triplo mundo.
Apesar de antes vos ter dito
que havíeis alcançado a extinção,
isso era apenas o fim do nascimento e da morte,
não era a verdadeira extinção.
Agora o que é necessário
é simplesmente que adquiram a sabedoria de Buda.
Se existirem bodhisattvas
aqui nesta assembleia,
deixai-os com uma única mente
ouvir a verdadeira Lei dos Budas.
Se bem que os Budas,
os Honrados Pelo Mundo,
empreguem meios hábeis,
os seres viventes por eles convertidos
são todos bodhisattvas.
Se existirem pessoas de pequena sabedoria,
profundamente apegadas ao amor e ao desejo –
por serem assim,
o Buda ensina-lhes a lei do sofrimento.
Então os seres viventes ficarão extasiados,
tendo ganham o que nunca antes possuíram.
A lei do sofrimento pregada pelos Budas
é verdadeira e imutável.
Se houver seres viventes
que não compreendam a raíz do sofrimento,
que estejam profundamente apegados às causas do sofrimento
e não consigam nem por um momento pô-las de parte –
por serem assim,
o Buda usa meios hábeis para ensinar a via.
Quanto à causa de todo o sofrimento,
ela tem a sua raiz na cobiça e no desejo.
Se a cobiça e o desejo forem removidos
ele não terá onde residir.
Remover o sofrimento –
a isto se chama a terceira lei.
Pelo bem desta lei, a lei da extinção,
pratica-se a via.
E quando se escapa das amarras do sofrimento,
a isto se chama alcançar a emancipação.
Através de que meios pode alguém alcançar a emancipação?
Separar-se da falsidade e da ilusão –
apenas a isto se pode chamar emancipação.
Mas se uma pessoa não for verdadeiramente capaz
de se emancipar de tudo,
então o Buda dirá que ela não atingiu a verdadeira extinção,
porque essa pessoa não atingiu ainda a via insuperável.
O meu propósito não é tentar
fazer com que alcancem a extinção.
Eu sou o Rei do Dharma,
livre de proceder como quiser com a Lei.
Para trazer paz e segurança aos seres viventes –
esta é a razão do meu aparecimento no mundo.
Digo-te, Shariputra,
ensino este meu selo do Dharma
porque desejo trazer benefícios ao mundo.
Não deves transmiti-lo imprudentemente
onde quer que te encontres.
Se houver alguém que o ouça,
responda com alegria e o aceite com gratidão,
deves saber que essa pessoa
é um avivartika.
Se houver alguém que acredite e aceite
a Lei deste sutra,
essa pessoa já viu previamente os Budas do passado,
ofereceu-lhes esmolas respeitosamente
e escutou esta Lei.
Se houver alguém capaz
de acreditar no que tu ensinares,
essa pessoa já viu a mim,
a ti, aos outros monges
e aos bodhisattvas.
Este Sutra do Lótus
é exposto por aqueles de profunda sabedoria.
Se pessoas de compreensão limitada o ouvirem,
ficarão perplexas e não o compreenderão.
Também em relação aos ouvintes
e pratyekabudas,
neste sutra há coisas
que estão para lá dos seus poderes.
Até tu, Shariputra,
no caso deste sutra
apenas és capaz de aceder a ele através da fé.
Quanto mais então os outros ouvintes.
É por esses outros ouvintes
terem fé nas palavras do Buda
que eles podem agir em conformidade com este sutra
e não devido a qualquer sabedoria pessoal.
Da mesma forma, Shariputra,
às pessoas que são arrogantes ou preguiçosas
ou tomadas pelo ego,
não ensines este sutra.
Essas com a compreensão limitada das pessoas comuns,
que são profundamente apegadas aos cinco desejos,
não podem compreendê-lo quando o ouvem.
Não lhes ensines este sutra.
Se uma pessoa não tiver fé
mas em vez disso caluniar este sutra
de imediato destruirá todas as sementes
para se tornar um Buda neste mundo.
Ou talvez franza as sobrancelhas
em sinal de dúvida ou perplexidade;
ouve que te direi,
a pena que essa pessoa terá de pagar.
Quer o Buda esteja no mundo
ou se tenha já extinguido,
se ela caluniar um sutra como este,
ou vendo alguém lê-lo,
recitá-lo, copiá-lo e promovê-lo,
despreze, odeie, inveje
ou proceda contra essa pessoa,
a pena que ela deve pagar será esta:
Quando a sua vida tiver chegado ao fim
entrará no inferno de Avichi,
estará lá confinada durante todo um kalpa,
e quando esse kalpa acabar,
nascerá de novo lá.
Repetirá esse ciclo
por um incontável número de kalpas.
Ainda que consiga emergir do inferno,
cairá no reino das bestas,
tornando-se um cão ou um chacal,
a sua forma magra e desleixada,
escura, descorada,
com crostas e feridas,
exposto à chacota dos homens.
Ou ainda,
será odiada e desprezada pelos homens,
constantemente assolada pela sede e pela fome,
os seus ossos e carne secos,
padecendo na vida tormentos e dificuldades,
na morte enterrada entre as pedras.
Por ter cortado as sementes da Iluminação
sofrerá esta penalidade.
Se se tornar um camelo
ou nascer sob a forma de um burro,
o seu corpo suportará constantemente pesadas cargas
e terá o pau ou o chicote sempre sobre ele.
Pensará apenas em água e erva
e não compreenderá nada mais.
Porque caluniou este sutra,
será esta a punição em que incorrerá.
Ou nascerá como um chacal
que irá ter à povoação,
o corpo cheio de chagas,
tendo apenas um olho,
batido pelos rapazes,
sofrendo dores e penas,
por vezes a ponto de morrer.
E depois de morrer,
renascerá sob a forma de serpente,
longa e grande no tamanho,
medindo quinhentas yojanas,
surda, sem entendimento, sem pés,
arrastando-se sobre a barriga,
com pequenas criaturas mordendo-a e alimentando-se dela,
dia e noite sofrendo dificuldades,
sem nunca ter descanso.
Por ter caluniado este sutra,
é esta a punição em que incorrerá.
Se vier a tornar-se um ser humano,
as suas faculdades serão fracas e embotadas,
será débil, vil, desonesto, aleijado,
cego, surdo, corcunda.
As coisas que disser ninguém acreditará,
o hálito da sua boca será sempre infecto,
será possuído por demónios, pobre e humilde,
sujeito às ordens de outros,
afligido por muitas doenças,
magro e macilento,
sem ninguém a quem recorrer.
Ainda que se ligue a outras pessoas,
estas nunca se lembrarão dele,
ainda que venha a ganhar algo,
isso será logo perdido ou esquecido.
Ainda que pratique a arte da medicina
e pelos seus métodos cure a doença de alguém,
essa pessoa adoecerá de qualquer outra causa
e talvez acabe até por morrer.
Se ele mesmo tiver uma doença,
ninguém o ajudará ou tratará,
e ainda que tome bons remédios
isso só piorará a sua condição.
Se outros se virarem contra si,
ver-se-á despojado e roubado.
Os seus pecados serão tais
que lhe trarão inesperados desastres.
Uma pessoa pecadora deste tipo
nunca verá o Buda,
o rei de todos os sábios,
expondo a Lei,
ensinando e convertendo.
Uma pessoa pecadora deste tipo
nascerá constantemente entre dificuldades,
louca, surda, de mente confusa,
e nunca ouvirá a Lei.
Por incontáveis kalpas,
numerosos como as areias do Ganges,
ficará surda e idiota ao nascer,
com as suas faculdades diminuídas,
residirá constantemente no inferno,
errando por ele como se fosse um jardim,
e aos outros maus caminhos da existência
verá como sendo a sua casa.
Camelo, burro, porco, cão –
estas serão as formas que tomará.
Por ter caluniado este sutra,
esta é a punição em que incorrerá.
Se se tornar um ser humano,
será surdo, cego, idiota.
Pobreza, necessidade,
todas as formas de decadência
serão o seu adorno;
abcessos, diabetes,
cicatrizes, crostas, úlceras,
doenças como estas serão os seus trajes.
O seu corpo cheirará sempre mal,
infecto e impuro.
Profundamente apegado à noção de um eu,
incorrerá em raiva e ódio;
ardendo em desejos licenciosos,
não recusará sequer aves ou bestas.
Por ter caluniado este sutra,
este será o castigo em que incorrerá.
Digo-te, Shariputra,
se fosse a descrever os castigos que impendem
sobre as pessoas que caluniam este sutra,
poderia esgotar um kalpa sem nunca chegar ao fim.
Por esta razão
eu te digo expressamente,
não exponhas este sutra
a pessoas sem sabedoria.
Mas se existirem alguns de faculdades apuradas,
sábios e compreensivos,
de muita instrução e grande memória,
que procurem a via de Buda,
então a pessoas como estes
é permitido expores este sutra.
Se existirem pessoas que tenham visto
centenas de milhares de milhões de Budas,
que tenham plantado boas raízes
e sejam firmes e profundamente empenhadas,
então a estas
é permitido ensinares este sutra.
Se existirem pessoas diligentes,
cultivando constantemente uma mente compassiva
não poupando o corpo ou a vida,
então é permitido ensinares este sutra.
Se existirem pessoas
que sejam respeitosas e reverentes,
com as suas mentes concentradas,
separadas da loucura comum,
vivendo isoladas nas montanhas e rios,
a pessoas como estas
é permitido ensinares este sutra.
Ainda, Shariputra,
se vires alguém que se afaste das amizades nefastas
e se associe com bons companheiros,
a pessoas como esta
é permitido ensinares este sutra.
Se vires um filho de Buda,
cumprindo os preceitos,
limpo e sem mácula
como uma jóia pura e brilhante,
buscando o Sutra do Grande Veículo,
a pessoas como esta
é permitido ensinares este sutra.
Se uma pessoa for isenta de raiva,
recta e gentil por natureza,
compadecendo-se constantemente dos seres viventes,
respeitador e reverente para com os Budas,
a pessoas como esta
é permitido ensinares este sutra.
Ainda, se um filho de Buda
no meio de uma grande assembleia,
empregar com uma mente pura
várias causas e condições, metáforas, parábolas
e outras expressões
para expor a Lei de forma clara,
a pessoas como esta
é permitido ensinares este sutra.
Se existirem monges
que em prol da clara sabedoria,
procurarem a Lei em todas as direcções,
juntando as palmas das mãos reverentemente,
com gratidão, desejando apenas aceitar
com gratidão o sutra do grande Veículo
e não aceitando um único verso dos outros sutras,
a pessoas como esta
é permitido ensinares este sutra.
Se alguém, com seriedade,
procurar este sutra
como se buscasse as relíquias de Buda,
e tendo-o obtido e aceite com gratidão,
sem mostrar intenções de procurar outros sutras
e sem dar nunca mais atenção
aos escritos das doutrinas não budistas,
a pessoas como esta
é permitido ensinares este sutra.
Digo-te, Shariputra,
se eu descrevesse as características
daqueles que procuram a via de Buda,
poderia esgotar um kalpa
sem completar essa tarefa.
Pessoas deste tipo
são capazes de acreditar e compreender.
Por isso deves expor-lhes
o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa.
^^^^^
Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capitulo Quatro:
Fé e Compreensão
Nessa ocasião, quando os homens de longeva sabedoria, Subhuti, Mahakatyayana, Mahakashyapa e Mahamaugdalyayana ouviram do Buda a Lei nunca antes conhecida, e ouviram o Honrado Pelo Mundo profetizar que Shariputra atingiria anuttara-samyak-sambhodi, as suas mentes dançaram de alegria comovidas como nunca. De imediato levantaram-se dos seus assentos, compuseram as suas vestes, descobriram o ombro direito e ajoelharam-se sobre o joelho direito. Juntando as palmas das mãos reverentemente, e com uma só mente, curvaram-se em sinal de respeito, fitando reverentemente a face do Honrado Pelo Mundo, disseram a Buda: “Nós encabeçamos o conjunto dos monges e estamos velhos e decrépitos. Acreditáva-mos que tínhamos já atingido o nirvana e que éramos incapazes de fazer mais, por isso nunca pensamos em atingir anuttara-samyak-sambhodi.
“Passou-se muito tempo desde que o Honrado Pelo Mundo começou pela primeira vez a expor a Lei. Durante esse tempo nós sentamo-nos nos nossos lugares, os nossos corpos cansados e inertes, meditando unicamente nos conceitos de vacuidade, não-forma e não-acção. Mas quanto aos prazeres e poderes transcendentais da Lei do bodhisattva e quanto à purificação das terras Búdicas e à salvação dos seres viventes, nisso as nossas mentes não tomaram parte. Porquê? Porque o Honrado Pelo Mundo tornou possível para nós transcender o triplo mundo e atingir a iluminação do nirvana.
“Além disso, nós somos velhos e decrépitos. Quando ouvíamos acerca de anuttara-samyak-sambhodi, que o Buda emprega para ensinar e converter os bodhisattvas, as nossas mentes não ficavam cheias de qualquer pensamento de alegria ou aprovação. Mas agora, na presença do Buda, nós recebemos a profecia de que este ouvinte atingiria anuttara-samyak-sambhodi e as nossas mentes ficaram plenas de deleite. Ganhámos o que nunca antes tivemos. Subitamente, nós conseguimos ouvir uma Lei que é rara de encontrar, algo que nunca até aqui esperáramos, e temo-nos na conta de muito afortunados. Nós ganhámos grande bondade e benefício, uma jóia rara e imensurável, algo inesperado que surgiu por si mesmo.
“Honrado pelo Mundo, nós gostaríamos agora de empregar uma parábola para tornar claro o que queremos dizer. Suponhamos que existia um homem, ainda novo, que tendo abandonado o seu pai, fugiu e viveu por muito tempo noutra terra, talvez por dez anos, vinte, ou mesmo cinquenta anos. À medida que envelheceu, ficou cada vez mais pobre e necessitado. Ele procurou em todas as direcções por comida e vestuário, errando cada vez mais longe até que o acaso o levou na direcção da sua terra natal.
“O pai entretanto tinha procurado o filho sem sucesso e fixou a sua residência numa certa cidade. A sua casa era muito abastada, com inúmeras riquezas e tesouros. Ouro, prata, lápis-lazuli, coral, âmbar e cristal abundavam nos seus armazéns. Tinha muitos criados, secretários, empregados, elefantes, cavalos, carruagens, bois e veados sem conta. Estava envolvido em empreendimentos lucrativos quer na sua casa quer nas redondezas, e tinha também muitos negócios com comerciantes e caixeiros viajantes.
“Nessa altura o filho pobre vagabundeava de terra em terra, passando por muitas cidades e vilas, até que por fim chegou à cidade onde o seu pai residia. O pai pensava constantemente no seu filho, mas apesar de terem decorrido mais de cinquenta anos desde a sua partida nunca falara desse assunto a ninguém. Ele apenas ponderava para si o seu coração cheio de mágoa e saudade. Ele achava-se velho e decrépito. Tinha grandes posses e fortuna, ouro, prata e tesouros raros que enchiam a transbordar os seus armazéns, mas não tinha nenhum filho, de modo que quando morresse as suas posses seriam desbaratadas e perdidas, pois não havia ninguém a quem confiá-las.
“Por esta razão ele pensava tão seriamente no seu filho. E tinha também este pensamento: se eu conseguisse encontrar o meu filho e lhe pudesse confiar as minhas posses, poderia então sentir-me contente e em paz, sem mais preocupações.
“Honrado Pelo Mundo, nessa altura o filho pobre passava de um trabalho para outro até que por acaso foi ter a casa do seu pai. Ele parou perante os portões, olhando de longe para o seu pai que estava num trono de leão, as suas pernas apoiadas numa banqueta de jóias, enquanto Brahmans, nobres e proprietários o rodeavam com deferência. Grinaldas de pérolas no valor de milhares adornavam o seu corpo, e servos e empregados, segurando grandes leques brancos, ladeavam-no perfilados ao seu serviço. Um dossel de jóias cobria-o, com bandeiras floridas penduradas, água perfumada aspergida pelo chão, pilhas de flores raras espalhadas, e objectos preciosos estavam constantemente a passar e a ser levados ou trocados. Estes eram os muitos e variados adornos, os sinais e marcas de distinção
“Quando o filho pobre viu a grandeza do poder e autoridade do seu pai, ficou cheio de medo e arrependido por ter ido àquele local. Pensou secretamente para si: deve ser algum rei, ou alguém semelhante a um rei. Este não é o tipo de lugar onde eu possa arranjar trabalho e ganhar a vida. Seria melhor ir para uma vila pobre onde, se eu trabalhar arduamente, consiga encontrar um lugar para viver e ganhar o meu alimento e comida. Se eu ficar aqui por mais tempo, posso ainda ser preso! Tendo pensado assim foi-se embora daquele local.
“Nessa altura, o homem rico, sentado no seu trono, viu o seu filho e reconheceu-o de imediato. O seu coração encheu-se de alegria e pensou: Agora tenho alguém a quem confiar os meus armazéns de riquezas! Os meus pensamentos estiveram sempre com este meu filho mas eu não tinha maneira de o ver. Agora ele apareceu subitamente, correspondendo ao que eu tinha desejado. Apesar de eu ser velho e decrépito, ainda me preocupo com o destino dos meus pertences.
“Então ele mandou um empregado ir atrás do filho o mais depressa possível e trazê-lo de volta. O mensageiro correu rapidamente e alcançou-o. O filho pobre, assustado e alarmado, gritou desesperado, “Não fiz nada de mal! Porque me querem prender?” mas o mensageiro segurou-o firmemente e trouxe-o de volta
“Nessa altura o filho pensou, “Não cometi nenhum crime e ainda assim sou levado prisioneiro. Ainda vão acabar por me matar!” Estava mais assustado do que nunca e caiu no chão, desmaiando de desespero.
“O pai, vendo isto à distância, disse ao mensageiro, “Não preciso deste homem. Não o forcem a vir aqui. Espalhem água pela sua cara para que recobre os sentidos e depois não lhe digam mais nada!”
“Porque é que ele fez isso? Porque sabia que o seu filho era de modestas ambições e dificilmente aceitaria o seu poder e condição eminentes. Ele sabia muito bem que esse era o seu filho mas como meio hábil não o disse a ninguém.
“O mensageiro disse então ao filho pobre, “Vou libertar -te. És livre de ir para onde quiseres.” O filho ficou radiante, ganhando o que nunca tivera antes. Levantou-se do chão e dirigiu-se para a cidade de modo a procurar comida e roupa.
“Nessa altura o homem rico, desejando atrair o seu filho de volta, decidiu empregar um meio hábil e enviar dois homens disfarçados, homens de aspecto magro e macilento sem nenhum indício ameaçador. ”Ide procurar esse pobre homem e aproximem-se dele de forma casual. Digam-lhe que conhecem um lugar onde pode ganhar o dobro do salário habitual. Se ele concordar com a proposta, trazei-o para aqui e ponham-no a trabalhar. Se ele perguntar que tipo de trabalho lhe será destinado, digam-lhe que terá de limpar excremento e que vocês trabalharão com ele.”
“Os dois mensageiros foram de imediato procurar o herdeiro, e quando o encontraram, falaram-lhe de acordo com as instruções recebidas. Então o filho pediu um adiantamento do seu salário e foi depois com eles para ajudar na limpeza do excremento.
Quando o pai viu o seu filho, compadeceu-se e preocupou-se com ele. Dias depois, quando olhava da janela, viu o filho à distância, o seu corpo magro e macilento, sujo de excremento, imundície e impureza. O pai de imediato tirou os colares, as vestes finas e os outros adornos e vestiu roupas velhas e sujas. Espalhou sujidade no corpo, pegou num utensílio para remover excremento e adoptando modos rudes, falou para os empregados dizendo, “Continuem o vosso trabalho! Não sejam preguiçosos!” Através deste meio hábil ele foi capaz de se aproximar do filho.
“Mais tarde, ele falou novamente ao filho, dizendo, “Deves continuar neste trabalho sem nunca me deixares. Eu aumentarei o teu salário e quanto àquilo de que precisares, quer sejam utensílios, arroz, farinha, sal, vinagre e outros bens, não te deves preocupar. Eu tenho um velho criado que te pode ajudar quando precisares. Podes estar à vontade. Eu serei como um pai para ti. Porque digo isto? Porque já sou entrado em anos, mas tu és novo e robusto. Quando estás a trabalhar nunca és enganador ou preguiçoso nem dizes palavras rancorosas ou ressentidas. Não pareces ter nenhuma dessas faltas que os meus outros trabalhadores têm. De agora em diante, tu serás como meu próprio filho”. E o homem rico tratou de escolher um nome para o homem como se ele fosse seu filho.
“Nessa altura o filho pobre, apesar de se sentir encantado com este tratamento, ainda se via a si próprio como uma pessoa de condição humilde que estava ao serviço de outrem. Entretanto o homem rico manteve-o a limpar excremento nos vinte anos seguintes. Ao fim desse tempo, o filho sentia que confiavam nele e movimentava-se à vontade, mas continuava a viver no mesmo lugar de sempre.
“Honrado Pelo mundo, nessa altura o homem rico adoeceu e soube que não tardaria a morrer. Falou então com o filho dizendo, “Tenho grandes quantidades de ouro, prata e tesouros raros que enchem os meus armazéns. Deves assumir agora o controlo das somas que tenho e das despesas e receitas. Porquê? Porque de agora em diante tu e eu não nos comportaremos como duas pessoas independentes. Por isso deves manter o teu bom senso e garantir que não haja perdas ou erros.”
“Então o filho pobre, tendo recebido estas instruções, tomou a seu cargo a vigilância de todos os bens, o ouro, a prata, os tesouros raros e os vários armazéns, mas nunca pensou em apropriar-se da mais pequena soma. Continuou a viver no mesmo local de sempre, vendo-se a si mesmo como uma pessoa humilde e de baixa condição.
“Após ter passado algum tempo, o pai percebeu que o filho, a pouco e pouco, ia-se tornando mais auto confiante e disposto a concretizar tarefas importantes, apesar da opinião depreciativa que tinha de si mesmo anteriormente. Verificando que o seu fim estava próximo, ordenou-lhe que marcasse uma reunião com o rei do país, os ministros, os nobres e os proprietários. Quando estavam todos juntos, fez o seguinte anúncio: “Senhores, deveis saber que este é meu filho de nascimento. Em tal cidade ele deixou-me e fugiu e por cinquenta anos acarretou sofrimentos e dificuldades. Tal é o seu nome original e tal é o meu nome. No passado, quando ainda vivia na minha cidade de nascimento, preocupava-me com ele e saí a procurá-lo. Algum tempo depois, subitamente, calhei de o encontrar. Este é verdadeiramente o meu filho e eu sou o pai dele. Agora, tudo o que me pertence, todos as minhas posses e fortuna passam por direito a pertencer-lhe. Todos os assuntos de receitas e despesas ocorridos no passado são já do seu conhecimento.”
“Honrado Pelo Mundo, quando o filho pobre ouviu estas palavras do pai, foi invadido por uma grande alegria, tendo ganho o que nunca possuíra, e pensou para si: “Originalmente nunca tive qualquer ideia de cobiça por essas coisas. No entanto estes armazéns de tesouros vieram por si mesmos ter comigo!
“Honrado Pelo Mundo, este homem velho com as suas riquezas não é senão o Tathagata e nós somos como filhos de Buda. O Tathagata diz-nos constantemente que somos seus filhos. Mas por causa dos três sofrimentos, Honrado Pelo Mundo, no meio do nascimento e da morte, sofremos ansiedades ardentes, ilusões e ignorância, deleitando-nos e apegando-nos às doutrinas menores.
Mas hoje o Honrado Pelo Mundo fez-nos ponderar cuidadosamente, pôr de lado essas doutrinas, os debates impuros e frívolos.
“Fomos diligentes e esforçados nestas matérias até alcançarmos o nirvana, o que é como o salário de um dia. Assim que o atingimos, os nossos corações encheram-se de alegria e consideramos que isso era suficiente. De imediato dissemos para nós mesmos, “Por termos sido diligentes e esforçados em relação à Lei Budista, ganhamos esta abertura e riqueza de entendimento.”
“Mas o Honrado Pelo Mundo, sabendo como, desde o passado, as nossas mentes estavam apegadas a desejos demeritórios e se deleitavam com doutrinas menores, perdoou-nos e tolerou-nos assim mesmo, sem tentar avançar demasiado, dizendo, “Vocês virão a possuir a perspicácia do Tathagata, a vossa porção do repositório de tesouros!” Em vez disso, o Honrado Pelo Mundo usou o poder dos meios hábeis, e ensinou-nos a sabedoria do Tathagata, de tal forma que pudemos escutar o Buda e alcançar o nirvana, o que é apenas o salário de um dia. E por termos considerado isto um grande ganho, não tínhamos desejo de seguir o Grande Veículo.
“Além disso, apesar de expormos e propagarmos a sabedoria de Buda em prol dos bodhisattvas, não aspirávamos alcançá-la. Porque digo isto? Porque o Buda, sabendo que as nossas mentes se deleitavam nas doutrinas menores, empregou o poder dos meios hábeis para nos ensinar de forma adequada. Por isso nós não sabíamos que éramos na verdade filhos de Buda. Agora sabemo-lo finalmente.
“Em relação à sabedoria de Buda, o Honrado Pelo Mundo é sempre generoso. Porque digo isto? Desde sempre que somos verdadeiramente filhos de Buda, mas deleitávamo-nos apenas nas doutrinas menores. Se tivéssemos o tipo de mente que se deleita nas doutrinas maiores, então o Buda ter-nos-ia ensinado a Lei do Grande Veículo.
“Agora neste sutra o Buda expõe apenas o veículo único. E no passado, quando em presença dos bodhisattvas ele depreciava os ouvintes que se compraziam na doutrina menor, o Buda estava afinal a empregar o Grande Veículo para nos ensinar e converter. Por isso dizemos que, apesar de originalmente não termos uma mente que cobiçasse tal coisa, agora o grande tesouro do Rei do Dharma chegou por si mesmo até nós. É algo que os filhos de Buda têm o direito de adquirir, e agora eles alcançaram-no inteiramente.”
Nessa altura Mahakashyapa, desejando expor o sentido das suas palavras uma vez mais, falou em verso, dizendo:
Hoje ouvimos
a voz do ensinamento do Buda
e dançamos de alegria,
tendo ganho o que nunca possuímos.
O Buda declara que os ouvintes
serão capazes de atingir a Iluminação.
Este cacho de jóias insuperáveis,
veio até nós de forma imprevista.
É como o caso de um rapaz
que, ainda jovem e sem entendimento,
abandonasse o seu pai e fugisse,
indo para uma terra longínqua,
andando de um país para outro
por mais de cinquenta anos.
O seu pai, preocupado,
procurou-o em todas as direcções
até que, cansado de procurar,
se fixou numa certa cidade.
Aí construiu uma residência
onde pudesse dar largas aos cinco desejos.
A sua casa era grande e luxuosa,
com grandes quantidades de ouro, prata,
madrepérola, ágata, pérolas, lápiz-lázuli,
elefantes, cavalos, touros,
palanquins, carruagens,
campos de cultivo, empregados
e outras pessoas em grande número.
Envolveu-se em negócios lucrativos
em sua casa e nas terras das redondezas,
e tinha comerciantes e vendedores ambulantes
espalhados por toda a parte.
Milhares, dezenas de milhar, milhões
rodeavam-no e prestavam-lhe reverência;
gozava constantemente dos favores
e considerações dos governantes.
Os oficiais e famílias poderosas
todos se juntavam prestando-lhe honrarias,
e os que por uma ou outra razão
se juntavam à sua volta eram muitos.
Essa era a sua vasta fortuna,
o seu grande poder e influência.
Mas ele estava velho e decrépito
e recordava o seu filho com mais ansiedade do que nunca,
dia e noite sem pensar em mais nada:
“Agora aproxima-se a hora da minha morte.
Mais de cinquenta anos passaram
desde que aquele rapaz tolo me abandonou.
Os meus armazéns repletos de mercadoria –
o que será feito deles?”
Nessa altura o filho pobre
andava à procura de roupa e comida,
indo de terra em terra, de país para país,
por vezes encontrando algo,
por vezes não encontrando nada,
faminto e macilento,
o seu corpo coberto de feridas e infecções.
À medida que se deslocava de lugar em lugar,
chegou à cidade onde o seu pai vivia,
mudando de um trabalho para outro
até chegar à casa do seu pai.
Nessa altura, o homem rico
tinha estendido um grande dossel de jóias
dentro dos seus portões
e estava sentado no seu trono de leão,
rodeado pelos seus dependentes
e vários empregados e guardas.
Alguns estavam a contar ouro, prata
e objectos preciosos,
ou registando em livros
as entradas e saídas de dinheiro.
O filho pobre,
observando quão eminente e distinto era o seu pai,
pensou tratar-se do rei de algum país
ou alguém da mesma condição.
Alarmado e cheio de admiração,
perguntou a si mesmo porque tinha ido até ali.
Secretamente pensou para si,
se eu ficar aqui muito mais tempo
ainda acabo por ser preso
ou condenado a trabalhos forçados!
Logo que este pensamento lhe ocorreu,
fugiu daquele local,
perguntando onde haveria uma vila modesta
onde pudesse arranjar emprego.
O homem rico nessa ocasião,
sentado no seu trono de leão,
viu o seu filho à distância
e reconheceu-o sem nada dizer.
Imediatamente instruiu um mensageiro
para correr atrás dele
e o trazer de volta.
O filho pobre, gritando de terror,
caiu de aflição.
“Este homem mandou-me prender
e de certeza que me vai mandar matar!
Pensar que a minha busca por comida e vestuário
havia de me trazer a isto!”
O homem rico sabia que o seu filho
era ignorante e humilde.
“Ele nunca acreditará nas minhas palavras,
nunca acreditará que eu sou o seu pai.”
Então empregou um meio hábil,
mandando outros homens ter com o seu filho,
um só com um olho, outro débil e grosseiro,
completamente destituídos de qualquer aparência imponente,
dizendo-lhes, “Falem com ele
e digam-lhe que eu lhe darei emprego
para remover excremento e sujidade,
pagar-lhe-ei o dobro do salário habitual.”
Quando o filho pobre ouviu isto ficou satisfeito,
foi com os mensageiros e trabalhou a remover excremento e sujidade
e a limpar as dependências da casa.
Da sua janela o homem rico
podia observar constantemente o seu filho,
pensando como ele era ignorante e humilde,
deleitando-se nesse trabalho menor.
Nessas alturas o homem rico punha uma roupa suja e esfarrapada,
pegava num utensílio para remover excremento
e ia até junto do seu filho,
usando este meio hábil para se aproximar dele,
encorajando-o a trabalhar diligentemente.
“Aumentei os teus proventos e dei-te óleo para espalhares nos pés.
Verei se tens comida e bebida suficiente,
cama e roupa espessa e quente.”
Outras vezes falava-lhe com severidade:
“Deves trabalhar arduamente!”
ou então dizia-lhe com uma voz gentil,
”És como um filho para mim.”
O homem rico, sendo sábio,
gradualmente foi permitindo ao seu filho
entrar e sair da casa.
Após terem passado vinte anos,
pô-lo na gestão dos assuntos domésticos,
mostrando-lhe o seu ouro, prata,
pérolas, cristal, e as outras coisas
que eram recebidas e trocadas,
de modo a que ele ficasse ao corrente de tudo.
Apesar do filho continuar a morar fora dos portões,
dormindo num monte de palha,
vendo-se a si mesmo como sendo pobre,
pensando, ”Nada disto é meu”,
o pai sabia que as suas perspectivas se iam alargando
e tornando mais magnânimes.
Desejando doar ao filho as suas riquezas e bens,
o pai juntou os seus dependentes,
o rei do país e os ministros,
os nobres e os proprietários.
Na presença desta grande assembleia declarou,
“Este é o meu filho
que me abandonou e vagueou pelo mundo
durante cinquenta anos.
Desde que o encontrei,
passaram-se vinte anos.
Há muito tempo, em tal e tal cidade,
quando perdi o meu filho,
viajei por toda a parte à sua procura
até ter vindo aqui parar.
Tudo o que possuo,
as minhas propriedades e empregados,
eu entrego-as inteiramente a ele
para que faça o que entender.”
O filho pensou então que no passado ele tinha sido pobre,
humilde e ignorante,
mas agora recebera do seu pai
este enorme legado de tesouros raros,
em conjunto com as casas do seu pai
e todos os seus bens e fortuna.
Ficou cheio de grande alegria,
tendo ganho o que nunca antes possuíra.
Assim é o Buda.
Ele sabe as nossas preferências mesquinhas,
e por isso nunca nos disse,
“Podeis atingir a Iluminação.”
Em vez disso explicou-nos
como poderíamos livrar-nos de falhas,
empreender o pequeno veículo
e sermos Discípulos Menores,
discípulos ouvintes.
Então o Buda mandou-nos
difundir a suprema via
e explicar que aqueles que a praticam
serão aptos a atingir a Iluminação.
Recebemos os ensinamentos de Buda
e em prol dos grandes bodhisattvas
utilizamos causas e condições,
várias metáforas e parábolas,
uma variedade de palavras e frases,
para pregar a via insuperável.
Quando os filhos de Buda
recebiam de nós a Lei,
ponderavam dia e noite,
praticando-a diligentemente e com esforço.
Nessa altura o Buda
outorgava-lhes profecias, dizendo,
“Numa existência futura
conseguirás atingir a Iluminação.”
Os vários Budas
na sua Lei do repositório secreto
estabeleceram os verdadeiros factos
unicamente em prol dos bodhisattvas;
não é para nós
que eles expõem as verdadeiras essências.
É como o caso do filho pobre
que foi capaz de se aproximar do seu pai.
Apesar de conhecer as posses do seu pai,
no seu coração ele não tinha qualquer intenção de se apoderar delas.
Assim, apesar de ensinar-mos
o tesouro do repositório da Lei do Buda,
não procurávamos atingí-la,
e desta forma o nosso caso é semelhante.
Nós procurávamos apenas limpar o que existia em nós,
acreditando ser isso suficiente.
Nós compreendíamos apenas isto
e nada sabíamos das outras matérias.
Ainda que ouvíssemos falar
da purificação de terras de Buda,
de ensinar e converter os seres viventes,
não nos deleitávamos nessas coisas.
Porquê?
Porque todos os fenómenos
são uniformemente vazios, tranquilos,
sem nascimento ou extinção,
sem grandeza ou pequenez,
sem perdas, sem acção.
E quando se pondera desta forma
não se pode sentir deleite ou alegria.
Através da longa noite,
em relação à sabedoria de Buda
nós éramos sem avidez, sem apego,
sem qualquer desejo de a possuir.
Acreditávamos
possuir a derradeira Lei.
Através da longa noite
praticávamos a Lei da vacuidade
libertando-nos do triplo mundo
e da sua carga de sofrimento e cuidado.
Estávamos na nossa existência final,
próximos do nirvana.
Através do ensinamento e da conversão do Buda
ganhamos uma via que não era vã,
e procedendo assim
expiamos a nossa dívida
para com a bondade de Buda.
Apesar de, em prol dos filhos de Buda,
pregarmos a Lei do Bodhisattva,
incitando-os a procurar a via do Buda,
nós nunca aspiramos a essa Lei.
Estávamos então abandonados
pelo nosso guia e mestre
porque ele observou o que ia nas nossas mentes.
Desde o princípio
ele nunca nos encorajou
ou nos falou do verdadeiro benefício.
Era como o homem rico
que sabia que as ambições do seu filho eram fracas
e que usou o poder dos meios hábeis
para suavizar e moldar a sua mente,
de forma a, mais tarde,
lhe confiar todos os seus tesouros e fortuna.
Assim é o Buda,
recorrendo a subtis linhas de acção.
Conhecendo as preferências mesquinhas de alguns,
ele usa o poder dos meios hábil
para moldar e temperar as suas mentes,
e só então lhes ensina a grande sabedoria.
Hoje ganhamos
o que nunca possuíramos antes;
o que nunca tínhamos previamente esperado
veio até nós por si mesmo.
Somos como o filho pobre
que ganhou um tesouro imensurável.
Honrado Pelo Mundo,
agora ganhamos a via e o seu fruto;
através da Lei sem falhas
ganhamos a pura visão.
Através da longa noite
nós observamos os puros preceitos do Buda
e hoje pela primeira vez
ganhamos o fruto, a recompensa.
Por muito tempo, na Lei do Rei do Dharma,
levamos a cabo práticas brahma;
agora obtivemos o estado sem falhas,
o grande e insuperável fruto.
Agora tornámo-nos verdadeiros ouvintes,
porque daremos voz à via do Buda
e fá-la-emos ouvir por todos.
Agora tornámo-nos verdadeiros arhats,
porque em toda a parte
entre os seres celestiais e humanos,
demónios e Brahmas dos vários mundos,
merecemos receber oferendas.
O Honrado Pelo Mundo na sua grande misericórdia
faz uso de uma coisa rara,
ensinando e convertendo com piedade e compaixão,
trazendo-nos benefícios.
Em inumeráveis milhões de kalpas
quem poderá alguma vez recompensá-lo?
Ainda que lhe ofereçamos as nossas mãos e pés,
curvando as nossas cabeças em respeitosa obediência
e apresentemos todos os tipos de ofertas,
nenhum de nós lhe poderá alguma vez pagar.
Ainda que o transportássemos no alto das nossas cabeças,
o levássemos nos nossos ombros
por kalpas numerosos como as areias do Ganges,
prestando-lhe reverência de todo o coração;
ainda que lhe levássemos comidas delicadas,
com incontáveis mantos debruados a jóias,
enxovais, vários tipos de poções e remédios;
ainda que fizéssemos tudo isto como oferenda
por kalpas numerosos como as areias do Ganges,
ainda assim não lhe poderíamos pagar.
Os Budas possuem
imensuráveis, ilimitados,
inimaginavelmente grandes, raramente vistos
poderes transcendentais.
Livres de falhas, livres de acção,
estes reis das doutrinas, em prol dos fracos e humildes
exercem a paciência nestas matérias;
aos comuns mortais apegados às aparências
pregam de acordo com o que é apropriado.
Em relação à Lei, os Budas
são capazes de exercer uma total liberdade.
Eles compreendem os vários desejos e alegrias
dos seres viventes, bem como os seus diferentes anseios e habilidades,
e podem ajustar às suas capacidades,
empregando inumeráveis metáforas
para lhes expor a Lei.
Utilizando as boas raízes
plantadas pelos seres viventes em prévias existências,
distinguindo entre aqueles cujas raízes estão maduras
e aqueles cujas raízes ainda não amadureceram,
executam vários cálculos,
discriminações e percepções,
e então tomam a via do veículo único
e de acordo com o que é apropriado,
ensinam-na como se fosse tripla.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capitulo Cinco:
A Parábola das Ervas Medicinais
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo disse a Mahakashyapa e aos outros discípulos maiores: “Excelente, excelente, Kashyapa. Deste uma excelente descrição das bênçãos do Tathagata. É tal como disseste, o Tathagata possui na verdade imensuráveis, ilimitadas asamkhyas de bênçãos, e mesmo que tu e os outros dispendessem imensuráveis milhões de kalpas nunca conseguiriam acabar de as descrever.
“Kashyapa, deves entender isto: o Tathagata é o rei das doutrinas. No que ele ensina nada é em vão. Em relação às várias doutrinas, ele emprega a sabedoria como um meio hábil na sua exposição. Daí que todas as doutrinas por ele expostas se expandem até onde houver sabedoria e entendimento. O Tathagata observa e compreende o fim para que tende cada doutrina. Ele também entende o funcionamento mais íntimo da mente de cada ser vivente, penetrando nela completamente e sem impedimentos. Em relação às doutrinas ele é completamente iluminado e revela aos seres viventes a totalidade da sabedoria.
“Kashyapa, é como as plantas e árvores, arbustos e bosques e as ervas medicinais, extremamente variadas, cada uma com o seu nome e matiz, que crescem nas colinas e riachos, nos vales e diferentes solos do multivariado mundo. Nuvens densas espalham-se sobre ele, cobrindo a totalidade desse mundo diversificado e num momento saturando-o completamente. A humidade penetra todas as plantas, árvores, arbustos, bosques e ervas medicinais igualmente, até às suas grandes raízes, grandes caules e grandes folhas. Cada uma das árvores, grande ou pequena, dependendo do facto de ser de natureza superior, média ou inferior, recebe a sua porção. A chuva que cai de cada grupo de nuvens está de acordo com cada natureza e espécie particular, fazendo-a despontar e amadurecer, vindo a dar flores e frutos. Ainda que estas plantas e árvores estejam na mesma terra e sejam regadas pela mesma chuva, cada uma tem as suas diferenças e particularidades.
“Kashyapa, deves compreender que o Tathagata é assim. Ele aparece no mundo como uma grande nuvem. Com alta voz alcança todos os seres humanos ou celestiais e todos os asuras do mundo inteiro, como uma grande nuvem espalhando-se ao longo do multivariado mundo. No meio da grande assembleia, ele profere estas palavras: “Sou o Tathagata, digno de ofertas, de conhecimento recto e universal, de perfeita conduta e claridade, bem-aventurado, compreendendo o mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda, Honrado Pelo Mundo. Aqueles que ainda não fizeram a travessia, eu os farei atravessar, aqueles que ainda não se libertaram, eu libertarei, aqueles que ainda não se apaziguaram, eu apaziguarei, aqueles que ainda não alcançaram o nirvana, eu conduzirei ao nirvana. Da presente e das futuras existências eu compreendo as verdadeiras circunstâncias. Eu sou alguém que tudo entende, tudo vê, compreende o caminho, desimpede o caminho, expõe o caminho. Vós, seres celestiais e humanos, asuras e outros, deveis vir aqui para que possa deixar-vos ouvir o Dharma!”
“Nessa altura os seres viventes de incontáveis milhares, dezenas de milhar, milhões de espécies vêem ao local onde se encontrava o Buda para ouvirem o Dharma. O Tathagata então observa se eles são diligentes nos seus esforços ou indolentes. De acordo com o que cada um é capaz de ouvir, ele ensina-lhes a Lei numa imensurável variedade de modo a que todos se deleitem e sejam capazes de benefícios excelentes desde aí.
“Uma vez que estes seres viventes tenham ouvido a Lei, gozarão de paz e segurança na presente existência e de boas circunstâncias em existências futuras, onde por intermédio da Via se tornarão alegres e poderão novamente ouvir a Lei. Tendo ouvido a Lei, escaparão dos obstáculos e dificuldades, e em relação às várias doutrinas serão capazes de exercitar totalmente os seus poderes, de modo a que gradualmente possam ir entrando na Via. É como a chuva caindo da grande nuvem sobre as plantas e árvores, arbustos, bosques e plantas medicinais. Cada uma, dependendo da sua espécie e natureza, recebe a sua porção de humidade e é capaz de despontar e crescer.
“A Lei exposta pelo Tathagata é de uma só forma, um só sabor, nomeadamente, a forma da emancipação, a forma da separação, a forma da extinção, que no final resulta numa sabedoria abarcando todas as espécies. Quando os seres viventes ouvem a Lei do Tathagata, ainda que a abracem, a leiam e recitem, praticando de acordo com os seus ditames, eles próprios não vêem nem compreendem as bênçãos que dessa forma estão a receber. Porquê? Porque apenas o Tathagata compreende as espécies, a forma, a substancia, a natureza destes seres viventes e sabe a que coisas eles se apegam, que coisas ponderam, que coisas praticam. Ele sabe a que Lei se apegam, que Lei ponderam, que Lei praticam, através de que Lei alcançam outras Leis, e quais.
“Os seres viventes existem numa variedade de ambientes, mas apenas o Tathagata vê as verdadeiras circunstâncias e as entende inteiramente. É como essas plantas e árvores, arbustos, bosques e ervas medicinais que não sabem se são de natureza superior, média ou inferior. Mas o Tathagata sabe que esta é a Lei de uma forma e um sabor, nomeadamente, a forma da emancipação, a forma da separação, a forma da extinção, a forma do nirvana absoluto, da tranquilidade e vacuidade constantes. O Buda compreende tudo isto. Mas porque ele pode ver os desejos que estão na mente dos seres viventes, ele guia-os e protege-os e por esta razão ele não lhes ensina de imediato a sabedoria que abarca todas as espécies.
“Tu e os outros, Kashyapa, fizeram uma coisa rara, pois conseguiram compreender como o Tathagata ensina a Lei em conformidade com o que é apropriado, ter fé nele e aceitá-lo. Porque digo isto? Porque o facto dos Budas, os Honrados Pelo Mundo, pregarem a lei em conformidade com o que é apropriado é difícil de acreditar e difícil de compreender.”
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor novamente o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
O Rei do Dharma, destruidor do ser,
quando aparece no mundo
procede de acordo com os desejos dos seres viventes
e ensina a Lei de várias maneiras.
O Tathagata, merecedor de ofertas e de reverência,
é profundo e de longo alcance na sabedoria.
Por muito tempo ele mantém o silêncio quanto ao essencial,
sem pressa de falar tudo de uma só vez.
Se aqueles que são sábios o ouvem
conseguem acreditar nele e compreendê-lo,
mas os que não têm sabedoria terão dúvidas e hesitações
e por todo o tempo permanecerão no erro.
Por esta razão, Kashyapa,
ele adapta-se a cada pessoa para permitir uma visão correcta.
Kashyapa, deves entender
que é como uma grande nuvem
que se levanta no mundo e o cobre inteiramente.
Esta nuvem benéfica
está cheia de humidade,
de relâmpagos e clarões,
e o som da tempestade ecoa ao longe
fazendo rejubilar as multidões.
Os raios do sol ficam velados e escondidos,
e uma nítida frescura vem cobrir a terra;
massas de escuridão, quase tangíveis,
descem e espalham-se.
A chuva cai em toda a parte,
descendo nas quatro direcções,
e a sua intensidade é imensurável,
alcançando todas as áreas da terra,
até às ravinas e vales das montanhas e dos rios,
até aos lugares remotos e isolados
onde crescem plantas, arbustos,
ervas medicinais, árvores grandes e pequenas,
grãos, arrozais,
canas de açúcar, vinhas.
A chuva rega-os a todos,
nenhum deixa de receber a sua parte,
o chão ressequido fica molhado,
ervas e árvores crescem viçosas.
O que cai das nuvens é de um único sabor,
mas as plantas e árvores,
arbustos e bosques,
aceitam cada um a porção de humidade que lhes convém.
Todas as várias árvores,
quer sejam superiores, médias ou inferiores,
tomam o que é ajustado à sua condição
e cada uma é assim capaz de despontar e crescer.
Raízes, caule, folhas,
brilhos e matizes das flores e frutos –
uma só chuva chega até elas
e todas ficam frescas e brilhantes,
quer a sua combinação de substância, forma e natureza
seja grande ou pequena,
a humidade que recebem é uma,
mas cada uma delas cresce e floresce à sua maneira.
Assim é o Buda
quando aparece no mundo,
comparável a uma grande nuvem
que cobre tudo em toda a parte.
Tendo aparecido no mundo
pelo bem dos seres viventes
estabelece distinções
ao expor a verdade dos fenómenos.
O grande sábio, o Honrado Pelo Mundo,
aos seres celestiais e humanos,
no meio de todos os seres,
pronuncia estas palavras:
Sou o Tathagata,
o mais honrado dos seres humanos.
Apareço neste mundo
como uma grande nuvem
que asperge humidade
sobre os seres viventes secos e mirrados,
para que consigam escapar ao sofrimento,
ganhem a alegria da paz e da segurança,
as alegrias deste mundo
e a alegria do nirvana.
Todos vós, seres celestiais e humanos nesta assembleia,
ouçam com cuidado e sem distracções!
Deveis reunir-vos aqui à volta
e escutar aquele que é inexcedivelmente honroso.
Sou o Honrado Pelo Mundo
e não tenho igual.
Por forma a trazer paz e segurança aos seres viventes
eu apareci no mundo
e pelo bem desta assembleia
prego o doce orvalho da pura Lei.
Esta Lei é de um único sabor,
o da emancipação, do nirvana.
Com um único, maravilhoso som
exponho e manifesto o seu sentido;
constantemente em prol do Grande Veículo
crio causas e condições.
Olho para as coisas
como sendo universalmente iguais,
não tenho mente para favorecer este ou aquele,
para gostar de um e detestar outro.
Eu sou sem ganância nem apegos
e não tenho limitação ou impedimento.
Em todas as ocasiões, para todas as coisas,
ensino a Lei igualmente;
assim como faria para uma única pessoa,
da mesma forma faço para numerosas pessoas,
constantemente exponho e ensino a Lei,
nunca fiz qualquer outra coisa,
vindo, indo, sentado ou de pé,
nunca até ao fim com fadiga ou desânimo.
Trago plenitude e satisfação ao mundo,
como a chuva que espalha humidade em toda a parte.
Eminentes ou medíocres,
superiores ou inferiores,
cumpridores dos preceitos, violadores dos preceitos,
inteiramente dotados de conduta apropriada
ou não inteiramente dotados,
com pontos de vista correctos ou incorrectos,
de capacidades apuradas ou fracas –
faço a chuva do Dharma cair sobre eles igualmente,
sem lassidão ou negligência.
Quando os vários seres viventes ouvem a minha Lei,
recebem-na de acordo com as suas capacidades,
nos seus diferentes ambientes.
Alguns habitam no reino dos humanos e dos seres celestiais,
dos Reis Que Fazem Girar a Roda,
Shakra, Brahma e os outros reis –
estes são as ervas medicinais inferiores.
Alguns entendem a Lei que é sem falhas,
estão aptos a atingir o nirvana,
a adquirir os seis poderes transcendentais,
e a ganhar em particular os três entendimentos,
ou então vivem sozinhos nas florestas montanhosas,
praticando constantemente a meditação
e alcançando a iluminação dos pratyekabudas –
estes são as ervas medicinais médias.
Outros ainda procuram o lugar do Honrado Pelo Mundo,
convencidos de que se podem tornar Budas,
esforçando-se diligentemente e praticando a meditação –
estes são as ervas medicinais superiores.
Existem ainda filhos de Buda
que devotam a sua mente unicamente à via de Buda,
constantemente praticando a misericórdia e a compaixão,
sabedores de que eles próprios atingirão a Iluminação,
certos disso e sem nunca duvidarem,
a esses chamo pequenas árvores.
Esses que habitam em paz nos seus poderes transcendentais,
girando a roda da não-regressão,
salvando inumeráveis milhões
de centenas de milhares de seres viventes –
a bodhisattvas como esses chamo grandes árvores.
A igualdade dos ensinamentos do Buda
é como uma chuva de um único sabor,
mas dependendo da natureza de cada ser vivente,
o modo como são recebidas não é uniforme,
tal como as várias plantas e árvores
recebem cada uma a humidade de forma diferente.
O Buda emprega esta parábola
como um meio excelente
para abrir e revelar este assunto
usando vários tipos de palavras e frases
e expondo uma única Lei,
mas em relação à sabedoria do Buda
isto não é mais do que uma gota do oceano.
Eu faço cair a chuva do Dharma,
enchendo o mundo todo,
e este Dharma de um único sabor,
é praticado por cada um de acordo com o seu poder individual.
É como esses arbustos e bosques,
ervas medicinais e árvores
que, conforme sejam grandes ou pequenos,
pouco a pouco crescem viçosos e belos.
A Lei dos Budas é constantemente de um só sabor,
levando os muitos mundos a atingir a plena satisfação em toda a parte;
através da prática gradual e passo a passo,
todos os seres podem ganhar os frutos da via.
Aos ouvintes e os pratyekabudas
habitando nas florestas montanhosas,
vivendo a sua última existência,
ouvindo a Lei e ganhando os seus frutos –
podemos chamar-lhes ervas medicinais
que crescem e amadurecem à sua maneira.
Se existirem Bodhisattvas
constantes e firmes na sabedoria,
que compreendam o triplo mundo
e busquem o supremo veículo,
a estes chamamos pequenas árvores
que crescem e amadurecem.
Quanto àqueles que permanecem em meditação,
tendo ganho a força dos poderes transcendentais,
ouvido acerca da vacuidade de todos os fenómenos,
rejubilado em suas mentes,
emitindo incontáveis raios de luz para salvar seres viventes –
a esses chamamos grandes árvores
que ganharam crescimento e maturidade.
Desta forma, Kashyapa,
a Lei ensinada pelo Buda
é comparável a uma grande nuvem
que, com chuva de um único sabor,
rega as flores humanas
de modo a que cada uma possa frutificar.
Kashyapa, deves compreender
que através de várias causas e condições,
vários tipos de metáforas e parábolas,
eu abro e revelo a via do Buda.
Este é um meio hábil que eu emprego
e o mesmo é verdadeiro quanto aos outros Budas.
Agora, para ti e para os outros
eu revelo a mais derradeira verdade:
nenhum de entre a multidão de ouvintes
entrou na fase de extinção.
O que estais a praticar
é a via do bodhisattva,
e à medida que avançais em prática e aprendizagem
estais certos de alcançar o Despertar.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capitulo Seis:
Atribuição de Profecias
Nessa ocasião o Buda, tendo acabado de recitar estes versos, fez um anúncio à grande assembleia, falando do seguinte modo: ”Este meu discípulo Mahakashyapa em futuras existências, será capaz de chegar à presença de três mil biliões de Budas, Honrados Pelo Mundo, de lhes oferecer dádivas, de lhes prestar reverência, de honrá-los e louvá-los, proclamando largamente as inumeráveis grandes doutrinas dos Budas. No seu renascimento final será capaz de se tornar um Buda chamado Luz Radiosa (Rasmiprabhâsa), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda, Honrado Pelo Mundo.
“A sua terra será chamada Virtude Luminosa (Avabhâsa) e o seu kalpa será chamado Grande Adorno (Mahâvyûha). A duração da vida desse Buda será de doze pequenos kalpas. A sua Correcta Lei perdurará no mundo por vinte pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por vinte pequenos Kalpas.
“O seu reino será adornado majestosamente, livre do mal e das impurezas, de cacos e entulho, de silvas e espinhos, ou do imundo lixo das latrinas. A terra será plana e suave, sem cumes nem barrancos, fossos ou colinas. O chão será de lápis lazúli, com renques de árvores de jóias e cordões de ouro a marcar os limites dos caminhos. Flores de jóias estarão espalhadas por toda a parte e tudo estará puro e limpo. Os bodhisattvas desse reino serão em número de incontáveis milhares de milhões e a multidão de ouvintes será igualmente inumerável. Não existirão trabalhos demoníacos e os acólitos do demónio estarão lá a proteger a Lei do Buda.”
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor novamente o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Anuncio a estes monges:
quando aplico o olho Búdico
para observar Kashyapa,
vejo que numa futura existência,
após inumeráveis Kalpas terem passado,
será capaz de atingir a Iluminação.
Em existências futuras
oferecerá esmolas e estará em presença
de três mil biliões de Budas,
Honrados Pelo Mundo.
Em prol da sabedoria Búdica
levará a cabo práticas brahma meticulosamente
e oferecerá esmolas aos inexcedíveis,
mais honrados dos seres humanos.
Depois de ter feito isso e de ter praticado
todos os insuperáveis tipos de sabedoria,
na sua encarnação final
será capaz de se tornar um Buda.
A sua terra será pura e limpa,
o chão de lápis-lazúli.
Muitas árvores de jóias
estarão alinhadas junto aos caminhos,
cordões de ouro marcarão as bermas
e quem os vir rejubilará.
Emitirá constantemente uma agradável fragrância,
com pilhas de flores raras
e muitos tipos de coisas estranhas e maravilhosas
para seu adorno.
A terra será plana e suave,
sem montes nem depressões.
A multidão de bodhisattvas
estará para além de qualquer cálculo,
com suas mentes controladas e dóceis,
tendo alcançado grandes poderes transcendentais,
e irão apoiar e abraçar
as escrituras Búdicas do Grande Veículo.
A multidão de ouvintes
será livre de falhas, na sua última encarnação,
filhos do Rei do Dharma,
e o seu número estará para além de qualquer cálculo –
mesmo quando vistos com o olho celestial
será impossível determinar o seu número.
A duração da vida deste Buda
será de doze pequenos kalpas.
O Honrado Pelo Mundo Luz Radiosa
será como aqui está descrito.
Nessa ocasião o grande Maudgalyayana, Subhuti e Mahakatyayana, todos eles tremendo de agitação, juntaram as palmas das mãos e com uma só mente fitaram o Honrado Pelo Mundo, os seus olhos sem se desviarem sequer por um instante. Juntando as suas vozes num único som, falaram em verso, dizendo:
Grande e poderoso herói, Honrado Pelo Mundo,
Rei do Dharma, Leão dos Shakyas,
por te compadeceres de nós,
favorece-nos com as palavras do Buda!
Por compreenderes a nossa mente mais íntima,
seria como um banho de doce orvalho,
lavando a nossa febre,
se nos predissesses o nosso destino.
Supõe que alguém, vindo de uma terra de fome,
encontra subitamente o festim de um rei.
Com o seu coração ainda cheio de dúvida e temor,
não se atreveria a comer de imediato,
sem para isso ter sido instruído pelo rei.
Somos agora como essa pessoa,
pois apesar de recordarmos os erros do Veículo Menor,
não sabemos o que fazer
para ganhar a insuperável sabedoria do Buda.
Ainda que ouçamos a voz de Buda
dizendo-nos que atingiremos a Iluminação,
ainda albergamos no coração ansiedade e medo,
tal qual a pessoa que não se atreve a comer.
Mas se agora o Buda nos outorgasse uma profecia,
então a alegria e a paz de espírito seriam nossas.
Grande e poderoso herói, Honrado Pelo Mundo,
rogamos-te que nos outorgues uma profecia,
assim como instruirias uma pessoa esfomeada a comer.
Então o Honrado Pelo mundo, compreendendo os pensamentos dos seus discípulos maiores, fez este anúncio aos monges: “Em futuras existências, Subhuti estará na presença de trinta centenas de milhares de milhões de Budas, oferecendo-lhes esmolas, honrando-os e louvando-os. Levará a cabo constantemente práticas brahma e cumprirá inteiramente a via do bodhisattva, e na sua encarnação final conseguirá atingir o estado de Buda. O seu título será Tathagata Forma Rara (Sasiketu), merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda, Honrado Pelo Mundo.
“O seu kalpa será chamado Possessão de Jóias (Ratnasambhava) e a sua terra será chamada Nascido de Jóias (Ratnaprabhâsa). A terra será plana e suave, com o chão feito de cristal, será adornada com árvores de jóias e livre de colinas e fossos, cumes e barrancos e da imundície das latrinas. Flores de jóias cobrirão o terreno e tudo será puro e limpo. As pessoas deste reino habitarão todas em terraços de jóias, em raros e maravilhosos pavilhões e torres. Os seus discípulos ouvintes serão incontáveis, ilimitados, para lá da capacidade de cálculo ou concepção. A multidão de bodhisattvas perfazerá um número de incontáveis milhares, dezenas de milhares, milhões de nayutas. A duração da vida desse Buda será de doze pequenos kalpas. A sua Correcta Lei perdurará no mundo por vinte pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por vinte pequenos Kalpas. Este Buda estará constantemente levitando no firmamento, expondo a Lei para a assembleia e salvando inumeráveis multidões de bodhisattvas e de ouvintes”.
Nessa ocasião, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Multidão de monges,
Vou fazer-vos um anuncio.
Deveis ouvir o que digo
sem qualquer distracção,
o meu discípulo maior, Subhuti,
está destinado a tornar-se um Buda
com o título Forma Rara.
Oferecerá esmolas a incontáveis dezenas
de milhares de milhões de Budas.
Seguindo a prática dos Budas,
gradualmente cumprirá a grande via,
e na sua encarnação final
adquirirá as trinta e duas marcas.
Será imponente, excepcional, maravilhoso,
como uma montanha de jóias.
A sua Terra Búdica
será supremamente adornada e pura;
nenhum ser vivente que a veja
deixará de a amar e de se deleitar nela.
Esse Buda
salvará aí incalculáveis multidões.
Nessa Terra de Buda
existirão muitos bodhisattvas,
todos eles de apuradas capacidades,
girando a roda da não-regressão.
Essa terra será constantemente
adornada com bodhisattvas.
A multidão de ouvintes
estará para além de qualquer cálculo,
todos obterão os três entendimentos
e exercitarão os seis poderes transcendentais.
Residirão nas oito emancipações
e possuirão grande autoridade e virtude.
A Lei pregada por esse Buda
manifestará imensuráveis
poderes transcendentais e transformações
de natureza maravilhosa.
Seres celestiais e humanos,
numerosos como as areias do Ganges,
com as palmas das mãos unidas,
escutarão e receberão em conjunto as palavras de Buda.
Esse Buda terá uma duração de vida
de doze pequenos kalpas,
a sua Correcta Lei durará no mundo
vinte pequenos kalpas
e a sua Lei Adulterada
durará vinte pequenos kalpas.
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, falou uma vez mais à multidão de monges: “Agora digo-vos isto. O Grande Katyayana, em futuras existências, apresentará variados artigos como oferendas e servirá oito centenas de milhões de Budas, prestando-lhes honras e louvores. Após a extinção desses Budas, construirá para cada um uma torre memorial medindo cem yojanas de altura e quinhentas yojanas quer de largura quer de comprimento. Serão feitas de ouro, prata, lápis-lazúli, madrepérola, ágata, pérolas e coral, todas estas sete preciosas substâncias combinadas. Numerosas flores, colares, incenso, grinaldas, óleos, pálios de seda, fitas e estandartes serão apresentadas como oferendas às torres memoriais. E após concluir tudo isto, fará uma vez mais oferendas a vinte mil milhões de Budas e repetirá todo o processo.
“Quando tiver acabado de oferecer esmolas aos Budas, ele cumprirá inteiramente a via do bodhisattva e tornar-se-á um Buda com o título Tathagata Brilho Dourado de Jambunada (Jambunada Prabhâsa), merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda, Honrado Pelo Mundo.
“A sua terra de Buda será plana e suave, com o chão feito de cristal, será adornada de árvores de jóias com cordões de ouro a marcar os limites dos caminhos. Flores maravilhosas cobrirão o terreno, toda ela será pura e limpa e quem a vir rejubilará. Os quatro modos malignos de existência, o inferno e os reinos de espíritos esfomeados, bestas e asuras, não existirão aí. Existirão muitos seres celestiais e humanos e multidões de bodhisattvas em inumeráveis dezenas de milhares de milhões adornarão essa terra. A duração da vida desse Buda será de vinte pequenos kalpas, a sua Correcta Lei perdurará no mundo por vinte pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por vinte pequenos Kalpas.”
Nessa ocasião, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Multidão de monges,
ouçam todos sem qualquer distracção,
pois naquilo que eu digo,
em nada se afasta da verdade.
O Grande Katyayana
oferecerá aos Budas
vários tipos de maravilhosos artigos,
e após a extinção desses Budas
levantará torres memoriais
feitas com os sete tesouros
e apresentará flores e incenso
como oferendas às relíquias.
Na sua encarnação final
ganhará a sabedoria Búdica
e alcançará a iluminação correcta e imparcial.
A sua terra será pura e limpa
e salvará inumeráveis dezenas
de milhares de milhões de seres viventes,
receberá oferendas
de todas as dez direcções.
O brilho deste Buda
ninguém conseguirá igualar.
O seu título Búdico será
Brilho Dourado de Jambunada.
Bodhisattvas e ouvintes,
cortando com todas as formas de existência,
incontáveis e imensuráveis em número,
adornarão a sua terra.
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, falou uma vez mais à multidão de monges: “Agora digo-vos isto. O Grande Maudgalyayana apresentará variados artigos como oferendas a oito mil Budas, prestando-lhes honras e louvores. Após a extinção destes Budas, construirá para cada um uma torre memorial medindo cem yojanas de altura e quinhentas yojanas quer de largura quer de comprimento. Serão feitas de ouro, prata, lápis-lazúli, madrepérola, ágata, pérolas e coral, todas estas sete preciosas substâncias combinadas. Numerosas flores, colares, incenso, grinaldas, óleos, pálios de seda, fitas e estandartes serão apresentadas como oferenda. Após tudo isto, fará uma vez mais oferendas a duzentas dezenas de milhares de milhões de Budas, repetindo todo o processo.
“Então será capaz de se tornar um Buda com o título Tathagata Fragrância de Sândalo de Tamalapatra (Tamâlapatrakandanagandha), merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda, Honrado Pelo Mundo. O seu kalpa será chamado Pleno de Alegria (Manobhirâma) e a sua terra Deleite da Mente (Ratipratipûrna). A terra será plana e suave, o chão feito de cristal, flores e pérolas estarão espalhadas por toda a parte, tudo será puro e limpo e quem a vir rejubilará. Existirão muitos seres celestiais e humanos e os bodhisattvas e ouvintes serão imensuráveis em número. A duração da vida desse Buda será de vinte e quatro pequenos kalpas, a sua Correcta Lei perdurará no mundo por quarenta pequenos kalpas e a sua Lei Adulterada por quarenta pequenos Kalpas.”
Então, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Este meu discípulo,
o Grande Maudgalyayana,
quando despir o seu presente corpo,
será capaz de ver oito centenas,
duzentas dezenas de milhares de milhões de Budas,
Honrados Pelo Mundo,
e em prol da via de Buda
oferecer-lhes-á esmolas,
prestar-lhes-á honra e reverência.
Onde estes Budas estiverem
ele constantemente
levará a cabo práticas brahma
e por inumeráveis kalpas
abraçará e sustentará a Lei de Buda.
Quando estes Budas se tiverem extinguido,
levantará torres, feitas com os sete tesouros,
decoradas com flores, incenso e música.
Passo a passo cumprirá
todos os deveres da via do bodhisattva
e na terra chamada Deleite da Mente
será capaz de se tornar um Buda
chamado Fragrância de Sândalo de Talamapatra.
A duração da sua vida
será de vinte e quatro kalpas.
Em prol dos seres celestiais e humanos
exporá constantemente a via de Buda.
Ouvintes inumeráveis
como as areias do Ganges,
com os três entendimentos e os seis poderes transcendentais,
manifestarão grande autoridade e virtude.
Incontáveis bodhisattvas
serão de vontade firme, esforçados e diligentes,
e em relação à sabedoria Búdica
nunca retrocederão.
Após este Buda se ter extinguido,
a sua Correcta Lei perdurará
por quarenta pequenos kalpas
e a sua Lei Adulterada
terá igual duração.
Os meus vários discípulos,
plenamente imbuídos de dignidade e virtude,
em número de quinhentos,
receberão todos igual profecia.
Em relação às causa e condições das existências passadas,
no que respeitam a mim e a vós,
irei agora ensinar.
Deveis ouvir cuidadosamente.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capitulo Sete:
A Parábola da Cidade Fantasma
O Buda fez este anúncio aos monges: Algures num passado remoto, há imensuráveis, ilimitados, incontáveis kalpas atrás, existiu um Buda chamado Excelência da Grande e Universal Sabedoria (Mahâbhigñâgñanâbhibhû), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. A sua terra era chamada Bem Constituída e o seu kalpa Grande Forma.
“Então monges, desde a extinção desse Buda , um grande, longo tempo passou. Suponham, por exemplo, que alguém pega em todas as partículas de terra deste universo e as reduz a pó, e à medida que passa por mil terras na direcção Este, larga um minúsculo grão de pó. Novamente, ao passar por outras mil terras, solta outro grão de pó, e suponham que prossegue nesta direcção até acabar de deitar todos os grãos de pó feitos com as partículas de terra. Qual é a vossa opinião? Pensais que, em relação a estas terras, os mestres de cálculo ou os seus discípulos seriam capazes de determinar o número de terras visitadas desta forma, ou não?
“Isso seria impossível, Honrado Pelo Mundo.”
“Agora monges, suponham que alguém pegava nas terras através das quais esse homem tinha passado, quer tivesse largado uma partícula de terra ou não, e as moía em pó, e suponham que cada uma dessas partículas de pó representava um kalpa. Os kalpas passados desde a extinção desse Buda excederiam esse número de partículas de pó em imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar de milhões de kalpas. Mas porque aplico o poder de conhecimento e visão do Tathagata, quando olho para esse longínquo passado, é como se fosse hoje.”
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor novamente o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Quando penso no passado,
imensuráveis, ilimitados kalpas atrás,
vejo que existiu um Buda,
mais honrado dos seres humanos,
chamado Excelência da Grande e Universal Sabedoria.
Se alguém usasse a sua força
para esmagar toda a terra do universo,
reduzindo-a a poeira,
e se passasse por mil mundos
e largasse uma partícula de pó,
e se continuasse desta forma
até ter esgotado todas as partículas,
e se então pegasse em todos os solos
dos mundos por onde havia passado,
quer tivesse ou não largado um grão de poeira,
e uma vez mais reduzisse essa terra a pó,
e posto isto cada grão de poeira representasse um kalpa –
o número de finíssimos grãos
seria menor do que a soma de kalpas
que passaram desde que esse Buda viveu.
Desde a extinção desse Buda ,
um imensurável número de kalpas
tal como este já passou.
O Tathagata, através da sua visão sem entraves,
conhece o tempo em que esse Buda se extinguiu
e os seus ouvintes e bodhisattvas
como se estivesse a presenciar essa extinção exactamente agora.
Monges, deveis entender
que a sabedoria do Buda é pura, subtil, maravilhosa,
sem falhas, sem impedimentos,
penetrando e alcançando imensuráveis kalpas.
O Buda anunciou aos monges: ”O Buda Excelência da Grande e Universal Sabedoria teve uma de vida de quinhentos e quarenta dezenas de milhares de milhões de nayutas de kalpas. Este Buda primeiramente sentou-se no lugar da iluminação e, tendo subjugado os exércitos do demónio, estava a ponto de alcançar anuttara-samyak-sambodhi mas as doutrinas dos Budas não apareceram diante de si. Esta situação continuou durante dez pequenos kalpas, o Buda sentado de pernas cruzadas, corpo e mente imóveis, mas as doutrinas dos Budas ainda assim não apareceram diante de si.
“Nessa altura os seres celestiais do paraíso Trayastrimsha tinham estendido para o Buda um trono de leão com uma yogana de altura sob uma árvore Boddhi, pretendendo que ele se sentaria ali após alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Logo que o Buda ocupou ali o seu lugar, os reis Brahma fizeram chover imensas flores celestiais, cobrindo o chão numa extensão de cem yoganas em redor. De tempos a tempos uma brisa fragrante vinha limpar as flores secas, e novas flores caíam do céu. Isto continuou sem interrupção pelo espaço de dez pequenos kalpas como uma oferta ao Buda. Até à altura em que ele se extinguiu, essa chuva de flores prosseguiu ininterruptamente. Os quatro Reis Celestiais, como oferta ao Buda, tocaram constantemente os tambores celestiais, enquanto outros seres celestiais tocaram instrumentos musicais celestes, todos durante dez pequenos kalpas. Até o Buda entrar em extinção esse era o estado de coisas.
“Então, monges, o Buda Excelência da Grande e Universal Sabedoria passou dez pequenos kalpas sem conseguir alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Antes do Buda deixar a vida familiar, tinha dezasseis filhos, o primeiro dos quais se chamava Sabedoria Acumulada. Cada um destes filhos tinha brinquedos e objectos raros de vários tipos, mas quando ouviram que o seu pai tinha alcançado anuttara-samyak-sambodhi, todos abandonaram esses objectos raros e foram ter com o Buda. As suas mães seguiram chorosas atrás deles.
“O seu avô, que era um rei sábio que faz girar a roda, em conjunto com cem ministros e centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de súbditos, juntou-se aos filhos do Buda que seguiam para o lugar da prática, todos ansiosos por chegar perto do Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria, oferecer-lhe dádivas, prestar-lhe honras, venerá-lo e louvá-lo. Quando chegaram, tocaram com a cabeça no chão fazendo vénias a seus pés. Quando terminaram de circundar o Buda, uniram as palmas das mãos e com uma única mente, fitaram reverentemente o Honrado Pelo Mundo e recitaram estes versos de louvor, dizendo:
O Honrado Pelo Mundo,
de grande autoridade e virtude,
por forma a salvar os seres viventes
passou imensuráveis milhões de anos
até que por fim conseguiu tornar-se um Buda.
Todos os seus votos foram cumpridos –
nenhuma fortuna poderia ser maior!
O Honrado Pelo Mundo
é raro de encontrar;
após ter tomado o seu lugar
passaram-se dez kalpas,
o seu corpo e as suas mãos e pés,
repousam tranquilos e imóveis,
a sua mente está constantemente calma e plácida,
nunca em agitação ou desordem.
No final ele alcança
eterna tranquilidade e extinção,
repousando na Lei sem falhas.
Agora, conforme observamos o Honrado Pelo Mundo
em tranquilidade, tendo completado a via de Buda,
ganhamos excelentes benefícios
e louvamo-lo e congratulamo-lo com grande alegria.
Os seres viventes suportam constantemente sofrimento e angustia,
ignorantes, sem mestre ou guia,
não se apercebendo da existência de uma via para pôr termo ao sofrimento,
não sabendo como procurar a emancipação.
Através da longa noite
vão-se embrenhando cada vez mais nos maus caminhos,
diminuindo a multidão de seres celestiais;
das trevas entram nas trevas,
sem nunca ouvirem o nome Buda.
Mas agora o Buda atingiu a inexcedível
tranquilidade da Lei sem falhas.
Nós e os seres celestiais e humanos
por este facto obtemos o maior beneficio.
Por esta razão curvamos as nossas cabeças
e dedicamos as nossas vidas àquele de honra inexcedível.
Nessa altura os dezasseis príncipes, tendo louvado o Buda nestes versos, incitaram o Honrado Pelo Mundo a fazer girar a roda da Lei, dizendo todos a uma só voz estas palavras: “Honrado Pelo Mundo, expõe a Lei. Assim fazendo trarás tranquilidade aos seres celestiais e humanos, confortando-os e beneficiando-os em larga medida.” Repetiram este pedido em verso, dizendo:
Herói sem par no mundo,
tu que te adornas com mil bênçãos
e atingiste a sabedoria insuperável –
rogamos-te que ensines para bem do mundo.
Salva-nos e liberta-nos
e às outras espécies de seres viventes.
Traça distinções, esclarece-nos
e permite que alcancemos a sabedoria.
Se nós podemos conquistar a Iluminação,
então todos os seres viventes o podem também fazer.
Honrado Pelo Mundo, tu conheces os pensamentos
que os seres viventes guardam no mais íntimo das suas mentes.
Conheces os caminhos que trilham
e a força da sua sabedoria,
os seus prazeres, as bênçãos que cultivaram,
as acções que levaram a cabo em existências passadas.
Honrado Pelo Mundo, tudo isto tu já sabes –
agora deves fazer girar a roda insuperável!
O Buda anunciou aos monges: “Quando o Buda Excelência da Grande e Universal Sabedoria alcançou anuttara-samyak-sambodhi, quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras de Buda nas dez direcções tremeram e se abalaram de seis modos diferentes. Os lugares escuros e ermos nessas terras, onde a luz do sol e da lua nunca chega a penetrar, ficaram visíveis, os seus habitantes foram capazes de se verem uns aos outros, e exclamaram, ”Como é possível que tenham de repente aparecido seres viventes neste local?”
“Também os palácios dos vários seres celestiais nessas terras e os palácios de Brahma tremeram e abalaram-se em seis direcções diferentes e uma grande luz brilhou em toda a parte, enchendo completamente os mundos e superando a majestade da luz celestial. Nessa ocasião, em quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras na direcção Este os palácios de Brahma refulgiram com uma luz de um brilho cintilante e cada um dos reis Brahma pensou: “O brilho do palácio é agora mais forte que nunca. O que poderá ter provocado este fenómeno?”
“Então os reis Brahma visitaram-se uns aos outros para discutir o assunto. Entre eles existia um grande rei Brahma chamado Salvador de Todos os Seres (Sarvasattvatrâtri), que perante a multidão de reis Brahma falou em verso, dizendo:
Os nossos palácios têm um brilho nunca antes conhecido.
Qual pode ser a causa disto?
Cada um de nós procura uma resposta.
Será devido ao nascimento de qualquer ser celestial de grande virtude, ou porque um Buda apareceu no mundo, que esta grande luz brilha em toda a parte pelas dez direcções?
“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Oeste para observarem aí os sinais. Eles viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com os seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. Viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buda para girar a roda da Lei.
“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prosternando-se aos pés de Buda, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando terminaram estas oferendas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buda, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamos-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”
“Nessa altura os reis Brahma, na presença do Buda, com uma só mente juntaram as suas vozes na recitação destes versos de louvor:
Ó Honrado Pelo Mundo, difícil de encontrar,
dotado de imensuráveis bênçãos,
capaz de salvar a todos,
grande mestre de seres celestiais e humanos,
tu conferes ao mundo compaixão e bem estar.
Os seres viventes das dez direcções
em toda a parte recebem benefícios.
Nas quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras
de onde viemos,
pusemos de lado a alegria da profunda meditação
de modo a trazermos oferendas ao Buda.
Devido à nossa boa fortuna em prévias existências
os nossos palácios estão ricamente adornados.
Queremos agora apresentá-los ao Honrado Pelo Mundo,
rogando-lhe que tenha a amabilidade de os aceitar.
“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buda em verso, cada um proferiu estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, que salve os seres viventes e abra as portas do nirvana!”
“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:
Herói do mundo,
mais honrado entre os homens,
rogamos-te que exponhas a Lei.
Através do poder da tua grande misericórdia e compaixão,
salva os seres viventes no seu sofrimento e angústia!
“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido.
Então monges, nas quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sudeste, os reis Brahma notaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes vista. Dançando de alegria, vivendo uma experiência mental rara, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto.
“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Grande Compaixão (Adhimâtrakârunika) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:
Que causa está a operar
por forma a que este sinal seja manifesto?
Os nossos palácios irradiam um brilho
nunca antes conhecido.
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buda apareceu no mundo?
Nunca vimos tais sinais
e com uma só mente buscamos a razão.
Ainda que tenhamos que viajar por centenas, dezenas de milhares de milhões de terras,
juntos procuraremos a causa desta luz.
Certamente é devida ao aparecimento de um Buda no mundo
para salvar os seres viventes do sofrimento.
“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção Noroeste para observarem aí os sinais. Viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. Viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buda para girar a roda da Lei.
“De imediato os reis Brahma inclinaram suas cabeças até ao chão prosternando-se aos pés de Buda, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando terminaram estas oferendas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buda, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamos-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”
“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:
Sábio senhor, ser celestial entre seres celestiais,
cuja voz é igual à da ave kalavinka,
e te compadeces dos seres viventes e os confortas,
prestamos-te agora honra e reverência.
O Honrado Pelo Mundo é raro de encontrar,
aparecendo apenas uma vez em muitas e longas eras.
Cento e oitenta kalpas passaram em vão sem um Buda,
quando os três maus caminhos estavam em toda a parte
e a multidão de seres celestiais era reduzida em número.
Agora o Buda apareceu no mundo
para ser um olho para os seres viventes.
O mundo apressar-se-á até si
e ele salvará e guardará todos sem excepção.
Será um pai para os seres viventes,
confortando-os e beneficiando-os.
Devido à nossa boa fortuna em prévias existências,
somos agora capazes de encontrar o Honrado Pelo Mundo!
“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buda em verso, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que se compadeça e conforte a todos e faça girar a roda da Lei!
“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:
Grande sábio, faz girar a roda da Lei,
revela as características dos ensinamentos,
salva os seres viventes do seu sofrimento e angústia,
permite-lhes que atinjam a grande alegria.
Quando os seres viventes ouvirem esta Lei
encontrarão o caminho ou renascerão no céu;
os dos reinos inferiores serão reduzidos em número
e aumentarão os de bondade paciente.
“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido.
Então monges, nas quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras no Sul, os reis Brahma notaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes vista. Dançando de alegria, entrando num modo mental raramente experimentado, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto, dizendo, “Qual é a razão dos nossos palácios emitirem esta luz brilhante?”
“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Lei Maravilhosa (Sudharma) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:
Os nossos palácios cintilam com um brilho inexcedível.
Isto tem de ter uma razão – devíamos investigar.
Nos cem mil kalpas passados
nunca vimos tais sinais
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buda apareceu no mundo?
“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto em direcção ao Norte para observarem aí os sinais. Viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. Viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buda para girar a roda da Lei.
“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prosternando-se aos pés de Buda, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando terminaram estas oferendas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buda, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamos-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”
“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e disseram estes versos de louvor:
Honrado Pelo Mundo, o mais difícil de encontrar,
destruidor dos desejos mundanos,
cento e trinta kalpas passaram
e agora finalmente podemos ver-te.
Os seres viventes na sua fome e sede
são saciados com a chuva do Dharma.
Alguém como nunca antes visto,
de sabedoria imensurável,
raro como a flor da udumbara,
apareceu hoje por fim perante nós.
Por terem recebido a tua luz,
os nossos palácios estão maravilhosamente adornados.
Honrado Pelo Mundo, de grande misericórdia e compaixão,
rogamos-te que os aceites.
“Seguidamente, quando os reis Brahma acabaram de louvar o Buda em verso, falou cada um estas palavras: ”Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, que leve os seres celestiais, demónios, reis Brahma, shramanas e Brahmans por todo o mundo a obter paz e tranquilidade e a alcançar a salvação.”
“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes recitando versos de louvor, dizendo:
Rogamos ao mais honrado dos seres celestiais e humanos
que faça girar a roda da Lei insuperável.
Que bata o grande tambor do Dharma,
sopre a grande concha do Dharma,
faça cair a grande chuva do Dharma por toda a parte
para salvar imensuráveis seres viventes!
Nós dirigimos para ti toda a nossa fé e as nossas súplicas –
deixa soar a tua voz profunda e de longo alcance!
“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria anuiu silenciosamente ao pedido. Na região sudoeste e nas restantes regiões até à região superior, ocorreu uma sucessão similar de eventos.
“Então, na região do superior, os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhar de milhões de terras, notaram que os seus palácios brilhavam com uma luz cintilante nunca antes conhecida. Dançando de alegria, vivendo uma experiência mental rara, foram visitar-se uns aos outros para discutir este assunto em conjunto, dizendo, “Qual a razão dos nossos palácios emitirem esta luz brilhante?”
“Havia no meio da assembleia um grande rei Brahma chamado Lei Maravilhosa (Sudharma) que perante a multidão de reis Brahma, falou em verso, dizendo:
Qual é a razão para que os nossos palácios
cintilem com tal autoridade e virtude,
adornados como nunca?
Um sinal maravilhoso deste tipo
nunca foi visto ou ouvido no passado.
Será devido ao nascimento de algum ser celestial de grande virtude,
ou porque um Buda apareceu no mundo?
“Nessa ocasião os reis Brahma das quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras, acompanhados dos seus palácios, cada rei despindo o seu manto exterior e enchendo-o de flores celestiais, viajaram em conjunto para a direcção inferior para observarem aí os sinais. Viram o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria no lugar da prática, sentado num trono de leão sob uma árvore bodhi, com seres celestiais, reis dragões, gandharvas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos rodeando-o e prestando-lhe reverência. Viram também os dezasseis príncipes pedindo ao Buda para girar a roda da Lei.
“De imediato os reis Brahma tocaram com as cabeças no chão prosternando-se aos pés de Buda, circularam à sua volta cem mil vezes espalhando sobre ele as flores celestiais. As flores fizeram uma pilha da altura do monte Sumeru. Essas flores eram também oferta para a árvore bodhi, com dez yoganas de altura. Quando terminaram estas oferendas de flores, cada um tomou o seu lugar e ofereceu o seu palácio ao Buda, dizendo estas palavras: “Esperamos que nos concedas conforto e benefícios. Rogamos-te que aceites e ocupes estes palácios que aqui apresentamos.”
“Então os reis Brahma com uma só mente juntaram as suas vozes e disseram estes versos de louvor:
Que bom, que possamos ver os Budas,
sábios e veneráveis que salvam o mundo,
capazes de resgatar e libertar os seres viventes
do inferno do triplo mundo!
Venerável entre os seres celestiais e humanos,
de sabedoria universal,
tu compadeces-te e tens misericórdia pela multidão de criaturas,
és capaz de abrir os portões do doce orvalho
e trazer a todos a salvação.
Anteriormente, imensuráveis kalpas passaram em vão
sem que um Buda estivesse presente.
O tempo não tinha ainda chegado
para que o Honrado pelo Mundo aparecesse
e tudo nas dez direcções estava em constante escuridão.
Os habitantes dos três reinos inferiores
aumentavam em número
e o reino dos asuras crescia;
a multidão dos seres celestiais diminuía,
e muitos deles ao morrer caíam nos reinos malignos.
Uma vez que ninguém podia procurar o Buda e escutar a Lei,
as pessoas incorriam em condutas impróprias
e a sua força física e sabedoria
diminuía e esmorecia.
Devido aos actos nefastos por eles praticados,
perderam todo o deleite e até a ideia do deleite.
Apegaram-se a doutrinas heréticas
e não tinham conhecimento dos bons costumes e regras.
Impedidos de serem instruídos pelo Buda,
caíam constantemente nos reinos malignos.
Mas agora tu, o Buda, que serás o olho do mundo,
Após este longo tempo chegaste finalmente.
Por forma a trazer piedade e conforto aos seres viventes
apareceste no mundo.
Transcendeste o mundo
para ganhar a correcta iluminação;
estamos cheios de deleite e admiração.
Nós e todos os outros na assembleia rejubilamos,
deleitando-nos no que nunca conhecemos antes.
Os nossos palácios, por terem recebido a tua luz,
estão maravilhosamente adornados.
Agora apresentamo-los ao Honrado Pelo Mundo,
na esperança de que ele se compadeça e os aceite.
Rogamos-te que o mérito obtido através desta dádiva
seja largamente repartido por todos,
de modo a que nós e outros seres viventes
possamos todos juntos atingir a Iluminação.
“Seguidamente, depois de as quinhentas dezenas de milhares de milhões de reis Brahma terem acabado de recitar estes verso em louvor do Buda, falou cada um estas palavras:” Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que faça girar a roda da Lei, trazendo paz e tranquilidade a muitos, trazendo a muitos a salvação. Então os reis Brahma falaram em verso, dizendo:
Honrado Pelo Mundo,
faz girar a roda da Lei,
bate o tambor do Dharma de doce orvalho,
salva os seres viventes do seu sofrimento e angústia,
abre e revela-nos o caminho do nirvana!
Rogamos-te que aceites as nossas súplicas
e que, com um grande, subtil e maravilhoso som,
tragas piedade e conforto
expondo a Lei que praticaste por imensuráveis kalpas.
“Nessa altura o Tathagata Excelência da Grande e Universal Sabedoria, tendo recebido súplicas dos dezasseis príncipes e dos reis Brahma das dez direcções, deu de imediato três voltas da roda de doze raios da Lei. Nem shramana, Brahman, ser celestial, demónio, Brahma, nem qualquer outro ser vivente no mundo era capaz de uma tal rotação. Ele disse, “Aqui está o sofrimento, aqui está a origem do sofrimento, aqui está a aniquilação do sofrimento, aqui está o caminho para a aniquilação do sofrimento.”
“Então expôs largamente a Lei dos doze elos da causalidade interdependente: a ignorância causa a acção, a acção causa a consciência, a consciência causa o nome e a forma, o nome e a forma causam os seis órgãos dos sentidos, os seis órgãos dos sentidos causam o contacto, o contacto causa a sensação, a sensação causa o desejo, o desejo causa o apego, o apego causa a existência, a existência causa o nascimento, o nascimento causa a velhice e a morte, a preocupação e a dor, o sofrimento e a angústia. Se a ignorância for removida, então a acção será removida, se a acção for removida , então a consciência será removida, se a consciência for removida, então o nome e a forma serão removidos, se o nome e a forma forem removidos, então os seis órgãos dos sentidos serão removidos, se os seis órgãos dos sentidos forem removidos, então o contacto será removido, se o contacto for removida, então a sensação será removida, se a sensação for removida, então o desejo será removido, se o desejo for removido, então o apego será removido, se o apego for removido, então a existência será removida, se a existência for removida, então o nascimento será removido, se o nascimento for removido, então a velhice e a morte, a preocupação e a dor, o sofrimento e a angústia serão removidos.
“Quando o Buda no meio da grande assembleia de seres celestiais e humanos expôs esta Lei, seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de seres, porque deixaram de aceitar qualquer das coisas do mundo fenomenal e porque as suas mentes estavam capazes de se libertar de imperfeições, alcançaram uma profunda e maravilhosa prática meditativa, adquiriram as três compreensões e os seis poderes transcendentais e foram agraciados com as oito emancipações. E quando fez uma segunda, terceira e quarta exposição da Lei, seres viventes iguais em número aos grãos de areia de mil dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, por terem igualmente deixado de aceitar qualquer das coisas do mundo fenomenal, foram capazes de se libertar das imperfeições da mente. Daí em diante, a multidão de ouvintes tornou-se imensurável, sem limite, incapaz de ser contada.
“Nessa altura os dezasseis príncipes deixaram as suas famílias ainda jovens e tornaram-se shramaneras. As suas faculdades eram apuradas e penetrantes, a sua sabedoria brilhante e compreensiva. Já no passado tinham oferecido esmolas a centenas de milhares, dezenas de milhares de Budas, e levado a cabo práticas Brahma de forma perfeita, e lutado para atingir anuttara-samyak-sambhodi. Dirigiram-se ao Buda em conjunto, dizendo: Honrado Pelo Mundo, estes inumeráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de ouvintes de grande virtude, já foram bem sucedidos. Honrado Pelo Mundo, estamos determinados a alcançar a perspicácia do Tathagata. No mais íntimo dos nossos corações temos este pensamento, tal como o Buda deve saber.”
“Nessa ocasião o Buda, em resposta às súplicas dos shramaneras, passou um período de vinte mil kalpas e por fim, no meio dos quatro tipos de crentes, pregou o sutra do Grande Veículo intitulado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei para instruir os boddhisatvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Budas. Após ter exposto este sutra, os dezasseis shramaneras, em prol de anuttara-samyak-sambhodi, aceitaram-no e abraçaram-no, recitando e entoando-o, penetrando e entendendo o seu sentido.
“Quando o Buda expôs este sutra, todos os dezasseis bodhisattvas shramaneras tiveram fé nele e o aceitaram, e entre a multidão de ouvintes alguns ouve que o aceitaram e compreenderam. Mas os outros milhares de dezenas de milhares de milhões de seres viventes deram lugar à dúvida e à perplexidade.
“O Buda expôs este sutra por um período de oitocentos Kalpas, nunca parando para descansar. Após ter exposto este sutra, entrou numa sala sossegada e ficou em meditação por oitenta e quatro milhares de kalpas.
“Nesta altura os dezasseis bodhisattvas shramaneras, sabendo isso, ascenderam a um trono do Dharma e de igual modo, por um período de oitenta e quatro milhares de kalpas, ensinaram largamente as distinções estabelecidas no Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, em benefício dos quatro tipos de crentes. Desta forma cada um deles salvou seres viventes iguais em número aos grãos de areia de seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, instruindo-os, trazendo-lhes benefícios e alegria e fazendo-os fixar as suas mentes em anuttara-samyak-sambhodi.
“O Buda Excelência da Grande e Universal Sabedoria, após terem passado oitenta e quatro mil kalpas, despertou do seu samadhi e aproximou-se do lugar do Dharma. Sentando-se calmamente, dirigiu-se à grande assembleia, dizendo: estes dezasseis bodhisattvas shramaneras são de um tipo muito raro de encontrar, as suas faculdades são apuradas e penetrantes, a sua sabedoria brilhante e na companhia desses Budas levaram constantemente a cabo práticas brahma, recebendo e abraçando a sabedoria de Buda, e expondo-a aos seres viventes. Todos vocês devem assiduamente associar-se a eles e oferecer-lhes dádivas. Porquê? Porque se qualquer um de vocês, ouvintes, pratyekabudas ou bodhisattvas, for capaz de ter fé nos ensinamentos dos sutras expostos por estes dezasseis bodhisattvas, e os aceitar e acolher sem nunca os depreciar, será capaz de alcançar anuttara-samyak-sambhodi, a sabedoria do Tathagata.”
O Buda, dirigindo-se aos monges, disse: “Estes dezasseis bodhisattvas desejaram constantemente expor este Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa. Os seres viventes convertidos por cada um destes bodhisattvas são iguais em número aos grãos de areia de seiscentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges. Existência após existência, estes seres viventes renascem na companhia desses bodhisattvas, ouvem deles a Lei, e todos nela crêem e a compreendem. Por esta razão foram capazes de encontrar quarenta mil milhões de Budas, Honrados Pelo Mundo, e nunca até ao presente deixaram de o fazer.
“Monges, eu vos direi isto: estes discípulos do Buda, estes dezasseis shramaneras, atingiram agora anuttara-samyak-sambhodi. Nas terras das dez direcções, estão presentemente expondo a Lei, com séquitos de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de bodhisattvas e ouvintes. Dois destes shramaneras tornaram-se Budas na região Leste. Um chama-se Akshobhya e vive na Terra da Alegria. O outro é chamado Monte Sumeru (Merukûta). Dois são Budas na região sudeste, um chamado Voz de Leão, o outro Aparência de Leão. Dois são Budas na região sul, um chamado Habitante do Vazio, o outro Sem Extinção. Dois são Budas na região Sudoeste, um chamado Aparência Imperial, o outro Aparência de Brahma. Dois são Budas na região Oeste, um chamado Amitayus, o outro Salvador Universal dos Sofrimentos Mundanos. Dois são Budas na região Noroeste, um chamado Poder Transcendental da Fragrância de Sândalo de Talamapatra, o outro Aparência de Sumeru. Dois são Budas na região Norte, um chamado Nuvem de Liberdade, o outro Rei da Nuvem de Liberdade. Dos Budas da região Nordeste, um é chamado Destruidor dos Medos Mundanos, o décimo sexto sou eu, Buda Shakyamuni, que neste mundo Saha alcancei anuttara-samyak-sambodhi.
“Monges, quando eu e esses outros eramos shramaneras, ensinamos e convertemos cada um seres viventes iguais em número aos grãos de areia de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de rios Ganges. Eles ouviram a Lei e alcançaram anuttara-samyak-sambodhi. Alguns desses seres viventes estão agora na condição de ouvintes. Mas nós instruimo-los constantemente em anuttara-samyak-sambodhi, e essas pessoas devem ser capazes, através desta Lei, de entrar no Caminho para atingir a Iluminação, ainda que gradualmente. Porque digo isto? Porque a sabedoria do Tathagata é difícil de acreditar e difícil de compreender. Esses seres viventes iguais em número às areias de imensuráveis rios Ganges convertidos nessa altura sois vós, agora monges, e serão esses que, depois de me ter extinguido, em épocas vindouras serão discípulos ouvintes.
“Após a minha extinção, haverá outros discípulos que não ouvirão este sutra e não terão noção das práticas levadas a cabo pelos bidhisattvas nem as compreenderão, mas que, através das bênçãos que tenham sido capazes de obter, conceberão uma ideia de extinção e entrarão naquilo que acreditarão ser o nirvana. Nessa altura eu serei um Buda noutra terra e serei conhecido por um outro nome. Esses discípulos, ainda que tenham concebido a ideia de extinção e entrado no que julgaram ser o nirvana, irão nessa outra terra procurar a sabedoria Búdica e serão capazes de ouvir este sutra. Porque é apenas mediante o veículo de Buda que é possível alcançar a extinção. Não existe nenhum outro veículo, se exceptuarmos as várias doutrinas expostas pelo Tathagata como meios hábeis.
“Monges, se um Tathagata sabe que é chegado o tempo de entrar no nirvana, e sabe que os membros da assembleia são puros e limpos, firmes em fé e entendimento, cabais na sua compreensão da Lei da vacuidade e avançados profundamente na sua prática meditativa, reúne então a assembleia de bodhisattvas e ouvintes e expõe-lhes este sutra. Não existem no mundo dois veículos pelos quais se pode alcançar a extinção. Existe apenas um e um só veículo de Buda para alcançar a extinção.
“Monges, deveis entender isto. O Tathagata, no exercício dos meios hábeis, penetra profundamente a natureza dos seres viventes. Ele sabe como os seus monges se deleitam em doutrinas insignificantes e quão profundamente estão apegados aos cinco desejos. E por serem assim, quando expõe o nirvana, fá-lo de modo a que essas pessoas, ouvindo-o, possam prontamente acreditá-lo e aceitá-lo.
“Suponhamos que existe um troço de estrada mau com quinhentas yoganas de extensão, íngreme e difícil, selvagem e deserto, desabitado, verdadeiramente temível. E suponhamos que existe um certo número de pessoas que quer passar por essa estrada para alcançar um lugar onde existem tesouros raros. Essas pessoas têm um líder, de grande sabedoria e entendimento apurado, que está perfeitamente familiarizado com esta estrada íngreme, conhece a disposição das suas passagens e obstáculos, e está preparado para guiar esse grupo acompanhando-o nesse terreno difícil.
“O grupo liderado por ele, após ter percorrido parte do caminho, fica desencorajado e diz ao líder, “Estamos completamente exaustos e assustados. Não podemos ir mais longe. Uma vez que ainda existe uma distância tão longa por percorrer, gostaríamos de voltar agora para trás.”
“O líder, um homem de muitos expedientes, pensa para si, “Que pena abandonarem os muitos tesouros raros que procuravam e quererem regressar! Tendo tido este pensamento, ele recorre ao poder dos meios hábeis e, tendo eles percorrido trezentas yoganas ao longo da estrada íngreme, conjura uma cidade. Diz então ao grupo, “Não tenham medo! Não devem voltar atrás, porque existe agora uma grande cidade onde podem parar, descansar e fazer o que vos apetecer. Se entrarem nesta cidade estarão completamente à vontade e tranquilos. Então depois, se sentirem que conseguem ir até ao local onde está o tesouro, podem deixar a cidade.”
“Nessa altura os membros do grupo, completamente exaustos, rejubilaram, exclamando perante evento tão inesperado, “Agora podemos escapar desta estrada medonha e encontrar sossego e tranquilidade!” As pessoas do grupo apressaram-se a entrar na cidade onde, sentindo-se salvos das suas dificuldades, tiveram uma sensação de completo sossego e tranquilidade.
“Nessa altura o líder, sabendo que as pessoas estavam descansadas e já não tinham temor ou preocupação, desvanece a cidade fantasma e diz para o grupo, “Agora devem continuar. O lugar onde se encontra o tesouro fica perto. Essa grande cidade de há pouco era um mero fantasma que eu conjurei para que pudessem descansar.”
“Monges, o Tathagata está numa posição similar. Ele está agora a actuar como um grande líder para vós. Ele sabe que a estrada do nascimento, da morte e dos desejos mundanos é íngreme, difícil e extensa, mas tem que ser percorrida, tem de ser ultrapassada. Se os seres viventes ouvirem falar apenas do veículo de Buda, eles não quererão ver o Buda, não quererão chegar perto dele, mas pensarão de imediato, “O caminho para atingir a Iluminação é longo e é necessário trabalhar diligentemente e suportar dificuldades durante um longo período antes de poder alguma vez ser bem sucedido!”
“O Buda sabe que as mentes dos seres viventes são tímidas, fracas e pobres, e assim, usando o poder dos meios hábeis, ele ensina dois nirvanas por forma a providenciar um lugar de repouso ao longo do caminho. Se os seres viventes escolhem permanecer nestes dois lugares, então o Tathagata diz-lhes: “Vocês ainda não entenderam o que tem de ser feito. Este estado em que escolheram permanecer está próximo da sabedoria de Buda, mas deveis observar e ponderar melhor. Este nirvana que alcançásteis não é o verdadeiro nirvana. O que sucedeu foi simplesmente que o Tathagata, usando o poder dos meios expeditos, tomou o veículo único de Buda e estabelecendo distinções, ensinou-o como se fosse triplo.”
“O Buda é como o líder que, de modo a providenciar um lugar de repouso, conjura uma grande cidade e então, quando sabe que os viajantes já estão descansados, diz-lhes, “O lugar onde se encontra o tesouro está próximo. Esta cidade não é real. É meramente algo conjurado por mim.”
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
O Buda Excelência da Grande e Universal Sabedoria
sentou-se no lugar da prática por dez kalpas,
mas a Lei de Buda não surgia diante de si
e não conseguia alcançar a via de Buda.
A assembleia de deuses celestiais, reis dragões, asuras e outros
fizeram constantemente chover sobre ele flores celestiais
como dádivas oferecidas a esse Buda.
Os seres celestiais bateram os seus tambores
e fizeram vários tipos de música.
Um vento fragrante varria as flores murchas,
para de imediato choverem outras frescas e belas.
Quando por fim tinham passado dez pequenos kalpas,
foi então capaz de alcançar a Iluminação.
Os seres celestiais e as pessoas do mundo,
sentiram-se dançar em seus corações.
Os dezasseis filhos do Buda,
na companhia dos seus seguidores,
mil dezenas de milhares de milhões,
juntaram-se e vieram ao lugar do Buda,
tocando com as cabeças no chão,
fazendo vénias aos pés do Buda
e pedindo-lhe que fizesse girar a roda da Lei, dizendo,
“Santo Leão, deixa que a chuva do Dharma caia sobre nós
e sobre todos os outros!”
O Honrado Pelo Mundo é difícil de encontrar,
aparece apenas uma vez em muito tempo .
De modo a trazer a iluminação a muitos seres
faz tremer e mover as regiões circundantes.
Nos mundos das dez direcções,
em quinhentas dezenas de milhares de milhões de terras,
os palácios dos reis Brahma
brilharam com uma luz nunca antes conhecida.
Quando os reis Brahma viram estes sinais
vieram à procura do lugar do Buda
para espalharem flores como forma de oferenda,
apresentando ao mesmo tempo os seus palácios,
pedindo ao Buda que fizesse girar a roda da Lei
e louvando-o em versos.
O Buda sabia não ter chegado ainda o tempo,
e apesar dos pedidos, sentou-se em silêncio.
Nas outras dez direcções, nas quatro direcções intermédias,
na região superior e na região inferior,
o mesmo ocorreu,
os reis Brahma espalhando flores
apresentaram os seus palácios,
pedindo ao Buda que girasse a roda da Lei,
dizendo, “O Honrado Pelo Mundo é difícil de encontrar.
Rogamos-te que na tua grande misericórdia e compaixão
abras os portões do doce orvalho
e faças girar a roda da Lei insuperável.”
O Honrado Pelo Mundo,
imensurável em sabedoria,
aceitou os pedidos da assembleia
e proclamou várias doutrinas,
as quatro nobres verdades,
os doze elos de causalidade interdependente,
descrevendo como, desde a ignorância até à velhice e à morte,
todos os males advêm do nascimento, dizendo,
“Em relação a estas muitas faltas e penas
deveis entender que a morte
é o quinhão da humanidade.”
Quando expôs esta Lei,
seiscentas dezenas de milhares de milhões de triliões de seres
foram capazes de esgotar os limites dos sofrimentos,
atingindo todos o estado de arhat.
Da segunda vez que ensinou a Lei
uma multidão igual aos grãos de areia de mil rios Ganges,
deixou de aceitar o mundo fenomenal
e foram também capazes de se tornarem arahts.
Daí que os que alcançaram o caminho
fossem imensuráveis em número –
podia ser calculado durante dez mil milhões de kalpas
sem nunca se conseguir determinar o seu montante.
Nessa altura os dezasseis príncipes
deixaram as suas famílias e tornaram-se shramaneras.
Em conjunto pediram ao Buda
que expusesse a Lei do Grande Veículo, dizendo,
“Nós e os teus acólitos estamos
certos de alcançar a via da Iluminação.
Desejamos o olho da sabedoria de pureza incomparável
igual ao que o Honrado Pelo Mundo possui.”
O Buda compreendeu as suas mentes imaturas
e as acções que tinham levado a cabo em existências passadas,
e empregando imensuráveis causas e condições
e várias metáforas e parábolas,
ensinou-lhes os seis paramitas
e os assuntos relacionados com os poderes transcendentais,
distinguindo a verdadeira Lei,
a via praticada pelos bodhisattvas,
expondo este Sutra do Lótus
em versos tão numerosos quanto as areias do Ganges.
Quando o Buda acabou de expor o sutra
entrou em meditação numa sala sossegada,
permanecendo no mesmo lugar
durante oitenta e quatro mil kalpas.
Os shramaneras sabiam que o Buda
não iria emergir tão cedo da meditação
e por isso expuseram à assembleia a sabedoria do Buda,
cada um sentado num lugar do Dharma,
expondo este sutra do Grande Veículo.
E depois de o Buda ter entrado em pacífica tranquilidade,
continuaram a proclamar,
esperando converter outros à Lei.
Os seres viventes salvos por cada um destes shramaneras
foi igual em número aos grãos de areia
de seiscentas dezenas de milhares de milhões de rios Ganges.
Após a extinção do Buda,
essas pessoas que ouviram a Lei
moraram aqui e ali em várias terras Búdicas,
renascendo constantemente na companhia dos seus mestres.
E estes dezasseis shramaneras,
tendo completado o caminho de Buda,
encontram-se no presente pelas dez direcções,
onde cada um atingiu a correcta iluminação.
As pessoas que ouviram a Lei nessa altura
estão todas em lugares onde se encontra um desses Budas,
e aqueles que permanecem no estado de ouvintes
estão a ser gradualmente instruídos na via de Buda.
Eu próprio era um dos dezasseis
e ensinei-vos no passado.
Por essa razão eu empregarei um meio hábil
para vos colocar na demanda da sabedoria de Buda;
devido a estas causas e condições
ensino agora o Sutra do Lótus.
Farei com que entrem na via de Buda-
estai atentos e não tenhais medo!
Suponham que existe um troço de estrada íngreme e penosa,
numa região desolada e remota
com muitas feras ameaçadoras,
um lugar ermo sem água ou verdura,
temido pelas pessoas.
Um grupo de incontáveis milhares
queria passar por essa estrada íngreme,
mas a estrada era muito longa,
com quinhentas yoganas de extensão.
Havia então um líder bem informado,
dotado de sabedoria, de entendimento claro e mente determinada,
capaz de salvar pessoas de muitos perigos e dificuldades.
Os membros do grupo estavam esgotados e sem ânimo
e disseram ao seu líder,
“Estamos esgotados de fadiga
e queremos desistir e voltar para trás.”
O líder pensou então,
estas pessoas são realmente merecedoras de pena!
Porque querem voltar para trás
e perder os muitos tesouros que existem adiante?
Nessa ocasião pensou num meio hábil,
decidido a recorrer aos seus poderes transcendentais.
Conjurou uma grande cidade fortificada
e adornada de mansões,
rodeando-a de jardins e bosques,
canais de águas correntes, lagos e fontes,
com portões, altas torres e pavilhões,
todos repletos de homens e mulheres.
Logo que criou esta ilusão,
reconfortou o grupo, dizendo,
“Não tenhais medo – podeis entrar na cidade
e divertir-se cada um como quiser.”
Quando as pessoas entraram na cidade,
ficaram felizes, bem dispostas e tranquilas,
dizendo para si próprias que tinham sido salvas.
Quando o líder percebeu que já tinham descansado,
reuniu-os a todos e anunciou,
“Agora deveis continuar o vosso esforço –
isto não é mais que uma cidade fantasma.
Vi que estavam todos cansados e desanimados
e que queriam desistir a meio da viagem.
Por isso usei o poder dos meios hábeis
e conjurei esta cidade para a ocasião.
Deveis prosseguir agora diligentemente
de modo a que em conjunto possais chegar ao local do tesouro.”
Também faço o mesmo,
actuando como um pai para todos os seres.
Vejo os que buscam o caminho
ficarem desanimados a meio da viagem,
incapazes de passar além da estrada íngreme
do nascimento e da morte e dos desejos mundanos,
então, uso o poder dos meios hábeis e ensino o nirvana
para lhes providenciar um local de descanso, dizendo,
“O vosso sofrimento está extinto,
levaram a cabo tudo o que havia para fazer.”
Quando sei que alcançaram o nirvana
e chegaram todos ao estado de arhat,
reuno então a grande assembleia
e exponho-lhes a verdadeira Lei.
Os Budas, através dos meios hábeis,
fazem distinções e expõe os três veículos,
mas existe apenas o único veículo de Buda –
os outros dois nirvanas são ensinados
para permitir um descanso ao longo do caminho.
Agora vou revelar-vos a verdade –
aquilo que alcançásteis não é a extinção.
Em prol da sabedoria de Buda
deveis empregar grande esforço e diligência.
Se ganhardes a iluminação na Lei do Buda
com a sua sabedoria e os seus dez poderes
sereis investidos dos trinta e dois sinais,
isto então sim, será a verdadeira extinção.
Os Budas na sua qualidade de lideres,
ensinam o nirvana para prover um repouso,
mas quando sabem que já estais descansados,
guiam-vos até à sabedoria de Buda.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Oito:
A Profecia de Iluminação Para Quinhentos Discípulos
Nessa altura Purna Maitrayaniputra, ouvindo do Buda esta Lei tal como foi exposta através da sabedoria e dos meios hábeis e de acordo com o que era apropriado, e ouvindo também a profecia de que os discípulos maiores atingiriam anuttara-samyak-sambodhi, ouvindo os factores relativos às causas e condições de existências passadas, e ouvindo como o Buda possuía grande liberdade e poderes transcendentais, obteve o que nunca antes possuíra e a sua mente foi purificada e sentiu-se dançar. Imediatamente levantou-se do seu lugar, avançou para uma posição em frente do Buda, tocou com a cabeça no chão fazendo uma vénia aos pés do Buda. Então deslocou-se para um lado, fitou reverentemente a face do Honrado Pelo Mundo, os seus olhos sem se desviarem sequer por um instante, e pensou para si próprio: “O Honrado Pelo Mundo é realmente extraordinário, muito especial e as suas acções são raras de presenciar! Adaptando-se às várias naturezas das pessoas deste mundo e empregando meios hábeis e perspicácia, ensina-lhes a Lei, retirando os seres viventes da sua ganância e apegos vários. As bênçãos do Buda são tais que não as podemos traduzir por palavras. Apenas o Buda, o Honrado Pelo Mundo, é capaz de conhecer os anseios que nós temos desde o início no mais fundo dos nossos corações.”
Nessa altura o Buda disse para os monges: “Estão a ver Purna Maitrayaniputra? Sempre o louvei como sendo o primeiro entre os que expõe a Lei. E sempre elogiei as suas várias bênçãos, a sua diligência em proteger, promover, ajudar e proclamar a Lei, a sua habilidade para ensinar, beneficiar e deleitar os quatro tipos de crentes, o seu entendimento cabal da correcta Lei do Buda, o alto grau a que eleva aqueles que levam a cabo as suas práticas brahma. Com a excepção do Honrado Pelo Mundo, não existe nenhum outro que possa exemplificar tão completamente a eloquência das suas teorias.
“Não deveis supor que Purna é capaz de proteger, promover, ajudar e proclamar apenas a minha Lei. Na presença de noventa milhões de Budas no passado protegeu, promoveu, ajudou e proclamou a correcta Lei do Buda. Entre todos aqueles que nesse tempo ensinaram a Lei, foi igualmente o primeiro.
“Além disso, no que respeita à Lei da vacuidade exposta pelos Budas ele teve um entendimento claro e cabal, ganhou os quatro tipos ilimitados de conhecimento e é capaz em qualquer altura de expor a Lei de uma forma lúcida e pura, livre de dúvidas e perplexidade. É completamente dotado dos poderes transcendentais de um bodhisattva. Através do curso da sua vida leva constantemente a cabo práticas Brahma, de modo a que as outras pessoas que vivam nessa era de Buda pensem, “Aqui está um verdadeiro discípulo!”
“Purna, empregando este meio hábil, beneficiou imensuráveis centenas de milhares de seres viventes e converteu imensuráveis asamkhyas de pessoas, fazendo-as voltar-se para anuttara-samyak-sambodhi. De modo a purificar as terras de Buda devota-se constantemente aos trabalhos de Buda, ensinando e convertendo seres viventes.
“Monges, Purna é o primeiro entre aqueles que ensinam a Lei no tempo dos sete Budas, o primeiro dos quais é Vipasyin e o sétimo eu próprio. É o primeiro entre os que ensinam a Lei agora na minha presença. E será o primeiro entre aqueles que ensinarão a Lei no tempo dos Budas futuros que aparecerão no presente Kalpa Sábio (Bhadra-kalpa), em todos os casos protegendo, promovendo, ajudando e proclamando a Lei do Buda. Também no futuro protegerá, promoverá, ajudará e proclamará a Lei de imensuráveis, ilimitados Budas, ensinando, convertendo e enriquecendo imensuráveis seres viventes e levando-os a virar-se para anuttara-samyak-sambodhi. De modo a purificar as terras de Buda aplica-se constantemente, diligentemente, a ensinar e converter seres viventes.
Pouco a pouco tornar-se-á totalmente dotado da via do Bodhisattva, e quando tiverem passado imensuráveis asamkhyas de kalpas, aqui na terra onde se encontra virá a alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Será chamado Tathagata Brilho da Lei (Dharmaprabhâsa), merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo.
“Este Buda terá como sua terra de Buda mil miríades de milhões de mundos, iguais em número às areias do Ganges. O chão será feito com os sete tesouros e plano como a palma de uma mão, sem colinas ou cumes, ravinas ou barrancos. A terra será repleta de terraços e torres feitos com os sete tesouros e os palácios celestiais estarão situados bem perto da terra, de modo a que os seres celestiais e humanos possam comunicar entre si e estar à vista uns dos outros. Aí não existirão maus caminhos de existência, nem existirão mulheres. Todos os seres viventes nascerão de transformação e serão isentos de desejos libidinosos. Obterão grandes poderes transcendentais, os seus corpos emitirão um brilho radioso e serão capazes de voar conforme queiram. Serão firmes de intenção e pensamento, diligentes e sábios e serão todos adornados com uma cor dourada e com os trinta e dois sinais. Todos os seres viventes nesse mundo tomarão regularmente dois tipos de alimento, um será o alimento da alegria do Dharma o outro será o alimento do deleite da meditação. Existirão imensuráveis asamkhyas, miríades de milhares de milhões de nayutas de bodhisattvas que obterão grandes poderes transcendentais e os quatro tipos ilimitados de conhecimento, e serão hábeis e capazes a ensinar e converter os diferentes tipos de seres viventes. O número de ouvintes estará para além do poder de cálculo ou conjectura. Todos serão imbuídos dos seis poderes transcendentais, dos três conhecimentos e das três emancipações.
“Esta terra de Buda possuirá imensuráveis bênçãos deste tipo que a adornarão e preencherão. O seu kalpa será chamado Brilho do Tesouro (Ratnâvabhâsa) e a sua terra será chamada Boa e Pura (Suvisuddha). A duração da sua vida será de imensuráveis asamkhyas de kalpas, a sua Lei perdurará por muito tempo e após a extinção desse Buda, torres adornadas com os sete tesouros serão erigidas para si ao longo de toda a terra.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Vós Monges, ouçam com atenção!
O caminho seguido pelos filhos de Buda,
por eles serem bem instruídos nos meios hábeis,
é maravilhoso para lá da concepção.
Eles sabem como muitos seres
se deleitam numa pequena Lei
e são temerosos em relação à grande sabedoria.
Daí que os bodhisattvas
surjam como ouvintes ou pratyekabudas,
empregando incontáveis meios hábeis
para converter os diferentes tipos de seres viventes.
Apresentam-se como ouvintes
e dizem-se muito afastados do caminho de Buda
e assim levam a emancipação a imensuráveis multidões,
permitindo-lhes alcançar o sucesso.
Limitadas em aspirações,
preguiçosas e indolentes como são as multidões de seres,
pouco a pouco são conduzidas à obtenção da Iluminação.
Interiormente e em segredo,
actuam como bodhisattvas,
mas exteriormente mostram-se como ouvintes.
Eles parecem atenuar os desejos
a partir da aversão pelo nascimento e a morte,
mas na verdade estão a purificar as terras de Buda.
Perante a multidão,
parecem possuídos pelos três venenos
ou manifestam os sinais das teorias heréticas.
Desta maneira, os meus discípulos usam meios hábeis
para salvar os seres viventes.
Se fosse a descrever todas as diferentes formas,
as muitas manifestações que exibem
para a conversão de outros,
os seres viventes que me ouvissem
ficariam perplexos e cheios de dúvidas.
Purna, no passado,
praticou diligentemente a via
sob os auspícios de milhões de Budas,
proclamando e guardando a Lei desses Budas.
De modo a procurar a sabedoria inexcedível
foi para onde estavam os Budas,
tornando-se um líder entre os seus discípulos,
de grande conhecimento e sabedoria.
Não mostrava medo naquilo que expunha
e sabia deleitar a assembleia.
Nunca se deixou abater ou desanimar
na assistência ao trabalho dos Budas.
Já tinha superado os grandes poderes transcendentais
e possuía os quatro tipos ilimitados de conhecimento.
Sabia se as capacidades da multidão
eram pobres ou apuradas
e ensinava a pura Lei constantemente.
Expunha princípios como estes,
ensinando multidões de milhares de milhões de seres,
fazendo-os residir na Lei do Grande Veículo
e ele próprio purificando as terras de Buda.
Também no futuro oferecerá dádivas
a imensuráveis, incontáveis Budas,
protegendo, ajudando e proclamando a Lei,
sem medo, salvando multidões para lá de qualquer cálculo,
fazendo-os consumar a sabedoria.
Oferecerá dádivas aos Tathagatas,
guardando e sustentando o repositório do tesouro da Lei.
Mais tarde tornar-se-á um Buda
conhecido pelo nome de Brilho da Lei.
A sua terra será chamada Boa e Pura
e será composta pelos sete tesouros.
O seu kalpa será chamado Brilho do Tesouro.
A multidão de bodhisattvas será muito numerosa,
chegando a imensuráveis milhões,
todos avançados em poderes transcendentais,
dotados de dignidade, virtude e força,
enchendo toda a terra.
Os ouvintes serão inumeráveis,
com as três compreensões e as oito emancipações,
tendo alcançado os quatro tipos ilimitados de conhecimento –
assim serão os monges da Ordem.
Os seres viventes nessa terra
serão todos isentos de desejos libidinosos.
Nascerão de uma forma pura
pelo processo de transformação,
com todas as características adornando os seus corpos.
Alimentando-se da alegria do Dharma e do deleite da meditação,
não pensarão noutro alimento.
Ai não existirão mulheres
nem nenhum dos maus reinos de existência.
O monge Purna ganhou inteiramente estas bênçãos
e assim será a terra pura que obterá,
com uma grande multidão de sábios e de seres meritórios.
Dos incontáveis aspectos relacionados com ela
falei agora apenas resumidamente.
Nessa altura os doze mil arhats, estando de mente livre, pensaram para si, “Rejubilamos ao ganhar o que nunca antes obtivemos. Como seria se o Honrado Pelo Mundo nos conferisse uma profecia de iluminação igual à que conferiu aos outros discípulos maiores?”
O Buda, sabendo que este pensamento estava em suas mentes, disse a Mahakashyapa: a estes doze mil arhats agora aqui presentes irei um a um outorgar a profecia de que atingirão anuttara-samyak-sambhodi. Entre esta assembleia está um dos meus discípulos maiores, o monge Kaundinya. Oferecerá dádivas a sessenta e dois milhares de milhões de Budas, após o que se tornará um Buda. Será designado Brilho Universal (Samantaprabhâsa), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. Quinhentos arhats, incluindo Uruvilvakashyapa, Gayakashyapa, Nadikashyapa, Kalodayin, Anirudda, Revata, Kapphina, Bakkula, Chunda, Svagata, e outros, alcançarão anuttara-samyak-sambhodi. Todos terão a mesma designação, sendo chamados Brilho Universal.”
O Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das sua palavras, falou em verso, dizendo:
O monge Kaundinya
verá inumeráveis Budas
e após terem passado asamkhyas de kalpas
irá por fim alcançar a correcta e imparcial iluminação.
Emitirá constantemente
uma grande e brilhante luz,
será dotado de poderes transcendentais
e o seu nome será conhecido nas dez direcções
e respeitado por todos.
Ensinará constantemente a via insuperável;
por isso será chamado Brilho Universal.
O seu reino será puro e limpo,
os seus bodhisattvas corajosos e enérgicos.
Todos ascenderão às mais altas torres,
viajarão pelas terras das dez direcções,
de modo a oferecer artigos inigualáveis
como dádivas aos vários Budas.
Após terem oferecido estas dádivas
as suas mentes encher-se-ão de alegria
e rapidamente regressarão às suas terras de origem –
tais serão os seus poderes sobrenaturais.
A duração da vida deste Buda
será de dezasseis mil kalpas,
a sua correcta Lei perdurará pelo dobro desse tempo,
a sua Lei adulterada também o dobro desse tempo,
e quando a sua Lei se extinguir,
os seres celestiais e humanos sofrerão.
Os quinhentos monges, um após outro, virão a tornar-se Budas,
todos com o mesmo nome, Brilho Universal.
Cada um conferirá
uma profecia ao seu sucessor, dizendo,
“Após eu ter entrado em extinção,
tornar-te-ás um Buda.
O mundo em que levarás a cabo as conversões
será igual ao meu.”
O adorno e pureza das suas terras,
os seus vários poderes transcendentais,
os seus bodhisattvas e ouvintes,
a sua Lei Correcta e Adulterada,
o número de kalpas de duração da sua vida –
todos serão como acima descrevi.
Kashyapa, agora conheceis o futuro
destes quinhentos de mentes livres.
A restante multidão de ouvintes
será também como estes.
Quanto aos que não se encontram aqui reunidos,
deveis expor-lhes e ensinar-lhes isto.
Nessa altura os quinhentos arhats em presença do Buda, tendo recebido a profecia de iluminação, sentiram-se dançar de alegria. Levantaram-se imediatamente dos seus lugares, avançaram para uma posição em frente ao Buda, tocaram com a cabeça no chão e fizeram vénias aos pés do Buda. Lamentaram-se do seu erro, reprovando-se a si mesmos e dizendo, “Honrado Pelo Mundo, sempre pensamos que tínhamos alcançado a derradeira extinção. Mas agora sabemos que era-mos como pessoas destituídas de sabedoria. Porquê? Porque apesar de sermos capazes de alcançar a sabedoria do Tathagata, estava-mos dispostos a contentar-nos com uma sabedoria insignificante.
“Honrado Pelo mundo, é como o caso de um homem que foi até à casa de um amigo íntimo e, tendo-se embriagado com vinho, caiu num sono pesado. Nessa altura o amigo teve que se ausentar. Pegou numa jóia preciosa, coseu-a no forro da roupa do amigo adormecido, e foi-se embora. O homem dormia embriagado e não se apercebeu de nada. Quando acordou, iniciou uma viagem por outros países. Para conseguir obter alimento e vestuário teve de procurar diligentemente com toda a sua energia, enfrentando grandes dificuldades e tendo de se contentar com o pouco que encontrava.
“Mais tarde, o seu amigo encontrou-o por acaso. O amigo disse-lhe, “Que absurdo, companheiro! Porque tens de fazer tudo isto por comida e roupa? No passado quis garantir que serias capaz de viver com desafogo e satisfazer os cinco desejos, e naquele dia em que estivemos juntos cosi uma jóia preciosa no forro da tua roupa. Ainda deve lá estar. Mas tu nada sabias sobre isso e preocupaste-te a ganhar a vida. Que absurdo! Agora deves pegar na jóia e trocá-la por aquilo de que necessites. Assim podes ter sempre tudo o que quiseres sem nunca teres de passar necessidades.”
“O Buda é como este amigo. Quando era ainda um bodhisattva, ensinou-nos e converteu-nos, inspirando em nós a determinação de procurar a sabedoria. Mas com o tempo esquecemos tudo isso e tornamo-nos inconscientes e ignorantes. Tendo alcançado a via do arhat, julgamos ter ganho a extinção. Encontrando dificuldades em prover as nossas necessidades, tivemos de nos arranjar com o que quer que conseguíssemos. No entanto, não perdemos ainda o desejo de alcançar a sabedoria. Agora, o Honrado Pelo Mundo desperta-nos e faz-nos conscientes, dizendo estas palavras: “Monges, o que vocês alcançaram não é a derradeira extinção. Por muito tempo vos levei a cultivarem as boas raízes do estado de Buda, e como um meio hábil mostrei-vos os sinais exteriores do nirvana, mas vocês julgaram ter alcançado realmente o nirvana.”
“Honrado Pelo Mundo, agora entendemos. Na verdade somos bodhisattvas e recebemos uma profecia de que alcançaremos anuttara-samyak-sambodhi. Por esta razão estamos cheios de alegria, tendo ganho o que nunca antes possuíramos.”
Nessa altura Ajnata kaundinya e os outros, desejando expor uma vez mais o sentido das sua palavras, falaram em verso, dizendo:
Ouvimos o som desta profecia
assegurando-nos bem estar e tranquilidade insuperáveis;
rejubilamos ao ganhar o que nunca antes possuíramos
e apresentamos obediência ao Buda
de sabedoria imensurável.
Agora, na presença do Honrado Pelo Mundo
arrependemo-nos dos nossos erros e faltas.
Do tesouro imensurável do Buda
ganhamos apenas uma pequena parte do nirvana,
e como pessoas ignorantes e néscias
julgamos ser isso suficiente.
Somos como o homem pobre
que foi até à casa de um amigo íntimo.
A casa era abastada e o amigo
serviu muitos tabuleiros de iguarias.
O amigo pegou numa jóia de incalculável valor
e coseu-a no forro da roupa do pobre homem,
deu-a sem uma palavra e foi-se embora,
e o homem, adormecido, não se apercebeu de nada.
Após ter acordado,
partiu em viagem por outros países,
procurando comida e roupa,
achando difícil ganhar o seu sustento.
Arranjou-se conforme pode,
sem ter esperança de algo melhor,
inconsciente da jóia valiosa que transportava na roupa.
Mais tarde, o amigo que lhe tinha dado a jóia,
calhou de o encontrar, e depois de o repreender,
mostrou-lhe a jóia escondida.
Quando o pobre homem viu a jóia
o seu coração encheu-se de alegria,
pois era rico, possuidor de bens e de fortuna
suficientes para satisfazer os cinco desejos.
Somos como esse homem.
Através da longa noite o Honrado Pelo Mundo
constantemente se compadece de nós e nos ensina e converte,
fazendo-nos plantar as raízes de uma aspiração insuperável.
Mas devido à nossa falta de sabedoria,
somos inconscientes disso.
Tendo ganho uma pequena porção do nirvana,
estamos satisfeitos e não procuramos mais nada.
Mas agora o Buda despertou-nos, dizendo
“Isto não é a verdadeira extinção,
quando tiverem ganho a insuperável sabedoria do Buda,
isso sim, será a verdadeira extinção!”
Agora ouvimos do Buda
estas profecias e descrições de adornos,
e de como cada um outorgará uma profecia ao seu sucessor,
e em corpo e mente estamos cheios de alegria.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Nove:
Profecias Conferidas aos Aprendizes e Adeptos
Nessa altura, Ananda e Rahula disseram para si mesmos: “Quando pensamos nisso, reconhecemos como seria maravilhoso se recebessemos uma profecia de iluminação!” Levantaram-se de imediato dos seus lugares, avançaram para um lugar defronte do Buda, tocaram com as cabeças no chão prosternando-se aos pés do Buda. Em conjunto falaram ao Buda, dizendo:
“Honrado Pelo Mundo, também nós devemos tomar parte nisto! Entregamos toda a nossa confiança ao Tathagata, e somos bem conhecidos dos seres celestiais e humanos e dos asuras deste mundo. Ananda atende constantemente o Buda e guarda e apoia o repositório do Dharma, e Rahula é o filho do Buda. Se o Buda nos outorgasse uma profecia de que alcançaríamos anuttara-samyak-sambodhi, tanto os nossos desejos como os anseios da multidão seriam satisfeitos.”
Nessa ocasião os duzentos discípulos ouvintes, aprendizes ou adeptos sem nada mais a aprender, levantaram-se dos seus lugares e, descobrindo o ombro direito avançaram para uma posição defronte do Buda, juntaram as palmas das mãos e, fitando em reverência o Honrado Pelo Mundo, repetiram o desejo expresso por Ananda e Rahula após o que se afastaram para um lado.
Então o Buda disse a Ananda: “Numa futura existência tornar-te-ás um Buda com o nome de Tathagata Rei do Poder Absoluto da Montanha do Mar de Sabedoria (Sâgaravaradharabuddhivikrîditâbhigña), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. Oferecerás dádivas a sessenta e dois milhões de Budas e preservarás e guardarás os seus repositórios do Dharma, após o que alcançarás anuttara-samyak-sambodhi. Ensinarás e converterás bodhisattvas numerosos como as areias de vinte centenas de dezenas de milhares de milhões de rios Ganges e farás com que alcancem anuttara-samyak-sambodhi. A tua terra será chamada Eterna Bandeira da Vitória (Anavanâmita-vaig-ayanta), o seu solo será limpo e puro e feito de lápiz-lazuli. O teu kalpa terá o nome de Maravilhoso Som Omnipresente (Manogñasabdâbhigargita). A duração da vida desse Buda será de imensuráveis milhares, dezenas de milhares de milhões de asamkhyas de kalpas – ainda que os homens calculassem durante milhares, dezenas de milhares, milhões de imensuráveis asamkhyas de kalpas, não poderiam nunca determinar a duração da vida desse Buda e a sua Lei Adulterada perdurará no mundo pelo dobro do tempo da sua Correcta Lei. Ananda, este Buda Rei do Poder Absoluto da Montanha do Mar de Sabedoria, será louvado igualmente pelos Tathagatas das dez direcções que são iguais em número às areias de imensuráveis milhares, dezenas de milhares de milhões de rios Ganges, e eles louvarão as suas bênçãos.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Digo agora aos monges que
Ananda, suporte da lei,
oferecerá esmolas aos Budas
após o que atingirá a correcta iluminação.
O seu nome será Buda Rei do Poder Absoluto
da Montanha do Mar de Sabedoria.
A sua terra será limpa e pura,
chamada Bandeira Eterna da Vitória.
Ensinará e converterá bodhisattvas
numerosos como as areias do Ganges.
Este Buda possuirá grande dignidade e virtude
e o seu renome encherá as dez direcções.
A duração da sua vida será imensurável
devido à sua compaixão por todos os seres viventes.
A sua Correcta Lei durará o dobro da sua vida
e o dobro disto durará a sua Lei Adulterada.
Numerosos como as areias do Ganges
serão os incontáveis seres viventes que no seio da Lei de Buda
plantarão as condições conducentes à via da Budeidade.
Nessa altura na assembleia, oitocentos Bodhisattvas que tinham recentemente concebido a determinação de atingir a iluminação pensaram , Nunca ouvimos sequer um grande bodhisattva receber uma profecia como esta. Porque razão hão-de estes ouvintes receber uma tal profecia?
Então o Honrado Pelo Mundo, sabendo o pensamento que ia na mente desses bodhisattvas, disse-lhes: “Bons homens, quando Ananda e eu estávamos no lugar do Buda Rei da Vacuidade, ambos concebemos simultaneamente a determinação de alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Ananda deleitava-se constantemente no conhecimento vasto da Lei eu desenvolvi constantemente esforço diligente. Daí que eu tenha já conseguido alcançar anuttara-samyak-sambodhi, enquanto Ananda guarda e sustenta a minha Lei. E, da mesma forma, guardará sempre os repositórios do Dharma dos Budas de existências futuras e ensinará, converterá e trará ao sucesso as multidões de bodhisattvas. Esse foi o seu voto original e daí que tenha recebido esta profecia.”
Quando Ananda, na presença do Buda, ouviu esta profecia a si dirigida e ouviu acerca da terra e dos adornos que haveria de receber, tudo o que se votara alcançar estava realizado e a sua mente estava cheia de grande alegria, pois ele tinha ganho o que nunca antes possuíra. Imediatamente recordou os repositórios do Dharma de imensuráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de Budas do passado e pôde compreendê-los sem impedimento, como se tivesse acabado de os ouvir. Recordou também o seu voto original.
Então, Ananda falou em verso, dizendo:
O Honrado Pelo Mundo, raro de encontrar, fez-me recordar o passado, a Lei de imensuráveis Budas, tal como se a ouvisse hoje.
Não tenho agora mais dúvidas mas resido seguramente na via de Buda.
Como um meio hábil actuo como assistente, guardando e suportando a Lei dos Budas.
Nessa altura o Buda disse para Rahula: “Numa futura existência tornar-te-ás um Buda com o nome Caminhando Sobre Flores de Sete Tesouros (Saptaratnapadmavikrântagâmin), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. Oferecerás dádivas a Budas e Tathagatas numerosos como a poeira das partículas de dez mundos. Em todos os casos tu serás o primogénito desses Budas, tal como és agora o meu filho. Os adornos da terra desse Buda Caminhando Sobre Flores de Sete Tesouros, o número de kalpas de duração da sua vida, os discípulos que ele converterá, a sua Lei Correcta e Adulterada não diferirão dos do Tathagata Rei do Poder Absoluto da Montanha do Mar de Sabedoria. Serás o filho mais velho desse Buda, após o que alcançarás anuttara-samyak-sambodhi.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Quando eu era o príncipe herdeiro, Rahula era o meu filho mais velho.
Agora que atingi a Iluminação recebe o Dharma e é o meu filho no Dharma.
Em existências futuras ele verá imensuráveis milhões de Budas.
Como filho mais velho de todos eles, com uma só mente procurará a via de Buda.
As acções de Rahula só eu sou capaz de conhecer.
Ele manifesta-se como meu primogénito, mostrando-se aos seres viventes.
Com inumeráveis milhões, milhares, dezenas de milhares de incontáveis bênçãos, está seguramente ancorado na Lei de Buda e procurando a via insuperável.
Então o Honrado Pelo Mundo, observou os duzentos aprendizes e adeptos, suaves e brandos de vontade, serenamente puros e limpos, fitando o Buda com uma mente concentrada. O Buda disse a Ananda, “Vês estes duzentos aprendizes e adeptos?”
“Sim, vejo-os.”
“Ananda, estas pessoas oferecerão dádivas a Budas e Tathagatas iguais em número às partículas de poeira de cinquenta mundos, prestando-lhes honras e reverência, guardando e sustentando os seus repositórios do Dharma. Nas suas existências finais eles conseguirão simultaneamente tornar-se Budas em terras das dez direcções. Todos terão designação idêntica, sendo chamados Sinal de Jóias (Ratnaketurâgas), Tathagatas, merecedores de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurados, conhecedores do mundo, inexcedivelmente meritórios, treinadores de pessoas, mestres de seres celestiais e humanos, Budas, Honrados Pelo Mundo. A duração das suas vidas será de um kalpa, e o adorno das suas terras, os seus ouvintes e bodhisattvas, Leis Correcta e Adulterada serão em todos os casos iguais.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Aos duzentos ouvintes que agora estão na minha presença –
a todos eles outorgo a profecia
de que numa existência futura se tornarão Budas.
Os Budas a quem oferecerão esmolas
serão numerosos como as partículas de pó acima descritas.
Guardarão e suportarão os repositórios do Dharma
após o que obterão a correcta iluminação.
Cada um terá uma terra numa das dez direcções
e todos partilharão do mesmo nome e designação.
Todos serão chamados Sinal de Jóias
e as suas terras e discípulos,
as suas Leis Correcta e Adulterada
serão idênticas e sem qualquer diferença.
Todos empregarão poderes transcendentais
para salvar os seres viventes nas dez direcções.
O seu renome correrá por toda a parte
e a seu tempo entrarão no nirvana.
Nessa altura, quando os duzentos aprendizes e adeptos ouviram o Buda outorgar-lhes esta profecia, dançaram de alegria e falaram em verso, dizendo:
Honrado Pelo Mundo, lâmpada brilhante da sabedoria,
ouvimos a tua voz outorgando esta profecia e os nossos corações estão cheios de alegria como se nos banhássemos em doce orvalho!
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Dez:
O Mestre da Lei
Nessa altura o Honrado Pelo mundo dirigiu-se ao Bodhisattva Rei da Medicina (Bhaishagyarâga) e, através dele, aos oitocentos grandes homens, dizendo: “Rei da Medicina, vês esta grande assembleia de imensuráveis números de seres celestiais, reis dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, bem como monges, monjas, leigos e leigas, esses que procuram tornar-se ouvintes, os que procuram tornar-se pratyekabudas ou os que procuram a via de Buda? Sobre estes vários tipos de seres que na presença do Buda ouvem um verso ou uma frase do Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa e por um momento pensam nele com alegria outorgarei a todos uma profecia de que alcançarão anuttara-samyak-sambodhi.
O Buda disse a Rei da Medicina: “Além disso, se após o Tathagata ter entrado em extinção existir alguém que ouça o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, ainda que uma frase ou um verso, e por um momento pense nele com alegria, outorgo-lhe igualmente uma profecia de que alcançará anuttara-samyak-sambodhi. Ainda, se existirem pessoas que abracem, leiam, recitem, exponham e copiem o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, ainda que apenas um verso, e encarem este sutra com a mesma reverência com que encarariam o Buda, apresentando-lhe várias ofertas de flores, colares, incenso em pó, em pasta ou para queimar, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, vestes e música, juntando as mãos reverentemente de palmas unidas, então, Rei da Medicina, deves compreender que essas pessoas já ofereceram dádivas a cem mil milhões de Budas e no lugar dos Budas cumpriram o seu grande voto, e porque se compadecem dos seres viventes essas pessoas nascem neste mundo humano.
“Rei da Medicina, se alguém perguntar que seres viventes serão capazes de atingir o estado de Buda numa existência futura, deves então indicar-lhes todos estes que, no futuro, atingirão certamente a Budeidade. Porquê? Porque se existirem bons homens e boas mulheres que abracem, leiam, recitem, exponham e copiem o Sutra do Lótus, ainda que uma frase dele, ofereçam vários tipos de dádivas ao sutra, flores, colares, incenso em pó, em pasta ou para queimar, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, vestes e música, juntando as mãos reverentemente de palmas unidas, então essas pessoas serão olhadas com admiração e honradas por todo o mundo. Esmolas ser-lhes-ão oferecidas como seriam ao Tathagata. Deves entender que essas pessoas são grandes bodhisattvas que conseguiram alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Compadecendo-se dos seres viventes, fizeram votos de nascer entre eles onde pudessem expor largamente e fazer distinções em relação ao Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa. Quanto mais não será isto verdade, então, quanto àqueles que abraçaram o sutra na íntegra e lhe ofereceram vários tipos de dádivas!
“Rei da Medicina, deves entender que essas pessoas renunciaram voluntariamente às recompensas devidas pelos seus puros actos e, num tempo posterior à minha extinção, por se compadecerem dos seres viventes, nascerão neste mundo maligno para que possam expor largamente este sutra. Se um desses bons homens e boas mulheres, num tempo posterior à minha extinção, for capaz de secretamente expor o Sutra do Lótus a uma pessoa, mesmo que apenas uma frase dele, então deves saber que ele é o enviado do Tathagata. Foi enviado pelo Tathagata e leva a cabo o trabalho do Tathagata. Quanto mais assim não será no caso daqueles que no meio da grande assembleia expuserem largamente este sutra para outros!
“Rei da Medicina, se existisse uma pessoa má que, com a mente desprovida de bondade, aparecesse durante um kalpa na presença do Buda e constantemente o amaldiçoasse e insultasse, a ofensa dessa pessoa seria ainda bastante ligeira, se comparada com a de alguém que proferisse ainda que apenas uma má palavra para amaldiçoar ou difamar os leigos, leigas, monges ou monjas que leiam e recitem este sutra. Esta sim, seria uma ofensa muito grave.
“Rei da Medicina, quanto a estas pessoas que lêem e recitam o Sutra do Lótus, deves entender que elas se adornam com os adornos dos Budas e nascem sobre os ombros do Tathagata. Aonde quer que vão, devem ser acolhidas com vénias, com as palmas das mãos unidas, a uma só mente, com dádivas e reverência, com respeito e louvor, flores, colares, incenso em pó, em pasta ou para queimar, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, vestes, iguarias e música. As melhores dádivas que podem ser oferecidas a alguém devem ser-lhes oferecidas. Tesouros celestiais devem ser espalhados sobre elas, oferecidos como prendas. Porque digo isto? Porque estas pessoas deleitam-se a expor a Lei. E se alguém os ouve ainda que por um momento, atingirá imediatamente o derradeiro anuttara-samyak-sambodhi.
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se pretendes seguir a via de Buda
e ser bem sucedido na obtenção da sabedoria que vem por si mesma,
deves ser constantemente diligente a oferecer esmolas
àqueles que abraçaram o Sutra do Lótus.
Se tens o desejo de obter rapidamente
a sabedoria respeitante a todos os tipos de coisas,
deves abraçar este sutra
e ao mesmo tempo oferecer esmolas àqueles que o fazem.
Se alguém for capaz de abraçar
o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa,
saiba-se que tal pessoa é um enviado do Buda
que pensa com piedade em todos os seres viventes.
Aqueles que são capazes de abraçar
o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa
renunciam ao seu direito à terra pura
e por compaixão para com os seres viventes nascem aqui.
Saibam que pessoas como estas
escolhem livremente onde hão-de nascer,
e escolhem nascer neste mundo malévolo
de modo a que possam expor largamente a Lei insuperável.
Deveis oferecer flores celestiais e incenso,
vestes decoradas com tesouros celestiais
e as maravilhosas provisões de tesouros do paraíso
como dádivas àqueles que pregam a Lei.
No mundo malévolo, a seguir à minha extinção,
se houver quem abrace este sutra,
deveis juntar as palmas das mãos em reverência
e oferecer-lhes esmolas como ofereceríeis ao
Honrado Pelo Mundo.
As iguarias mais escolhidas, tudo o que é refinado e saboroso,
junto com vestes de vários tipos,
deveis oferecer como esmolas a estes filhos de Buda
na esperança de poder escutar um momento do seu ensinamento.
Aqueles que, em eras futuras,
aceitem e abracem este sutra,
serão meus enviados até junto das pessoas
para levarem a cabo o trabalho do Tathagata.
Se pelo espaço de um kalpa
alguém mantiver uma mente desprovida de bondade
e com olhares furiosos insultar o Buda,
estará a cometer uma ofensa de imensurável gravidade.
Mas se àqueles que lêem, recitam e abraçam
este Sutra do Lótus
alguém por um momento que seja dirigir más palavras,
a sua ofensa será ainda maior.
Se existir alguém que procure a via de Buda
e durante um kalpa,
unir as palmas das mãos na minha presença
e recitar inúmeros versos de louvor,
devido a estes louvores ao Buda
ganhará imensuráveis bênçãos.
Se alguém louvar e elogiar aqueles que sustentam este sutra,
a sua boa fortuna será ainda maior.
Pelo espaço de oitenta milhões de kalpas,
com os mais maravilhosos sons e formas,
com o que é agradável ao olfacto, paladar e tacto,
ofereçam dádivas aos promotores deste sutra!
Se oferecerdes dádivas deste modo e ouvirdes os ensinamentos
ainda que por um momento,
então experimentareis alegria e boa fortuna, dizendo,
“Ganhei grande benefício!”
Rei da Medicina, agora te direi,
expus vários sutras, e entre esses sutras
o Lótus é o principal!
Nessa altura o Buda falou uma vez mais ao bodhisattva Rei da Medicina, dizendo: “Os sutras que ensinei são em número de imensuráveis milhares, dezenas de milhares de milhões, entre os sutras que ensinei, que possa ensinar agora ou venha a ensinar no futuro, este Sutra do Lótus é o mais difícil de acreditar e o mais difícil de compreender. Rei da Medicina, este sutra é o repositório da crux secreta dos Budas, não deve ser distribuído e transmitido descuidadamente para outros. Foi guardado pelos Budas, os Honrados Pelo Mundo, e desde os tempos passados até agora nunca foi abertamente exposto, e uma vez que o ódio e a inveja em relação a este sutra abundam mesmo quando o Tathagata está no mundo, quanto mais não será isto verdade após a sua extinção?
“Rei da Medicina, deves saber que após a extinção do Tathagata, se existir alguém que copie, promova, leia e recite este sutra, lhe ofereça esmolas e o exponha para outros, o Tathagata cobri-lo-á com o seu manto, e será protegido e mantido em mente pelos Budas que agora estão presentes em outras regiões. Tal pessoa possui o poder da grande fé, o poder da aspiração, o poder das boas raízes, deves saber que essa pessoa se aloja no mesmo local que o Tathagata e que o Tathagata lhe afaga a cabeça com a mão.
“Rei da Medicina, em qualquer lugar em que este sutra seja exposto, lido, recitado, copiado ou onde um dos seus rolos exista, em todos esses lugares deveriam ser erigidas torres feitas com os sete tesouros e deveriam ser muito altas e bem adornadas. Não há necessidade de guardar aí as relíquias do Buda. Porquê? Porque nessas torres a totalidade do corpo do Tathagata já está presente. Todos os tipos de flores, incenso, colares, palanquins de seda, estandartes e bandeiras, músicas e hinos deveriam ser oferecidos como dádivas a essas torres. E deveriam ser-lhes dispensados louvores, reverências e honras. Se quando as pessoas vissem essas torres se curvassem em obediência e oferecessem esmolas, deverias então saber que essas pessoas tinham todas chegado próximo de anuttara-samyak-sambodhi.
“Rei da Medicina, supõe que existe um homem que está sequioso, procurando água. Num terreno elevado começa a escavar um buraco em busca de água mas vê que o solo está seco e sabe que a água ainda está longe. Porém, não cessa os seus esforços, e pouco a pouco nota que o solo se torna mais húmido até que, gradualmente, chega a uma parte de lama. Agora está determinado a prosseguir, porque sabe que tem de estar próximo de água.
“A via do bodhisattva é igual. Enquanto uma pessoa não ouviu, não entendeu e não praticou este Sutra do Lótus, deveis saber que ela se encontra ainda afastada de anuttara-samyak-sambhodi. Porquê? Porque todos os bodhisattvas que alcançam anuttara-samyak-sambhodi fazem-no, em todos os casos, mediante este sutra. Este sutra abre o portal dos meios hábeis e mostra a forma da verdadeira realidade. Este repositório do Sutra do Lótus está profundamente oculto e distante, onde ninguém o pode alcançar. Mas o Buda, ao ensinar, converter e guiar os bodhisattvas até ao sucesso, abre-o para eles.
“Rei da Medicina, se existirem bodhisattvas que, ao ouvir este Sutra do Lótus, respondam com surpresa, dúvida ou medo, deves saber então que se trata de bodhisattvas recentemente chegados ao caminho. E se existirem ouvintes que, escutando este sutra, respondam com surpresa, dúvida ou medo, deves saber então que se trata de pessoas de extrema arrogância.
“Rei da Medicina, se existirem bons homens e boas mulheres que, após a extinção do Tathagata, desejem expor este Sutra do Lótus aos quatro tipos de crentes, como devem eles expô-lo? Estes bons homens e boas mulheres devem entrar no quarto do Tathagata, vestir a roupa do Tathagata, ocupar o assento do Tathagata e pelo bem dos quatro tipos de crentes, expor largamente este sutra.
“O “quarto do Tathagata” é o estado mental que demonstra grande piedade e compaixão por todos os seres viventes. A “roupa do Tathagata” é a mente que é gentil e tolerante. O “assento do Tathagata” é a vacuidade de todos os fenómenos. Devemos sentar-nos aí confortávelmente e depois, com uma mente nunca indolente ou negligente, devemos, pelo bem dos bodhisattvas e dos quatro tipos de crentes expor largamente este Sutra do Lótus.
“Rei da Medicina, enviarei pessoas criadas por magia até outras terras para reunir assembleias para ouvir a Lei, e enviarei também monges, monjas, leigos e leigas criados por magia para ouvirem a exposição da Lei, acreditá-la e aceitá-la e nela se fixarem sem desvio. Se os mestres da Lei estiverem num local vazio e silencioso, enviarei grande número de seres celestiais, dragões, espíritos, gandharvas, asuras e outros para ouvirem a sua pregação da Lei. Ainda que esteja noutra terra, de tempos a tempos tornarei possível aos mestres da Lei verem o meu corpo. Se esquecerem uma frase deste sutra, aparecerei e apresentá-la-ei de modo a que sejam capazes de recitar o texto correctamente e na íntegra.
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se desejais pôr de parte toda a indolência e negligência,
deveis ouvir este sutra.
É difícil encontrar uma oportunidade de o ouvir,
e acreditar nele e aceitá-lo também é difícil.
Se uma pessoa está sequiosa e quer água
pode escavar um buraco no solo,
mas enquanto vê a terra seca,
sabe que a água ainda está longe.
Mas se pouco a pouco vê a terra ficar húmida e lamacenta
sabe com certeza que está próxima da água.
Rei da Medicina,
deves compreender que essas pessoas são como esta –
se não ouvem o Sutra do Lótus,
ficarão muito afastadas da sabedoria de Buda,
mas se ouvirem este sutra profundo
que define a Lei do ouvinte,
se ouvirem este rei dos sutras
e depois o ponderarem cuidadosamente,
então deveis saber que essas pessoas
estão perto da sabedoria do Buda.
Se uma pessoa expõe este sutra,
deve entrar no quarto do Tathagata,
vestir a roupa do Tathagata,
ocupar o assento do Tathagata,
encarar a assembleia sem medo
e expô-lo largamente, fazendo distinções.
Grande piedade e compaixão são o quarto.
Gentileza e paciência são a roupa.
A vacuidade de todos os fenómenos é o assento,
e aí posicionada é que deve expor a Lei para eles.
Se quando uma pessoa expõe este sutra
existir alguém que a insulte ou calunie
ou a ataque com espadas e paus, cacos e pedras,
deve pensar no Buda
e por essa razão ser paciente.
Em milhares, dezenas de milhares, milhões de terras
manifestarei o meu corpo puro e duradouro
e durante imensuráveis milhões de kalpas
exporei a Lei para os seres viventes.
Se após a minha extinção
existir alguém capaz de expor este sutra,
enviarei os quatro tipos de crentes,
formados magicamente,
monges e monjas e homens e mulheres de pura fé,
para oferecerem esmolas e fazerem ouvir a Lei;
eles liderarão e guiarão os seres viventes,
reunindo-os e fazendo-os ouvir a Lei.
Se alguém pensar em fazer mal aos mestres
com espadas e paus ou cacos e pedras,
enviarei pessoas criadas por magia
que as irão guardar e proteger.
Se aqueles que expõe a Lei estiverem sozinhos
num local vazio e silencioso,
e se nessa quietude onde não soa a voz humana
lerem e recitarem este sutra,
nessa altura manifestarei o meu corpo puro e radiante para eles.
Se esquecerem uma passagem ou frase
fornecê-la-ei de modo a que sejam cabais e eficazes.
Se pessoas dotadas destas virtudes
expuserem aos quatro tipos de crentes
e lerem e recitarem este sutra num local vazio,
permitirei que vejam o meu corpo.
E se os mestres estiverem num local vazio e silencioso
enviarei seres celestiais, reis dragões,
yakshas, espíritos e outros
para formarem uma assembleia e escutarem a Lei.
Pessoas como estas deleitam-se na exposição da Lei,
fazendo distinções sem encontrarem qualquer impedimento.
Porque os Budas os guardam e mantêm em mente,
serão capazes de trazer alegria à grande assembleia.
Se alguém se mantiver próximo dos mestres da Lei
rapidamente obterá a via do bodhisattva.
Seguindo estes mestres e aprendendo com eles
verá Budas numerosos como as areias do Ganges.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Onze:
O Aparecimento da Torre do Tesouro
Nessa altura, apareceu na presença do Buda uma torre adornada com os sete tesouros, com quinhentas yojanas de altura e cinquenta yojanas de lado, que se erguera da terra e ficara suspensa no ar. Vários tipos de objectos preciosos a adornavam. Tinha cinco mil grades, mil, dez mil divisões e estava decorada com inúmeros estandartes e bandeiras. Grinaldas de jóias pendiam e dez mil milhões de sinos de jóias estavam suspensos delas. Todos os seus quatro lados emitiam uma fragrância de tamalapatra e sândalo que perfumava todo o mundo. Os seus estandartes e pálios eram feitos dos sete tesouros, nomeadamente, ouro, prata, lápiz-lázuli, madrepérola, ágata, pérola e coral, e eram tão altos que chegavam às regiões celestiais dos Quatro Reis Celestiais. Os deuses do paraíso Trayatrimsha fizeram chover flores celestiais de mandarava como oferta à torre do tesouro e os outros seres celestiais e os dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, numa assembleia de milhares, dezenas de milhar, milhões, ofereceram todos os tipos de flores, incenso, colares, estandartes, palanquins e música como dádivas à torre do tesouro, prestando-lhe reverência, honra e louvor.
Nessa ocasião, o som de uma potente voz saiu da torre do tesouro, dizendo palavras de louvor: “Excelente, excelente, Shakyamuni, Honrado Pelo Mundo, que possuas uma grande e equânime sabedoria, uma Lei para instruir os bodhisattvas, guardada e mantida em mente pelos Budas, o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, e o ensines em benefício da grande assembleia! É tal como dizes, tal como dizes. Shakyamuni, Honrado Pelo Mundo, tudo o que expuseste é a verdade!”
Nessa altura os quatro tipos de crentes viram a grande torre suspensa no ar, e ouviram a voz que saia da torre. Todos experimentaram a alegria da Lei, e maravilharam-se perante estes fenómenos que nunca antes tinham presenciado. Levantaram-se dos seus lugares, juntaram as palmas das mãos em reverência e retiraram-se para um lado.
Nessa altura, havia um bodhisattva chamado Grande Alegria da Exposição da Lei (Mahâpratibhâna) que entendia as dúvidas que iam nas mentes dos seres celestiais e humanos, asuras e outros seres do mundo. Ele disse a Buda: “Honrado Pelo Mundo, por que razão surgiu da terra esta torre do tesouro? E porque é que esta voz se ouve do seu interior?”
Nessa altura o Buda disse: ”Bodhisattva Grande Alegria da Exposição da Lei , na torre do tesouro está o corpo completo de um Tathagata. Há muito tempo atrás, para lá de imensuráveis milhares de dezenas de milhares de milhões de asamkhyas de mundos para o Leste, numa terra chamada Pureza do Tesouro (Ratnavisuddha), existia um Buda chamado Muitos Tesouros (Prabhûtaratna). Quando esse Buda estava originalmente a levar a cabo a via do bodhisattva, fez um grande voto, dizendo, “Se após ter entrado em extinção, nas terras das dez direcções existir um lugar onde o Sutra do Lótus seja exposto, então a minha torre funerária, por forma a que eu possa ouvir o sutra, aparecerá nesse local para prestar testemunho do Sutra e louvar a sua excelência.”
“Quando esse Buda completou a via de Buda e estava prestes a entrar em extinção, no meio da grande comunidade de seres celestiais e humanos disse aos monges, “Após ter entrado em extinção, se alguém quiser oferecer esmolas ao meu corpo completo, deve erigir uma grande torre.” Esse Buda, através dos seus poderes transcendentais e do poder do seu voto, assegura que, nos mundos através das dez direcções, não importa em que lugar, se existir alguém que ensine o Sutra do Lótus, esta torre do tesouro aparecerá na sua presença e o seu corpo completo estará nessa torre, falando palavras de louvor e dizendo, Excelente, excelente!”
“Grande Alegria da Exposição da Lei , agora esta torre do Tathagata Muitos Tesouros, porque ele ouviu a pregação do Sutra do Lótus, apareceu do chão e fala palavras de louvor, dizendo, Excelente, excelente!”
Nesta altura, o Bodhisattva Grande Alegria da Exposição da Lei , conhecendo os poderes transcendentais do Tathagata, falou ao Buda, dizendo: “Honrado Pelo Mundo, desejamos ver o corpo desse Buda.”
O Buda disse ao bodhisattva e mahasattva Grande Alegria da Exposição da Lei , “Este Buda Muitos Tesouros tomou um profundo voto, dizendo, “Quando a minha torre, de modo a que eu ouça o Sutra do Lótus, aparecer na presença de um dos Budas, se existir alguém que deseje mostrar o meu corpo aos quatro tipos de crentes, então que os vários Budas que são emanações desse Buda e que estão a expor a Lei em mundos pelas dez direcções retornem todos e se reunam em torno desse Buda num único local. Apenas quando isso estiver feito é que o meu corpo se tornará visível.” Grande Alegria da Exposição da Lei , reunirei agora os vários Budas que são emanações do meu corpo e que estão a ensinar a Lei nas terras das dez direcções.”
Grande Alegria da Exposição da Lei disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, desejamos também ver esses Buda que são emanações do Honrado Pelo Mundo, e de lhes prestar obediência e oferecer esmolas.”
Nessa altura o Buda emitiu um raio de luz do tufo de pêlo branco [entre as suas sobrancelhas] tornando imediatamente visíveis os Budas da região Leste em terras numerosas como quinhentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de grãos de areia do Ganges. Nessas terras o solo era feito de cristal e estavam adornadas com árvores e mantos de jóias. Estava repleta de incontáveis milhares, dezenas de milhar, milhões de bodhisattvas e em toda a parte estavam penduradas cortinas de jóias, com redes de jóias a cobri-las. Os Budas nessas terras ensinavam as várias doutrinas da Lei com vozes potentes e maravilhosas e podiam ver-se imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões de bodhisattvas enchendo essas terras e ensinando a Lei à assembleia. Igualmente nas regiões Sul, Oeste e Norte e nas quatro regiões intermédias e em cima e em baixo, onde quer que o raio de luz do tufo de pelo branco, um sinal característico dos Budas, iluminasse, o mesmo era visível.
Nessa altura os Budas das dez direcções falaram cada um à multidão de bodhisattvas, dizendo, “Bons homens, agora devo ir ao mundo Saha, ao lugar onde o Buda Shakyamuni está, e também oferecer esmolas à torre do tesouro do Tathagata Muitos Tesouros.”
O mundo Saha tornou-se imediatamente num lugar limpo e puro. O chão era de lápiz-lázuli, estava adornado com árvores de jóias e cordões de ouro marcavam os oito caminhos. Não existiam aldeias, vilas ou cidades, grandes mares ou rios, montanhas, cursos de água ou florestas; grandes jóias de incenso ardiam e flores de mandarava cobriam o chão por toda a parte. Redes e cortinas de jóias estavam penduradas com sinos de jóias, e só os membros da assembleia ai estavam reunidos, tendo todos os outros seres celestiais e humanos sido removidos para outra região.
Nessa altura os Budas, cada um com um grande bodhisattva como seu assistente, chegaram ao mundo Saha e prosseguiram para uma posição por baixo de uma das árvores de jóias. Cada uma dessas árvores de jóias media quinhentas yojanas de altura e estava adornada com ramos, folhas, flores e frutos de proporções adequadas. Sob todas as árvores de jóias estavam tronos de leão com cinco yojanas de altura, e também estes estavam decorados com grandes jóias. Então, cada um dos Budas tomou um desses lugares, sentando-se com as pernas cruzadas. Desta forma os assentos foram ocupados através do mundo, mas ainda assim não tinham fim as emanações do Buda Shakyamuni que chegavam de uma só direcção.
Nessa altura o Buda Shakyamuni, desejando providenciar espaço para todos os Budas que eram emanações do seu corpo, transformou ainda duzentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de terras em cada uma das oito direcções, tornando-as limpas e puras e sem infernos, espíritos esfomeados, bestas ou asuras. Também deslocou todos os seus seres celestiais e humanos para outra região. O chão nessas terras por ele transformadas era de lápiz-lázuli, estava adornado com árvores de jóias, medindo cada uma dessas árvores quinhentas yojanas de altura, adornadas com ramos, folhas, flores e frutos de proporções adequadas. Existiam tronos de leão sob todas essas árvores de jóias, com cinco yojanas de altura, decorados com vários tipos de tesouros. Também estas terras eram sem grandes rios ou montanhas, ou quaisquer cordilheiras reais, tais como os Montes Muchilinda, os Montes Mahamuchilinda, os Montes Grande Círculo de Ferro ou o Monte Sumeru. A área total correspondia a uma única terra de Buda, toda a região era nivelada e suave. Cortinas cruzadas por galões de jóias estavam espalhadas por toda a parte, estandartes e palanquins pendiam, grandes jóias de incenso ardiam e flores celestiais de jóias cobriam o chão por toda a parte.
Nessa altura, as emanações do Buda Shakyamuni da direcção Leste, Budas de terras iguais em número a centenas, milhares, dezenas de milhares de milhões de nayutas de areias do Ganges, cada um expondo a lei, se tinham reunido aí. E pouco a pouco os Budas das dez direcções foram chegando e reuniram-se desta forma sendo acomodados nas oito direcções. Nesta altura cada uma das direcções estava repleta de Budas, Tathagatas, e quatrocentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de terras.
Nessa altura os Budas, cada um sentado sob uma das árvores de jóias, instruíram os seus assistentes no sentido de irem saudar o Buda Shakyamuni. Cada Buda entregou ao seu assistente um braçado de flores de jóias e disse, “Bom homem, deves ir ao Monte Gridhrakuta ao lugar onde está o Buda Shakyamuni e falar-lhe segundo as minhas instruções. Diz, “As tuas maleitas são poucas, e poucas as tuas preocupações? De espírito e vigor, estás bem e satisfeito? Estão os bodhisattvas e ouvintes todos bem e em paz?” Então pega nestas flores de jóias e espalha-as sobre o Buda como uma oferenda, e diz, “O Buda …[nome do Buda] deseja participar na abertura desta torre do tesouro.”
Todos os Budas instruíram os seus assistentes para falarem desta forma. Nessa altura o Buda Shakyamuni viu os Budas que eram suas emanações todos reunidos, cada um sentado num trono de leão, e ouviu todos esses Budas dizerem que desejavam participar na abertura da torre do tesouro. Levantou-se de imediato do seu assento e suspendeu-se em pleno ar. Todos os quatro tipos de crentes se levantaram e, juntando as suas mãos de palmas unidas, fitaram o Buda com uma só mente.
O Buda Shakyamuni com os dedos da mão direita abriu então a porta da torre dos sete tesouros. Um forte som saiu dela, como o som dos fechos e trancas do portão de uma grande cidade a serem removidos, e de imediato todos os membros da assembleia puderam ver o Buda Muitos Tesouros sentado num trono de leão dentro da torre de tesouros, o seu corpo inteiro e incorrupto, sentado como que ocupado em meditação. E ouviram-no dizer, “Excelente, excelente, Buda Shakyamuni! Expuses-te este Sutra do Lótus de forma inspirada. Vim até aqui por forma a poder ouvir este sutra.”
Então, os quatro tipos de crentes, vendo este Buda que tinha entrado em extinção há imensuráveis milhares de dezenas de milhares de milhões de kalpas falar desta forma, maravilharam-se perante o que nunca tinham conhecido antes e pegaram nos montes de flores celestiais e espalharam-nas sobre o Buda Muitos Tesouros e sobre o Buda Shakyamuni.
Nessa altura o Buda Muitos Tesouros ofereceu metade do seu lugar na torre de tesouros ao Buda Shakyamuni, dizendo, “Buda Shakyamuni, senta-te aqui!” O Buda Shakyamuni entrou de imediato na torre e ocupou metade do lugar, sentando-se de pernas cruzadas em posição de lótus.
Nessa altura, os membros da grande assembleia, vendo os dois Tathagatas sentados de pernas cruzadas no trono de leão da torre dos sete tesouros, pensaram, estes Budas estão sentados lá longe nas alturas! Se ao menos os Tathagatas empregassem os seus poderes transcendentais para nos permitir juntarmo-nos a eles no ar!
De imediato, o Buda Shakyamuni usou os seus poderes transcendentais para elevar no ar os membros da grande assembleia. E, com uma potente voz, dirigiu-se aos quatro tipos de crentes, dizendo, “Quem é capaz de expor cabalmente o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa neste mundo Saha? Agora é o momento de o fazer, porque antes do Tathagata entrar no nirvana, o Buda quer confiar este Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa a alguém de modo a que possa ser preservado.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Este senhor sagrado,
este Honrado Pelo Mundo,
apesar de ter entrado em extinção há muito tempo atrás,
senta-se ainda na torre do tesouro,
vindo até aqui em prol da Lei.
Então porque é que vocês
não lutam igualmente pelo bem da Lei?
Este Buda passou à extinção
há um interminável número de kalpas atrás,
mas em muitos lugares
vai ouvir a Lei
porque essas oportunidades são raras de encontrar.
O Buda, originalmente, fez um voto, dizendo,
“Após ter entrado em extinção,
onde quer que vá, em qualquer lugar,
o meu intuito constante será ouvir a Lei!”
Além disso, estas emanações do meu corpo,
Budas imensuráveis em número
como as areias do Ganges,
vieram até aqui, desejando ouvir a Lei,
e poderem assim ver o Tathagata Muitos Tesouros
que passou à extinção.
Cada um abandonou as suas terras maravilhosas,
bem como as suas multidões de discípulos,
os seres celestiais e humanos, dragões e espíritos
e as ofertas que tinha recebido,
e veio para este lugar com o propósito
de garantir que a Lei perdurará por muito tempo.
De modo a sentar estes Budas
empreguei poderes transcendentais,
deslocando imensuráveis multidões,
tornando as terras limpas e puras,
conduzindo cada um destes Budas
até à base de uma árvore de jóias,
adornada como as flores de lótus
adornam um lago claro e fresco.
Sob estas árvores de jóias estão tronos de leão,
e os Budas sentam-se neles,
adornando-os com o seu brilho
como uma grande tocha ardente
na escuridão da noite.
Os seus corpos exalam um maravilhoso incenso,
que penetra nas terras das dez direcções.
Os seres viventes são capturados pelo aroma,
incapazes de refrear a sua alegria,
como se um grande vento agitasse
os ramos de pequenas árvores.
Através destes meios hábeis
garantem que a lei perdurará por muito tempo.
Assim, digo à assembleia:
depois de eu passar à extinção,
quem poderá receber e guardar,
ler e recitar este sutra?
Agora, na presença do Buda,
deixai-o aproximar-se e dizer o seu voto!
Este Buda Muitos Tesouros,
ainda que se tenha extinguido há muito tempo atrás,
devido ao seu grande voto, ruge o rugido do leão.
Buda Muitos Tesouros, eu próprio,
e estas emanações de Buda que aqui se reuniram,
sabemos que este é o nosso objectivo.
Ó filhos de Buda,
quem poderá guardar a Lei?
Deixai-o fazer um grande voto
para garantir que ela perdurará por muito tempo!
Aquele que for capaz de guardar a Lei deste sutra
terá desse modo oferecido esmolas
a mim e ao Buda Muitos Tesouros.
Este Buda Muitos tesouros
viaja constantemente através das dez direcções
pelo bem deste sutra.
Aquele que guardar este sutra
terá também oferecido esmolas
às emanações de Buda que vieram até aqui
adornando e tornando brilhantes todos os vários mundos.
Se alguém expuser este sutra,
será capaz de me ver,
de ver o Buda Muitos Tesouros
e de ver estas emanações de Buda.
Todos vós, bons homens,
deveis considerar cuidadosamente!
Este é um assunto difícil –
é apropriado que façais um grande voto.
Os outros sutras
são numerosos como as areias do Ganges,
mas ainda que expusésseis todos esses sutras,
isso não seria comparável em dificuldade.
Se fosseis a medir o Monte Sumeru
e a arremessá-lo para longe,
para as imensuráveis terras de Buda,
isso também não seria difícil.
Se usásseis o dedo do vosso pé
para mover um universo,
chutando-o para terras longínquas,
isso também não seria difícil.
Se permanecêsseis no paraíso Cume do Ser
e pelo bem da assembleia,
expusesseis incontáveis outros sutras,
isso também não seria difícil.
Mas se após o Buda se extinguir,
no tempo do mal,
puderes expor este sutra,
isso será realmente difícil!
Se existisse uma pessoa
que pegasse no céu com a sua mão
e andasse às voltas com ele,
isso não seria difícil.
Mas se após a minha extinção
alguém conseguir copiar e abraçar este sutra,
isso será realmente difícil !
Se alguém pegar na grande terra,
a colocar na unha do seu dedo
e ascender com ela ao paraíso Brahma,
isso não será difícil.
Mas se após o Buda se extinguir,
no tempo do mal,
alguém, ainda que por um instante, ler este sutra,
isso será realmente difícil!
Se, quando vier o fogo no final do kalpa,
alguém carregar erva seca às costas,
e entrar no fogo sem se queimar, isso não será difícil.
Mas se após a minha extinção,
alguém puder abraçar este sutra
e expo-lo mesmo que para apenas uma pessoa,
isso será realmente difícil!
Se alguém viesse a abraçar
este repositório de oitenta e quatro mil doutrinas,
de doze divisões de sutras,
e o expusesse a outros,
fazendo os ouvintes adquirir os seis poderes transcendentais –
ainda que alguém pudesse fazer isso,
isso não seria difícil.
Mas se após a minha extinção,
alguém puder aceitar este sutra
e perguntar pelo seu significado,
isso será realmente difícil!
Se alguém expuser a Lei,
e possibilitar assim a milhares, dezenas de milhares, milhões,
um imensurável número de seres viventes,
igual ao das areias do Ganges,
tornar-se arhats dotados dos seis poderes transcendentais –
ainda que alguém possa conferir tais benefícios,
isso não será difícil.
Mas após a minha extinção,
se alguém puder honrar e promover
um sutra como este,
isso será realmente difícil!
Em prol do caminho da Budeidade
em imensuráveis números de terras
desde o princípio até agora,
expus largamente muitos sutras,
e de entre eles, este sutra é o principal.
Se alguém consegue sustentá-lo,
estará sustentando o corpo de Buda.
De todos vocês, bons homens,
depois da minha extinção,
quem poderá aceitar e promover este sutra?
Agora na presença do Buda,
deixai-o aproximar-se e fazer o seu voto!
Este sutra é difícil de sustentar;
se alguém o fizer
mesmo que durante um curto período
seguramente rejubilarei
tal como os outros Budas.
Uma pessoa capaz disto
ganha a admiração dos Budas.
É a isto que chamo valor,
é a isto que chamo diligência.
É a isto que chamo observar os preceitos
e praticar dhuta.
Desta forma pode ser alcançada rapidamente
a via do Buda.
E se em existências futuras
alguém puder ler e promover este sutra,
será um verdadeiro filho do Buda,
residindo numa terra imaculada e boa.
Se após o Buda se extinguir
alguém compreender o sentido deste sutra,
será os olhos do mundo
para os seres celestiais e humanos.
Se nessa era temível
alguém puder expor este sutra
ainda que por apenas um momento,
merecerá receber esmolas
de todos os seres celestiais e humanos.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Doze:
Devadatta
Nessa altura o Buda dirigiu-se aos bodhisattvas, aos seres celestiais e humanos e aos quatro tipos de crentes, dizendo: “Há imensuráveis kalpas no passado, procurei o Sutra do Lótus sem nunca esmorecer. Durante esses muitos kalpas, apareci constantemente como o governante de um reino que fizera o voto de buscar a bodhi insuperável. A sua mente nunca vacilava ou desistia, e no seu desejo de completar os seis paramitas distribuía esmolas diligentemente, nunca regateando em seu coração, quer a dádiva fosse elefantes ou cavalos, os sete artigos raros, países, cidades, mulher, filhos, servos, ou a própria cabeça, olhos, medula, cérebro, a sua própria pele ou membros. Não regateava sequer a própria vida. Nessa altura a vida humana era imensuravelmente longa. Mas em prol da Lei este rei abandonou o reino e o trono, delegando o governo no seu príncipe herdeiro, fazendo soar tambores e enviando proclamações, procurando a Lei nas quatro direcções e dizendo, “Quem pode expor para mim o Grande Veículo? Até ao fim dos meus dias eu seria o seu provedor e servo!”
“Nessa altura existia um vidente que foi ter com o rei e disse, “Tenho um texto do Grande Veículo chamado Sutra da Lei Maravilhosa. Se nunca me desobedeceres, expô-lo-ei para ti.” Quando o rei ouviu estas palavras do vidente dançou de alegria. De imediato acompanhou o vidente, providenciando tudo o que ele desejasse, indo apanhar fruta, buscar água, tratando do fogo, preparando as refeições, oferecendo mesmo o próprio corpo como colchão ou assento, nunca se poupando em corpo ou mente. Serviu o vidente desta forma durante quinhentos anos, tudo em prol da Lei, trabalhando diligentemente como assistente do vidente e velando para que nada lhe faltasse.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Recordo esses idos kalpas do passado
quando por forma a procurar a grande Lei,
apesar de eu ser o governante de um reino,
não estava ávido de satisfazer os cinco desejos
mas antes tocava o sino, anunciando pelas quatro direcções,
“Quem possui a grande Lei?
Se alguém a explicar e expuser para mim
serei seu escravo e servo!”
Nessa altura existia um vidente chamado Asita
que veio e anunciou a este grande Rei,
“Tenho uma Lei subtil e maravilhosa,
raramente conhecida neste mundo.
Se levares a cabo práticas religiosas
poderei expô-la para ti.”
Quando o rei ouviu as palavras do vidente
o seu coração estava cheio de grande alegria.
Imediatamente acompanhou o vidente,
fornecendo-lhe tudo o que precisasse,
recolhendo lenha, frutas, arroz selvagem,
apresentando-lhe tudo nas ocasiões apropriadas
com respeito e reverência.
Porque os seus pensamentos estavam na Lei Maravilhosa
nunca esmorecia de corpo ou mente.
Pelo bem de todos os seres viventes
diligentemente procurava a grande Lei,
sem prestar atenção a si próprio
ou à gratificação dos cinco desejos.
Assim o governante de um grande reino
através de busca diligente
foi capaz de adquirir esta Lei
e eventualmente de atingir a Iluminação,
tal como agora exporei para vocês.
O Buda disse aos seus monges: “O rei, nessa altura, era eu, e este vidente era o homem que é agora Devadatta. Apenas porque Devadatta foi um bom amigo para mim, fui capaz de me dotar com os seis paramitas, piedade, compaixão, alegria e equanimidade, com os trinta e dois sinais distintivos, as oitenta características, a cor púrpura dourada, os dez poderes, os quatro tipos de destemores, os quatro métodos de conquistar as pessoas, as dezoito propriedades exclusivas, os poderes transcendentais e o poder da via. O facto de ter alcançado a iluminação correcta e imparcial e poder salvar seres viventes em larga escala é devido a Devadatta, que foi para mim um bom amigo.”
Então o Buda disse aos quatro tipos de crentes: “Devadatta, depois de terem passado imensuráveis kalpas, atingirá a Iluminação. Chamar-se-á Rei Celestial (Devarâga), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. O seu mundo será chamado via celestial, e o Buda Rei Celestial residirá no mundo durante vinte kalpas médios, expondo largamente a Lei Maravilhosa pelo bem dos seres viventes. Seres viventes tão numerosos como as areias do Ganges alcançarão o fruto do estado de arhat. Incontáveis seres viventes conceberão o desejo de se tornarem pratyekabudas, seres viventes tão numerosos como as areias do Ganges conceberão o desejo pela via insuperável, obterão o fruto de não mais renascerem, e por isso não retornarão. Depois de o Buda Rei Celestial entrar no parinirvana, a sua Lei Correcta perdurará no mundo durante vinte kalpas médios. As relíquias do seu corpo serão guardadas numa torre construída com os sete tesouros, com sessenta yojanas de altura e sessenta yojanas de comprimento e largura. Todos os seres celestiais e humanos escolherão flores variadas, incenso em pó ou em pasta, roupas, colares, estandartes e bandeiras, palanquins de jóias, músicas e canções de louvor para oferecerem como sinal de reverência à torre de sete tesouros. Imensuráveis números de seres viventes alcançarão os frutos do estado de arhat, numerosos seres viventes alcançarão a iluminação como pratyekabudas e um inimaginável número de seres viventes conceberão o desejo por bodhi e atingirão o nível de não retorno.”
O Buda disse aos seus monges: “Em eras futuras, se existirem bons homens e boas mulheres que, ao ouvirem o capítulo Devadatta do Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa, acreditarem nele e o reverenciarem com corações puros, sem darem lugar a dúvidas ou perplexidades, nunca cairão no inferno ou no reino dos espíritos esfomeados ou das bestas, mas nascerão na presença de Budas das dez direcções, e no lugar em que nascerem ouvirão constantemente este sutra. Se nascerem entre seres humanos ou celestiais, gozarão maravilhosos e inexcedíveis deleites, e se nascerem na presença do Buda, nascerão de transformação a partir de flores de lótus.”
Nessa altura existia um bodhisattva que estava entre os seguidores do Honrado Pelo Mundo Muitos Tesouros da região inferior e cujo nome era Sabedoria Acumulada
(Pragñâkûta). Disse ao Buda Muitos tesouros, ”Devemos voltar agora para a nossa terra natal?”
O Buda Shakyamuni disse a Sabedoria Acumulada, “Bom homem, espera um pouco mais. Existe aqui um Bodhisattva chamado Manjushri que devias ver. Debate e discute a Lei maravilhosa com ele, e depois podes retornar à tua terra natal.”
Nessa altura Manjushri estava sentado numa flor de lótus de mil pétalas, grande como uma roda de carruagem, e os bodhisattvas que tinham vindo com ele também estavam sentados em lótus de jóias. Manjushri tinha emergido de forma natural do palácio do rei dragão Sagara no grande oceano e estava suspenso no ar. Prosseguindo para o Pico Sagrado da Águia, desceu da flor de lótus e, tendo chegado à presença dos Budas, inclinou a cabeça e prestou obediência aos pés dos dois Honrados Pelo Mundo. Quando concluiu esses gestos de respeito, dirigiu-se para onde estava Sabedoria Acumulada e trocou com ele cumprimentos, após o que se retirou, sentando-se a um lado.
O Bodhisattva Sabedoria Acumulada questionou Manjushri, dizendo, “Quando foste ao palácio do rei Dragão, quantos seres viventes converteste?”
Manjushri respondeu, “O número é imensurável, impossível de calcular. A boca não o consegue exprimir, a mente não o consegue imaginar. Espera um momento e aparecerá a prova.”
Antes que acabasse de falar, incontáveis bodhisattvas sentados em flores de lótus de jóias, emergiram do oceano e prosseguiram para o Pico Sagrado da Águia, onde permaneceram suspensos no ar. Estes bodhisattvas tinham sido todos convertidos por Manjushri. Tinham levado a cabo todas as práticas do bodhisattva e discutido e exposto os seis paramitas entre si. Aqueles que originalmente tinham sido ouvintes expunham as práticas do ouvinte enquanto estavam no ar, mas agora todos estavam a praticar o princípio da vacuidade pertencente ao Grande Veículo.
Manjushri disse a Sabedoria Acumulada, “O trabalho de ensino e conversão levado a cabo no oceano foi tal como podes ver.”
Nessa altura Sabedoria Acumulada recitou estes versos de louvor:
De grande virtude e sabedoria, bravo e forte, converteste e salvaste imensuráveis seres.
Agora todos nesta grande assembleia, assim como eu próprio, vimos esses seres.
Expões o princípio da verdadeira entidade, abres a Lei do veículo único, guiando largamente os muitos seres, fazendo-os atingir bodhi rapidamente.
Manjushri disse, “Quando estava no oceano expunha constantemente apenas o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa.”
Sabedoria Acumulada questionou Manjushri, dizendo, “Este sutra é profundo, subtil e maravilhoso, um tesouro entre os sutras, uma raridade no mundo. Existe porventura algum ser vivente que, praticando este sutra esforçada e diligentemente, tenha sido capaz de atingir rapidamente o Despertar?”
Manjushri respondeu, “Existe a filha do rei dragão Sagara, que acabara de fazer oito anos. A sua sabedoria tinha raízes apuradas e era boa na compreensão das actividades e dos seres viventes. Alcançou a mestria nos dharanis e foi capaz de aceitar e abraçar todo o repositório dos profundos segredos revelados pelos Budas, entrou profundamente na meditação, compreendendo cabalmente as doutrinas, e no espaço de um instante concebeu o desejo por bodhi e atingiu o estado de não regressão. A sua eloquência não conhece impedimentos e ela pensa nos seres viventes com compaixão como se fossem seus filhos. Está completamente dotada de bênçãos, e quando se trata de conceber mentalmente e expor oralmente é subtil, maravilhosa, abrangente e grande. Suave, compassiva, benevolente, frutuosa, é gentil e refinada na intenção, capaz de alcançar bodhi.”
O Bodhisattva Sabedoria Acumulada disse, “Quando vejo o Tathagata Shakyamuni Buda, constato que durante inumeráveis kalpas ele levou a cabo práticas duras e difíceis, acumulando mérito, erigindo a virtude, procurando a via do bodhisattva sem nunca descansar. Observo que através do vasto universo não existe um único ponto, mesmo que pequeno como uma semente de mostarda, onde este bodhisattva não tenha sacrificado o corpo e a vida em benefício dos seres viventes. Apenas depois de tudo isto foi capaz de completar a via de bodhi. Não consigo acreditar que essa rapariga, no espaço de um instante, possa realmente atingir a correcta iluminação.”
Antes que as suas palavras chegassem ao fim, a filha do rei dragão apareceu subitamente perante o Buda, inclinou a cabeça em sinal de obediência e então retirou-se para um lado recitando estes versos de louvor:
Ele compreende profundamente os sinais da culpa e da boa fortuna
e ilumina todos os lugares pelas dez direcções.
O seu subtil e maravilhoso corpo do Dharma
é dotado dos trinta e dois sinais distintivos;
as oito características adornam o seu corpo do Dharma.
Seres celestiais e humanos fitam-no em adoração,
dragões e espíritos, todos lhe prestam honras e respeito;
entre todos os seres viventes, nenhum deixa de lhe guardar reverência.
Tendo ouvido os seus ensinamentos atingi bodhi –
apenas o Buda pode dar testemunho disto.
Exponho as doutrinas do Grande Veículo
para resgatar os seres viventes do sofrimento.
Nessa altura, Shariputra disse à rapariga dragão, “Supões que neste curto espaço de tempo foste capaz de alcançar a via insuperável. Mas isso é difícil de acreditar. Porquê? Porque um corpo de mulher é sujo e impuro, não é um vaso apropriado para a via. Como podes ter alcançado a insuperável bodhi? O caminho para o Despertar é longo. Apenas depois de durante imensuráveis kalpas ter passado austeridades, acumulado méritos, praticado todos os tipos de paramitas, pode alguém alcançar finalmente o sucesso. Além do mais, a mulher está sujeita aos cinco obstáculos. Primeiro, ela não pode tornar-se um rei celestial Brahma. Segundo, não pode tornar-se um rei Shakra. Terceiro, ela não pode tornar-se um rei demónio. Quarto, ela não pode tornar-se um rei Sábio. Quinto, ela não pode tornar-se um Buda. Como é então possível que uma mulher como tu tenha sido capaz de alcançar o Despertar tão depressa?”
Nessa altura a rapariga dragão tinha uma jóia preciosa, no valor de todo um universo, que ofertou ao Buda. O Buda aceitou-a prontamente. A rapariga dragão disse ao bodhisattva Sabedoria Acumulada e ao venerável Shariputra, “Apresentei a preciosa jóia e o Honrado Pelo Mundo aceitou-a – isso não foi feito depressa?”
Ambos responderam, “Sim, muito depressa!”
A rapariga disse então, “empreguem os vossos poderes sobrenaturais e vejam-me atingir a Iluminação. Será ainda mais rápido do que isso!”
Então, todos os membros da assembleia viram a rapariga dragão, no espaço de um instante, transformar-se num homem e levar a cabo todas as práticas de um bodhisattva, prosseguir de imediato para o Mundo Impoluto (Vimala) do Sul, sentar-se num lótus de jóias e atingir a iluminação imparcial e correcta. Com as trinta e duas marcas e as dezoito características, expôs a maravilhosa Lei para todos os seres viventes nas dez direcções.
Nessa altura, no mundo Saha, os bodhisattvas, ouvintes, deuses, dragões e outros dos oito tipos de guardiões, seres humanos e não humanos, viram todos à distância a rapariga dragão tornar-se um Buda e expor a Lei a todos os seres celestiais e humanos na assembleia. Os seus corações encheram-se de grande alegria e todos ao longe prestaram-lhe obediência reverente. Imensuráveis seres viventes, ouvindo a Lei, compreenderam-na e foram capazes de alcançar o estado de não regressão. O Mundo Impoluto estremeceu e tremeu de seis maneiras diferentes. Três milhares de seres viventes do mundo Saha permaneceram no estado de não regressão. Três milhares de seres viventes conceberam o desejo por bodhi e receberam profecias de iluminação. O Bodhisattva Sabedoria Acumulada, Shariputra e todos os outros membros da assembleia acreditaram silenciosamente e aceitaram estas coisas.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Treze:
Admoestação Para Abraçar o Sutra
Nessa altura, o bodhisattva e mahasattva Rei da Medicina (Bhaishagyarâga), em conjunto com o bodhisattva e mahasattva Grande Alegria da Exposição da Lei (Mahâpratibhâna) e vinte mil discípulos bodhisattvas que os acompanhavam, todos na presença do Buda fizeram este voto, dizendo: “Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que não tenha mais preocupações. Após o Buda ter entrado em extinção nós não deixaremos de honrar, abraçar, ler, recitar e expor este sutra. Os seres viventes da era maligna terão boas raízes cada vez menores. Muitos serão supremamente arrogantes e gananciosos por ofertas e outras formas de lucro, aumentando as más raízes e afastando-se mais do que nunca da emancipação. Mas ainda que seja difícil ensiná-los e convertê-los, nós invocaremos o poder da grande paciência e iremos ler e recitar este sutra, abraçá-lo, expô-lo e copiá-lo, oferecendo-lhe muitos tipos de esmolas sem nunca regatearmos os nossos corpos ou as nossas vidas.
Nessa altura na assembleia existiam quinhentos arhats que tinham recebido uma profecia de iluminação. Disseram ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, também fazemos um voto. Em outras terras que não esta exporemos largamente este sutra.”
Também aí estavam oito mil pessoas, algumas ainda a aprender, outras sem nada mais a aprender, que tinham recebido uma profecia de iluminação. Levantaram-se dos seus lugares, juntaram as palmas das mãos e, virando-se para o Buda, fizeram este voto: “Honrado Pelo Mundo, também nós noutras terras iremos expor largamente este sutra. Porquê? Porque neste mundo Saha as pessoas são dadas à corrupção e ao mal, acometidas de grande arrogância, pobres em bênçãos, irascíveis, bajuladoras e hipócritas, e os seus corações são insinceros.”
Nessa altura a tia materna de Buda, a monja Mahaprajapati e as seis mil monjas que a acompanhavam, algumas ainda a aprender, outras sem nada mais a aprender, levantaram-se dos seus lugares, juntaram as palmas das mãos e com uma só mente fitaram a face do Honrado Pelo Mundo, sem desviarem os olhos por um instante sequer.
Nessa altura o Buda disse a Gautami, “Porque olhas o Tathagata de forma tão perplexa? Estás preocupada no teu coração por não ter mencionado o teu nome entre aqueles que receberam a profecia de obtenção de anuttara-samyak-sambhodi? Mas Gautami, eu tinha feito antes uma declaração geral dizendo que todos os ouvintes tinham recebido tal profecia. Agora, se queres saber a profecia para ti, direi que em eras vindouras, sob a Lei de sessenta e oito milhares de milhões de Budas, serás um grande mestre da Lei, e as seis mil monjas, algumas ainda a aprender, algumas já suficientemente instruídas, acompanhar-te-ão como mestres da Lei. Deste modo irás pouco a pouco completando a via do bodhisattva até que estarás apta a tornar-te um Buda com o nome Visto Com Alegria Por Todos Os Seres Viventes (Sarvasattvapriyadarsana), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. Gautami, este Buda Visto Com Alegria Por Todos Os Seres Viventes conferirá uma profecia aos seis mil bodhisattvas, a ser transmitida de um para outro, de que alcançarão anuttara-samyak-sambodhi.”
Nessa altura a mãe de Rahula, a monja Yasodhara, pensou para si; “O Honrado Pelo Mundo, na sua atribuição de profecias não referiu o meu nome!”
O Buda disse a Yasodhara, “Em eras futuras, sob a Lei de centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Budas, praticarás os feitos de um bodhisattva, serás um grande mestre da Lei e, gradualmente, irás completando o caminho da Budeidade. Então, numa boa terra, tornar-te-ás um Buda chamado Dotado de Milhares de Dezenas de Milhares de Marcas Brilhantes (Rasmisatasahasraparipûrnadhvaga), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. A duração da vida deste Buda será de imensuráveis asankyas de kalpas.”
Nessa altura a monja Mahaprajapati, a monja Yashodhara e as suas seguidoras estavam cheias de grande alegria, tendo ganho o que nunca antes haviam possuído. De imediato, na presença do Buda falaram em verso, dizendo:
Honrado Pelo Mundo, líder e mestre,
trazes tranquilidade aos seres celestiais e humanos.
Ouvimos estas profecias
e a nossa mente está pacificada e satisfeita.
As monjas, tendo recitado estes versos, disseram ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, também nós estamos prontas para ir para outras terras e propagar largamente este sutra.
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo olhou os oitocentos mil milhões de nayutas de bodhisattvas e mahasattvas. Estes bodhisattvas haviam todos chegado ao estado de avivartika, girado a irreversível roda da Lei e ganho dharanis. Levantaram-se dos seus lugares, avançaram perante o Buda e, juntando as palmas das mãos com uma só mente, pensaram para si mesmos, se o Honrado Pelo Mundo nos mandar abraçar e expor este sutra, cumpriremos as instruções do Buda e ensinaremos largamente esta Lei. E então pensaram, mas o Buda agora está silencioso e não nos dá essa ordem. Que devemos fazer?
Nessa altura, os bodhisattvas, acatando respeitosamente a vontade do Buda e ao mesmo tempo, desejando cumprir os seus votos originais, prosseguiram até à presença do Buda para rugir o rugido do leão e fazer um voto, dizendo: “Honrado Pelo Mundo, após o Tathagata ter entrado em extinção, viajaremos por aqui e por ali, para trás e para a frente através de mundos pelas dez direcções para permitir aos seres copiarem este sutra, o receberem, abraçarem, lerem e recitarem, entendendo e expondo os seus princípios, praticando-o de acordo com a Lei, e mantendo-o apropriadamente nos seus pensamentos. Tudo isto será feito mediante o poder e a autoridade do Buda. Rogamos ao Honrado Pelo Mundo, ainda que noutra região, que olhe por nós, nos guarde e proteja.
Nessa altura os bodhisattvas juntaram as suas vozes e falaram em verso, dizendo:
Rogamos-te que não te preocupes.
Após o Buda ter passado à extinção,
numa era de medo e maldade
ensinaremos largamente por toda a parte.
Existirão então muitas pessoas ignorantes
que nos amaldiçoarão e caluniarão,
que nos atacarão com espadas e paus,
mas suportaremos todas essas coisas.
Nessa era maligna existirão monges
de sabedoria perversa e corações bajuladores e enganosos,
que pensarão ter alcançado o que não alcançaram,
orgulhosos e gabarolas nos seus corações.
Ou existirão monges residentes na floresta,
usando roupas de remendos e vivendo em reclusão,
que pretenderão estarem a praticar a verdadeira via,
desprezando e olhando com superioridade a humanidade.
Gananciosos por lucro e apoio,
ensinarão a lei do leigo de roupa branca
e serão respeitados e reverenciados pelo mundo
como se fossem arhats
possuidores dos seis poderes transcendentais.
Estes homens com o mal nos seus corações,
pensarão constantemente em assuntos mundanos,
usurparão o nome dos monges residentes na floresta
e terão prazer em proclamar as nossas faltas,
dizendo coisas como esta:
“Estes monges são gananciosos por lucro e apoio
e por isso ensinam doutrinas não budistas
e fabricam as suas próprias escrituras
para iludir as pessoas do mundo.
Por esperarem ganhar fama e renome
fazem distinções ao expor este sutra.”
Porque no meio da assembleia
tentarão constantemente difamar-nos,
dirigir-se-ão aos governantes, ministros,
Bramanes e proprietários,
bem como aos outros monges,
caluniando-nos e difamando-nos, dizendo,
“Estes homens de visões perversas
ensinam doutrinas não budistas!
Mas porque veneramos o Buda
suportaremos todos estes males.
Mesmo que nos tratem com desprezo, dizendo irónicamente,
“Vocês são sem dúvida Budas!”
todas essas palavras de arrogância e desprezo
iremos suportar e aceitar.
Num kalpa enlameado, numa era malévola
existirão muitas coisas temíveis.
Demónios malignos tomarão possessão de outros
e através deles irão amaldiçoar-nos, insultar-nos
e tentar envergonhar-nos.
Mas, confiando reverentemente no Buda,
envergaremos a armadura da perseverança.
De modo a expor este sutra
suportaremos estas dificuldades.
Não nos preocupamos com os nossos corpos ou vidas
mas estamos ansiosos apenas pela via insuperável.
Em idades vindouras
sustentaremos e protegeremos
o que o Buda nos confiou.
Os monges malignos dessa era enlameada,
falhando o entendimento dos meios hábeis do Buda,
e a forma como expõe a Lei de acordo com o que é apropriado,
confrontar-nos-ão com linguagem obscena e expressões iradas;
seremos banidos consecutivamente
para lugares afastados das torres e templos.
Todos esses diversos males,
por mantermos em mente as ordens de Buda,
iremos suportar.
Às povoações e cidades daqueles que buscam a Lei,
iremos onde quer que eles estejam
e exporemos a Lei confiada pelo Buda.
Seremos os enviados do Honrado Pelo Mundo,
enfrentando sem medo a assembleia.
Ensinaremos a Lei com habilidade,
pois desejamos que o Buda descanse tranquilo.
Na presença do Honrado Pelo Mundo
e de Budas reunidos desde as dez direcções,
proclamamos este voto.
O Buda deve saber o que vai nos nossos corações.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Catorze:
Práticas Pacíficas
Nessa altura, o príncipe do Dharma, Manjushri, bodhisattva e mahasattva, disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, estes bodhisattvas empreenderam algo que é muito difícil. Porque eles reverenciam e honram o Buda, fizeram este grande voto de que nas eras malignas vindouras irão guardar, abraçar, ler, recitar e pregar este Sutra do Lótus. Honrado Pelo Mundo, nas eras malignas vindouras, como devem estes bodhisattvas, mahasattvas expor este sutra?”
O Buda disse a Manjushri: “Se estes bodhisattvas e mahasattvas nas eras malignas vindouras desejarem expor este sutra devem regular-se por quatro regras. Primeiro devem acatar as praticas e associações próprias dos bodhisattvas de modo a que possam expor este sutra em prol dos seres viventes. Manjushri, o que é que quero dizer com as práticas de um bodhisattva ou mahasattva? Se um bodhisattva ou mahasattva é perseverante, gentil e dócil, nunca violento ou alarmado; e se em relação aos fenómenos não actua mas observa a sua verdadeira entidade sem fazer qualquer distinção, então pode dizer serem estas as práticas de um bodhisattva e mahasattva.
“Quanto às associações próprias dos bodhisattvas e mahasattvas, estes não devem relacionar-se proximamente com governantes, príncipes, ministros ou altos secretários. Não devem relacionar-se proximamente com não budistas, Bramanes ou jainistas, ou com aqueles que compõe literatura secular ou livros elogiando os heréticos, nem devem associar-se de perto com Lokayatas ou anti-Lokayatas. Não devem associar-se de perto a divertimentos arriscados, boxe ou luta, ou com actores ou outros empenhados em vários tipos de entretenimentos ilusórios, ou com chandalas, criadores de porcos, carneiros, galinhas ou cães, ou ainda com praticantes da caça, da pesca ou de outras actividades malévolas. Se tais pessoas de tempos a tempos vierem ter com os bodhisattvas e mahasattvas, estes devem expor-lhes a Lei, mas não devem esperar nada deles. Além disso, não se devem associar com monges, monjas, leigos ou leigos que procurem tornar-se ouvintes, nem devem debater com eles ou visitá-los. Não devem ficar na mesma sala que eles, ou no local onde se pratica ou na sala de leitura. Não devem juntar-se a eles nas suas actividades. Se vierem ter com os bodhisattvas e mahasattvas, estes devem expor-lhes a Lei de acordo com o que é apropriado, mas não devem esperar nada deles.
“Manjushri, o bodhisatva ou mahasattva não deve, ao expôr a Lei às mulheres, comportar-se de maneira que possa despertar nelas pensamentos de desejo, nem deve deleitar-se ao vê-las. Se entra na casa de outra pessoa, não deve envolver-se em conversas com as raparigas jovens, mulheres solteiras ou viúvas. Não deve aproximar-se dos cinco tipos de homens não masculinos nem ter qualquer relacionamento próximo com eles. Não deve entrar na casa de outra pessoa sozinho. Se por qualquer razão se impõe que entre sozinho, deve concentrar a sua mente exclusivamente em pensamentos sobre o Buda. Se tiver que expor a Lei a uma mulher, não deve mostrar os seus dentes rindo nem deve deixar o seu peito ficar exposto. Não deve ter qualquer relacionamento íntimo com ela, mesmo que em prol da Lei, muito menos por qualquer outro propósito.
“Não deve deleitar-se na educação dos discípulos menores de idade, shramaneras ou crianças, e não deve deleitar-se em compartilhar o mesmo mestre com eles. Deve ter prazer em sentar-se constantemente em meditação, ficando em lugares sossegados e aprendendo a aquietar a sua mente. Manjushri, estas são o que chamo as coisas a que ele, antes de mais, se deve associar.
“Depois, os bodhisattvas ou mahasattvas devem ver todos os fenómenos como vazios, sendo essa a sua verdadeira entidade. Eles não se invertem, não se movem, não regridem nem se revolvem. São como espaço vazio, sem natureza inata, para além do alcance de todas as palavras. Não são nascidos, não emergem, não surgem. São sem nome, sem forma, sem verdadeiro ser. São sem volume, sem limites, sem impedimentos, sem barreiras. É apenas devido a causas e condições que existem, e vêm a ser invertidas, a nascer. Daí que eu digo que devem constantemente ver assim as formas dos fenómenos. Isto é o que chamo as segundas coisas a que um bodhisattva ou mahasattva se deve associar.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se existirem bodhisattvas que numa era maligna vindoura
desejarem com corações destemidos
expor este sutra,
estes são os locais onde não devem entrar
e as pessoas com quem não devem ter relacionamentos próximos.
Em nenhum momento devem relacionar-se
com governantes e príncipes de reinos,
ministros ou chefes de gabinete,
com quem estiver envolvido em entretenimentos perigosos
bem como com chandalas,
não-Budistas ou Bramanes.
Não devem associar-se com pessoas arrogantes
nem com os que aderem
obstinadamente ao Veículo Menor
e são versadas nos seus três repositórios.
Monges que violam os preceitos,
falsos arhats,
monjas que gostam de brincar e rir,
ou mulheres leigas que são
profundamente apegadas aos cinco desejos
ou que buscam a entrada imediata na extinção –
com todos esses não se devem associar.
Se existirem pessoas
que venham com bom coração ter com o bodhisattva
para ouvirem a via do Buda,
então o bodhisattva com um coração destemido
mas sem dar lugar a expectativas
deve expor-lhes a Lei.
Mas viúvas e mulheres solteiras
e os diferentes tipos de homens não masculinos –
com todos estes não se deve associar
ou lidar com intimidade.
Também não deve associar-se
a carniceiros ou cortadores,
nem com os que caçam animais ou apanham peixe,
ou matam e ferem por lucro.
Com esses que trabalham na venda de carne
ou que oferecem mulheres e vendem os seus favores –
com pessoas destas não se deve associar.
Com quem esteja envolvido em desportos perigosos,
lutas ou outros tipos de divertimentos,
ou com mulheres de natureza lasciva –
que nunca se associe com nenhuma destas pessoas.
Que nunca vá sozinho a lugares fechados
para expor a Lei a uma mulher.
Quando ensinar a Lei,
que não haja brincadeiras ou risos.
Quando entrar numa povoação para pedir comida,
deve levar outro monge consigo;
se não existir nenhum outro monge por perto,
com uma mente sem distracções
concentre-se no Buda.
A isto é que chamo
as práticas e associações apropriadas.
Sendo cuidadoso em relação a estas duas,
pode-se ensinar de forma tranquila.
Não se deve falar em termos de
doutrinas médias ou inferiores,
ou doutrinas do condicionado ou do incondicionado,
do real ou do irreal.
Além disso, não devem ser feitas distinções
dizendo, “Isto é um homem, isto é uma mulher.”
Não tentem apreender os fenómenos,
entendê-los ou vê-los.
A isto é que eu chamo
as práticas do Bodhisattva.
Todos os fenómenos são vazios,
sem ser, sem qualquer constância eterna,
sem aparecimento nem extinção.
Isto é o que chamo
a posição adoptada pelo sábio.
Da inversão desta Lei resultam distinções,
de que os fenómenos existem, não existem,
são reais ou irreais,
nascidos ou não nascidos.
Devem procurar locais sossegados,
aprender a aquietar a mente,
fazendo-a permanecer tranquila,
imóvel como o monte Sumeru.
Todos os fenómenos devem ser vistos
como sendo desprovidos de existência,
como espaço vazio,
sem firmeza ou consistência,
sem nascimento, sem aparecimento,
sem movimento ou regressão,
mantendo-se constantemente numa forma única –
a isto é que chamo o local onde se deve residir.
Se após eu entrar em extinção
existirem monges que levem a cabo
estas práticas e estas associações,
então, quando ensinarem este sutra
serão livres de medo ou timidez.
Se um bodhisattva
entrar regularmente num local sossegado
e com a correcta atitude mental
vir os fenómenos de acordo com a doutrina,
e então, levantando-se da sua meditação,
pelo bem do governante,
dos príncipes, ministros e demais pessoas,
brahmans e outros,
expuser, propagar,
explicar e ensinar este sutra,
então a sua mente será tranquila,
livre de medo ou timidez.
Manjushri,
a isto chamo o primeiro conjunto de regras
que o bodhisattva deve manter
por forma a poder, em eras vindouras,
expor o Sutra do Lótus.
Além disso, Manjushri, após o Tathagata ter passado à extinção, nos Últimos Dias da Lei, se alguém desejar expor este sutra, deve ater-se a estas práticas pacíficas. Quando ele abrir a boca para expor ou quando ler este sutra, não deve deleitar-se em falar das faltas das outras pessoas ou escrituras. Não deve mostrar desprezo pelos outros mestres ou falar dos gostos ou imperfeições das outras pessoas. Em relação aos ouvintes não deve nomeá-los ou falar das suas faltas, nem nomeá-los e louvar as suas qualidades. Não deve também deixar a sua mente encher-se de ressentimento ou ódio. Porque é bom ao cultivar este tipo de mente pacífica, os seus ouvintes não se oporão às suas ideias. Se lhe forem colocadas perguntas difíceis, não deve responder em termos de um Veículo Menor. Deve explicar as coisas unicamente em termos do Grande Veículo por forma a que as pessoas possam adquirir a sabedoria que abarca todas as espécies.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
O bodhisattva deve deleitar-se constantemente
em expor a Lei de forma tranquila.
Num local puro e limpo deve estender a sua esteira,
untar o seu corpo com óleo,
limpar o pó e as impurezas,
vestir um manto novo e limpo
e purificar-se exterior e interiormente.
Sentado confortávelmente no assento do Dharma,
deve expor a Lei conforme as perguntas.
Se existirem monges ou monjas,
homens ou mulheres leigos,
governantes e príncipes, oficiais,
cavalheiros e pessoas comuns,
com uma expressão serena
deve expor-lhes as doutrinas maravilhosas e subtis.
Se houver questões difíceis
deve responder de acordo com as doutrinas,
empregando causas e condições,
metáforas e parábolas para expor e fazer distinções,
e através destes meios hábeis
levar todos os que o escutam a aspirarem à iluminação,
a aumentarem pouco a pouco os seus méritos
e a entrarem na via de Buda.
Deve pôr de parte quaisquer ideias indolentes e
todos os pensamentos de negligência ou facilidade,
subtrair-se a preocupações e cuidados
e com uma mente compassiva ensinar a Lei.
Dia e noite, constantemente,
deve expor os ensinamentos da via insuperável,
empregando causas e condições,
imensuráveis metáforas e parábolas
para instruir os seres viventes e fazer com que se alegrem.
Vestuário e dormida, comida, bebida e medicação –
em relação a estas coisas não deve ter expectativas,
deve concentrar a sua mente nas razões para expor a Lei,
desejando completar a via do Buda e
fazer com que os outros na assembleia a completem também.
Isso trará grande proveito para eles,
constituindo uma oferta de paz.
Após eu ter passado à extinção
se existirem monges capazes de expor este Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa
as suas mentes serão livres de inveja, raiva
e de todas as preocupações e impedimentos.
Ninguém os incomodará, amaldiçoará ou insultará.
Porque praticam a paciência.
não conhecerão o medo,
não serão atacados por espadas ou paus,
nem serão nunca banidos,
As pessoas sábias serão capazes de cultivarem assim as suas mentes
e encontrarão a paz tal como expus anteriormente.
As bênçãos dessas pessoas
estão para lá de qualquer cálculo, metáfora ou parábola;
milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas
não seriam suficientes para as descrever.
“Além disso, Manjushri, se um bodhisattva ou mahasattva em idades vindouras, no último período, quando a Lei estiver quase a perecer, aceitar e abraçar, ler e recitar este sutra, não deve dar lugar a uma mente marcada pela inveja, a bajulação ou o engano. Não deve desprezar ou insultar aqueles que estudam o caminho do Buda nem procurar os seus defeitos.
“Se existirem monges, monjas, leigos ou leigas que procurem tornar-se ouvintes ou pratyekabudas, ou que procurem a via do boddhisattva, não deve perturbá-los causando-lhes dúvidas ou remorsos, dizendo-lhes, “Estais muito afastados do caminho e no final nunca sereis aptos para alcançar a sabedoria que abarca todas as espécies. Porquê? Porque sois pessoas auto indulgentes que negligenciam o caminho!”
“Também nunca deve envolver-se em debates frívolos sobre as várias doutrinas ou disputar ou discutir por causa delas. Em relação a todos os seres viventes, deve pensar neles com grande compaixão. Em relação ao Tathagata, deve pensar nele como um pai bondoso; em relação aos bodhisattvas, deve pensar neles como grandes mestres. Para com os grandes bodhisattvas das dez direcções, deve manter uma mente séria, prestando-lhes a devida obediência e respeito. Deve expor a todos os seres viventes a Lei de forma equânime. Por alguém é muito atento à Lei, isso não quer dizer que deva expor mais ou menos. Mesmo para aqueles que demonstram um profundo amor pela Lei não se deve por isso ensinar mais demoradamente.
Manjushri, se de entre estes bodhisattvas e mahasattvas existirem alguns que, no último período, quando a Lei estiver prestes a perecer, conseguirem levar a cabo este terceiro conjunto de práticas pacíficas, então quando eles ensinarem esta Lei, estarão livres de ansiedade e confusão, e encontrarão bons estudantes com quem poderão ler e recitar este sutra. Atrairão uma grande assembleia de pessoas que virão escutar e aceitar. Após terem ouvido, abraçarão, após abraçarem, recitarão; após recitarem, ensinarão; após ensinarem, copiarão ou farão com que outros copiem, e apresentarão oferendas aos rolos dos sutras, tratando-os com reverência, respeito e louvor.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se desejais ensinar este sutra,
deveis por de parte a inveja, o ódio, a arrogância,
a mente bajuladora, enganosa e falsa,
e praticar constantemente uma conduta honesta e recta.
Não olheis os outros com desprezo
nem mantenhais debates frívolos sobre as várias doutrinas.
Não façais com que os outros tenham dúvidas ou remorsos dizendo-lhes,
“Nunca te tornarás um Buda!”
Quando um filho de Buda expõe a Lei
é em todas as ocasiões gentil e cheio de tolerância,
tendo piedade e compaixão por todos,
nunca dando lugar a uma mente negligente ou indolente.
Os grandes bodhisattvas das dez direcções
cumprem o caminho a partir da compaixão por todos.
Deveis lutar para os respeitar e reverenciar, dizendo,
“Estes são os grandes mestres!”
Em relação aos Budas, os Honrados Pelo Mundo,
aprendei a olhá-los como pais extremosos.
Varrei a mente da vaidade e da arrogância
e ensinai a Lei sem impedimento.
Este é o terceiro conjunto de regras;
os sábios devem guardá-las e obedecer-lhes.
Se observardes sem distracções estas práticas pacíficas,
sereis respeitados por imensuráveis multidões.
Manjushri, se de entre estes bodhisattvas e mahasattvas existirem alguns que no último período, quando a Lei estiver prestes a perecer, aceitarem e abraçarem o Sutra do Lótus, devem cultivar para com os crentes que ainda não abandonaram a sua casa, ou aqueles que já abandonaram a sua casa, uma mente de grande compaixão, e devem pensar para si: “Estas pessoas cometeram um erro grave. Apesar do Tathagata, recorrendo a um meio hábil, ensinar a Lei de acordo com o que é apropriado, eles não ouvem, não sabem, não percebem, não perguntam, não acreditam, não entendem. Mas apesar destas pessoas não perguntarem, não acreditarem e não compreenderem este sutra, quando eu tiver alcançado annutara-samyak-sambhodi, onde quer que esteja, empregarei os meus poderes transcendentais e o poder da sabedoria para os atrair a mim e fazer permanecer nesta Lei.”
“Manjushri, após a extinção do Tathagata, se de entre os bodhisattvas e mahasattvas existirem alguns capazes de levar a cabo este conjunto de regras, então não cometerão nenhum erro ao ensinar a Lei. Monges, monjas, leigos e leigas, governantes, príncipes, ministros, pessoas comuns, bramanes e proprietários oferecer-lhes-ão constantemente esmolas e prestar-lhes-ão reverência, respeito e louvor. Os seres celestiais no céu, de modo a ouvirem a Lei, irão ter com eles e seguí-los-ão constantemente. Se estiverem numa povoação, cidade, num lugar calmo e deserto ou numa floresta e as pessoas vierem e lhe colocarem questões difíceis, os seres celestiais, dia e noite pelo bem da Lei, guardá-los-ão e sustê-los-ão constantemente, fazendo com que todos os ouvintes rejubilem. Porquê? Porque este sutra está protegido pelos poderes sobrenaturais de todos os Budas do passado, do presente e do futuro.
“Manjushri, quanto a este Sutra do Lótus, através de imensuráveis números de terras, é impossível sequer ouvir o seu nome, quanto mais vê-lo, aceitá-lo e abraçá-lo, lê-lo e recitá-lo. Manjushri, supõe por exemplo, que existe um poderoso rei sábio que quer usar a sua força para subjugar outros países, mas os governantes mesquinhos não cumprem as suas ordens. Nessa altura o rei sábio convoca as suas várias tropas e prepara-se para atacar. Se o rei vê algum dos seus soldados que tenha ganho distinções no campo de batalha, fica deleitado e imediatamente recompensa a pessoa em questão de acordo com os seus méritos, doando terras, casas, povoados e cidades, ou vestes e adornos de uso pessoal, ou dando talvez objectos preciosos como ouro, prata, madrepérola, ágata, coral ou âmbar, ou elefantes, cavalos, carruagens, servos e servas e gente. Apenas a jóia brilhante que está no topo da sua coroa ele não oferece. Porquê? Porque esta jóia existe apenas no topo da cabeça do rei, e se ele fosse a oferecê-la, os seus súbditos manifestariam grande consternação e alarme.
“Manjushri, o Tathagata é assim. Usa o poder da meditação e da sabedoria para conquistar territórios do Dharma e tornar-se rei do triplo mundo. Mas os reis demónios não querem obedecer e submeter-se. Os lideres militares sábios e meritórios do Tathagata envolvem-se na batalha e quando algum dos soldados do Buda adquire distinção, o Buda fica deleitado e entre os quatro tipos de crentes, ensina vários sutras, alegrando os seus corações. Oferece-lhes meditações, emancipações, raízes e poderes livres de falhas, e outros tesouros da Lei. Ele oferece-lhes também a cidade do nirvana, dizendo-lhes que alcançaram a extinção, guiando as suas mentes e fazendo-os rejubilar. Mas ele não lhes transmite o Sutra do Lótus.
“Manjushri, quando o rei sábio que faz girar a roda vê algum dos seus soldados que ganhou realmente uma grande distinção, fica tão deleitado que pega na jóia incrivelmente rara que há tanto tempo se encontra no topo da sua cabeça, nunca tendo sido dada, e oferece-a agora a esse homem. O Tathagata faz o mesmo. No triplo mundo actua como o grande rei do Dharma. Usa a Lei para ensinar e converter todos os seres viventes, atento aos sábios e meritórios exércitos, em luta com os demónios dos cinco componentes, os demónios dos desejos mundanos e o demónio da morte. E quando obtiveram grandes distinções e méritos, secando os três venenos, vitoriosos sobre o triplo mundo e destruidores das redes dos demónios, o Tathagata enche-se de grande alegria. Este Sutra do Lótus é capaz de fazer com que todos os seres viventes alcancem a sabedoria. Enfrentará muita hostilidade no mundo e será difícil de acreditar. Nunca antes foi praticado mas agora eu ensino-o.
“Manjushri, este Sutra do Lótus é o principal de entre todos os que o Tathagata ensina. Entre todos os que são expostos é o mais profundo. E é conferido em última instância, tal como esse profundo governante fez quando pegou na jóia brilhante que tinha guardado por tanto tempo e finalmente a deu.
“Manjushri, este Sutra do Lótus é o repositório secreto dos Budas, os Tathagatas. Entre os sutras, detém o mais alto lugar. Através da longa noite guardei-o e protegi-o e nunca o propaguei imprudentemente. Mas hoje, pela primeira vez exponho-o para vosso benefício.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Praticai constantemente a perseverança,
tende piedade de todos os seres,
e fazei o vosso melhor para expor e ensinar o sutra
louvado pelo Buda.
Na última era vindoura
aqueles que abraçam este sutra devem,
quer se trate de pessoas que não deixaram as suas casas,
pessoas que já as deixaram ou pessoas que não sejam bodhisattvas,
cultivar a piedade e a compaixão, dizendo,
“Se não ouvirem este sutra e não acreditarem nele,
cometerão um grave erro.
Se conquistar a via do bodhisattva,
empregarei meios hábeis e ensinar-lhes-ei a Lei,
fazendo com que a aceitem.
Suponham que existe um poderoso rei sábio.
Os seus soldados ganharam méritos na batalha
e ele recompensa-os com vários artigos,
elefantes, cavalos, carruagens,
adornos pessoais, campos e casas,
povoados e cidades,
ou oferece-lhes roupas, vários tipos de objectos preciosos,
servos e servas, riquezas e bens,
atribuindo tudo isto alegremente.
Mas se existir alguém corajoso e forte,
que consiga levar a cabo feitos difíceis,
o rei tira a jóia brilhante do seu toucado
e oferece-a a esse homem.
O Tathagata é assim.
Procede como rei das doutrinas,
possuidor do grande poder da perseverança
e do precioso repositório da sabedoria,
e com a sua grande piedade e compaixão
converte as eras de acordo com a Lei.
Ele vê todas as pessoas
enquanto padecem de sofrimento e ansiedade,
procurando a emancipação, lutando com os demónios,
e pelo bem dos seres viventes
expõe as várias doutrinas,
empregando grandes meios hábeis
e ensinando estes sutras.
Quando sabe que os seres viventes
alcançaram poderes através deles,
então, no último momento, pelo seu bem,
prega este Sutra do Lótus,
tal como o rei que desata o seu toucado
e oferece a sua jóia brilhante.
Este sutra deve ser honrado
como o maior de entre os sutras.
Constantemente eu o guardo e protejo,
e não o revelo propositadamente.
Mas agora é a altura certa para eu o expor para vós.
Após eu ter entrado em extinção,
se alguém procura a via do Buda
e espera ser capaz de a expor tranquilamente,
deve então associar-se intimamente
às quatro regras descritas.
Qualquer um que leia este sutra
estará em todas as ocasiões
livre de preocupações e ansiedade;
igualmente será livre de doenças ou dores,
a sua expressão será fresca e brilhante.
Não nascerá na pobreza ou necessidade,
nem em circunstancias humildes ou adversas.
Os seres viventes alegrar-se-ão com a sua presença
e verão nele um sábio meritório.
Os jovens filhos dos seres celestiais
irão esperá-lo e servi-lo.
Espadas e paus não o atingirão
e os venenos não terão poder para o afectar.
Se as pessoas o maldisserem e insultarem,
as suas bocas serão fechadas e caladas.
Passear-se-á sem medo como o rei leão.
A sua sabedoria será brilhante como o sol;
mesmo nos seus sonhos verá apenas coisas maravilhosas.
Verá os Tathagatas sentados nos seus tronos de leão,
pregando a Lei, rodeados por multidões de monges.
Verá dragões, espíritos, asuras e outros,
numerosos como as areias do Ganges,
com as palmas das mãos unidas reverentemente,
e exporá a Lei para eles.
Verá ainda Budas,
os seus corpos imbuídos de um brilho dourado,
emitindo imensuráveis raios
que brilham sobre todas as coisas,
empregando os sons Brahma
para exporem as doutrinas.
Aos quatro tipos de crentes
o Buda ensinará a Lei insuperável,
e ele ver-se-á na sua presença,
unindo as palmas das mãos louvando o Buda.
Ouvirá a Lei com deleite
e oferecerá esmolas.
Obterá dharanis
e conhecerá a sabedoria que é sem regressão.
E quando o Buda souber
que a mente dele entrou profundamente na via do Despertar,
dar-lhe-á uma profecia
de que alcançará a mais alta e correcta iluminação.
“Tu, bom homem, numa era vindoura
obterás sabedoria imensurável,
o grande caminho do Buda.
A tua terra será adornada e pura,
incomparavelmente vasta e grande,
com os quatro tipos de crentes
que com as palmas das mãos unidas ouvirão a Lei.”
Ver-se-á ainda no meio de montanhas e florestas
praticando a boa Lei,
entendendo a verdadeira natureza de todos os fenómenos,
profundamente imerso em meditação
e vendo os Budas das dez direcções.
Ver os Budas, com os seus corpos de um brilho dourado,
adornados com as marcas de uma centena de diferentes bons auspícios,
ouvir a Lei e ensiná-la às pessoas –
esses são os bons sonhos que ele tem constantemente.
Sonhará ainda que é rei de um país
e que abandona os seus palácios e assistentes
e os soberbos e maravilhosos objectos dos cinco desejos,
que se dirige para o lugar da prática
e sob uma árvore bodhi
se senta num assento de leão, procurando a via,
e após sete dias alcança a sabedoria dos Budas.
Tendo sido bem sucedido na via insuperável,
levanta-se e faz girar a roda da Lei,
expondo a Lei aos quatro tipos de crentes,
durante milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas,
ensinando a maravilhosa Lei isenta de falhas,
salvando imensuráveis seres viventes.
Depois entrará no nirvana
como fumo que se dissipa quando a chama se esgota.
Se na época maligna vindoura
alguém ensinar esta suprema Lei,
essa pessoa ganhará grandes benefícios,
bênçãos tais como as acima descritas.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Quinze:
Emergindo da Terra
Nessa altura, os bodhisattvas e mahasattvas que se tinham reunido vindos das terras das outras direcções, numerosos como as areias de oito rios Ganges, colocaram-se no meio da grande assembleia, uniram as palmas das mãos, inclinaram-se em obediência e disseram ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, se nos permitires, na idade após o Buda ter entrado em extinção, séria e diligentemente, proteger, ler, recitar copiar e oferecer esmolas a este sutra no mundo Saha, nós ensiná-lo-emos largamente nesta terra!”
Nessa altura o Buda disse aos bodhisattvas e mahasattvas: “Deixai, bons homens! Não há necessidade de protegerem este sutra. Porquê? Porque neste meu mundo Saha existem bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as areias de sessenta mil rios Ganges, e cada um destes bodhisattvas tem um séquito igual em número às areias de sessenta mil rios Ganges. Após a minha entrada em extinção estas pessoas serão capazes de proteger, ler, recitar e largamente expor este sutra.
Quando o Buda disse estas palavras, a terra dos miriades países do mundo Saha estremeceu e abriu-se, e do seu seio emergiram no mesmo instante imensuráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de bodhisattvas e mahasattvas. Os corpos destes bodhisattvas tinham um brilho de ouro, com os trinta e dois sinais distintivos e um imensurável brilho. Todos residiram previamente no mundo do espaço vazio sob o mundo Saha. Mas quando estes bodhisattvas ouviram a voz do Buda Shakyamuni emergiram desde baixo.
Cada um dos bodhisattvas era líder de uma grande assembleia, e trazia consigo um séquito igual às areias de cinquenta mil, quarenta, trinta, vinte ou dez mil rios Ganges. Ou um séquito de pelo menos as areias de um Ganges, meio Ganges ou um quarto de um rio Ganges, ou apenas uma parte em mil, dez mil, um milhão de nayutas de um rio Ganges. Alguns tinham um séquito de apenas mil dezenas de milhares de milhões de nayutas. Ou apenas dez mil milhões. Ou mil dezenas de milhar, cem dezenas de milhar ou apenas dez milhares. Ou apenas um milhar, uma centena ou uma dezena. Outros traziam consigo apenas cinco, quatro, três, dois ou um discípulo. Outros vinham sozinhos, preferindo levar a cabo práticas solitárias. Assim eram eles, imensuráveis, ilimitados, para lá de tudo o que possa ser conhecido através de cálculos, metáforas ou parábolas.
Após estes bodhisattvas terem emergido da terra, cada um prosseguiu até à maravilhosa torre de sete tesouros suspensa no céu onde se encontravam o Tathagata Muitos Tesouros e o Buda Shakyamuni. Ao chegarem lá, voltaram-se para os dois Honrados Pelo Mundo, inclinaram a cabeça e prestaram obediência aos pés deles. Todos prestaram também obediência aos Budas sentados em tronos de leão sob as árvores de jóias. Então, circularam à volta deles para a direita três vezes, com as palmas das mãos unidas em sinal de respeito, utilizando os vários métodos que os bodhisattvas têm de prestar louvores, e então tomaram lugar a um lado, fitando alegremente os dois Honrados Pelo Mundo. Enquanto estes bodhisattvas e mahasattvas que tinham emergido da terra empregavam os vários métodos dos bodhisattvas para prestarem louvores, decorreu um intervalo de cinquenta pequenos kalpas.
Nessa altura o Buda Shakyamuni manteve-se silencioso e os quatro tipos de crentes permaneceram também calados durante cinquenta pequenos kalpas, mas devido aos poderes transcendentais do Buda, pareceu aos membros da grande assembleia ter decorrido apenas meio dia.
Nessa altura os quatro tipos de crentes, também devido aos poderes sobrenaturais do Buda, viram estes bodhisattvas encherem o céu sobre imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de terras. Entre estes bodhisattvas havia quatro líderes. O primeiro chamava-se Práticas Superiores (Visishtakâritra), o segundo Práticas Ilimitadas (Anantakâritra), o Terceiro Práticas Puras (Visuddhakâritra) e o quarto Práticas Firmemente Estabelecidas (Supratishthitakâritra). Estes quatro bodhisattvas eram os líderes máximos e mestres guias entre todo o grupo. Na presença da grande assembleia, cada um deles uniu as palmas das suas mãos, fitou o Buda Shakyamuni e perguntou: “Honrado Pelo Mundo, as vossas maleitas são poucas, poucas as vossas preocupações, as vossas práticas prosseguem confortávelmente? Aqueles a quem vos propusestes salvar recebem prontamente a instrução? O esforço não faz com que o Honrado Pelo Mundo fique fatigado ou esgotado?
Nessa altura os quatro grandes bodhisattvas falaram em verso, dizendo:
Está o Honrado Pelo Mundo confortável,
com poucas doenças, poucas preocupações?
Ao ensinar e converter os seres viventes,
podeis fazê-lo sem fadiga ou desgaste?
E os seres viventes, recebem a instrução prontamente ou não?
Isso não faz com que o Honrado Pelo Mundo fique fatigado ou esgotado?
Nessa altura, no meio da grande assembleia de bodhisattvas, o Honrado Pelo Mundo disse estas palavras: “Assim é, assim é, bons homens! O Tathagata está bem e satisfeito, com poucas maleitas e poucas preocupações.
Os seres viventes estão já convertidos e salvos e eu não estou fatigado nem esgotado. Porquê? Porque era após era no passado, os seres viventes receberam constantemente a minha instrução. Também ofereceram esmolas e prestaram reverência aos Budas do passado e plantaram várias boas raízes. Daí que quando estes seres viventes me vêem pela primeira vez e ouvem o meu ensinamento, todos o aceitam de imediato, entrando na sabedoria do Tathagata, com a excepção daqueles que anteriormente praticaram o Veículo Menor. E agora tornarei possível a estas pessoas ouvirem este sutra e entrarem na sabedoria do Buda.”
Então os quatro grandes bodhisattvas falaram em verso dizendo:
Excelente, excelente, grande herói, Honrado Pelo Mundo!
Os seres viventes estão já convertidos e salvos.
Sabem como questionar acerca da mais profunda sabedoria do Buda, e tendo ouvido, acreditam e compreendem.
Estamos por conseguinte radiantes.
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo louvou os grandes bodhisattvas que lideravam o grupo, dizendo: “Excelente, excelente, bons homens! Vós sabeis rejubilar em vossos corações pelo Tathagata.”
Nessa altura o bodhisattva Maitreya e a multidão de bodhisattvas iguais em número às areias de oito mil rios Ganges pensaram todos para si: “Nunca no passado vimos ou ouvimos qualquer referência acerca de uma multidão de bodhisattvas e mahasattvas tão grande como esta que emergiu da terra e agora se encontra perante o Honrado Pelo Mundo, juntando as palmas das suas mãos, oferecendo esmolas e perguntando como está o Tathagata!”
Nessa altura, o bodhisattva Maitreya, conhecendo os pensamentos que iam na mente dos bodhisattvas, numerosos como as areias de oito mil rios Ganges, e desejando ao mesmo tempo esclarecer as suas próprias dúvidas, uniu as palmas das mãos, voltou-se para o Buda e colocou a sua pergunta em verso:
Imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões,
uma grande multidão de bodhisattvas
tal como nunca se viu no passado –
rogo ao mais honrado dos seres humanos
que explique de onde é que vieram,
que causas e condições os reuniu!
Possuidores de um corpo enorme,
grandes poderes transcendentais,
sabedoria inconcebível,
firmes de ideias e intenções,
com o poder da grande perseverança,
a visão da sua figura deleita os seres viventes –
de onde é que vieram?
Cada um destes bodhisattvas
trás consigo um séquito imensurável em número,
tal como as areias do Ganges.
Alguns destes grandes bodhisattvas
trazem consigo o equivalente às areias
de sessenta rios Ganges.
E esta grande multidão,
com uma só mente, procura a via do Buda.
Estes grandes mestres
iguais em número às areias de sessenta rios Ganges,
vieram em conjunto oferecer dádivas ao Buda
e guardar e promover este sutra.
Mais numerosos são aqueles com tantos seguidores
como as areias de quarenta mil,
trinta mil, vinte mil, dez mil,
mil, cem, ou mesmo de um rio Ganges,
meio Ganges, um terço, um quarto,
ou apenas uma parte em dezenas de milhares de milhões,
mil, dez mil nayutas,
dez mil, um milhão de discípulos,
ou meio milhão –
esses são ainda mais numerosos.
Esses com um milhão ou dez mil seguidores,
mil ou cem, cinquenta, dez,
três, dois ou um,
ou esses que vêem sozinhos, sem seguidores,
deleitando-se na solidão,
todos vêem ter com o Buda –
são ainda mais numerosos do que os acima descritos.
Se alguém tentasse usar um ábaco
para calcular o número desta grande multidão,
ainda que despendesse tantos kalpas quantas as areias do Ganges
nunca conheceria a soma total.
A multidão de bodhisattvas
com sua grande dignidade, virtude e diligência –
quem lhes expôs a Lei,
quem os ensinou e converteu e os trouxe até aqui?
Sob os auspícios de quem
conceberam pela primeira vez
o pensamento da iluminação,
que Lei de Buda é que louvam e proclamam?
Que sutra é que eles abraçam e seguem,
que via de Buda é que eles praticam?
Estes bodhisattvas possuem poderes transcendentais
e o poder da grande sabedoria.
A terra nas quatro direcções treme e abre-se
e todos eles emergiram do seu interior.
Honrado Pelo Mundo,
nunca no passado vi algo como isto!
Rogo-te que me digas de onde vieram,
qual o nome dessa terra.
Tenho peregrinado constantemente de terra em terra
mas nunca vi tal coisa.
Em toda esta multidão
não existe uma pessoa sequer que eu conheça.
Subitamente surgiram da terra –
rogo-te que expliques a causa.
Os membros desta grande assembleia,
imensuráveis centenas, milhares, milhões de bodhisattvas,
todos querem saber estas coisas.
Olhando as causas que governam
o princípio e o fim desta multidão de bodhisattvas,
possuidores de imensurável virtude,
Honrado Pelo Mundo,
rogamos-te que dissipes as dúvidas da assembleia!
Nessa altura, os Budas que eram emanações do Buda Shakyamuni e tinham chegado de imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões de terras nas outras direcções, estavam sentados com as pernas cruzadas em posição de lótus sentados em assentos de leão sob árvores de jóias nas oito direcções. Os assistentes destes Budas viram a grande multidão de bodhisattvas que tinham emergido da terra nas quatro direcções do universo e estavam suspensos no ar, e cada um disse ao seu respectivo Buda: “Honrado Pelo Mundo, esta grande multidão de imensuráveis, ilimitados asamkhyas de bodhisattvas – de onde é que veio?”
Nessa altura cada um dos Budas disse aos seus assistentes: “Bons homens, esperai um momento. Existe um bodhisattva e mahasattva de nome Maitreya que recebeu do Buda Shakyamuni a profecia de que será o próximo a tornar-se um Buda. Ele já perguntou acerca desta matéria e o Buda está prestes a responder-lhe. Deveis aproveitar esta oportunidade para ouvir o que o Buda tem a dizer.”
Nessa altura o Buda Shakyamuni disse ao bodhisattva Maitreya: “Excelente, excelente, Ajita, que tenhas questionado o Buda acerca deste importante assunto. Todos vocês com uma mente concentrada devem envergar a armadura da diligência e decidirem ser firmes de intenção. O Tathagata deseja agora ir mais longe e declarar a sabedoria dos Budas, o poder transcendental livremente exercido dos Budas, o poder dos Budas que tem a ferocidade do leão, o feroz e enérgico poder dos Budas.
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Sejam diligentes e concentrados,
pois desejo explicar este assunto.
Não tenham dúvidas nem cuidados –
a sabedoria do Buda é difícil de conceber.
Agora devem recorrer ao poder da fé,
atendo-se à paciência e à bondade.
Vocês vão poder ouvir agora
uma Lei nunca ouvida no passado.
Vou trazer-vos agora descanso e consolação –
não dêem guarida a dúvidas ou temores.
O Buda não tem senão palavras verdadeiras,
a sua sabedoria é imensurável.
Esta suprema Lei por si obtida
é muito profunda e não é passível de análise.
Ele irá agora expo-la –
devem ouvir com uma só mente.
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, tendo proferido estes versos, disse ao bodhisattva Maitreya: “Em relação a esta grande multidão vou agora dizer-te. Ajita, estes bodhisattvas e mahasattvas que em imensuráveis e incontáveis asamkhyas emergiram da terra e que nunca antes tinhas visto – quando atingi anuttara-samyak-sambodhi no mundo Saha, converti e guiei estes bodhisattvas, treinei as suas mentes e fiz com que desenvolvessem um anseio pela via. Estes bodhisattvas residiram todos no mundo do espaço vazio sob o mundo Saha. Leram, recitaram, compreenderam as várias escrituras, ponderando-as, fazendo distinções e mantendo-as em mente de forma correcta.
Ajita, estes bons homens não têm qualquer deleite em estarem na assembleia nem em se entregarem a muita conversa. O seu deleite é estarem constantemente num lugar sossegado, esforçando-se diligentemente e sem descanso. Não se demoram entre seres humanos ou celestiais, mas deleitam-se constantemente na profunda sabedoria, livres de todos os impedimentos. Deleitam-se constantemente na Lei dos Budas, perseguindo diligentemente e sem distracções a insuperável sabedoria.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Ajita, deves compreender isto.
Estes grandes bodhisattvas
durante incomparáveis kalpas
praticaram a sabedoria do Buda.
Todos foram convertidos por mim;
fiz com que colocassem as suas mentes no grande caminho.
Estes são os meus filhos,
residem neste mundo,
levando a cabo constantemente práticas dhuta,
preferindo um lugar tranquilo,
rejeitando o desassossego e confusão da grande assembleia,
sem se deleitarem com conversa.
Desta forma estes filhos
estudam e praticam a minha Via e a minha Lei.
De modo a que, dia e noite,
com diligencia constante,
possam procurar a via do Despertar
neste mundo Saha residem
na zona mais profunda do espaço vazio.
Firmes no poder da vontade e da concentração,
procurando a sabedoria com diligência constante,
expõem várias doutrinas maravilhosas
e as suas mentes não têem medo.
Quando estava na cidade de Gaya,
sentado sob a árvore bodhi,
alcancei a mais alta e correcta iluminação
e fiz girar a roda da Lei insuperável.
Então ensinei-os e converti-os,
fazendo-os pela primeira vez
colocar as suas mentes no caminho.
Agora todos se encontram no estado de não regressão
e todos a seu tempo conseguirão tornar-se Budas.
O que digo agora são palavras verdadeiras –
com uma só mente deveis acreditar nelas!
Sempre desde o remoto passado
estive a ensinar e a converter esta multidão.
Nessa altura o bodhisattva e mahasattva Maitreya, bem como os outros incontáveis bodhisattvas, sentiram aparecer em suas mentes dúvidas e perplexidades. Estavam confusos com esse facto que nunca tinha ocorrido antes e pensavam para si: Como pôde o Honrado Pelo Mundo, em tão curto espaço de tempo, ter ensinado e convertido este número imensurável, de ilimitadas asamkhyas de bodhisattvas permitindo-lhes alcançarem anuttara-samyak-sambodhi?
Então Maitreya disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, quando o Tathagata foi coroado príncipe, deixou o palácio dos Shakyas e sentou-se no lugar da prática, não longe da cidade de Gaya, e aí atingiu anuttara-samyak-sambodhi, apenas passaram quarenta anos desde então. Honrado Pelo Mundo, como em tão curto espaço de tempo pôde realizar tanto trabalho enquanto Buda? Foi através dos poderes do Buda, ou através das bênçãos do Buda que foi capaz de ensinar e converter um tal número imensurável de grandes bodhisattvas – uma pessoa podia despender mil, dez mil, um milhão de kalpas contando-os sem nunca ser capaz de chegar ao fim ou de descobrir o limite! Desde o remoto passado, na presença de imensuráveis, ilimitados números de Budas, devem ter plantado boas raízes, levado a cabo a via do bodhisattva, e se empenhado constantemente em práticas brahma. Honrado Pelo Mundo, é difícil para o mundo acreditar em tal coisa!
Supõe por exemplo que um jovem de vinte e cinco anos, compleição robusta e cabelo ainda preto, apontasse para alguém com cem anos de idade e dissesse, “Este é o meu filho!” ou que o de cem anos apontasse para o jovem e dissesse, “Este é o meu pai que me gerou e criou!” Isto seria difícil de acreditar, e é isto o que o Buda diz.
“Na verdade, não passou muito tempo desde que alcançaste a via. Mas esta grande multidão de bodhisattvas já se aplicou diligente e esforçadamente durante imensuráveis milhares, dezenas de milhares, milhões de kalpas em prol do caminho do Despertar. Aprenderam a entrar, emergir e permanecer em imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de samadhis, adquiriram grandes poderes transcendentais, levaram a cabo praticas brahma durante um longo período, e conseguiram passo a passo praticar várias boas doutrinas, tornando-se versados em perguntas e respostas, um tesouro entre as pessoas, algo raramente conhecido em todos os mundos. E hoje, Honrado Pelo Mundo, tu dizes-nos que , no tempo que decorreu desde que atingiste o Despertar, fizeste com que estas pessoas aspirassem pela primeira vez à iluminação, as ensinaste, converteste e guiáste, dirigindo-as até annutara-samyak-sambodhi!
“Honrado Pelo Mundo, não foi há muito que atingiste a Iluminação, e ainda assim foste capaz de levar a cabo este feito tão meritório! Temos fé no Buda, acreditando que ele ensina em conformidade com o que é apropriado, que as palavras ditas pelo Buda nunca são falsas e que a sabedoria do Buda é, em todos os casos, penetrante e vasta. No entanto, no período após o Buda ter entrado em extinção, se alguns bodhisattvas que tenham começado a aspirar à iluminação ouvirem estas palavras, irão possivelmente descrer delas e rejeitá-las, sendo assim levados a incorrer no crime de rejeitar a Lei. Assim, Honrado Pelo Mundo, rogamos-te que expliques de modo a podermos dissipar as nossas dúvidas de modo a que, em eras futuras, quando bons homens ouvirem esta matéria, não alimentem quaisquer dúvidas!
Nessa altura, o bodhisattva Maitreya, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
No passado o Buda
deixou o clã Shakya,
abandonou a sua casa,
e perto de Gaya
sentou-se sob a árvore bodhi.
Pouco tempo passou desde então,
no entanto estes filhos de Buda
são imensuráveis em número!
Durante muito tempo
praticaram já o caminho do Despertar,
exercendo poderes transcendentais
e o poder da sabedoria,
aprendendo habilmente a via do Bodhisattva,
impolutos pelas coisas mundanas
como a flor do lótus sobre a água.
Emergindo da terra,
todos demonstram perante o Honrado Pelo Mundo
uma mente reverente e respeitadora.
Isto é difícil de conceber –
como podemos acreditar?
O Buda atingiu a via
muito recentemente, ainda assim
aqueles a quem ajudou a obter sucesso são tantos!
Pedimos-te que dissipes as dúvidas da assembleia,
que estabeleças distinções
e expliques a verdade sobre esta matéria.
É como se um homem jovem
acabado de fazer vinte e cinco anos
apontasse um velho centenário
de cabelo branco e face enrugada e dissesse,
“Foi gerado por mim!”
e o velho dissesse,
“Este é o meu pai!”
O pai jovem, o filho velho –
ninguém no mundo acreditaria nisto!
Honrado Pelo Mundo, o teu caso é similar.
apenas recentemente alcançaste a Iluminação.
Estes bodhisattvas são de vontade firme.
de forma alguma tímidos ou imaturos.
Por imensuráveis kalpas
têm praticado a via do bodhisattva.
São sagazes nas perguntas e respostas difíceis,
as suas mentes não conhecem o medo.
Cultivaram firmemente
uma mente perseverante,
recta em dignidade e virtude.
São louvados pelos Budas das dez direcções
Como capazes e peritos na exposição das distinções.
Não têm desejo de permanecer entre a multidão
mas constantemente preferem o estado de meditação,
e de modo a procurarem a via do Buda
têm residido no espaço sob a terra.
Isto ouvimos do Buda
e não temos dúvidas a esse respeito,
mas pelo bem das eras futuras
pedimos ao Buda
que explique e torne compreensível.
Se em relação a este sutra
alguém levantar dúvidas e deixar de acreditar,
cairá de imediato nos caminhos malignos.
Assim pedimos-te que expliques.
Estes imensuráveis bodhisattvas –
como em tão pouco tempo os ensinaste
fazendo-os ter uma mente votada à iluminação
e chegar ao estado de não regressão?
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Dezasseis:
A Duração da Vida do Tathagata
Nessa altura o Buda disse aos bodhisattvas e à grande assembleia “Bons homens, vocês devem acreditar e compreender as palavras verdadeiras do Tathagata.” E disse ainda à grande assembleia: “Deveis acreditar e compreender as palavras verdadeiras do Tathagata.” E uma vez mais disse à grande assembleia: “Deveis acreditar e compreender as palavras verdadeiras do Tathagata.”
Nessa altura os bodhisattvas e a grande assembleia, com Maitreya como líder, juntaram as palmas das mãos e dirigiram-se ao Buda, dizendo: “Honrado Pelo Mundo, pedimo- que expliques. Nós acreditaremos e aceitaremos as palavras do Buda.”
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, vendo que os bodhisattvas repetiram o seu pedido mais de três vezes, disse-lhes: “Deveis ouvir com atenção o segredo do Tathagata e os seus poderes transcendentais. Em todos os mundos os seres celestiais e humanos e os asuras acreditam que o presente Buda Shakyamuni, após abandonar o palácio dos Shakyas, sentou-se no lugar da prática não longe da cidade de Gaya e aí alcançou anuttara-samyak-sambodhi. Mas, bons homens, foi há imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas que de facto atingi o Budeidade.
“Suponham que uma pessoa pegava em quinhentos, mil, dez mil, um milhão de nayutas de asamkhyas de mundos e os reduzia a pó. Então, dirigindo-se para Leste, a cada vez que passava por quinhentos, mil, dez mil, um milhão de nayutas de ashankyas de mundos largava uma partícula de pó. Continuava para Leste desta forma até acabar de largar todas as partículas. Bons homens, qual é a vossa opinião? Pode o número total de todos estes mundos ser imaginado ou calculado?
O bodhisattva Maitreya e todos os outros disseram ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, esses mundos são imensuráveis, ilimitados – o seu número não pode ser calculado nem a mente tem o poder de o abranger. Mesmo todos os ouvintes e pratyekabudas com a sua sabedoria livre de impedimentos são incapazes de imaginar ou compreender quão numerosos são. Ainda que estivéssemos no estado de avivartika, não poderíamos compreender tal soma. Honrado Pelo Mundo, esses mundos são imensuráveis e ilimitados.”
Nessa altura o Buda disse à multidão de grandes bodhisattvas: “Bons homens, agora vou afirmar isto claramente. Suponham que esses mundos, quer tivessem ou não recebido uma partícula de pó eram uma vez mais reduzidos a poeira e que cada partícula representa um kalpa. O tempo que passou desde que atingi a Budeidade ultrapassa este número em centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de asamkhyas de kalpas.
“Sempre desde então estive neste mundo Saha, expondo a Lei, ensinando e convertendo, e guiei e beneficiei os seres viventes em centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de asamkhyas de terras.
“Bons homens, durante este tempo falei através do Buda Tocha Ardente e outros, e descrevi como entraram no nirvana. Tudo isto utilizei como um meio hábil para estabelecer distinções.
“Bons homens, se os seres viventes vêem ter comigo, eu emprego a minha visão de Buda para observar a sua fé e ver se as suas outras faculdades são apuradas ou não, e então, dependendo de quão receptivos à salvação estão eu apareço em diferentes lugares e ensino sob diferentes nomes, e durante o período de tempo em que os meus ensinamentos serão mais eficientes. Por vezes, quando faço a minha aparição, digo que estou prestes a entrar no nirvana, e emprego também diferentes meios hábeis para expor a subtil e maravilhosa Lei, fazendo assim os seres viventes despertarem as suas mentes radiantes.
“Bons homens, o Tathagata observa como entre os seres humanos existem aqueles que se deleitam numa Lei menor, de virtude escassa e pesados de impurezas. A essas pessoas descrevo como na minha juventude deixei a vida familiar e alcancei annutara-samyak-sambodhi. Mas na verdade, o tempo que passou desde que atingi o estado de Buda é extremamente longo, tal como te disse. É somente um meio expedito que eu utilizo para ensinar e converter os seres viventes e levá-los a entrar na via de Buda. É por isto que falo desta forma.
“Bons homens, as escrituras expostas pelo Tathagata têm todas o propósito de salvar e emancipar os seres viventes. Por vezes falo de mim, por vezes de outros; por vezes apresento a mim, por vezes a outros; por vezes mostro as minhas próprias acções, por vezes as de outros. Tudo quanto ensino é verdadeiro e não falso.
Porque faço isto? O Tathagata percebe o verdadeiro aspecto do triplo mundo tal qual ele é. Não existem quaisquer marés de vida e morte e não há qualquer existência neste mundo nem posterior extinção. Não é nem substancial nem vazio, nem consistente nem diverso. Nem é aquilo que os que vivem no triplo mundo entendem que é. Todas essas coisas o Tathagata vê claramente e sem erro.
“Porque os seres viventes têm diferentes naturezas, diferentes desejos, diferentes acções e diferentes modos de pensar e fazer distinções, e porque quero capacitá-los a plantarem boas raízes, emprego uma variedade de causas e condições, metáforas, parábolas e frases para expor diferentes doutrinas. Assim, nunca por um momento negligenciei o trabalho dos Budas.
“Assim, desde que atingi a Iluminação, um período de tempo extremamente longo passou. A minha vida tem uma duração de um imensurável número de ashamkyas de kalpas, e durante esse tempo eu residi constantemente aqui sem nunca entrar em extinção. Bons homens, originalmente pratiquei a via do Bodhisattva, e a duração de vida que então adquiri está ainda longe de chegar ao fim e durará o dobro do número de anos que já passaram. Agora, no entanto, ainda que de facto não entre em extinção, anuncio que vou adoptar o curso da extinção. Isto é um meio hábil que o Tathagata utiliza para ensinar e converter os seres viventes.
“Porque faço isto? Porque se o Buda permanecer no mundo por um longo período de tempo, aquelas pessoas de vistas estreitas deixarão de plantar boas raízes e, vivendo na pobreza e na solidão, ficarão apegadas aos cinco desejos e acabarão presas na rede dos pensamentos e imaginações ilusórios. Se virem que o Tathagata está constantemente no mundo e nunca entra em extinção, tornar-se-ão arrogantes e egoístas, ou ficarão desencorajados e negligentes. Não perceberão quão difícil é encontrar o Buda e não se aproximarão com uma mente respeitosa e reverente.
“Por isso, como um meio hábil o Tathagata diz: “Monges, deveis saber que é muito raro viver num tempo em que um Buda apareça no mundo.” Por que age ele assim? Porque as pessoas de escassa virtude podem passar centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Kalpas conseguindo alguns deles ver um Buda e outros nunca vendo nenhum. Por esta razão lhes digo: “Monges, o Tathagata é raro de encontrar.” Quando os seres viventes ouvem estas palavras, percebem quão difícil é encontrar o Buda. Na sua mentes abrigarão um anseio e estarão sequiosos de verem o Buda, e então, esforçar-se-ão por plantar boas raízes. Por isso o Tathagata, ainda que na verdade não entre em extinção, fala em passar à extinção.
“Bons homens, os Budas e Tathagatas ensinam todos uma Lei como esta. Actuam por forma a salvar todos os seres viventes, por isso, o que fazem é verdadeiro e não falso.
“Suponham, por exemplo, que existia um médico hábil que, sábio e conhecedor, sabia compor remédios para todos os tipos de doenças. Tinha muitos filhos, talvez dez, vinte ou mesmo cem. Ausentou-se para outra terra muito longe para tratar de qualquer assunto. Após a sua partida, as crianças beberam um tipo de veneno que as fez desesperar de dor e caírem por terra.
“Nessa altura o pai regressou a casa e descobriu que as crianças tinham tomado veneno. Algumas estavam completamente fora de si, enquanto outras não. Vendo o seu pai ao longe, rejubilaram de alegria e ajoelharam-se e suplicaram-lhe: “Que bom que voltaste são e salvo. Fomos descuidados e por engano tomamos veneno. Rogamos-te que nos cures por forma a que possamos viver!”
“O pai, vendo as suas crianças sofrerem assim, seguiu várias receitas. Juntando boas ervas medicinais que reuniam todos os requisitos de cor, fragrância e sabor, moeu-as, agitou-as e misturou-as. Dando uma dose a cada um dos seus filhos, disse-lhes: “Este é um remédio muito eficaz, reunindo todos os requisitos de cor, fragrância e sabor. Tomai-o e rapidamente ficareis aliviados dos vossos sofrimentos e livres de todas as doenças.”
“As crianças que não tinham perdido o seu juízo podiam ver que esta era um bom remédio, excelente em cor e fragrância, de modo que o tomaram imediatamente e ficaram curados de toda a doença. Aqueles que estavam fora de si ficaram igualmente encantados por ver o seu pai regressar e rogaram-lhe que curasse a sua doença, mas quando receberam o remédio recusaram-se a tomá-lo. Porquê? Porque o veneno tinha penetrado profundamente e as suas mentes já não funcionavam como antes. Por isso, ainda que o remédio fosse de cor e fragrância excelentes, não perceberam a sua qualidade.
“O pai pensou para si: minhas pobres crianças! Devido ao veneno que tomaram, têm a sua mente completamente confusa. Apesar de estarem alegres por me verem e pedirem que as cure recusam-se a tomar este excelente remédio. Tenho de recorrer a qualquer meio hábil para os levar a tomar o remédio. Então disse-lhes: “Deveis saber que estou velho e acabado, e a hora da minha morte chegou. Vou deixar aqui este bom remédio. Deveis tomá-lo sem se quererem saber se vos vai curar ou não” Tendo dado estas instruções, retirou-se para outra terra de onde mandou um mensageiro aos seus filhos com a notícia da sua morte.
“Nessa altura as crianças, ouvindo dizer que o seu pai as tinha deixado e morrido, ficaram cheias de dor e consternação e pensaram para si: se o nosso pai estivesse vivo compadecer-se-ia de nós e estaríamos protegidos. Mas agora abandonou-nos e morreu num qualquer país distante. Somos órfãos desprotegidos sem ninguém em quem confiar!
“Constantemente imbuídos destes sentimentos de dor, recuperaram finalmente os sentidos e viram que o remédio era de facto excelente em cor, fragrância e sabor, e assim tomaram-no e ficaram curados dos efeitos do veneno. O pai, ouvindo dizer que as suas crianças estavam curadas, regressou de imediato a casa e apareceu-lhes novamente.
“Bons homens, qual é a vossa opinião? Pode alguém dizer que este hábil médico é culpado de mentir?”
“Não, Honrado Pelo Mundo.”
O Buda disse: “É o mesmo comigo. Passaram imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de ashamkyas de kalpas desde que eu atingi a Iluminação. Mas pelo bem dos seres viventes utilizo o poder dos meios hábeis e digo que estou em vias de passar à extinção. Em vista das circunstâncias, no entanto, ninguém pode dizer que sou culpado de mentiras ou falsidades.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Desde que alcancei o Despertar
o número de kalpas que passaram
é de imensuráveis centenas, milhares,
dezenas de milhar, milhões,
triliões, ashamkyas.
Expus constantemente a Lei, ensinando e convertendo
incontáveis milhões de seres viventes,
fazendo-os entrar na via do Buda,
tudo isto por kalpas imensuráveis.
De modo a salvar os seres viventes, como um meio hábil
aparento entrar no nirvana
mas na verdade não entro em extinção.
Estou sempre aqui expondo a Lei.
Estou sempre aqui,
mas através dos meus poderes transcendentais
faço com que os seres viventes, na sua confusão,
não me vejam mesmo estando por perto.
Quando a multidão vê que passei à extinção,
por toda a parte oferece esmolas às minhas relíquias.
Todos abrigam sentimentos de ansiedade
e na sua mente estão sequiosos por me ver.
Quando os seres viventes se tornaram realmente fieis,
honestos e rectos, de intenção branda,
desejando concentradamente ver o Buda,
sem hesitarem mesmo que lhes custe a vida,
então eu e a assembleia de monges,
aparecemos no Pico da Águia Sagrada.
Nessa altura digo aos seres viventes
que estou sempre aqui,
sem nunca entrar em extinção,
mas devido ao poder dos meios hábeis
umas vezes pareço estar extinto, outras não,
e se noutras terras existirem seres viventes
que sejam reverentes e sinceros no seu desejo de acreditar,
então também entre eles exponho a Lei insuperável.
Mas vocês não ouviram nada disto,
por isso julgam que entrei em extinção.
Quando eu olho para os seres viventes,
vejo-os afogados num mar de sofrimento;
por isso eu não apareço, fazendo-os ansiar por mim.
Então, quando as suas mentes estão cheias de ansiedade,
apareço por fim e exponho-lhes a Lei.
Assim são os meus poderes transcendentais.
Durante ashamkyas de kalpas,
residi constantemente no Pico da Águia Sagrada
e em vários outros lugares.
Quando os seres viventes presenciam o final de um kalpa
e tudo é consumido num grande fogo,
a minha terra permanece segura e tranquila,
repleta constantemente de seres celestiais e humanos.
Os vestíbulos e pavilhões dos seus jardins e bosques
são adornados com vários tipos de jóias.
Árvores de jóias, abundantes de flores e frutos,
onde os seres viventes se comprazem à vontade.
Os deuses batem os tambores celestiais
produzindo vários tipos de músicas.
Chovem flores de mandarava,
espalhando-se sobre o Buda e a grande assembleia.
A minha terra pura não é destruída,
no entanto a multidão vê-a consumida pelo fogo,
cheia em toda a parte de ansiedade,
medo e outros tormentos.
Estes seres viventes,
com as suas várias faltas,
através de causas originadas pelas suas más acções,
passam ashamkyas de kalpas sem ouvirem o nome das Três Jóias.
Mas aqueles que praticam acções meritórias,
que são brandos, pacíficos, honestos e rectos,
todos me verão aqui em pessoa,
a expor a Lei.
Por vezes, descrevo a esta multidão
a duração da vida do Tathagata como imensurável,
e àqueles que apenas vêem o Buda
após um longo período de tempo
explico como é difícil encontrar o Buda.
Tal é o poder da minha sabedoria
cujos raios sagazes brilham sem medida.
Esta duração de vida de incontáveis kalpas
obtive-a mediante uma longa prática.
Vós que sois dotados de sabedoria,
não deveis manter quaisquer dúvidas sobre este ponto!
Libertai-vos delas, dai-lhes um fim para sempre,
porque as palavras do Buda são verdadeiras e não falsas.
Ele é como um médico expedito
que usa um meio hábil para curar os seus filhos transtornados.
Apesar de estar vivo, faz constar a sua morte,
no entanto ninguém pode dizer que falou com falsidade.
Sou o pai deste mundo,
salvando aqueles que sofrem e estão aflitos.
Devido à confusão das pessoas comuns,
apesar de estar vivo, eu anuncio que entrei em extinção.
Porque se elas me vissem constantemente,
a arrogância e o egoísmo apareceriam na sua mente.
Abandonando a contenção,
entregar-se-iam aos cinco desejos
e cairiam nos caminhos malignos da existência.
Estou constantemente consciente dos seres viventes
que praticam a via e daqueles que o não fazem,
e em resposta às suas necessidades de salvação
exponho-lhes várias doutrinas.
Em todas as ocasiões penso para mim mesmo:
Como posso fazer os seres viventes entrarem na via insuperável
e obterem rapidamente o corpo de um Buda?
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Dezassete:
Distinção de Benefícios
Nessa altura, quando a grande assembleia ouviu o Buda contar como a sua vida durou um tão grande número de kalpas, imensuráveis, ilimitadas ashamkyas de seres viventes obtiveram uma grande variedade de benefícios.
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya: “Ajita, quando descrevi como a vida do Tathagata dura por tal longuíssimo tempo, seres viventes numerosos como as areias de seiscentos e oitenta dezenas de milhares, milhões, nayutas de Ganges alcançaram a verdade do não-nascimento. Bodhisattvas e mahasattvas mil vezes mais numerosos obtiveram o ensinamento do dharani que lhes permite reterem tudo quanto ouçam. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um mundo obtiveram a eloquência que lhes permite falar agradavelmente e sem impedimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um mundo obtiveram dharanis que lhes permitem memorizar centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões, imensuráveis repetições dos ensinamentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um universo foram capazes de fazer girar a irregressível roda da Lei. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de duzentas terras de tamanho médio foram capazes de fazer girar a pura roda da Lei. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de cem pequenas terras tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de oito renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de quatro mundos tetracontinentais tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de quatro renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de três mundos tetracontinentais tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de dois renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de dois mundos tetracontinentais tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de dois renascimentos. Bodhisattvas e mahasattvas numerosos como as partículas de pó de um mundo tetracontinental tiveram a garantia de que alcançariam annutara-samyak-sambodhi ao fim de um renascimento. Seres viventes numerosos como as partículas de pó de oito mundos foram levados a estabelecer as suas mentes em anuttara-samyak-sambodhi.
Quando o Buda anunciou que estes bodhisattvas e mahasattvas tinham obtido os grandes benefícios da Lei, do ar choveram flores de mandarava e grandes flores de mandarava, espalhando-se sobre imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Budas que estavam sentados em tronos de leão sob as árvores de jóias, e espalharam-se também sobre o Buda Shakyamuni e sobre o Tathagata Muitos Tesouros, que há muito entrou em extinção, ambos sentados em tronos de leão na torre de sete tesouros. Espalharam-se também sobre todos os grandes bodhisattvas e sobre os quatro tipos de crentes. Além disso, choveu um pó fino de sândalo e aloés e em pleno ar soaram tambores celestiais com notas maravilhosas, profundas e de grande alcance. Choveu também uma grande variedade de mantos celestiais, engalanados com fiadas de pérolas e de várias jóias, espalhando-se por toda a parte pelas dez direcções. Em incensórios encrustados de jóias ardiam incensos preciosos, a sua fragrância espalhando-se por toda a parte como uma dádiva à grande assembleia. Sobre cada um dos Budas apareceram bodhisattvas segurando estandartes e dosséis, em fileiras que chegavam até ao paraíso de Brahma. Esses bodhisattvas empregavam as suas maravilhosas vozes cantando imensuráveis hinos de louvor aos Budas.
Nessa altura o bodhisattva Maitreya levantou-se do seu lugar, descobriu o ombro direito, juntou as palmas das suas mãos e, virando-se para o Buda falou em verso, dizendo:
O Buda expõe uma Lei rara,
nunca antes ouvida.
O Honrado Pelo Mundo possui grandes poderes
e a duração da sua vida não pode ser medida.
Os incontáveis filhos de Buda
ouvindo o Honrado Pelo Mundo fazer distinções
e descrever os benefícios da Lei que irão alcançar,
vêem os seus corpos repletos de alegria.
Uns residem no estado de não regressão,
outros obtiveram dharanis,
outros ainda podem falar agradavelmente e sem impedimentos
ou retêem dezenas de milhar,
milhões de repetições dos ensinamentos.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de um milhar de grandes mundos
são capazes de fazer girar a roda irreversível da Lei.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de um milhar de mundos médios
são capazes de fazer girar a pura roda da Lei.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de um milhar de pequenos mundos
têm a garantia de que após mais oito renascimentos
estarão aptos a completar a via do Despertar.
Alguns bodhisattvas
numerosos como as partículas de pó
de quatro, três, duas vezes os quatro continentes
alcançarão a sabedoria após mais um renascimento.
Então, quando os seres viventes ouviram
a grande duração da vida do Buda,
obtiveram puros frutos e recompensas
imensuráveis e livres de falhas.
Além disso, seres viventes numerosos
como as partículas de pó de oito mundos,
a ouvir o Buda descrever a duração da sua vida,
estabeleceram as suas mentes na via insuperável.
O Honrado Pelo Mundo expõe a Lei
que é imensurável e não pode ser concebida
e os que disso beneficiam são muitos,
ilimitados como o espaço aberto.
Choveram flores celestiais de mandarava
e grandes flores de mandarava;
Shakyas e Brahmas, incontáveis como as areias do Ganges,
chegaram de inumeráveis terras de Buda.
Choveu uma fina poeira de sândalo e aloés;
como pássaros voando no céu
espalharam-se como oferenda sobre os Budas.
Em pleno ar tambores celestiais
emitiram maravilhosos sons;
Mantos celestiais aos milhares,
dezenas de milhar, milhões,
desceram esvoaçantes;
incensórios maravilhosos incrustados de jóias
queimaram incensos preciosos
que se espalharam por toda a parte,
como oferenda a todos os Honrados Pelo Mundo.
A multidão de grandes bodhisattvas
segurou estandartes e dosséis
adornados com os sete tesouros,
em dezenas de milhar, milhões de variedades,
altivos, maravilhosos,
em fileiras que chegavam ao paraíso Brahma.
Perante cada um dos Budas
pendiam estandartes decorados com jóias e magnificas bandeiras,
enquanto em milhares, dezenas de milhares de versos
os louvores ao Honrado Pelo Mundo eram entoados.
Todas estas muitas coisas
nunca foram conhecidas no passado.
Ouvindo dizer que a duração da vida do Buda é imensurável,
todos os seres se encheram de alegria.
O nome de Buda é ouvido pelas dez direcções,
beneficiando largamente os seres viventes,
e todos foram dotados de boas raízes
para ajudar a estabelecer as suas mentes na via insuperável.
Nessa altura o Buda disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya: Ajita, se existirem seres viventes que, ao ouvirem que a duração da vida do Buda é tão longa, forem capazes de acreditar e compreender, ainda que um momento, os benefícios que eles alcançarão serão sem limite ou medida. Supõe que existem bons homens ou boas mulheres que, em prol de anuttara-samyak-sambodhi, durante um período de oitocentos milhões de nayutas de kalpas pratiquem os cinco paramitas – os paramitas de dana (generosidade), shila (observância dos preceitos), kshanti (tolerância), virya (perseverança) e dhyana (meditação), estando omisso o paramita de prajna (sabedoria) – os benefícios alcançados desta forma seriam uma centésima parte, uma milésima parte, uma multiquadrilionésima parte dos benefícios mencionados previamente. De facto, está para além do poder de cálculo, metáfora ou parábola a definição dessa comparação. Para esses bons homens que alcançaram tais benefícios previamente mencionados, regredir sem alcançar anuttara-samyak-sambodhi é completamente inconcebível.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se alguém em busca da sabedoria de Buda
por um período de oitocentos mil milhões de nayutas de kalpas
praticar os cinco paramitas,
durante todos esses kalpas
distribuindo ofertas de esmolas aos Budas,
aos pratyekabudas e discípulos,
e à multidão de bodhisattvas,
iguarias raras, ricos artigos de enxoval e peças de vestuário,
construindo mosteiros de sândalo
adornados com jardins e bosques,
se ele distribuir esmolas de muitas variedades,
todas elas refinadas e maravilhosas,
e repetir isto por todos esses kalpas
para exprimir a sua devoção ao caminho da Iluminação;
e se além disso ele cumprir os preceitos,
com pureza e sem omissão ou falha,
procurando a via insuperável, louvada pelos Budas;
e se praticar a tolerância,
permanecendo numa posição submissa e dócil,
mesmo quando assolado por vários males,
não se deixando agitar ou influenciar quando outros,
convencidos de que alcançaram a Lei
se entregarem a pensamentos arrogantes,
tratando-o com desprezo e vexando-o,
se suportar isso com paciência;
e se for diligente e perseverante,
sempre firme de intenção e pensamento,
concentrado durante imensuráveis milhões de kalpas,
nunca negligente ou descuidado,
residindo num lugar deserto e sossegado por kalpas incontáveis;
e se praticar exercícios sentado ou em andamento,
eliminando a sonolência,
regulando constantemente a sua mente,
e em resultado dessas acções
for capaz de produzir estados meditativos,
permanecendo calmo durante oitenta dezenas de milhares de milhões de kalpas,
a sua mente sempre clara e sem confusão;
e se, com base nas bênçãos desta concentração
procurar a via insuperável, dizendo,
“Alcançarei a sabedoria e esgotarei todos os estados de meditação!”;
se esta pessoa levar a cabo as práticas acima descritas
durante cem, mil, dez mil, um milhão de kalpas,
as bênçãos obtidas desta forma
serão ainda assim menores
do que as dos bons homens e boas mulheres
que me ouçam descrever a duração da minha vida
e acreditem ainda que por um momento.
Se uma pessoa é completamente livre
de quaisquer dúvidas ou hesitações,
se no fundo da sua mente acreditar por um instante,
as suas bênçãos serão como disse.
Estes bodhisattvas que praticaram a via
durante imensuráveis kalpas,
quando me ouvem descrever a duração da minha vida
são capazes de acreditar e aceitar o que eu digo.
Estas pessoas aceitarão este sutra com gratidão, dizendo,
“O nosso desejo é que em eras futuras
possamos usar as nossas longas vidas
para salvar os seres viventes.
Tal como hoje o Honrado Pelo Mundo, rei dos Shakyas,
ruge como um leão no lugar da prática,
a expor sem medo a Lei,
possamos nós também, em eras vindouras,
honrados e venerados por todos,
quando nos sentarmos no lugar da prática,
descrever a duração da nossa vida da mesma forma.”
Se existir alguém, de mente profunda,
puro, honesto e recto,
que ouvindo muito, possa reter tudo,
compreendendo as palavras do Buda,
essa pessoa não terá dúvidas [acerca da duração da minha vida].
“Além disso, Ajita, se existir alguém que, ouvindo acerca da longa duração da vida do Tathagata, possa entender o alcance dessas palavras, os benefícios que essa pessoa alcança serão sem limite ou medida, capazes de despertar nele a sabedoria insuperável do Tathagata. Quanto mais se, então, a pessoa escuta largamente este sutra ou faz com que outros o escutem, o abraça ou leva outros a abraçá-lo, o copia ou faz com que outros o copiem, ou apresenta flores, incenso, colares, estandartes, bandeiras, dosséis de seda, óleos fragrantes ou lamparinas de óleo de manteiga como oferendas aos rolos do sutra. Os benefícios de uma tal pessoa serão imensuráveis, ilimitados, capazes de inspirar nele a sabedoria que abarca todas as espécies.
“Ajita, se bons homens ou boas mulheres, ouvindo-me descrever a grande duração da minha vida, no fundo das suas mentes acreditarem e compreenderem, verão então o Buda residindo constantemente no Monte Gridhakuta, com os grandes bodhisattvas e a multidão de ouvintes rodeando-o enquanto expõe a Lei. Verão também este mundo Saha, o seu chão de lápiz-lázuli nivelado e bem ordenado, o ouro Jambunava bordejando as suas oito avenidas, os renques de árvores cravejadas de jóias, os terraços, torres e observatórios todos feitos de jóias, e toda a multidão de bodhisattvas que aí vivem. Se existir alguém capaz de ver tais coisas, deveis saber que isso é um sinal da sua fé e compreensão profundas.
“Além disso, se após o Tathagata entrar em extinção existir alguém que ouça este sutra e não o calunie ou insulte mas mostre profunda fé e compreensão e ainda mais no caso de alguém que leia, recite e abrace este sutra, essas pessoas estão na verdade a receber o Tathagata na coroa de suas cabeças.
“Ajita, estes bons homens e boas mulheres não precisam de em meu nome erigir torres e templos ou construir aposentos de monges ou fazer os quatro tipos de oferendas à comunidade de monges. Porquê? Porque estes bons homens e boas mulheres, ao receberem, abraçarem, lerem e recitarem este sutra, erigiram já torres, construíram os aposentos de monges e deram ofertas de esmolas à comunidade de monges. Deve considerar-se que erigiram torres adornadas com os sete tesouros para as relíquias do Buda, largas na base e finas no topo, chegando até ao paraíso de Brahma engalanadas de bandeiras, dosséis e uma miriade de sinos de jóias, com flores, incenso em pó ou em pasta, colares, muitos tipos de tambores e vários tipos de danças e diversões, com maravilhosas vozes que cantam e entoam hinos de louvor. É como se tivessem já oferecido esmolas durante imensuráveis milhares, dezenas de milhar, milhões de kalpas.
“Ajita, se após eu ter entrado em extinção existir quem ouça este sutra e possa aceitá-lo e promovê-lo, copiando-o ou fazendo outros copiá-lo, então deve ser considerado que erigiram já aposentos de monges, ou usaram sândalo vermelho para construir trinta e dois salões, altos como árvores tala, elevados, espaçosos e belamente adornados para acomodarem centenas de milhares de monges. Jardins, parques, tanques, lagos, pátios de recreio, caves para meditação, vestuário, comida, bebida, camas, tapetes, remédios e todo o tipo de utensílios para o seu conforto, e esses aposentos de monges e salões contam-se em centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões, e são na verdade imensuráveis em número. Tudo isto é apresentado perante mim como oferta de esmolas para mim e para a comunidade de monges.
“Assim eu digo, se após a extinção do Tathagata existir alguém que aceite, promova, leia e recite este sutra ou o pregue para outros, que o copie ou faça com que outros o copiem, ou que ofereça esmolas aos rolos do sutra, então não necessitam erigir torres ou templos nem construir aposentos para monges ou oferecer esmolas à comunidade de monges. E muito mais é isto verdade para aqueles que forem capazes de abraçar este sutra e ao mesmo tempo de oferecer esmolas, manter os preceitos, praticar a tolerância e a diligência, a concentração e a sabedoria! As suas virtudes são superiores, imensuráveis e ilimitadas, tal como o céu aberto, nas direcções Este, Oeste, Norte e Sul, nas quatro direcções intermédias e acima e abaixo, é imensurável e ilimitado. As bênçãos dessa pessoa serão igualmente imensuráveis e ilimitadas, e ela atingirá rapidamente a sabedoria que abarca todas as espécies.
“Se uma pessoa lê, recita, aceita e promove este sutra ou o expõe a outros; se o copia ou faz com que outros o copiem; e se pode erigir torres, construir aposentos para monges, oferecer esmolas e louvores à comunidade de ouvintes; se pode empregar centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de modos de louvor para louvar os méritos dos bodhisattvas; e se pelo bem de outros ele emprega várias causas e condições, de acordo com a regra, para explicar este Sutra do Lótus; e se observa os preceitos com pureza, procura a companhia dos que são brandos e pacíficos, é tolerante e sem raiva, firme de intenção e pensamento, favorecendo constantemente a prática da meditação sentada, atinge vários estados meditativos profundos, dominando todas as boas doutrinas, apurado nas faculdades e na sabedoria, bom a responder a perguntas difíceis – Ajita, se após eu entrar em extinção existirem bons homens e boas mulheres que aceitem, promovam, leiam e recitem este sutra e tenham bons méritos como estes, deves saber que prosseguiram já para o lugar da prática e estão perto de anuttara-samyak-sambodhi ao sentarem-se sob a árvore do Despertar. Ajita, onde quer que estes bons homens estejam, sentados, de pé ou circulando em exercício espiritual, aí deveria erigir-se uma torre memorial e todos os seres celestiais e humanos deviam oferecer esmolas da mesma forma que as ofereceriam à torre do Buda.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se após a minha extinção
Alguém puder honrar e eleger este sutra,
as suas bênçãos serão imensuráveis,
tal como acima descrevi.
É como se tivesse oferecido todo o tipo de esmolas,
erigindo uma torre memorial às relíquias do Buda
adornada com os sete tesouros
e com o centro largo e alto
que se estreita gradualmente á medida que alcança o paraíso Brahma.
Sinos de jóias aos milhares,
dezenas de milhar, milhões,
movem-se no vento, emitindo um som maravilhoso.
E por imensuráveis kalpas
oferece esmolas a esta torre,
flores, incenso, vários tipos de colares,
mantos celestiais e instrumentos musicais variados,
queima óleos fragrantes e lâmpadas de óleo de manteiga
que iluminam constantemente as cercanias.
Na era maligna dos Últimos Dias da Lei
se existir alguém capaz de promover este sutra,
será como se tivesse oferecido
todas as esmolas acima descritas.
Se alguém puder promover este sutra,
será como se na presença do Buda
tivesse usado sândalo
para construir como oferenda aposentos de monges,
de trinta e dois salões
altos como árvores tala,
ou tivesse fornecido roupas e enxovais,
residências para assembleias de centenas, milhares,
jardins, bosques, tanques e lagos,
pátios de exercício e caves para meditação
tudo com vários tipos de delicados adornos.
Se alguém com uma mente crente e esclarecida
aceitar, promover, ler, recitar e copiar este sutra
ou fizer com que outros o copiem
ou oferecer esmolas aos rolos do sutra,
espalhando flores e incenso
ou queimar constantemente óleo fragrante
extraído de flores de sumana, champaka ou atimuktatka,
se oferecer esmolas como estas
ganhará imensuráveis méritos,
ilimitados como o céu aberto,
e assim serão as suas bênçãos.
Quanto mais se promover este sutra
e ao mesmo tempo oferecer esmolas,
mantiver os preceitos, for tolerante,
deleitar-se com a meditação
e nunca se entregar a qualquer linguagem malévola ou irada.
Se alguém prestar reverência às torres memoriais,
se comportar humildemente perante os monges,
não der lugar a uma mente arrogante,
ponderar constantemente sobre a sabedoria
e nunca se enfurecer quando questionado com perguntas difíceis
mas responder com uma explicação conforme –
se alguém levar a cabo estas práticas,
os seus méritos estarão além de qualquer medida.
Se virdes um mestre da Lei
que tenha cultivado virtudes como estas,
deveis espalhar sobre ele flores celestiais,
envolver o seu corpo em mantos celestiais,
saudá-lo inclinando a vossa cabeça perante os seus pés
e na vossa mente imaginar que estais a ver um Buda.
Deveis também pensar desta forma:
“Não tardará que ele prossiga para o lugar da prática
e alcance o estado sem falhas da não-acção,
trazendo largos benefícios para os seres celestiais e humanos!”
No local onde essa pessoa residir,
onde ela caminhar, se sentar ou deitar,
ou recitar ainda que um verso de uma escritura,
aí devereis erigir uma torre adornada
de uma forma apropriada e maravilhosa
e oferecer-lhe variadas esmolas.
Quando um filho de Buda reside em tais lugares,
o Buda servir-se-á deles
e neles irá constantemente
caminhar, sentar-se ou reclinar-se.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Dezoito:
Os Benefícios da Alegre Aceitação
Nessa altura o bodhisattva e mahasattva Maitreya disse a Buda: Honrado Pelo Mundo, se existirem bons homens e boas mulheres que, ao ouvirem este Sutra do Lótus, respondam com alegria, que tipo de bênçãos adquirem?”
Então Maitreya falou em verso, dizendo:
Após o Honrado Pelo Mundo ter passado à extinção,
se aqueles que ouvirem este sutra
forem capazes de responder com alegria,
que tipo de bênçãos adquirem?
Nessa altura o Buda disse ao bodhisattva e mahasattva Maitreya: “Ajita, após o Tathagata ter entrado em extinção, supõe que existem monges, monjas, irmãos e irmãs leigos, ou outras pessoas sábias, sejam novas ou velhas, que, ao ouvirem este sutra, respondem com alegria e, deixando a assembleia do Dharma, vão para qualquer outro lugar, talvez um aposento monástico, um lugar deserto e sossegado, uma cidade, uma localidade, um povoado ou aldeia, e aí, de acordo com o que ouviram, se esforçam expondo e explicando pelo bem dos seus parentes, amigos e conhecidos. Estas pessoas, depois de ouvirem, respondem com alegria e também espalham os ensinamentos, e os ensinamentos continuam desta forma a ser transmitidos de um para outro até chegarem a uma quinquagésima pessoa.
“Ajita, vou descrever-te agora os benefícios recebidos por este quinquagésimo bom homem ou boa mulher que responda com alegria – ouve com atenção. Imagina todos os seres dos seis reinos de existência de dez mil milhões de asamkhyas de mundos, dos quatro tipos de seres viventes, os nascidos de um ovo, de um útero, de humidade ou por transformação, com forma ou sem forma, dotados de pensamento ou destituídos de pensamento, nem dotados nem destituídos de pensamento, sem pernas, com duas pernas, com quatro ou mais pernas. E imagina que, entre todo este vasto número de seres viventes, aparece alguém em busca de bênçãos e, respondendo aos seus variados desejos, oferece objectos espantosos e admiráveis a todos esses seres viventes. A cada um destes seres viventes é dado ouro, prata, lápiz-lázuli, madrepérola, ágata, coral, âmbar e outras maravilhosas e preciosas jóias, bem como elefantes, cavalos, carruagens, palácios e torres feitas com os sete tesouros, suficientes para encher todo o Jambudvipa. Este grande agente da caridade, após oferecer presentes desta forma durante oitenta anos, pensa então para si mesmo: Doei já todos estes objectos espantosos e admiráveis a estes seres viventes, respondendo aos seus vários desejos. Mas estes seres viventes estão agora velhos e decrépitos, com mais de oitenta anos, o seu cabelo branco, as faces enrugadas, não faltará muito para que morram. Devo agora empregar a Lei de Buda para os instruir e guiar.
“Então junta de imediato todos os seres viventes e propaga a Lei entre eles, ensina-os, beneficiando-os e deleitando-os. Num momento todos estão aptos a atingir o estado de srota-apanna, o estado de sakridagamin, o estado de anagamin e o estado de arhat, esgotando as suas falhas e entrando profundamente em meditação. Todos alcançam a liberdade e ficam dotados das oito emancipações. Qual é a tua opinião? São os benefícios deste agente da caridade muitos ou não”?
Maitreya disse a Buda: “Honrado Pelo Mundo, os benefícios deste homem são realmente muitos, imensuráveis e ilimitados. Ainda que este agente da caridade tivesse apenas oferecido todos esses objectos aos seres viventes, os seus benefícios seriam imensuráveis. Quanto mais se fez com que alcançassem o estado de arhat!”
Buda disse então a Maitreya: “Exporei agora para ti esta questão com clareza. Este homem doou todos estes objectos de recreio aos seres viventes dos seis reinos de existência de quatro mil milhares de milhões de asamkhyas de mundos e ainda tornou possível atingirem os frutos do estado de arhat. Mas os benefícios por ele alcançados não se comparam com os benefícios da quinquagésima pessoa que ouve apenas um verso do Sutra do Lótus e responde com alegria. Não equivalem sequer a uma centésima, milionésima parte, uma parte em dezenas de milhares, milhões. Na verdade está para além do poder de cálculo, metáfora ou parábola expressar uma comparação.
“Ajita, os benefícios ganhos mesmo que pela quinquagésima pessoa que ouve o Sutra do Lótus tal como lhe é transmitido e responde com alegria são maiores por um número imensurável e ilimitado, são de facto incomparáveis.
“Além disso, Ajita, supõe que uma pessoa em prol deste sutra visita os aposentos dos monges e, de pé ou sentado, e ainda que por um momento o ouve e aceita. Como resultado dos benefícios assim obtidos, quando renascer na sua próxima existência usufruirá dos mais luxuosos, excelentes e maravilhosos elefantes, cavalos e carruagens, palanquins repletos de tesouros raros e subirá aos palácios celestiais. Supõe que existe alguém que se senta num local onde a Lei é exposta, e quando uma outra pessoa aparece, a incita a sentar-se e a ouvir, ou se oferece para partilhar o seu lugar e a convence a sentar-se. Os benefícios ganhos desta forma serão tais que quando renascer o fará num local onde o senhor Shakra está sentado, onde os rei celestial Brahma se senta ou onde se senta um rei sábio que faz girar a roda.
“Ajita, supõe que uma pessoa se dirige a outra dizendo, “Existe um sutra chamado o Sutra do Lótus. Anda comigo escutá-lo”. E supõe que a outra pessoa, quando assim instado, vai e ainda que por um instante ouve o sutra. Os benefícios da primeira pessoa serão tais que quando renascer o fará no mesmo local dos bodhisattvas dos dharanis. Terá faculdades apuradas e sabedoria. Durante cem, mil, dez milhares de eras nunca será mudo. A sua boca não emitirá maus odores. A sua língua e boca nunca terão doenças. Os seus dentes não serão podres ou pretos, nem serão amarelos ou muito espaçados, nem lhe cairão, nem ficarão desalinhados ou tortos. Os seus lábios não serão descaídos nem contraídos, nem grosseiros nem gretados, nem atacados por infecções, nem serão tortos, nem finos ou grossos em demasiada, nem escuros ou descoloridos nem imperfeitos de forma alguma. O seu nariz não será demasiado largo ou achatado ou torto ou demasiado arqueado. A sua face não será escura nem comprida nem curta, nem contraída nem torta. Esta pessoa não terá nenhuma característica deselegante. Os seus lábios, língua e dentes serão admiravelmente proporcionados. O seu nariz será longo e elevado, a sua face redonda e cheia, as sobrancelhas longas e altas, a sua fronte larga, doce e bem torneada e será dotado de todas as características próprias de um ser humano. Em cada uma das suas existências verá o Buda, ouvirá a sua Lei e terá fé nos seus ensinamentos.
Ajita, repara bem! Os benefícios ganhos apenas por encorajar outra pessoa a ir ouvir a Lei são tais como estes! Quanto mais se alguém ouve concentradamente, ensina, lê e recita o sutra e perante a grande assembleia estabelece distinções pelo bem das pessoas e pratica conforme as instruções do sutra!”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se alguém na assembleia do Dharma
for capaz de ouvir este sutra,
ainda que apenas um verso, e responda com alegria,
o ensine para outros,
e desta forma o ensinamento seja transmitido
até chegar a uma quinquagésima pessoa,
as bênçãos ganhas por esta última
serão como vou agora definir.
Supõe que existe um grande agente de caridade
que atribui bens a imensuráveis multidões,
fazendo isto durante uns oitenta anos,
respondendo aos desejos de cada uma das pessoas.
Vendo os sinais da decrepitude e da velhice,
os cabelos brancos e a face enrugada,
a falta de dentes, a forma mirrada, pensa,
“A morte destes seres não está longe;
tenho de os ensinar de modo a poderem colher os frutos da via!”
Imediatamente em prol desses seres
emprega um meio hábil,
pregando a verdadeira Lei do nirvana:
“Nada neste mundo é duradouro ou firme
mas tudo é como bolhas de ar,
como espuma ou como uma centelha.
Por isso todos vocês devem aprender a desprezá-lo e a abandoná-lo!”
Quando as pessoas ouviram esta Lei,
foram todas capazes de alcançar o estado de arhat
dotadas com os seis poderes transcendentais,
as três compreensões e as oito emancipações.
Mas a quinquagésima pessoa
que ouve apenas um verso [do Sutra do Lótus]
e responde com alegria
ganha bênçãos que são muitíssimo maiores,
para além de qualquer descrição por metáfora ou parábola.
E se alguém a quem o ensinamento foi transmitido
recebe bênçãos imensuráveis,
quanto mais não receberá alguém que está na assembleia do Dharma
ouve o sutra em primeira mão
e responde com alegria.
Supõe que alguém encoraja outra pessoa,
instando-o a ir ouvir o Lótus, dizendo,
“Este sutra é profundo e maravilhoso,
difícil de encontrar em milhares,
dezenas de milhares de kalpas!”
E supõe que a pessoa assim instada vai ouvir;
ainda que ouça apenas por um momento,
as bênçãos que essa pessoa recebe em recompensa
descreverei agora com detalhe:
Era após era, não terá nenhuma doença da boca,
dentes em falta, ou amarelos, ou pretos,
lábios grossos ou contraídos ou imperfeitos,
não terá nenhumas características negativas,
uma língua húmida, escura ou demasiado curta;
terá um nariz elevado, longo e direito,
testa larga, macia e bem formada,
a face e os olhos bem alinhados e impressivos,
do tipo que deleita o olhar das pessoas,
o hálito será livre de maus odores,
uma fragrância de flores de utpala
será constantemente emitida pela boca.
Supõe que alguém vai até aos aposentos dos monges
expressamente para ouvir o Sutra do Lótus
e o ouve com alegria ainda que por um momento –
descreverei assim as suas bênçãos.
Nas existências vindouras
entre seres celestiais e humanos
obterá maravilhosos elefantes,
cavalos, carruagens,
palanquins adornados com jóias raras,
e alcançará os palácios celestiais.
Se no local onde a Lei é exposta
alguém encoraja outro a sentar-se e ouvir o sutra,
as bênçãos que adquire permitir-lhe-ão
alcançar o assento de Shakra, Brahma e do rei sábio que faz girar a roda.
Quanto mais se uma pessoa o ouve concentradamente,
explica e expõe o seu significado
e pratica segundo as instruções deste sutra –
as bênçãos dessa pessoa são ilimitadas!
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Dezenove:
Os Benefícios do Mestre da Lei
Nessa altura o Buda disse ao bodhisattva e mahasattva Esforço Constante (Satatasamitâbhiyukta): “Se bons homens e boas mulheres aceitarem e promoverem este Sutra do Lótus, se o lerem, recitarem, explicarem e ensinarem, ou se o transcreverem, essas pessoas obterão oitocentos benefícios dos olhos, mil e duzentos benefícios dos ouvidos, oitocentos benefícios do nariz, mil e duzentos benefícios da língua, oitocentos benefícios do corpo e mil e duzentos benefícios da mente. Com estes benefícios serão capazes de adornar os seis órgãos dos sentidos, tornando-os puros.
“Estes bons homens e boas mulheres, com os puros olhos físicos que receberam dos seus pais no nascimento, verão tudo quanto existe no interior e no exterior do variegado mundo, as suas montanhas, florestas, rios e mares, para baixo até ao inferno de Avichi e para cima até ao Cume do Ser. E no meio verão todos os seres viventes e também verão e compreenderão as causas e condições criadas pelos actos bem como os nascimentos que os aguardam como resultado e recompensa dessas acções.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se no meio da grande assembleia
alguém com uma mente destemida
expuser este Sutra do Lótus,
ouçam os benefícios que receberá!
Essa pessoa ganhará oitocentos benefícios
de uma visão superior.
Como resultado destes adornos
os seus olhos tornar-se-ão extremamente puros.
Com os olhos recebidos dos seus pais
aquando do nascimento
verá todos os três mil mundos,
as suas partes exteriores e interiores,
o seu Monte Meru, o seu Sumeru,
o Circulo de Montanhas de Ferro
e todas as outras montanhas e florestas,
as águas dos seus grandes mares, rios e riachos,
para baixo até ao inferno de Avichi,
para cima até ao paraíso do Cume do Ser.
Verá também todos os seres viventes que existem entre eles.
Apesar de ainda não ter ganho a visão celestial,
será este o poder dos seus olhos físicos.
Além disso, Esforço Constante, se os bons homens e boas mulheres aceitarem e promoverem este sutra, se o lerem, recitarem, explicarem e ensinarem, ou se o transcreverem, ganharão mil e duzentos benefícios auditivos, com os quais purificarão os seus ouvidos de modo a poderem escutar todas as diferentes variedades de mundos e sons no imensamente variado mundo, para baixo até ao inferno de Avichi, para cima até ao paraíso do Cume do Ser, nas suas partes exteriores e interiores. Sons de elefantes, de cavalos, de bois, de carruagens, choros, lamentos, sons de conchas, tambores, sinos, campainhas, sons de risos. vozes de homens e mulheres, de rapazes e raparigas, vozes estranhas à Lei, vozes rudes, vozes animadas, vozes dos mortais comuns, vozes de sábios, vozes alegres, vozes tristes, vozes de seres celestiais, de dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, o som do fogo, o som da água, o som do vento, vozes dos habitantes dos infernos, vozes de bestas, de espíritos esfomeados, vozes de monges, de monjas, de ouvintes, de pratyekabudas, de bodhisattvas e vozes de Budas. Em resumo, apesar de a pessoa não ter ainda ganho ouvidos celestiais, uma vez purificados os ouvidos comuns que recebeu de seus pais no nascimento será capaz de ouvir e entender todas as vozes existentes nas partes interiores e exteriores do mundo de mil variedades. E ainda que desta forma possa distinguir todos os vários tipos de sons e vozes, isto não obstruirá as suas faculdades auditivas.
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Com os ouvidos recebidos dos seus pais
aquando do nascimento,
puros e sem mácula,
com esses ouvidos vulgares,
é possível ouvirem os sons de três mil mundos,
elefantes, cavalos, carruagens, bois,
sinos, campainhas, conchas, tambores,
alaúde e harpa, flauta,
o som de um cantar puro e belo,
todos podem ser ouvidos
sem que fiquem apegados a eles.
As incontáveis variedades da voz humana –
todas podem ser ouvidas e compreendidas.
Podem ainda ser ouvidas as vozes dos seres celestiais,
subtis e maravilhosas canções,
e podem ouvir-se as vozes de homens e mulheres,
as vozes de rapazes e raparigas.
No seio das colinas, rios e vales
a voz da kalavinka, da jivakajivaka e de outras aves –
todos estes sons se podem ouvir.
Desde as multidões atormentadas do inferno
os sons dos vários sofrimentos e aflições,
sons de espíritos esfomeados e sedentos
procurando comida e bebida,
ou dos asuras que vivem nas margens do grande mar
quando falam entre si e emitem lamentos gritantes.
Assim aquele que expõe a Lei
pode estar seguro entre todos estes,
ouvindo todas estas vozes desde longe
sem obstruir as suas faculdades auditivas.
Nos mundos das dez direcções
quando as bestas e pássaros chamam os seus pares,
esta pessoa que expõe a Lei ouve a todos de onde estiver.
No paraíso Brahma e acima,
o Paraíso de Som e Luz,
o Paraíso Pureza Total
e mais acima até ao Cume do Ser,
os sons das vozes que aí falam –
o mestre da Lei, residindo aqui,
pode ouvi-las a todas.
Todas a multidões de monges e de monjas,
quer estejam a ler ou a recitar as escrituras
ou a expô-las em benefício de outros –
o mestre da Lei residindo aqui,
pode ouvi-las a todas.
E quando existirem bodhisattvas
que leiam e recitem os ensinamentos dos sutras
ou os ensinem em benefício dos outros
ou seleccionem uma passagem e expliquem o seu significado,
os sons das suas vozes –
o mestre da Lei pode ouvi-los a todos.
Quando os Budas,
grandes sábios e veneráveis,
ensinarem e converterem os seres viventes,
no meio da grande assembleia
expondo e ensinando
a subtil e maravilhosa Lei,
aquele que promove o Sutra do Lótus
pode ouvi-los a todos.
Todos os sons do interior e do exterior
do multi-variado mundo,
para baixo até ao inferno de Avichi,
para cima até ao paraíso do Cume do Ser –
ele pode ouvir todos estes sons
sem nunca obstruir as suas faculdades auditivas.
Porque as suas faculdades auditivas são tão apuradas
pode distinguir e compreender todos os sons.
Aquele que promove o Sutra do Lótus,
apesar de não ter ainda alcançado os ouvidos celestiais,
pode fazer isto simplesmente com os seus ouvidos de nascimento –
tais são os benefícios que recebe.
“Além disso, Esforço Constante, se os bons homens e boas mulheres aceitam e promovem este sutra, se o lêem, recitam, explicam e ensinam, ou se o transcrevem, poderão alcançar oitocentos benefícios nasais com os quais purificarão as suas faculdades olfactivas de modo a poderem detectar todas as diferentes fragrâncias de alto a baixo e no interior e exterior do multi-variado mundo, a fragrância das flores sumana, jatika, malika, champaka, patala, do lótus vermelho, azul, branco, a fragrância das árvores floridas ou de fruto, do sândalo, aloés, tamalapatra e tagara, bem como de incenso extraído de milhares, dezenas de milhares de ingredientes, em pó, grão ou pasta. Aquele que promover este sutra, enquanto reside aqui, será capaz de distinguir tudo isto.
“Além disso será capaz de distinguir e identificar os odores dos seres viventes, de elefantes, cavalos, bois, ovelhas e outros animais, o odor de homem, de mulher, de rapaz, de rapariga, os odores de plantas, árvores, bosques e florestas. Quer estejam próximos ou longínquos será capaz de detectar todos estes odores e distingui-los uns dos outros sem erro.
“Aquele que promove este sutra, ainda que resida aqui, será capaz de detectar odores de vários paraísos acima no céu. O perfume das árvores parijira e kovidara, das flores de mandarava, grande mandarava e grande manjuchaka, de sândalo e aloés, de vários tipos de pó de incenso, incenso feito de sortidos de flores – de perfumes celestiais dos quais são extraídos ou misturados, nenhum existe que ele não possa detectar e identificar.
“Será também capaz de detectar o aroma dos corpos dos seres celestiais. O perfume de quando Indra Shakra Devanam no seu soberbo palácio se recreia e satisfaz os cinco desejos, ou o perfume de quando está no Salão da Lei Maravilhosa ensinando a Lei aos seres celestiais de Trayastrimsha, ou o perfume de quando passeia pelos seus jardins, bem como o perfume dos corpos dos outros seres celestiais masculinos e femininos – tudo isto ele pode detectar desde longe.
“Será então capaz de alargar a sua percepção até acima ao paraíso de Brahma e mais alto ainda, até ao Cume do Ser, detectando o perfume de todos os corpos dos seres celestiais e o perfume do incenso por eles queimado. Além disso, o perfume dos ouvintes, dos pratyekabudas, dos bodhisattvas e dos corpos dos Budas – todos esses ele detectará desde longe e saberá onde se encontram esses seres. E apesar de detectar todos estes cheiros, as suas faculdades olfactivas não ficarão obstruídas nem desordenadas. Se quiser distinguir um cheiro do outro e descrevê-lo para outra pessoa, será capaz de o fazer sem erro.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
A pureza do olfacto dessa pessoa será tal
que através deste mundo
conseguirá detectar e identificar
toda a sorte de odores,
fragrantes ou infectos,
das flores sumana e jatika,
de talamapatra e de sândalo,
os perfumes de aloés e cássia,
de várias flores e frutos.
E saberá o odor dos seres viventes,
o odor de homens e mulheres.
Ainda que este mestre da Lei se encontre longe,
conseguirá detectar os odores
e saber onde se encontram as pessoas.
Reis sábios que fazem girar a roda, de grande autoridade,
sábios menores e seus descendentes,
os ministros e secretários palacianos –
detectará os seus odores onde quer que estejam.
Tesouros preciosos para o corpo das pessoas,
armazéns de tesouros na terra,
jóias das mulheres dos reis sábios –
ele detectará o seu odor onde quer que estejam.
Ornamentos para o corpo das pessoas,
roupas e colares, todos os tipos de incenso em pasta –
detectando estes odores
saberá onde se encontram os seus proprietários.
Quando os seres celestiais se sentarem ou andarem,
se recrearem ou levarem a cabo transformações mágicas,
tudo isto o promotor do Lótus conhecerá
ao detectar os seus odores
As flores e frutos de várias árvores
e o aroma dos óleos de manteiga –
o promotor do sutra, residindo aqui,
saberá onde se encontram.
Os seres sencientes que habitam no seio das montanhas,
em remotos lugares onde as flores do sândalo desabrocham –
ele os conhecerá detectando os seus odores.
Os seres viventes no Círculo de Montanhas de Ferro,
nos grandes oceanos ou em terra –
o promotor deste sutra detectará o seu odor
e saberá onde se encontram.
Quando asuras machos e fêmeas
e os seus seguidores lutarem ou brincarem uns com os outros,
ele terá conhecimento disso
detectando o seu odor.
Nas vastas planícies, em lugares remotos,
leões, elefantes, tigres, lobos, búfalos e búfalos de água –
pelo seu odor saberá onde estão.
Quando uma mulher estiver grávida
e ninguém conseguir determinar
se a criança é masculina ou feminina,
se terá falta de faculdades ou será inumana,
pelo seu odor saberá tudo isso.
E através do seu poder de detectar cheiros
saberá se a mulher será bem sucedida ou não,
se a gravidez será bem sucedida ou não,
se ela receberá em segurança uma criança saudável.
Através do seu poder de detectar odores
conhecerá os pensamentos de homens e mulheres,
se as suas mentes estão poluídas
pelo desejo, estupidez ou raiva,
e ele saberá se praticam o bem.
Grandes quantidades de bens escondidos na terra,
ouro, prata e tesouros preciosos,
objectos guardados em vasos de bronze –
pelo seu odor ele saberá se são preciosos ou sem valor.
Vários tipos de colares
cujo valor não pode ser calculado –
pelo seu odor ele saberá se são valiosos ou não,
de onde vieram e onde se encontram.
Flores acima nos céus,
mandaravas, manjushakas, árvores parijataka –
detectando o seu odor ele conhecerá todas.
Os palácios acima nos céus,
nos seus graus baixos, intermédios e superiores,
adornados com múltiplas flores de jóias –
detectando o seu odor ele conhecerá a todos.
Os jardins e bosques celestiais,
as soberbas mansões, os observatórios, o Salão da Lei Maravilhosa,
e aqueles que aí se recreiam –
detectando o seu odor ele conhece a todos.
Quando os seres celestiais ouvem a Lei
ou se entregam aos cinco desejos,
caminhando de um lugar para outro, sentados ou deitados –
detectando o seu odor ele conhece a todos.
Os mantos usados pelas mulheres celestiais,
adornados com adoráveis flores e perfumes,
rodopiando em círculos alegremente –
detectando o seu odor conhece-as a todas.
Assim alargando a sua consciência até ao paraíso de Brahma,
detectando o seu odor,
ele conhece todos os que entram em meditação
ou saem de meditação.
Nos paraísos Som Puro e Pureza Total,
e para cima até ao Cume do Ser,
aqueles nascidos pela primeira vez
e aqueles que partiram –
detectando o seu odor conhece-os a todos.
A multidão de monges sempre diligentes no que respeita à Lei,
quer sentados quer a andar,
ou a ler e recitar os ensinamentos dos sutras,
por vezes sob as árvores da floresta
concentrando as suas energias, sentados em meditação –
o promotor do sutra detecta o seu odor
e sabe onde estão todos eles.
Bodhisattvas de vontade firme e inquebrantável,
sentados em meditação, a ler os sutras
ou expondo a Lei a outros –
detectando o seu odor conhece-os a todos.
Os Honrados Pelo Mundo de todas as direcções,
reverenciados e respeitados por todos,
compadecendo-se da multidão, pregando a Lei –
detectando o seu odor ele conhece-os a todos.
Os seres viventes que na presença dos Budas
ouvem os sutras e rejubilam,
que praticam conforme o que a Lei prescreve –
detectando o seu odor ele conhece-os a todos.
Apesar de ainda não ter alcançado o olfacto
possuído pelo bodhisattva da Lei sem falhas,
o promotor do sutra adquirirá um olfacto
com as características aqui descritas.
Além disso, Esforço Constante, se bons homens ou boas mulheres aceitarem e promoverem este sutra, se o lerem, recitarem, explicarem e ensinarem, ou se o transcreverem, ganharão vinte mil benefícios do paladar. Quer uma coisa seja agradável ou não, saborosa ou não, ou mesmo coisas amargas e adstringentes, quando saboreadas pelas faculdades da língua dessa pessoa serão transformadas em sabores deliciosos e refinados como o doce orvalho celestial, e nenhuma será desagradável.
“Se com estas faculdades da língua ela começar a ensinar no meio da grande assembleia, produzirá uma voz profunda e maravilhosa capaz de penetrar a mente e causar deleite e júbilo em todos os que a ouçam. Quando os homens e mulheres do paraíso, Shakra, Brahma e outros seres celestiais, perceberem o som desta voz profunda e maravilhosa, a expor e a ensinar, progredindo e argumentando ponto por ponto, reunir-se-ão todos para ouvir. Dragões e filhas de dragões, yakshas e filhas de yakshas, gandarvas e filhas de gandarvas, asuras e filhas de asuras, garudas e filhas de garudas, kimnaras e filhas de kimnaras, mahoragas e filhas de mahoragas, juntar-se-ão bem perto ao redor do possuidor dessa voz de modo a ouvirem a Lei, e vão reverenciá-lo e oferecer-lhe esmolas. Monges, monjas, leigos e leigas, monarcas, príncipes, ministros e seus assistentes, reis sábios menores e grandes reis sábios com seus sete tesouros e milhares de filhos com os seus secretários e camareiros e demais séquito virão dos seus palácios para ouvir a Lei.
“Porque este bodhisattva é tão hábil a expor a Lei, os Bramanes, proprietários e outras pessoas por todo o país irão até ao fim das suas vidas segui-lo e escutá-lo e oferecer-lhe esmolas. Ouvintes, pratyekabudas, bodhisattvas e Budas irão deleitar-se constantemente ao vê-lo. Onde quer que ele esteja, os Budas virar-se-ão na sua direcção quando ensinarem a Lei, e ele será capaz de aceitar e abraçar todas as doutrinas dos Budas. E ademais será capaz de emitir o profundo e maravilhoso som da Lei.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
As faculdades da língua desta pessoa
serão tão puras
que ela nunca experimentará maus sabores,
mas tudo o que comer se tornará como doce orvalho.
Com a sua voz profunda e maravilhosa
ensinará a Lei na grande assembleia,
empregando causas, condições e parábolas
para guiar a mente dos seres viventes.
Todos os que o ouvirem rejubilarão
e oferecer-lhe-ão as melhores esmolas.
Seres celestiais, dragões, yakshas,
bem como asuras e outros,
aproximar-se-ão dele com reverência
e virão juntos escutar a Lei.
Se este mestre da Lei quiser usar a sua voz maravilhosa
para encher os três mil mundos
poderá fazê-lo à sua vontade.
Reis sábios que fazem girar a roda, grandes e pequenos,
com os seus milhares de filhos e os seus séquitos
juntarão as palmas das mãos com reverência
e virão constantemente ouvir e aceitar a Lei.
Seres celestiais, dragões, yakshas,
rakshasas e pishachas com igual júbilo,
deleitar-se-ão constantemente a trazer-lhe esmolas.
Os reis celestiais Brahma, o rei demónio,
as divindades Liberdade (Îsvara) e Grande Liberdade (Mahesvara),
toda a multidão de seres celestiais
irão constantemente onde ele estiver.
Os Budas e os seus discípulos,
ouvindo o som dele a expor a Lei,
mantê-lo-ão constantemente em seus pensamentos
e guardá-lo-ão e mostrar-se-ão de tempos a tempos
pelo seu benefício.
“Além disso, Esforço Constante, se bons homens ou boas mulheres aceitarem e promoverem este sutra, se o lerem, recitarem, explicarem e ensinarem, ou se o transcreverem, ganharão oitocentos benefícios corporais. Eles obterão corpos puros, como puro lápiz-lázuli, que deleitarão a vista de todos os seres viventes. Devido à pureza dos seus corpos, quando os seres viventes do mundo de mil variedades nascerem ou morrerem, quando nascerem nas regiões superiores ou inferiores, em circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis, em sítios bons ou maus, estarão todos reflectidos [nestes corpos]. Os reis das montanhas, do Círculo das Montanhas de Ferro, do Grande Círculo das Montanhas de Ferro, do Monte Meru e Mahameru, bem como dos seres viventes que aí habitam, estarão todos reflectidos nesses corpos. Para baixo até ao inferno de Avichi, para cima até ao Cume do Ser, todas as regiões e os seus seres viventes estarão reflectidos. Ouvintes, pratyekabudas, bodhisattvas, Budas expondo a Lei – as formas e contornos de todos estes estarão reflectidos nos seus corpos.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Se alguém promover o Sutra do Lótus
o seu corpo será muito puro,
como puro lápiz-lázuli –
todos os seres viventes se deleitarão ao vê-lo.
E será como um espelho de puro brilho
no qual todas as formas e contornos estarão reflectidos.
O bodhisattva no seu corpo puro
verá tudo o que existe no mundo;
verá claramente
o que não é visível para os outros.
Dentro dos três mil mundos
toda a mole de criaturas em crescimento,
seres celestiais e humanos, asuras,
residentes infernais, espíritos, bestas –
as suas formas e contornos
estarão todas reflectidas no seu corpo.
Os palácios dos vários paraísos
para cima até ao Cume do Ser,
do Círculo de Montanhas de Ferro,
dos Montes Meru e Mahameru,
os grandes mares e outras águas –
todos serão reflectidos no seu corpo.
Os Budas e ouvintes,
filhos de Budas e bodhisattvas,
quer sozinhos quer na assembleia expondo a Lei –
todos serão reflectidos.
Apesar desta pessoa não ter ainda adquirido
o maravilhoso corpo da natureza do Dharma, livre de falhas,
o seu corpo normal terá tal pureza
que reflectirá em si todas as coisas.
Além disso, Esforço Constante, se bons homens e boas mulheres aceitarem e promoverem este sutra após o Tathagata ter entrado em extinção, se o lerem, recitarem, explicarem, ensinarem ou transcreverem, ganharão mil e duzentos benefícios mentais. Devido à pureza das suas faculdades mentais, quando ouvirem não mais do que um verso ou uma frase [do sutra], serão capazes de dominar um número imensurável e ilimitado de princípios. E uma vez compreendidos esses princípios, serão capazes de explicar e ensinar acerca dessa única frase ou desse verso durante um mês, quatro meses ou mesmo por todo um ano e as doutrinas por eles expostas durante esse tempo estarão de acordo com a essência dos princípios e nunca serão contrárias à verdadeira realidade.
“Se expuserem algum texto mundano ou falarem de assuntos da governação ou relacionados com questões patrimoniais ou laborais, estarão em todos os casos conformes com a correcta Lei. Em relação aos seres viventes dos seis reinos de existência do mundo de mil variedades, compreenderão como funcionam as mentes desses seres viventes, como se movem, que vãs teorias mantêm.
“Assim, ainda que não tenham alcançado a sabedoria sem falhas, a pureza das suas mentes será tal que os seus pensamentos, cálculos e conjecturas e as palavras que proferem, representarão em todos os casos a Lei do Buda, sem se desviarem da verdade e conformes com o que foi transmitido nos sutras dos Budas anteriores.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
As mentes dessas pessoas serão puras,
brilhantes, argutas, sem mácula ou impureza.
Com essas maravilhosas faculdades mentais
entenderão a Lei superior, a média e a inferior.
Ouvindo não mais do que um verso,
dominarão imensuráveis princípios
e serão capazes de os expor,
ponto por ponto, de acordo com a Lei,
durante um mês, quatro meses ou um ano.
Todos os seres viventes
nas partes interiores e exteriores deste mundo,
seres celestiais, dragões, humanos,
yakshas, espíritos, todos os que habitam os seis reinos de existência
e todos os vários pensamentos que têm –
tudo isso os promotores do Sutra do Lótus,
como retribuição,
conhecerão num instante!
Os incontáveis Budas das dez direcções,
adornados com as marcas de uma centena de bênçãos,
pelo bem dos seres viventes
expõe a Lei, e essas pessoas,
ouvindo-a, serão capazes de a aceitar e promover.
Irão ponderar imensuráveis princípios,
expor a Lei de imensuráveis maneiras,
no entanto, do princípio ao fim,
nunca terão um esquecimento ou um erro,
porque eles são promotores do Sutra do Lótus.
Entenderão as características de todos os fenómenos,
conformes com os princípios,
reconhecendo a sua ordem correcta,
serão mestres de nomes e palavras,
expondo e ensinando as coisas segundo o seu entendimento.
O que essas pessoas pregam
é em todos os casos a Lei dos Budas pretéritos,
e porque expõem esta Lei,
não terão medo perante a assembleia.
Esta é a pureza das faculdades mentais
destes mestres do Sutra do Lótus.
Apesar de não estarem ainda livres de falhas
manifestarão antes disso as marcas aqui descritas.
Enquanto essas pessoas promovem este sutra
encontrar-se-ão sempre em solo seguro,
apreciadas, amadas e respeitadas
por todos os seres viventes,
capazes de empregar mil, dez mil variedades
de palavras hábeis e capazes
fazendo distinções, expondo e ensinando –
porque promovem o Sutra do Lótus.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte: O Bodhisattva Sem Desprezo
Capítulo Vinte:
O Bodhisattva Nunca Desprezando
Nessa altura o Buda disse ao Bodhisattva e mahasattva Ganhador de Grande Autoridade: “Deves entender isto. Quando os monges, monjas, leigos e leigas promovem o Sutra do Lótus, se alguém falar mal deles, os insultar ou caluniar, sofrerá uma retribuição severa pelo seu crime, tal como anteriormente expliquei. Expus também os benefícios ganhos por aqueles que promovem o sutra, nomeadamente, purificações dos seus olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.
“Ganhador de Grande Autoridade, há muito tempo atrás, há um imensurável, ilimitado, inconcebível número de asamkhyas de kalpas no passado, existiu um Buda chamado Rei Assombroso Som, Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. O seu kalpa chamava-se Isento de Decadência e a sua terra Feito Grandioso.
“Este Buda Rei Assombroso Som, durante a época em que viveu, ensinou a Lei aos seres celestiais, humanos e asuras. Para aqueles que procuravam tornar-se ouvintes respondia expondo a Lei das Quatro Nobres Verdades de modo a que pudessem transcender o nascimento, a velhice, a doença e a morte e eventualmente alcançarem o nirvana. Para aqueles que procuravam tornar-se pratyekabudas respondia expondo a Lei dos Doze Elos da Causalidade Interdependente. Para os bodhisattvas, como meio de os conduzir a anuttara-samyak-sambodhi, respondia expondo a Lei dos seis paramitas de modo a que pudessem eventualmente ganhar a sabedoria de Buda.
“Ganhador de Grande Autoridade, este Buda Rei Assombroso Som teve uma duração de vida iguais em número de kalpas aos grãos de areia de quatrocentos mil milhões de nayutas de rios Ganges. A sua Lei Correcta permaneceu no mundo por tantos kalpas quantas as partículas de pó existentes num jambudvipa. A sua Lei Adulterada permaneceu no mundo por tantos kalpas quantas as partículas de pó existentes nos quatro continentes. Após este Buda ter terminar de conferir grandes benefícios aos seres viventes, passou à extinção.
“Após a sua Lei Correcta e a sua Lei Adulterada terem chegado ao fim, um outro Buda apareceu na mesma terra. Também ele foi chamado Rei Assombroso Som, Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. Este processo continuou até vinte mil milhões de Budas terem surgido um após o outro, todos com o mesmo nome.
“Após o original Tathagata Rei Assombroso Som ter passado à extinção e ter passado também a sua Lei Correcta, no período da sua Lei Adulterada, monges de grande arrogância detinham grande poder e autoridade. Existia então um monge bodhisattva chamado Sem Desprezo. Ganhador de Grande Autoridade, porque razão era ele chamado Sem Desprezo? Este monge, perante quaisquer pessoas que encontrasse, quer se tratasse de monges, monjas, leigos ou leigas, prosternava-se com reverência e dirigia-lhes palavras de louvor, dizendo, “Tenho por vocês profunda reverência, nunca vos tratarei com desprezo ou arrogância. Porquê? Porque estais todos a praticar a via do bodhisattva e seguramente alcançareis a Iluminação.”
“Este monge não devotava o seu tempo à leitura ou recitação de escrituras, mas simplesmente fazia vénias perante as pessoas. E se calhasse de ver algum dos quatro tipos de crentes à distância, dirigia-se a ele propositadamente, curvava-se reverentemente e proferia palavras de louvor, dizendo, “Nunca me atreveria a depreciar-vos porque decerto alcançareis a Iluminação!”
Entre os quatro tipos de crentes existiam alguns que se enfureciam pois as suas mentes eram impuras, e falavam mal dele e amaldiçoavam-no, dizendo, “Este monge ignorante – de onde vem ele, atrevendo-se a declarar que não nos desprezaria e conferindo-nos profecias de que alcançaremos a Iluminação? Não nos interessam estas profecias vãs e irresponsáveis!”
“Muitos anos passaram desta forma, durante os quais este monge era constantemente sujeito a ofensas e insultos. Ele não se enfurecia, antes dizia sempre as mesmas palavras, “Certamente alcançareis a Iluminação.” Quando falava desta forma, alguns de entre o grupo pegavam em paus e pedras e batiam-lhe e apedrejavam-no. Mas mesmo quando fugia e ficava a alguma distância, continuava a falar-lhes em voz alta, “Nunca me atreveria a depreciar-vos, pois certamente alcançareis a Iluminação!” e por dizer sempre estas palavras, monges, monjas, leigos e leigas arrogantes deram-lhe o nome de Que Nuca Despreza.
“Quando este monge estava a ponto de morrer, ouviu no céu dez mil, vinte mil, um milhão de versos do Sutra do Lótus que havia sido exposto anteriormente pelo Buda Rei Assombroso Som, e foi capaz de aceitar e abraçar todos esses versos. Imediatamente obteve o tipo de purificações das faculdades da vista, nariz, língua, corpo e mente acima descritas. Tendo obtido esta pureza das seis faculdades, a duração da sua vida foi aumentada em dois mil nayutas de anos, e foi então ensinar o Sutra do Lótus às pessoas.
“Então, quando os quatro tipos de crentes que eram arrogantes, os monges, monjas, leigos e leigas que tinham depreciado este monge e lhe dado o nome de Sem Desprezo – quando viram que ele tinha ganho grandes poderes transcendentais, o poder de ensinar com agradável eloquência e o poder da grande benignidade e tranquilidade, e quando ouviram o que ensinava, tiveram todos fé nele e tornaram-se seus seguidores.
“Este bodhisattva converteu uma multidão de milhares, dezenas de milhar, milhões, fazendo com que alcançassem anuttara-samyak-sambodhi. Após a sua vida ter chegado ao fim, foi capaz de encontrar dois mil milhões de Budas, todos com o nome Brilho do Sol e da Lua, e sob a égide da Lei destes Budas ensinou o Sutra do Lótus. Através das causas e condições assim criadas, foi capaz de encontrar dois mil milhões de Budas, todos com o nome Rei Lâmpada da Nuvem da Liberdade. Sob a égide da Lei destes Budas aceitou, promoveu, leu, recitou e ensinou este sutra para os quatro tipos de crentes. Por esta razão obteve a perfeição dos seus olhos comuns e as faculdades dos seus ouvidos, nariz, língua, corpo e mente foram igualmente purificadas. Entre os quatro tipos de crentes ensinava a Lei com a mente livre de temor.
“Ganhador de Grande Autoridade, este Bodhisattva e mahasattva fez desta forma oferendas a um vasto número de Budas, tratando-os com reverência, honrando-os e louvando-os. Tendo plantado estas boas raízes, foi capaz de encontrar posteriormente mil, dez mil, um milhão de Budas e sob a égide da Lei destes Budas expôs este sutra, obtendo benefícios conducentes ao estado de Buda.
“Ganhador de Grande Autoridade, o que pensais? O bodhisattva Sem Desprezo que viveu nesse tempo – será desconhecido para ti? De facto, esse bodhisattva era eu! Se nas minhas prévias existências não tivesse aceitado, promovido, lido e recitado este sutra e o ensinado a outros, nunca teria sido capaz de alcançar anuttara-samyak-sambodhi tão depressa. Porque na presença desses Budas pretéritos aceitei, promovi, li e recitei este sutra e o expus para outros , fui capaz de alcançar anuttara-samyak-sambodhi tão prontamente.
“Ganhador de Grande Autoridade, nessa altura os quatro tipos de crentes, monges, monjas, leigos e leigas, porque a raiva surgiu em suas mentes e me trataram com desprezo, foram por duzentos milhões de kalpas incapacitados de encontrarem um Buda, de ouvirem a Lei ou de verem a comunidade de monges. Durante cem kalpas padeceram grandes sofrimentos no inferno de Avichi. Quando terminaram a expiação das suas ofensas, encontraram uma vez mais o bodhisattva Sem Desprezo, que os instruiu em relação a anuttara-samyak-sambodhi.
“Ganhador de Grande Autoridade, o que pensais? Os quatro tipos de crentes que nessa altura desprezaram constantemente esse bodhisattva – serão desconhecidos para ti? Eles estão agora nesta assembleia, Bhadrapala e o seu grupo, quinhentos bodhisattvas; Leão da Lua e o seu grupo, quinhentos leigos, todos chegados ao estágio em que nunca regredirão na sua procura por anuttara-samyak-sambodhi!
“Ganhador de Grande Autoridade, deves compreender que este Sutra do Lótus beneficia largamente os bodhisattavas e mahasattvas, pois pode levá-los a alcançar anuttara-samyak-sambodhi. Por esta razão, após a extinção do Tathagata, os bodhisattvas e mahasattvas devem, em todas as ocasiões, aceitar, promover, recitar, explicar, ensinar e transcrever este sutra.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Existiu no passado um Buda
chamado Rei Assombroso Som,
de poderes sobrenaturais e sabedoria imensuráveis,
liderava e conduzia todos sem excepção.
Seres celestiais e humanos, dragões e espíritos,
juntavam-se para lhe darem oferendas.
Após a extinção deste Buda,
quando a sua Lei estava prestes a extinguir-se,
existiu um bodhisattva chamado Sem Desprezo.
Onde quer que se encontrassem os quatro tipos de crentes,
o bodhisattva Sem Desprezo ia ter com eles dizendo-lhes,
“Nunca vos desprezarei, pois estais a praticar a via
e todos vocês se tornarão Budas!”
Quando as pessoas ouviam isto,
zombavam com ele, insultavam-no e amaldiçoavam-no,
mas o bodhisattva Sem Desprezo
suportava tudo isto com paciência.
Depois de todas estas ofensas,
quando estava prestes a morrer,
foi capaz de ouvir este sutra
e as suas seis faculdades foram purificadas.
Devido aos seus poderes transcendentais
a duração da sua vida foi prolongada,
e pelo bem dos demais
expôs este sutra por toda a parte.
Todas as muitas pessoas que aderiram à Lei
foram ensinadas e convertidas por este bodhisattva,
que os fez fixarem-se na via do Buda.
Quando a vida de Sem Desprezo chegou ao fim,
encontrou numerosos Budas
e por ter exposto este sutra
obteve imensuráveis bênçãos.
Pouco a pouco alcançou benefícios
e depressa completou a via do Buda.
Sem Desprezo, que viveu nessa altura,
não era senão eu.
E os quatro tipos de crentes
que então aderiram à Lei,
que ouviram Sem Desprezo dizer,
“Vocês tornar-se-ão Budas”,
e que mediante as causas assim criadas
encontraram numerosos Budas –
estão hoje aqui nesta assembleia,
um grupo de quinhentos bodhisattvas
e os quatro tipos de crentes,
homens e mulheres de pura fé,
que agora na minha presença ouvem a Lei.
Em anteriores existências
encorajei estas pessoas
a ouvirem e aceitarem este sutra,
o supremo perante a Lei,
expondo-o, ensinando-o às pessoas,
e fazendo-as alcançar o nirvana.
Assim, em era após era,
aceitaram e promoveram escrituras deste tipo.
Múltiplos milhares de milhões de kalpas,
um período de tempo inconcebível,
passou antes que se pudesse finalmente
ouvir este Sutra do Lótus.
Múltiplos milhares de milhões de kalpas,
um período de tempo inconcebível,
passou antes que os Budas, Honrados Pelo Mundo,
revelassem este sutra.
Por isso os seus praticantes
após o Buda se ter extinguido,
quando ouvem um sutra como este
não devem dar lugar a dúvidas ou perplexidades
mas devem com uma mente concentrada,
ensinar este sutra por toda a parte,
era após era encontrando Budas
e completando rapidamente a via da Iluminação.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e um:
Os Poderes Místicos do Tathagata
Nessa altura os bodhisattvas e mahasattvas que haviam emergido da terra, numerosos como as partículas de pó de um milhar de mundos, todos na presença do Buda, juntaram as palmas das mãos concentradamente, e fitaram o rosto do Honrado Pelo Mundo com reverência, dizendo assim ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, após o Buda entrar em extinção, nas terras onde estão presentes as emanações do Honrado Pelo Mundo, e no lugar em que o Buda se extinguiu, ensinaremos largamente este sutra. Porquê? Porque queremos obter esta grande Lei, verdadeira e pura, aceitá-la, promovê-la, lê-la, recitá-la, explicá-la, expô-la, transcrevê-la e oferecer-lhe esmolas.”
Nessa altura o Honrado Pelo Mundo, na presença de Manjushri e das imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de outros bodhisattvas e mahasattvas que desde há muito residiam no mundo Saha, bem como dos monges, monjas, leigas, leigos, seres celestiais, dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos – perante todos estes ele expôs os seus poderes sobrenaturais. Estendeu a sua longa língua para cima até alcançar o paraíso Brahma, e de todos os seus poros emitiu imensuráveis, incontáveis raios de luz que iluminaram todos os mundos pelas dez direcções.
Os outros Budas, sentados em tronos de leão sob as numerosas árvores de jóias, fizeram o mesmo, estendendo as suas longas línguas e emitindo imensuráveis raios de luz. Quando Shakyamuni e os outros Budas sob as árvores de jóias expuseram assim os seus poderes sobrenaturais, fizeram-no durante um período de cem mil anos, após o que recolheram de novo as suas longas línguas, tossiram em uníssono e em conjunto estalaram os dedos. O som produzido por estas duas acções encheu todas as terras de Buda nas dez direcções, e a terra em todas elas tremeu de seis modos diferentes.
Todos os seres viventes que aí habitavam, os seres celestiais, dragões, yakshas, gandarvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, graças aos poderes sobrenaturais dos Budas, viram neste mundo Saha imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Budas sentados em tronos de leão sob as numerosas árvores de jóias, e viram também o Buda Shakyamuni e o Tathagata Muitos Tesouros sentados juntos num trono de leão na torre do tesouro. Além disso, viram imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de bodhisattvas e mahasattvas e os quatro tipos de crentes que reverentemente rodeavam o Buda Shakyamuni.
Quando viram estas coisas, ficaram repletos de grande alegria, tendo ganho o que nunca haviam possuído antes. Então os seres celestiais em pleno ar gritaram em altas vozes, dizendo: “Para lá destas imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de mundos existe um mundo chamada Saha, e nele um Buda chamado Shakyamuni. Está agora, em prol dos bodhisattvas e mahasattvas, a expor o sutra do Grande Veículo chamado Lótus da Lei Maravilhosa, uma Lei destinada a instruir os bodhisattvas, uma Lei que é guardada e mantida em mente pelos Budas. Deveis responder com alegria do fundo do vosso coração, e também prestar obediência e oferecer esmolas ao Buda Shakyamuni!”
Quando os vários seres viventes ouviram as vozes no céu, juntaram as palmas das mãos, fitaram o mundo Saha e disseram estas palavras: “Salve, Buda Shakyamuni! Salve, Buda Shakyamuni!”
Então pegaram em diferentes tipos de flores, incenso, colares, bandeiras e dosséis, bem como em ornamentos, jóias raras e outros artigos maravilhosos com que se adornavam, e espalharam-nos para longe na direcção do mundo Saha. Os objectos assim espalhados vieram das dez direcções como nuvens que se juntam. Então, transformaram-se numa cortina de jóias que cobriu completamente a área onde se encontravam os Budas. Nessa altura os mundos nas dez direcções estavam abertos de modo que as passagens de uns para os outros estavam abertas e eram todos como uma única terra de Buda.
Nessa altura o Buda falou a Práticas Superiores (Visishtakâritra) e aos outros na grande assembleia de bodhisattvas, dizendo: “Os poderes sobrenaturais dos Budas, como viram, são imensuráveis, ilimitados, inconcebíveis. Se no processo de confiar este sutra a outros empregasse estes poderes sobrenaturais durante imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de kalpas para descrever os benefícios deste sutra, nunca poderia acabar de fazê-lo. Em resumo, todas as doutrinas possuídas pelo Tathagata, o repositório de todas as essências secretas do Tathagata – tudo isto é proclamado, revelado e claramente exposto neste sutra.
Por esta razão, após o Tathagata ter entrado em extinção, deveis concentradamente aceitar, promover, ler, recitar, explicar, expor, transcrever e praticar segundo o que está determinado. Em qualquer das várias terras, onde quer que haja quem aceite, promova, leia, recite, explique, ensine, transcreva e pratique segundo o que está determinado, ou onde quer que os rolos dos sutras sejam preservados, quer seja num jardim, numa floresta, sob uma árvore, em aposentos de monges, nas casas dos leigos de manto branco, em palácios ou em vales montanhosos ou em vastos desertos, em todos estes lugares devem ser erigidas torres e oferecidas esmolas. Porquê? Porque deveis compreender que eles são locais de prática religiosa. Nesses locais os Budas alcançaram anuttara-samyak-sambodhi, nesses locais os Budas giraram a roda da Lei, nesses locais os Budas entraram no parinirvana.”
Nessa altura, o Honrado Pelo Mundo, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falou em verso, dizendo:
Os Budas, salvadores do mundo,
detém grandes poderes transcendentais,
e por forma a agradarem aos seres viventes
fazem uso dos seus imensuráveis poderes sobrenaturais.
As suas línguas alcançam o paraíso Brahma,
os seus corpos emitem incontáveis raios de luz.
Em prol daqueles que buscam a via de Buda
manifestam estes fenómenos raramente vistos.
O som da tosse dos Budas,
o som do estalar dos seus dedos,
é ouvido através de mundos nas dez direcções
e a terra nesses mundos estremece em seis modos diferentes.
Porque depois de o Buda se ter extinguido
haverá quem promova este sutra,
os Budas estão radiantes
e manifestam imensuráveis poderes sobrenaturais.
Porque desejam confiar este sutra,
louvam e elogiam a pessoa que o aceita e promove,
e ainda que o fizessem durante imensuráveis kalpas
não poderiam nunca esgotar os seus louvores.
Os benefícios ganhos por tal pessoa
são ilimitados e inesgotáveis,
como o vasto céu pelas dez direcções
do qual ninguém pode definir um limite.
Quem quer que possa promover este sutra
na verdade já me viu
e viu igualmente o Buda Muitos Tesouros
e os Budas que são emanações do meu corpo.
Da mesma forma vê-me aqui hoje
enquanto ensino e converto os bodhisattvas.
Aquele que promove este sutra
faz com que eu e as minhas emanações
bem como o Buda Muitos Tesouros,
que já entrou em extinção,
fiquemos cheios de alegria.
Os Budas que estão presentes nas dez direcções
e os Budas de eras passadas e futuras –
ele os verá também,
oferecer-lhes-á esmolas
e fará com que fiquem cheios de alegria.
Os segredos essenciais da Lei
ganhos pelos Budas que se sentam no lugar da prática –
aquele que promove este sutra
acabará também por os obter.
Aquele que promove este sutra
deleitar-se-á a expor interminavelmente
os princípios das várias doutrinas
e os seus nomes e frases
como um vento no espaço aberto
movendo-se para toda a parte
sem qualquer impedimento ou obstáculo.
Após o Tathagata ter entrado em extinção,
esta pessoa conhecerá os sutras expostos pelo Buda,
as suas causas e condições e a sua sequência correcta,
e ensiná-las-á com verdade de acordo com os princípios.
Tal como a luz do sol e da lua
dissipam toda a obscuridade e penumbra,
assim esta pessoa na sua passagem pelo mundo
consegue limpar toda a escuridão dos seres viventes,
fazendo com que imensuráveis números de bodhisattvas
acabem por se fixar no veículo único.
Por isso uma pessoa sábia,
ao ouvir quão vastos são os benefícios a obter,
após eu ter entrado em extinção
deve aceitar e promover este sutra.
Tal pessoa, garantidamente e sem qualquer dúvida,
alcançará a via de Buda.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e Dois:
Transmissão
Nessa altura o Buda Shakyamuni levantou-se do lugar do Dharma e, manifestando os seus grandes poderes sobrenaturais, com a sua mão direita afagou as cabeças dos incontáveis bodhisattvas e mahasattvas e disse estas palavras: “Durante imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de kalpas pratiquei esta Lei difícil de obter, a Lei de anuttara-samyak-sambodhi. Agora vou confiá-la a vocês. Deveis concentradamente propagar esta Lei por toda a parte, fazendo com que os seus benefícios se espalhem largamente.
Três vezes ele afagou a cabeça dos bodhisattvas e mahasattvas, dizendo estas palavras: “Durante imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de ashamkyas de kalpas expus esta Lei difícil de obter, a lei de anuttara-samyak-sambodhi. Agora eu a confio a vocês. Deveis aceitar, promover, recitar e propagar largamente esta Lei, fazendo com que todos os seres viventes, em toda a parte, a escutem e compreendam. Porquê? Porque o Tathagata tem grande piedade e compaixão. Não é de modo algum avaro ou invejoso nem tem qualquer receio. É capaz de conferir aos seres viventes a sabedoria do Buda, a sabedoria do Tathagata, a sabedoria que vem por si mesma. O Tathagata é um grande rio de dádivas para todos os seres viventes. Cabe-vos estudar esta Lei do Tathagata. Não deveis ser avarentos ou invejosos.
“Em eras vindouras, se existirem bons homens e boas mulheres que tenham fé na sabedoria do Tathagata, deveis ensinar e expor-lhes o Sutra do Lótus, de modo a que outros o possam ouvir e compreender, pois desta forma podeis fazê-los obter a sabedoria do Buda. Se existirem seres viventes que não acreditem nele nem o aceitem, deveis usar uma das outras profundas doutrinas do Tathagata para os ensinar, beneficiar e alegrar. Se fizerdes tudo isto tereis então pago a dívida de gratidão que tendes para com o Buda.”
Quando os bodhisattvas e mahasattvas ouviram o Buda dizer estas palavras, experimentaram todos uma grande alegria que encheu os seus corpos. Com ainda mais reverência do que anteriormente, curvaram os seus corpos, inclinaram as suas cabeças, juntaram as palmas das mãos e, fitando o Buda, elevaram as suas vozes em uníssono, dizendo: “Levaremos a cabo respeitosamente todas estas tarefas tal como o Honrado Pelo Mundo ordenou. Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que não tenha preocupações quanto a este assunto!”
A multidão de bodhisattvas e mahasattvas repetiram estas palavras três vezes, elevando as suas vozes em uníssono e dizendo: “Levaremos a cabo respeitosamente todas estas tarefas tal como o Honrado Pelo Mundo ordenou. Rogamos ao Honrado Pelo Mundo que não tenha preocupações quanto a este assunto!”
Nessa altura o Buda Shakyamuni fez os Budas que eram emanações do seu corpo e que tinham vindo das dez direcções voltarem cada um para a sua terra de origem, dizendo: “Cada um destes Budas pode proceder segundo a sua vontade. A torre do Buda Muitos Tesouros pode também regressar à sua anterior posição.”
Quando disse estas palavras, os imensuráveis Budas emanações das dez direcções que estavam sentados em tronos de leão sob as árvores de jóias, bem como o Buda Muitos Tesouros, Práticas Superiores e os outros da grande multidão de ilimitadas ashamkyas de bodhisattvas, Shariputra e os outros ouvintes, os quatro tipos de crentes, os seres celestiais e humanos, asuras e outros em todos os mundos, ouvindo o que o Buda dissera, ficaram repletos de grande alegria.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e Três:
Os Feitos Passados do Bodhisattva Rei da Medicina (Bhaishagyarâga)
Nessa altura o bodhisattva Rei da Constelação Flor (Nakshatrararâgasankusumitâbhigña) falou ao Buda dizendo: “Honrado Pelo Mundo, como é que o bodhisattva Rei da Medicina (Bhaishagyarâga) se movimenta no mundo Saha, ciente das muitas centenas de milhares de dificuldades que tem de enfrentar? Honrado Pelo Mundo, este bodhisattva Rei da Medicina levou a cabo centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de práticas difíceis e árduas. Honrado Pelo Mundo, posso pedir-te que nos dês algumas explicações? Os seres celestiais, dragões, deuses, yakshas, gandarvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos e os bodhisattvas que vieram de outras terras bem como a multidão de ouvintes, todos se deleitarão a ouvir-te.”
“Então o Buda dirigiu-se ao bodhisattva Rei da Constelação Flor, dizendo: “Há muitos kalpas atrás, imensuráveis como as areias do Ganges, existiu um Buda chamado Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua (Kandravimalasûryaprabhâsasrî), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. Este Buda tinha oitenta milhões de grandes bodhisattvas e mahasattvas e uma multidão de grandes ouvintes igual em número às areias de setenta e dois rios Ganges. A duração da vida desse Buda era de quarenta e dois mil kalpas, e a duração da vida dos bodhisattvas era a mesma. Na sua terra não existiam mulheres, residentes infernais, espíritos esfomeados, bestas ou asuras e nenhum tipo de adversidade. O chão era nivelado como a palma de uma mão, feito de lápiz-lázuli e adornado com árvores de jóias. Estava coberta por cortinas de jóias com bandeiras de flores de jóias penduradas; urnas de jóias e incensórios cobriam a terra por toda a parte. Havia palanques feitos com os sete tesouros, cada um com uma árvore situada à distância de um tiro com arco. Sob essas árvores de jóias sentavam-se bodhisattvas e ouvintes e em cada um dos palanques centenas de milhões de seres celestiais tocavam instrumentos celestes e ofereciam hinos de louvor ao Buda
“Nessa altura, pelo bem do bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres(Sarvasattvapriyadarsana) e outros numerosos bodhisattvas e ouvintes, o Buda expôs o Sutra do Lótus. Este bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres deleitava-se com árduas práticas. Sob a Lei exposta pelo Buda Rei da Constelação Flor aplicou-se diligentemente e viajou por toda a parte concentrado na procura da Budeidade por um período de doze mil anos, após o que foi capaz de alcançar o samadhi em que se pode manifestar quaisquer formas físicas. Tendo ganho este samadhi, o seu coração encheu-se de grande alegria e ele pensou para si: a minha obtenção do samadhi em que se pode manifestar todas as formas físicas é inteiramente devida ao facto de ter ouvido o Sutra do Lótus. Devo agora fazer uma oferenda ao Buda Rei da Constelação Flor e ao Sutra do Lótus!
“Entrou imediatamente em samadhi e do céu choveram flores de mandarava, grandes flores de mandarava e partículas pretas de sândalo finamente moídas enchendo o céu como nuvens. Também fez chover incenso do sândalo que cresce nos litorais do Sul. Seis medidas deste sândalo valem tanto quanto o mundo Saha. Tudo isto ele usou como uma oferenda ao Buda.
“Quando terminou de fazer esta oferenda, despertou deste samadhi e pensou para si mesmo: apesar de ter empregue os meus poderes sobrenaturais para fazer esta oferenda ao Buda, não tem o valor de uma oferta do meu próprio corpo.
“Então, bebeu vários perfumes, sândalo, kunduruka, turushka, prikka e aloés. Bebeu também o fragrante óleo da flor champaka e óleos de outras flores, fazendo isto por um período de doze mil anos. Ungindo o seu corpo com um óleo fragrante, apareceu perante o Buda Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua, embrulhou o seu corpo com mantos celestiais de jóias, deitou óleo fragrante sobre a sua cabeça e, recorrendo aos seus poderes transcendentais, pegou fogo ao seu corpo. O brilho que irradiou iluminou mundos iguais em número às areias de oitenta milhões de rios Ganges. Os Budas nestes mundos imediatamente o louvaram, dizendo: “Excelente, excelente, bom homem! Isto é verdadeira diligência. A isto é que se pode chamar uma verdadeira oferenda do Dharma ao Tathagata. Mesmo que se ofereça flores, incenso, em pó ou em pasta, estandartes de sedas celestiais, dosséis, incenso do sândalo que cresce nos litorais do Sul, nada se pode comparar a isto! Mesmo que alguém ofereça os seus reinos e cidades, mulher e filhos, não poderá igualar isto! Bom homem, entre todas as oferendas, esta é a suprema. Entre todas as oferendas, esta é a mais estimada, pois oferece-se o Dharma ao Tathagata.”
“Após proferirem estas palavras, ficaram todos em silêncio. O corpo do bodhisattva ardeu durante mil e duzentos anos e quando esse período terminou, apagou-se finalmente.
“Após o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres ter feito esta oferenda do Dharma e a sua vida ter chegado ao fim, renasceu na terra do mesmo Buda Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua, na casa do Rei Pura Virtude (Vimaladatta). Sentado na posição de lótus, nasceu subitamente por transformação, e de imediato, em benefício do seu pai, falou em verso dizendo:
Grande Rei, deveis entender isto.
Tendo andado por um certo lugar,
obtive de imediato o samadhi que permite
a manifestação de todas as formas físicas.
Levei a cabo os meus esforços com grande diligência
e pus de parte o meu precioso corpo.
“Quando recitou estes versos, disse ao seu pai: “O Buda Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua está ainda presente neste tempo. Previamente eu fiz uma oferenda a este Buda e obtive o dharani que me permite compreender as palavras de todos os seres viventes. Além disso, ouvi o Sutra do Lótus com os seus oitocentos, mil, dez mil, milhões de nayutas, kankaras, vivaras, akshobhyas de versos. Grande Rei, devo agora uma vez mais fazer uma oferenda a este Buda.
“Tendo dito isto, sentou-se num palanque feito com os sete tesouros, elevou-se no ar à altura de sete árvores tala e, dirigindo-se até ao local onde estava o Buda, inclinou a sua cabeça até ao chão em reverência aos pés do Buda, juntou os seus dez dedos e disse estes versos em louvor dos Budas:
O semblante tão raro e maravilhoso,
os seus raios brilhantes iluminando as dez direcções!
Já anteriormente fiz uma oferenda
e agora uma vez mais me encontro aqui.
“Então, após dizer estes versos, o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, está o Honrado Pelo Mundo ainda presente no mundo?”
“Ao que o Buda Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua respondeu: “Bom homem, chegou a hora do meu nirvana. Chegou a hora da extinção. Podes preparar-me um leito confortável pois esta noite ocorrerá o meu parinirvana.”
“O Buda também instruiu o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres dizendo: “Bom homem, tomo esta Lei dos Budas e confio-ta. Além disso, os bodhisattvas e grandes discípulos, bem como a Lei de anuttara-samyak-sambodhi e o mundo de milhares de variadas jóias, com as suas árvores de jóias e os palanques de jóias e os seres celestiais que o frequentam – tudo isto te transmito. Também te confio as relíquias do meu corpo que restem depois de eu passar à extinção. Deves distribui-las largamente e preparar oferendas para elas em toda a parte. Deves erigir muitos milhares de torres [para as acolher].”
“O Buda Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua, tendo dado estas instruções ao bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres, nessa noite, na última vigília, entrou no Nirvana.
“Nessa altura o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres, vendo que o Buda passara à extinção, ficou amargurado e aflito. Com o seu grande amor pelo Buda preparou de imediato uma pira de sândalo do litoral como oferenda ao corpo do Buda e cremou o corpo. Após o fogo se extinguir ele juntou as relíquias, preparou oitenta e quatro mil urnas de jóias e construiu oitenta e quatro mil torres, altas como os três mundos, adornadas com mastros centrais, repletos de estandartes e dosséis pendurados com imensos sinos de jóias.
“Nessa altura o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres pensou uma vez mais para si: “Ainda que eu tenha feito estas oferendas, a minha mente não está ainda satisfeita. Devo fazer mais algumas oferendas às relíquias.
“Então falou aos outros bodhisattvas e grandes discípulos e aos seres celestiais, dragões, yakshas e demais membros da grande assembleia, dizendo, “Deveis prestar toda a vossa atenção. Vou agora fazer uma oferenda às relíquias do Buda Pura e Brilhante Virtude do Sol e da Lua.”
“Tendo dito estas palavras, imediatamente na presença dos oitenta e quatro mil torres queimou os seus braços como oferenda, adornados com cem bênçãos, por um período de setenta e dois mil anos. Isto levou as inumeráveis multidões que procuravam tornar-se ouvintes, em conjunto com uma imensurável asamkhya de pessoas a conceber o desejo por anuttara-samyak-sambodhi, e todos foram capazes de alcançar o samadhi em que se pode manifestar qualquer forma física.”
“Nessa altura os bodhisattvas, seres celestiais e humanos, asuras e outros, vendo que o bodhisattva tinha destruído os seus braços, ficaram alarmados e entristecidos e disseram: “Este bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres é o nosso mestre, intruindo-nos e convertendo-nos. Agora queimou os braços e o seu corpo já não está completo!”
“Nessa altura, no meio da grande assembleia, o bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres fez o seguinte voto: “Destrui os meus braços mas estou certo de que obterei o corpo dourado de um Buda. Se isto for verdadeiro e não falso, que os meus dois braços voltem a ser como eram!”
“Quando acabou de pronunciar este voto, os seus braços reapareceram por si mesmos com a forma que tinham antes. Isto aconteceu devido à sabedoria e aos muitos e profundos méritos deste bodhisattva. Nessa altura o mundo de milhares de formas foi abalado e tremeu de seis maneiras diferentes, do céu choveram flores de jóias e todos os seres celestiais e humanos ganharam o que nunca antes haviam possuído.”
O Buda disse ao bodhisattva Rei da Constelação Flor: “O que pensais? Será este Bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres desconhecido para ti? Ele é de facto o presente bodhisattva Rei da Medicina! Desfez-se do seu corpo deste modo por imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de nayutas de vezes.
Rei da Constelação Flor, se alguém se tiver decidido e quiser obter anuttara-samyak-sambhodi, faria bem em queimar um dedo da mão ou do pé como oferenda às torres votivas do Buda. É melhor do que oferecer reinos, cidades, mulher e filhos, ou as montanhas, florestas, rios e lagos das terras de um universo, e todos os seus tesouros preciosos. Ainda que alguém enchesse três mil galáxias de mundos com os sete tesouros e os desse em oferenda ao Buda e aos grandes bodhisattvas, pratyekabudas e arhats, os benefícios ganhos por essa pessoa não poderiam igualar os benefícios ganhos por aceitar e promover este Sutra do Lótus, mesmo se apenas quatro linhas! Este Sutra confere os mais abundantes de todos os benefícios.
“Rei da Constelação Flor, entre ribeiros, rios e outros cursos de água, o oceano é o principal. Este Sutra do Lótus é igual, sendo o mais profundo e grandioso dos sutras expostos pelos Tathagatas. Igualmente, tal como de entre as Montanhas Sujas, as Montanhas Negras, as Pequenas Montanhas do Círculo de Ferro, as Grandes Montanhas do Círculo de Ferro, as Montanhas dos Dez Tesouros e todas as outras montanhas, o Monte Sumeru é o principal, assim é o Sutra do Lótus. Entre todos os sutras ele ocupa a mais elevada posição. E tal como entre as estrelas e afins, a Lua, filha do Sol, é a principal, assim é este Sutra Lótus. Pois entre todas as centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de tipos de sutras, ele é o mais brilhante. Tal como o Sol, filho dos Deuses, consegue banir toda a escuridão, assim este sutra é capaz de destruir a escuridão de tudo o que não é bom.
“Tal como entre os pequenos reis os reis sábios que fazem girar a roda são os principais, assim este sutra é o mais honrado de entre todos os muitos sutras. Tal como o senhor Shakra é o rei entre todos os trinta e três tipos de seres celestiais, assim este sutra é o rei entre todos os sutras. Tal como o rei celestial, o grande Brahma, é o pai de todos os seres viventes, da mesma forma este sutra é o pai de todos os sábios e meritórios, os que ainda estão a aprender, os que completaram o seu aprendizado e os que decidiram tornar-se bodhisattvas. Tal como de entre todos os comuns mortais, o srotaapanna, sakridagamin, anagamin, os arhats e pratyekabudas são os principais, assim este sutra é o principal entre todos os sutras ensinados por todos os Tathagatas, por todos os bodhisattvas ou por todos os ouvintes e pratiekabuddas, e da mesma forma este sutra é o principal entre todos os sutras. Tal como o Buda é o rei das doutrinas, assim este sutra é o rei dos sutras.
“Rei da Constelação Flor, este sutra pode salvar todos os seres viventes. Este sutra pode levar todos os seres a libertarem-se do sofrimento e da angústia. Este sutra pode trazer grandes benefícios aos seres viventes e cumprir os seus desejos, tal como um lago límpido pode saciar todos os que têm sede. É como um fogo para quem tem frio, um manto para quem está nu. Como um grupo de mercadores encontrando um guia, uma criança que encontra a mãe, alguém que encontra um barco para atravessar o rio, um homem doente que encontra um médico, alguém no escuro que encontra uma lanterna, um pobre que encontra um tesouro, as pessoas que encontra um governante, um mercador viajante que encontra o caminho para o mar. É como uma tocha que dissipa a escuridão, como tudo isto é o Sutra do Lótus. Pode levar os seres a libertarem-se de toda a aflição, doença e dor. Pode abrir todas as cadeias do nascimento e da morte.
Se uma pessoa é capaz de ouvir este sutra, se o copia ou faz com que outros o copiem, os benefícios que obtém dessa forma são tais que mesmo a sabedoria do Buda nunca poderá acabar de calcular a sua extensão. Se alguém copia este sutra e usa flores, incenso em pó ou em pasta, colares, estandartes, dosséis, mantos, vários tipos de lâmpadas, tais como lâmpadas de manteiga, de óleo, lâmpadas com vários óleos fragrantes, com óleo de chanpaka ou de navamalika para fazer oferendas a este sutra, os benefícios que adquire serão igualmente imensuráveis.
“Rei da Constelação Flor, se houver uma pessoa que ouça este capítulo acerca dos feitos passados do Bodhisattva Rei da Medicina, também ela obterá imensuráveis e ilimitados benefícios. Se houver uma mulher que ouça este capítulo acerca dos feitos passados do Bodhisattva Rei da Medicina e seja capaz de o aceitar e promover, essa será o seu último renascimento como mulher e não voltará a nascer sob essa forma.
“Se no último período de quinhentos anos após o Tathagata ter entrado em extinção existir uma mulher que ouça este sutra e leve a cabo as práticas que este sutra prescreve, quando a sua vida aqui na terra chegar ao fim, irá imediatamente para o mundo Paz e Deleite (Sukhâvatî) onde reside o Buda Amitayus rodeado por uma assembleia de grandes bodhisattvas e aí nascerá num assento de jóias no centro de uma flor de lótus. Ele não mais conhecerá os tormentos da cobiça, desejo, raiva, estupidez ou ignorância, ou os tormentos derivados da arrogância, inveja ou outras impurezas. Obterá os poderes transcendentais de um bodhisattva e perceberá a verdade do não nascimento de todos os fenómenos. Tendo obtido esta verdade, a sua faculdade da visão será clara e pura, e com esta visão clara e pura verá Budas e Tathagatas iguais em número às areias de setenta e dois mil milhões de nayutas de rios Ganges.
“Nessa altura juntar-se-ão a si Budas dizendo palavras de louvor: “Excelente, excelente bom homem! Sob os auspícios da Lei do Buda Shakyamuni foste capaz de aceitar, promover, ler, recitar, e ponderar este sutra e foste capaz de o expor para outros. A boa fortuna que obtiveste desta forma é imensurável e ilimitada. Não pode ser queimada pelo fogo ou apagada pela água. Os teus benefícios são tais que um milhar de Budas a falarem em conjunto não poderiam acabar de os descrever. Agora foste capaz de destruir todos os demónios e ladrões, de aniquilar o exército do nascimento e da morte e todos os outros que trazem inimizades ou malícia foram igualmente afastados.
“Bom homem, uma centena, um milhar de Budas empregará os seus poderes transcendentais para em conjunto te guardarem e protegerem. Entre os seres celestiais e humanos de todos os mundos, não existirá nenhum como tu. Com a única excepção do Tathagata, não existirá ninguém entre os ouvintes, pratyekabudas ou bodhisattvas capaz de te igualar em sabedoria e habilidade na meditação!”
“Rei da Constelação Flor, tais serão os benefícios e o poder da sabedoria adquiridos por este bodhisattva.
“Se existir alguém, que ao ouvir este capítulo sobre os actos passados do Bodhisattva Rei da Medicina, seja capaz de o receber com alegria e louvar a sua excelência, então nesta presente existência a boca dessa pessoa exalará constantemente a fragrância do lótus azul e os poros do seu corpo exalarão constantemente a fragrância do sândalo. Os seus benefícios serão como acima se decreve.
“Por esta razão, Rei da Constelação Flor, confio-te este capítulo sobre os actos passados do Bodhisattva Rei da Medicina. Após ter passado à extinção, no último período de quinhentos anos, deves espalhá-lo largamente através de Jambudvipa e nunca permitir que seja suprimido, nem deves permitir que demónios malignos, pessoas diabólicas, seres celestiais, dragões, yakshas ou demónios kumbhanda o corrompam ou destruam!
“Rei da Constelação Flor, deves usar os teus poderes transcendentais para guardar e proteger este sutra. Porquê? Porque este sutra oferece um bom medicamento para os males das pessoas de Jambudvipa. Se alguém que tenha uma doença for capaz de ouvir este sutra, a sua doença será curada e essa pessoa não conhecerá a velhice ou a morte.
“Rei da Constelação Flor, se vires alguém que aceite e promova este sutra, deves pegar em flores de lótus azuis, polvilhá-las com incenso e espalhá-las sobre essa pessoa como oferenda. E quando tiveres feito isso, deves pensar para ti: Não tardará muito, esta pessoa colherá ervas para fazer um assento no lugar da prática e conquistará os exércitos de Mara. Então fará soar a concha da Lei, baterá o tambor da grande Lei e libertará todos os seres viventes da velhice, da doença e da morte!
“Por esta razão quando aqueles que procuram a via do Buda virem alguém que aceita e promove este sutra, devem aproximar-se com este tipo de respeito e reverência.”
Quando o Buda expôs este capítulo sobre os actos passados do Bodhisattva Rei da Medicina, oitenta e quatro mil bodhisattvas obtiveram o darhani que lhes permite compreender as palavras de todos os seres viventes. O Tathagata Muitos Tesouros no interior da sua torre do tesouro louvou o bodhisattva Rei da Constelação Flor, dizendo: “Excelente, excelente, Rei da Constelação Flor. Conseguiste adquirir inconcebíveis benefícios e assim foste capaz de questionar o Buda Shakyamuni acerca deste assunto, beneficiando um número imensurável de seres viventes.”
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e Quatro:
O Bodhisattva Som Maravilhoso
(Miozon ou Gadvadasgara)
Capítulo Vinte e Quatro:
O Bodhisattva Miozon (Gadvadasgara)
Nessa altura, o Buda Shakyamuni emitiu um raio de luz brilhante desde a protuberância [no alto da sua cabeça], um dos sinais distintivos de um grande homem, e também emitiu um raio de luz desde o tufo de cabelo branco entre as suas sobrancelhas, iluminando terras de Buda na direcção Leste iguais em número às areias de cento e oitenta mil milhões de nayutas de rios Ganges. Para lá destes numerosos mundos, estava uma terra chamada Adornada Com Luz Pura (Vairokanarasmipratimandita). Neste plano existencial existia um Buda chamado Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor (Kamaladalavimalanakshatrarâgasankusumitâbhigña), Tathagata, merecedor de ofertas, de conhecimento correcto e universal, conduta perfeita e clara, bem aventurado, conhecedor do mundo, inexcedivelmente meritório, treinador de pessoas, mestre de seres celestiais e humanos, Buda , Honrado Pelo Mundo. Um imensurável e ilimitado número de bodhisattvas rodeava-o e prestava-lhe reverência e para todos estes ele expunha a Lei. O raio de luz desde o tufo branco do Buda Shakyamuni iluminava toda essa terra.
Nessa altura, na terra Adornada Com Luz Pura, existia um bodhisattva chamado Som Maravilhoso (Gadgadasvara), que há muito havia plantado numerosas raízes de virtude, ao oferecer esmolas e assistir imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de Budas. Tinha conseguido adquirir todos os tipos de sabedoria profunda, obtendo o samadhi Dhvagâgrakeyûra (Embrace do Estandarte Maravilhoso), o samadhi Saddharma-Pundarîka (Lótus da Verdadeira Lei), o samadhi Vimaladatta (Concedido por Vimala), Nakshatraragâvikrîdita (Exercício do Rei das Constelações, o Deus Lua), Anilambha [De Significado Incerto], Gñânamudrâ (Selo da Sabedoria), Kandrapradîpa (Luar), Sarvarutakausalya (Entendedor de Todos os Sons, que permite compreender as linguagens de todos os seres vivos), Sarvapunyasamukkaya (Compêndio de Piedade), Prasâdavatî (Donzela Favorável), Riddhivikrîdita (Exercício de Poderes Transcendentais), Gñanolkâ (Tocha da Sabedoria), Vyûharâga (Rei das Especulações), Vimalaprabhâ (Lustre Imaculado), Vimalagarbha (Puro Repositório), Apkritsna [Pertencente ao ritual místico chamado Âpokasina em Pali], Sûryâvarta (Sóis em Rotação). Obteve todos estes grandes samadhis iguais em número às areias de centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de rios Ganges.
Quando a luz emitida pelo Buda Shakyamuni iluminou o seu corpo, imediatamente falou ao Buda Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor, dizendo: ”Honrado Pelo Mundo, devo viajar ao mundo Saha para prestar obediência, atender e oferecer esmolas ao Buda Shakyamuni e para ver o Bodhisattva Manjushri, Príncipe do Dharma, o Bodhisattva Rei da Medicina, o Bodhisattva Dador Intrépido, o Bodhisattva Rei da Constelação Flor, o Bodhisattva Intenção das Práticas Superiores, o Bodhisattva Rei Adornado e o Bodhisattva Superior em Medicina.”
Nessa altura o Buda Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor disse ao Bodhisattva Som Maravilhoso: “Não deves olhar com desprezo para essa terra ou pensar nela como inferior. Bom homem, o mundo Saha é acidentado, alto em alguns lugares e baixo noutros, cheio de lixo, pedras, montanhas, escória e impureza. O Buda é de baixa estatura e os numerosos bodhisattvas são igualmente pequenos, enquanto o teu corpo tem quarenta e duas mil yojanas de altura e o meu seis milhões e oitocentos mil yojanas. O teu corpo tem uma forma perfeita, com centenas, milhares, dezenas de milhares de bênçãos e um brilho particularmente maravilhoso. Por isso, quando viajares até lá, não deves olhar com desprezo para essa terra ou pensar que o Buda e os bodhisattvas são mesquinhos ou inferiores!”
O Bodhisattva Som Maravilhoso disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, a minha viagem até ao mundo Saha é inteiramente devida ao poder do Tathagata, um efeito produzido pelos poderes transcendentais do Tathagata, um adorno para a sabedoria e virtudes do Tathagata.”
Então o Bodhisattva Som Maravilhoso, sem se levantar do seu lugar ou sequer mexer o corpo, entrou em samadhi e através do poder desse samadhi, num lugar muito afastado do lugar do Dharma no Monte Gridhrakuta, criou um monte de oitenta e quatro mil flores de lótus feitas de jóias. Os seus caules eram feitos de ouro jambunada, as folhas de prata, os estames de diamantes e os cálices de jóias kimshuka.
Nessa altura Manjushri, Príncipe do Dharma, vendo as flores de lótus, falou com o Buda dizendo: “Honrado Pelo Mundo, que causas provocaram o aparecimento destes auspiciosos sinais? Estão aqui várias dezenas de milhares de flores de lótus, os seus caules são feitos de ouro jambunada, as folhas de prata, os estames de diamantes e os cálices de jóias kimshuka!”
Nessa altura o Buda Shakyamuni disse a Manjushri: “Este bodhisattva e mahasattva Som Maravilhoso quer partir da terra do Buda Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor e, acompanhado por oitenta e quatro mil bodhisattvas, vir até ao mundo Saha visitar-me, oferecer-me esmolas e prestar-me obediência. Também deseja oferecer esmolas ao Sutra do Lótus e ouvi-lo.”
Manjushri disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, que boas raízes plantou este bodhisattva, que benefícios cultivou para poder agora exercer tão grandes poderes transcendentais? Que samadhi é que pratica? Peço-te que nos expliques o nome desse samadhi, pois gostaríamos de nos aplicar diligentemente na sua prática. Se levarmos a cabo este samadhi, seremos então capazes de observar o aspecto e tamanho deste bodhisattva e o seu porte e conduta. Pedimos ao Honrado Pelo Mundo que empregue os seus poderes transcendentais para trazer aqui esse bodhisattva de modo a que possamos vê-lo!”
Nessa altura o Buda Shakyamuni disse a Manjushri, “O Tathagata Muitos Tesouros, que há muito entrou em extinção, manifestará a sua forma para vocês.
Então o Tathagata Muitos Tesouros disse ao bodhisattva [Som Maravilhoso], “Vem, bom homem. O Príncipe do Dharma Manjushri quer ver o teu corpo.”
Com isso, o Bodhisattva Som Maravilhoso desapareceu da sua terra e, acompanhado por oitenta e quatro mil bodhisattvas, apareceu aqui [neste mundo Saha]. As terras por onde passou no seu caminho estremeceram e abanaram de seis formas diferentes, e em todas elas choveram flores de lótus de jóias e centenas de milhares de instrumentos soaram por si mesmos, sem que tivessem sido tocados.
Os olhos deste bodhisattva eram tão grandes e largos quanto as folhas do lótus azul e uma centena, um milhar, dez milhares de luas conjugadas não poderiam superar a perfeição das suas faces. O seu corpo era da cor do ouro puro, adornado com imensuráveis centenas de milhares de bênçãos. A sua dignidade e virtude eram esplendidas, a sua luz brilhava intensamente, era dotado de muitas marcas especiais e o seu corpo era tão forte como Narayana.
Tomando o seu lugar no estrado feito com os sete tesouros, elevou-se no ar até atingir a altura de oito árvores tala. Então, com um séquito de bodhisattvas rodeando-o e prestando reverência, viajou para o monte Gridhrakuta neste mundo Saha. Quando aqui chegou desceu do estrado de sete tesouros. Trazendo um colar no valor de centenas de milhares, dirigiu-se ao lugar onde estava o Buda Shakyamuni, inclinou a sua cabeça até ao chão, prestou obediência aos pés do Buda e apresentou o colar, dirigindo-se ao Buda nestes termos: “Honrado Pelo Mundo, o Buda Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor deseja informar-se sobre o estado do Honrado Pelo Mundo. São poucas as suas doenças, poucas as suas preocupações? Pode deslocar-se de forma fácil e conveniente, movimentando-se de forma confortável? Estão os quatro elementos harmonizados de forma correcta em vós? Podeis suportar os afazeres mundanos? São os seres viventes fáceis de salvar? Não são eles excessivamente dominados pela ganância, ódio, estupidez, inveja, impureza e arrogância? Não estão em falta quanto à conduta filial para com os seus pais? Não são pouco respeitosos para com os shramanas e dados a doutrinas heterodoxas e outros males? Não têm falhas quanto ao controle das suas cinco emoções? Honrado Pelo Mundo, existem seres viventes capazes de subjugar os demónios? O Tathagata Muitos Tesouros, que há tanto tempo entrou em extinção, veio na sua torre de sete tesouros para ouvir a Lei? O Buda também deseja perguntar se o Tathagata Muitos Tesouros está tranquilo e sem problemas, com poucas preocupações , paciente e disposto a permanecer aqui. Honrado Pelo Mundo, gostaria de ver o corpo do Buda Muitos Tesouros. Rogo ao Honrado Pelo Mundo que me permita vê-lo!”
Nessa altura o Buda Shakyamuni disse ao Buda Muitos Tesouros, “Este bodhisattva Som Maravilhoso deseja ver-te.”
Então o Buda Muitos Tesouros dirigiu-se a Som Maravilhoso, dizendo, “Excelente, excelente! Vieste até aqui por forma a poderes oferecer esmolas ao Buda Shakyamuni, ouvir o Sutra do Lótus e ver Manjushri e os outros.”
Nessa altura o Bodhisattva Virtude da Flor (Padmasrî) disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, este bodhisattva Som Maravilhoso – que boas raízes plantou ele, que benefícios é que cultivou para possuir estes poderes transcendentais?”
O Buda respondeu a Virtude da Flor: “Em tempos passados existiu um Buda chamado Rei do Som das Nuvens de Trovões (Meghadundubhisvararâga), Tathagata, arhat, samyak-sambuda. A sua terra era chamada Manifestação [ou Visão] de Todos os Budas (SarvaBudasandarsana), e o seu kalpa chamava-se Visto Alegremente (Priyadarsana). Durante doze mil anos o Bodhisattva Som Maravilhoso utilizou centenas de milhares de instrumentos musicais para presentear o Buda Rei do Som das Nuvens de Trovões, e presenteou-o também com oitenta e quatro mil tigelas mendicantes feitas com os sete tesouros. Como recompensa por estas acções nasceu agora na terra do Buda Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor e possui estes poderes sobrenaturais.
“Virtude da Flor, qual é a tua opinião? O bodhisattva Som Maravilhoso que nesse tempo passado compôs oferendas musicais para o Buda Rei do Som das Nuvens de Trovões e o presenteou com esses vasos de jóias – pode ele ser desconhecido para ti? De facto, ele não é senão o bodhisattva e mahasattva Som Maravilhoso que agora está aqui!
“Virtude da Flor, este bodhisattva Som Maravilhoso já serviu e fez oferendas a um imensurável número de Budas. Há muito que plantou raízes de virtude e encontrou centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de nayutas de Budas iguais em número às areias do rio Ganges.
“Virtude da Flor, tu vês apenas o corpo do bodhisattva Som Maravilhoso aqui presente. Mas este bodhisattva manifesta-se através de vários corpos diferentes e expõe este sutra pelo bem dos seres viventes em numerosos locais. Por vezes aparece como Rei Brahma, ou como Lord Shakra, ou como o ser celestial Liberdade, ou como um grande general celeste, ou como o Rei Celestial Vaishravana, ou como um rei sábio que faz girar a roda, ou como um Rei Piedoso, ou como um homem rico, ou como um proprietário, ou como um ministro, ou como um Brahman, como um monge ou uma monja, um leigo ou uma leiga, como mulher de um homem rico ou de um proprietário, de um ministro ou de um Brahman, como um rapaz ou rapariga, como um ser celestial, um dragão ou um yaksha, gandarva, asura, garuda, kimnara, mahoraga, como um ser humano ou não humano. Aprece com estas formas para expor este sutra.
“Virtude da Flor, este bodhisattva Som Maravilhoso pode salvar e proteger os vários seres viventes do mundo Saha. Este bodhisattva Som Maravilhoso leva a cabo várias transformações, manifestando-se de diferentes formas neste mundo Saha e expõe este sutra em benefício dos seres viventes, e ainda assim os seus poderes transcendentais, as suas transformações e a sua sabedoria não sofrem dano ou diminuição. Este bodhisattva emprega vários tipos de sabedoria para iluminar este mundo Saha, fazendo com que cada um dos seres viventes obtenha a compreensão apropriada e faz o mesmo em todos os outros mundos das dez direcções que são numerosos como as areias do Ganges.
“Se for necessário tomar a forma de um ouvinte para libertar os seres, manifesta-se como tal para ensinar a Lei. Se a forma do pratiekabuda é a indicada para libertar os seres, adopta essa forma para pregar a Lei. Se a forma do bodhisattva trouxer a libertação, manifesta-se como um bodhisattva e expõe a Lei. Se a forma de um Buda trouxer a salvação, manifesta-se de imediato sob a forma de um Buda e expõe a Lei. Assim, manifesta-se de diferentes formas, conforme o que seja apropriado para a salvação. E se for apropriado entrar em extinção para trazer a salvação manifesta-se como estando a entrar em extinção.
“Virtude da Flor, o bodhisattva Som Maravilhoso adquiriu grandes poderes transcendentais e o poder da sabedoria que lhe permitem fazer tudo isto!”
Nessa altura o bodhisattva Virtude da Flor disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, este bodhisattva Som Maravilhoso plantou profundamente as raízes de virtude. Honrado Pelo Mundo, qual é o samadhi que permite a este bodhisattva levar a cabo todas estas transformações e manifestações para salvar os seres viventes?
O Buda disse ao bodhisattva Virtude da flor, “Bom homem, este samadhi chama-se Manifestando Todos os Tipos de Corpos. O Bodhisattva Som Maravilhoso, praticando este samadhi, consegue desta forma enriquecer e beneficiar imensuráveis seres viventes.”
Quando o Buda expôs este capítulo sobre o Bodhisattva Som maravilhoso, as oitenta e quatro mil pessoas que vieram com o bodhisattva Som Maravilhoso adquiriram o samadhi que lhes permite manifestar todos os tipos de corpos, e os imensuráveis bodhisattvas deste mundo Saha também adquiriram este samadhi e dharani.
Nessa altura o bodhisattva e mahasattva Som Maravilhoso, tendo acabado de oferecer esmolas ao Buda Shakyamuni e à torre do Buda Muitos Tesouros, regressou à sua terra de origem. As terras que atravessou no seu caminho estremeceram e abanaram de seis formas diferentes, choveram flores de lótus de jóias e soaram centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de diferentes tipos de música.
Após ter chegado à sua terra original, rodeado pelos seus oitenta e quatro mil bodhisattvas, prosseguiu para o local onde se encontrava o Buda Rei da Sabedoria da Constelação Pura Flor e dirigiu-se ao Buda dizendo, “Honrado Pelo Mundo, visitei o mundo Saha, enriqueci e beneficiei os seres viventes, vi o Buda Shakyamuni e a torre do Buda Muitos Tesouros, ofereci-lhes obediência e esmolas. Vi também o bodhisattva Manjushri, príncipe do Dharma, bem como o Bodhisattva Rei da Medicina, o Bodhisattva Obtendo o Poder do Esforço Diligente, o Bodhisattva Dador Intrépido e outros e tornei possível a estes oitenta e quatro mil bodhisattvas obterem o samadhi que lhes permite manifestarem todos os tipos de corpos.”
Quando [o Buda] expôs este capítulo sobre os trânsitos do Bodhisattva Som Maravilhoso, quarenta e dois mil filhos de deuses obtiveram a verdade do não-nascimento de todos os fenómenos e o Bodhisattva Virtude da Flor obteve o samadhi chamado Lótus da Verdadeira Lei.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e Cinco:
A Passagem Universal do Bodhisattva
Contemplador dos Sons do Mundo (Kanzeon ou Avalokitesvara)
Nessa altura, o Bodhisattva Intenção Inesgotável (Akshayamati) levantou-se do seu lugar, descobriu o ombro direito, juntou as palmas das mãos e, fitando o Buda, disse estas palavras: “Honrado Pelo Mundo, este Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo – porque é assim chamado Contemplador dos Sons do Mundo?”
O Buda disse ao Bodhisattva Intenção Inesgotável: “Bom homem, supõe que existem imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de seres viventes que padecem vários sofrimentos e provações. Se ouvirem o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e concentradamente invocarem o seu nome, ele perceberá o som das suas vozes e serão libertados das suas provações.
Se alguém cair num grande fogo e se concentrar no nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, o fogo não o conseguirá queimar. Isto acontece devido à autoridade e aos poderes sobrenaturais deste bodhisattva. Se alguém tiver sido arrastado por uma grande cheia e chamar pelo seu nome, encontrar-se-á de imediato num lugar seco.
“Supõe que existiam cem, mil, dez mil, um milhão de seres viventes que se faziam ao mar em busca de ouro, prata, lápiz-lázuli, madrepérola, ágata, coral, âmbar, pérolas e outros tesouros. Supõe também que um vento forte arrastava o barco para fora do seu curso e o levava para a terra dos demónios rakshasas. Se entre essas pessoas houvesse ainda que apenas um que invocasse o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, todas as pessoas estariam livres de problemas com os rakshasas. É por isto que esse Bodhisattva se chama Contemplador dos Sons do Mundo.
“Se uma pessoa enfrentar uma ameaça de ataque eminente deve invocar o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, então as espadas e paus desses atacantes serão de imediato reduzidas a pedaços e ela será salva.
Ainda que yakshas e rakshasas em número suficiente para encher um universo tentassem atormentar uma pessoa, se eles ouvissem esta pessoa a invocar o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, não seriam sequer capazes de olhar para ela com os seus olhos malignos, muito menos de lhe fazer mal.
“Supõe que num lugar cheio com todos os bandidos impiedosos do mundo, existe um guia que conduz uma caravana de mercadores carregando valiosos tesouros por uma estrada acidentada e perigosa e que alguém diz estas palavras: “Bons homens, não tenham medo! Devem concentradamente chamar o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo. Este bodhisattva pode libertar os seres viventes do medo. Se invocarem o seu nome, ficareis livres destes bandidos maldosos!”. Quando o grupo de mercadores ouve isto, levantam as suas vozes em conjunto, dizendo, “Salve o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo! Por terem invocado o seu nome, eles estão desde logo capazes de se salvarem. Intenção Inesgotável, a autoridade e o poder sobrenatural do Bodhisattva e Mahasattva Contemplador dos Sons do Mundo são tão poderosos quanto isto!
“Se existirem seres viventes possuídos por numerosos desejos ou apegos, pensem com reverência constante no Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e então poderão libertar-se dos seus desejos. Se sentirem raiva e ódio, devem pensar com reverência constante no Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e então poderão libertar-se da sua ira. Se forem ignorantes e estúpidos, pensem com reverência constante no Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e poderão libertar-se da estupidez.
“Intenção Inesgotável, o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, tal como descrevi, possui grande autoridade e poderes sobrenaturais e pode conferir muitos benefícios. Por esta razão, os seres viventes devem constantemente pensar nele.
“Se uma mulher deseja ter um filho varão, deve oferecer obediência e esmolas ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e então terá um filho abençoado com mérito, virtude e sabedoria. E se ela quiser ter uma filha, ela trará todas as marcas da beleza e será alguém que no passado plantou as raízes da virtude e é amada e respeitada por muitas pessoas.
Intenção Inesgotável, o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo tem o poder de fazer tudo isto. Se existirem seres viventes que prestem respeito e obediência ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, a sua boa fortuna não será passageira ou vã. Por isso, todos os seres viventes devem aceitar e promover o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo.
“Intenção Inesgotável, supõe que existe uma pessoa que aceita e promove os nomes de tantos bodhisattvas quantos os grãos de areia existentes no rio Ganges e por toda a duração do seu corpo, oferece esmolas sob a forma de comidas e bebida, roupa, alojamento e medicamentos. Qual é a tua opinião? Ganharia esta pessoa grandes benefícios?
“Intenção Inesgotável respondeu, “Os benefícios seriam muitos, Honrado Pelo Mundo.”
O Buda disse: “Supõe também que uma pessoa aceitava e promovia o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo e ainda que apenas uma vez lhe oferecia obediência e esmolas. A boa fortuna obtida por essas duas pessoas seria exactamente igual. Durante cem, mil, dez mil, um milhão de kalpas nunca se esgotaria nem conheceria um fim. Intenção Inesgotável, se alguém aceita e promove o nome do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, obterá benefícios de méritos e virtudes assim imensuráveis e ilimitados!”
O Bodhisattva Intenção Inesgotável disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, como é que o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo se movimenta neste mundo Saha? Como é que ele prega a Lei em benefício dos seres viventes? Como é que o poder dos meios hábeis se aplica neste caso?”
O Buda disse ao Bodhisattva Intenção Inesgotável: “Bom homem, se existirem seres viventes na terra que precisem de alguém sob a forma de um Buda de modo a serem salvos, o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo manifesta-se imediatamente no corpo de um Buda e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de alguém sob a forma de um pratyekabuda para serem salvos, imediatamente ele manifesta um corpo de pratyekabuda e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um ouvinte para serem salvos, imediatamente se torna um ouvinte e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um Rei Brahma para serem salvos, imediatamente se torna um Rei Brahma e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um Senhor Shakra para serem salvos, imediatamente se torna um Senhor Shakra e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um do ser celestial Liberdade para serem salvos, imediatamente se torna um ser celestial Liberdade e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um grande general celestial para serem salvos, imediatamente se torna um grande general celestial e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um Vaishravana para serem salvos, imediatamente ele se torna um Vaishravana e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um rei piedoso para serem salvos, imediatamente se torna um rei piedoso e ensina-lhes a Lei.
Se precisarem de um homem rico para serem salvos, imediatamente se torna um homem rico e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um proprietário para serem salvos, imediatamente se torna um proprietário e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um ministro para serem salvos, imediatamente se torna um ministro e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um bramane para serem salvos, imediatamente se torna um bramane e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um monge ou de uma monja, de um leigo ou de uma leiga para serem salvos, imediatamente se torna um monge ou uma monja, um leigo ou uma leiga e ensina-lhes a Lei. Se precisarem da mulher de um homem rico, de um proprietário, de um ministro ou de um bramane para serem salvos, imediatamente se torna qualquer uma dessas mulheres e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um rapaz ou de uma rapariga para serem salvos, imediatamente se torna um rapaz ou uma rapariga e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um ser celestial, um dragão, um yaksha, um gandarva, um asura, um garuda, um mahoraga, um ser humano ou não humano para serem salvos, imediatamente se torna qualquer um desses e ensina-lhes a Lei. Se precisarem de um Deus Vajra para serem salvos, imediatamente se torna um Deus Vajra e ensina-lhes a Lei.
“Intenção Inesgotável, este Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo conseguiu realizar estes benefícios e, adoptando uma variedade de formas, percorre os mundos salvando os seres viventes. Por esta razão, tu e os outros deveis concentradamente oferecer dádivas ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, pois ele pode dar segurança àqueles que estão em situações perigosas, adversas e difíceis. Por isso é que neste mundo Saha todos lhe chamam “Aquele Que Dá Segurança” (Abhayandada).”
O Bodhisattva Intenção Inesgotável disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, agora vou oferecer esmolas ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo.”
Então ele pegou no seu colar adornado com numerosas pedras preciosas, no valor de centenas de milhares de peças de ouro e apresentou-o ao bodhisattva, dizendo, “Senhor, aceita por favor este colar de preciosas jóias como uma oferenda no Dharma.”
Nessa altura o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo não quis aceitar a oferta.
Intenção Inesgotável falou uma vez mais ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, “Senhor, por compaixão para connosco, por favor aceita este colar.”
Então o Buda disse ao Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, “Por compaixão para com este Bodhisattva Intenção Inesgotável e pelos quatro tipos de crentes, pelos reis celestiais, dragões, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, deveis aceitar esse colar.”
Então o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, por compaixão para com os quatro tipos de crentes, os reis celestiais, dragões, seres humanos e não humanos e outros, aceitou o colar e, dividindo-o em duas partes, ofereceu uma parte ao Buda Shakyamuni e a outra à torre do Buda Muitos Tesouros.
[O Buda disse,] intenção Inesgotável, estes são os poderes sobrenaturais exercidos livremente pelo Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo nas suas movimentações pelo mundo Saha.”
Nessa altura, o Bodhisattva Intenção Inesgotável colocou a questão em verso:
Honrado Pelo Mundo,
dotado de maravilhosas características,
pergunto-te agora uma outra vez
por que razão é este filho de Buda chamado
Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo?
O Honrado Pelo Mundo, dotado de maravilhosas características, respondeu também em verso ao Bodhisattva Intenção Inesgotável:
Escuta as acções do Contemplador dos Sons do Mundo,
quão prontamente ele responde nas várias direcções.
O seu juramento é vasto como o oceano;
passam os kalpas mas ele
permanece além da compreensão.
Ele serviu muitos milhares de milhões de Budas,
afirmando o seu grande e puro voto.
Descrevê-lo-ei resumidamente para ti –
ouve o seu nome, observa o seu corpo,
conserva-o em mente,
não deixando passar o tempo em vão,
pois ele pode varrer as penas da existência.
Supõe que alguém concebe o desejo de te magoar
e te empurra para um grande poço de chamas.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e o poço de chamas transformar-se-á num lago!
Se fores arrastado à deriva no vasto oceano,
ameaçado por dragões, peixes e vários demónios,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo,
e as ondas não te poderão afogar!
Supõe que estás no pico do Monte Sumeru
e alguém te empurra.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e ficarás suspenso no ar como o sol!
Supõe que és perseguido por homens mal intencionados,
que te querem atirar desde uma montanha de diamante.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e não poderão sequer destruir um dos teus cabelos!
Supõe que estás rodeado de bandidos impiedosos,
cada um brandindo uma faca para te ferir.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e de imediato eles serão tomados de compaixão!
Supõe que tens problemas com as leis de um reino,
enfrentas uma punição e estás prestes a perder a vida.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e a espada do executor quebrar-se-á em pedaços!
Supõe que estás preso com cangas e correntes,
os pés e as mãos presos com grilhões e algemas.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e essas cadeias cairão, deixando-te livre!
Supõe que com pragas e ervas venenosas
alguém tenta fazer-te mal.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e o mal recairá sobre o seu causador.
Supõe que encontras rakshasas malignas,
dragões venenosos e vários demónios.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e nenhum se atreverá a fazer-te mal!
Se fores cercado por feras,
com as suas assustadoras presas e garras,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e elas fugirão a correr amedrontadas.
Se fores ameaçado por lagartos,
cobras, víboras, escorpiões,
com o seu veneno que queima como fogo,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e elas ao ouvirem a tua voz desaparecerão por si mesmas.
Se as nuvens trouxerem tempestade
e caírem relâmpagos, granizo e chuvas copiosas,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e nesse momento as nuvens dissipar-se-ão
Se os seres viventes ficarem fatigados ou em perigo,
abatidos por imensuráveis sofrimentos,
o poder do Contemplador dos Sons do Mundo
pode salva-los dos sofrimentos do mundo.
Ele é dotado de poderes transcendentais
e pratica largamente os meios hábeis da sabedoria.
Através das terras nas dez direcções,
não existe região onde não se manifeste.
Em muitos tipos diferentes de circunstâncias adversas,
nos reinos do inferno, dos espíritos esfomeados ou das bestas,
os sofrimentos do nascimento, da velhice e da morte –
todos estes ele limpa pouco a pouco.
[Então, Intenção Inesgotável, com o coração repleto de alegria, entoou estes versos:]
Tu que possuis o olhar verdadeiro,
o olhar puro,
o olhar da grande e abrangente sabedoria,
o olhar da piedade,
o olhar da compaixão –
constantemente te imploramos e olhamos com reverência.
A sua pura luz, livre de impureza,
é um sol de sabedoria que dissipa todas as trevas.
Ele pode extinguir o vento e o fogo da desgraça
e trazer em toda a parte luz ao mundo.
Os preceitos do seu corpo compassivo
abalam-nos como a tempestade,
a maravilha da sua mente piedosa
é como uma grande nuvem.
Ela faz chover o doce orvalho,
a chuva do Dharma,
para apagar as chamas dos desejos mundanos.
Quando estiveres preso ou aterrorizado no meio de um exército,
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo
e o ódio em todas as suas formas será dissipado.
O Contemplador dos Sons do Mundo tem um som maravilhoso,
um som puro,
como o som de Brahma ou o som da vaga do oceano,
superior aos sons do mundo;
daí que se deva pensar nele constantemente,
sem nunca dar lugar à duvida!
Contemplador dos Sons do Mundo,
sábio puro,
para os que sofrem, em perigo de morte,
pode oferecer ajuda e conforto.
Dotado de todos os benefícios,
vê os seres viventes com olhos compassivos.
O oceano de bênçãos por ele acumulado é imensurável;
por isso se deve inclinar a cabeça perante ele!
Nessa altura o Bodhisattva Suporte da Terra (Dharanindhara) levantou-se de imediato do seu lugar, avançou e disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, se existirem seres viventes que ouçam este capítulo sobre o Bodhisattva Comtemplador dos Sons do Mundo, sobre a liberdade das suas acções, sobre a sua manifestação de uma Passagem Universal e sobre os seus poderes transcendentais, deve saber-se que os benefícios ganhos por essas pessoas não serão poucos!”
Quando o Buda expôs este capítulo sobre a Passagem Universal, uma multidão de oitenta e quatro mil pessoas na assembleia conceberam a determinação de atingir o estado incomparável de anuttara-samyak-sambodhi.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e Seis:
Dharani
Nessa altura o Bodhisattva Rei da Medicina levantou-se do seu lugar, descobriu o ombro direito, juntou as palmas das mãos e, fitando o Buda, dirigiu-se a ele, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, se existirem bons homens ou boas mulheres que aceitem e promovam o Sutra do Lótus, se o lerem e recitarem, penetrarem o seu significado ou copiarem os rolos do sutra, quanto mérito é que obterão?”
O Buda disse a Rei da Medicina, “Se existirem bons homens ou boas mulheres que ofereçam esmolas a Budas iguais em número às areias de oitocentas dezenas de milhares de milhões de nayutas de rios Ganges, qual é a tua opinião? Os méritos por eles alcançados seriam seguramente muitos, não seriam?”
“Muitíssimos realmente, Honrado Pelo Mundo.”
O Buda disse, “Se existirem bons homens ou boas mulheres que, em relação a este sutra, o aceitem e promovam, ainda que apenas quatro linhas de verso, se o lerem e recitarem, entenderem o seu princípio e praticarem conforme o que o sutra diz, os seus benefícios serão muitos mais.”
Nessa altura o Bodhisattva Rei da Medicina disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, darei agora àqueles que expõe a Lei encantamentos dharani, que os guardarão e protegerão.” Então pronunciou estes encantamentos:
anye manye mane mamane chitte harite shame shamitavi
shante mukte muktatame same avashame sama same kshaye
akshaye akshine shante shame dharani alokabhashe-
pratyavekshani nivshte abhyantaranivishte atyantaparishuddhi
ukkule mukkule arade parade shukakashi asamasame
Budavilokite dharmaparikshite samghanirghoshani
bhayabhayashodhani mantre mantrakshayate rute
rutakaushalye akshaye akshayavanataya abalo amanyanataya.
“Honrado Pelo Mundo, estes dharanis, estes encantamentos sobrenaturais, são pronunciados por Budas iguais em número às areias de sessenta e dois milhões de rios Ganges. Se alguém atacar ou ferir estes mestres da Lei, terá então atacado e ferido todos esses Budas!”
Nessa altura o Buda Shakyamuni louvou o Bodhisattva Rei da Medicina, dizendo, “Excelente, excelente, Rei da Medicina! Dedicas a estes mestres da Lei os teus pensamentos compassivos e por isso pronuncias estes dharanis. Eles trarão grandes benefícios aos seres viventes.”
Nessa altura o Bodhisattva Dador Intrépido disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, também vou recitar dharanis para proteger e guardar aqueles que leiam, recitem, aceitem e promovam o Sutra do Lótus. Se um mestre da Lei adquirir estes dharanis, mesmo que yakshas, rakshasas, putanas, krityas, kumbhandas ou espíritos esfomeados o vigiem e tentem aproveitar-se dele, serão incapazes de o fazer.” Então em presença do Buda recitou estes encantamentos:
jvale mahajvale ukke mukke ade adavati nritye nrityavati ittini
vittini chittini nrityani nrityakati
“Honrado Pelo Mundo, estes dharanis, estes encantamentos sobrenaturais, são pronunciados por Budas iguais em número às areias do Ganges. Se alguém atacar ou ferir estes mestres da Lei, terá então atacado e ferido todos esses Budas!”
Nessa altura o rei celestial Vaishravana, protector do mundo, disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, também penso com compaixão nos seres viventes e defendo e protejo estes mestres da Lei, por isso vou recitar estes dharanis.” Então recitou estes encantamentos:
atte natte nunatte anada nade kunadi
Honrado Pelo Mundo, com estes encantamentos sobrenaturais guardo e protejo os mestres da Lei. E guardarei também aqueles que promovam este sutra, garantindo que não sofram dano ou declínio numa área de cem yojanas.”
Nessa altura o rei celestial Defensor da Nação, que estava na assembleia com um séquito de milhares, dezenas de milhar, milhões de nayutas de gandharvas que o rodeavam e lhe prestavam reverência, avançou até ao lugar onde estava o Buda, juntou as palmas das mãos e disse ao Buda, Honrado Pelo Mundo, também empregarei dharanis, encantamentos sobrenaturais, para proteger e guardar aqueles que promovem o Sutra do Lótus.” Então recitou estes encantamentos:
agane gane gauri gandhari chandali matangi janguly vrusani
agashti
“Honrado Pelo Mundo, estes dharanis, estes encantamentos sobrenaturais, são recitados por quarenta e dois milhões de Budas. Se alguém atacar ou ferir os mestres da Lei, terá atacado e ferido todos estes Budas!”
Nessa altura estavam presentes as filhas dos demónios rakshasa, a primeira chamada Lamba, a segunda Vilamba, a terceira Dente Torto, a quarta Dente Florido, a quinta Dente Negro, a sexta Cabelo Abundante, a sétima Insaciável, a oitava Portadora do Colar, a nona Kunti e a décima Aquela que Rouba o Espírito Vital de Todos os Seres Vivos. Estas dez filhas de rakshasas, em conjunto com a Mãe da Criança Demónio, o seu filho e os seus seguidores, prosseguiram até ao local onde estava o Buda e falaram-lhe em uníssono, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, também nós desejamos proteger e guardar aqueles que lêem, recitam, aceitam, e promovem o Sutra do Lótus e o poupam de qualquer declínio ou deturpação. Se alguém espiar as acções destes mestres da Lei e tentar aproveitar-se deles, tornaremos impossíveis os seus propósitos.” Então, na presença do Buda pronunciaram estes encantamentos:
itime itime itime atime itime nime nime nime nime nime ruhe
ruhe ruhe ruhe stahe stahe stahe stuhe shuhe
Ainda que passem sobre as nossas cabeças, nunca perturbarão os mestres da Lei! Quer sejam yakshas, pakshasas, espíritos esfomeados, putanas, krityas, vetadas, skandas, umarakas, apasmarakas, yakshas krityas ou humanas, ou uma febre, quer seja de um dia, de dois, três, quatro ou até sete dias, ou mesmo uma febre constante, seja na forma de um homem, de uma mulher, de um rapaz ou rapariga, ainda que apenas num sonho, nunca os perturbará!”
Então, na presença do Buda falaram em verso, dizendo:
Se houver alguém que não preste atenção
aos nossos encantamentos
e perturbe e prejudique os mestres da Lei,
as suas cabeças serão desfeitas em sete pedaços
como os ramos da árvore arjaka.
O seu crime será igual ao de alguém que mate pai e mãe,
ou de alguém que adultere o óleo
ou que engane os outros com medidas e escalas,
ou que, como Devadatta,
cause dissensões na Ordem de monges.
Se alguém cometer um crime contra os mestres da Lei
fará recair sobre si uma culpa igual a estas!”
Depois de terem recitado estes versos, as filhas de rakshasa disseram ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, usaremos os nossos próprios corpos para proteger e guardar aqueles que aceitam, lêem, recitam e praticam este sutra. Velaremos para que eles tenham paz e tranquilidade, livrando-os do declínio e do mal e anulando os efeitos de todas as ervas venenosas.”
O Buda disse às filhas de rakshasas, “Excelente, excelente! Se vocês guardarem e protegerem aqueles que aceitam e promovem simplesmente o nome do Sutra do Lótus, o vosso mérito será imensurável. Quanto mais se defenderem e guardarem aqueles que o aceitam e promovem na integra, que oferecem esmolas aos rolos do sutra, flores, incenso em pó ou em pasta, colares, estandartes, dosséis, música, que queimam várias lamparinas, de manteiga, de óleo, de óleos fragrantes, de óleo da flor utpala, e que desta forma oferecem centenas de milhares de variedades de esmolas? Kunti, tu e os teus seguidores devem proteger e guardar estes mestres da Lei!”
Quando o Buda expôs este capítulo sobre os Dharani, sessenta e duas mil pessoas alcançaram a verdade do não-nascimento.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e Sete:
Os Actos Passados do Rei Adorno Maravilhoso
Nessa altura o Buda dirigiu-se à grande assembleia, dizendo: “Numa era longínqua, há um imensurável, ilimitado, inconcebível número de kalpas no passado, existiu um Buda chamado Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade (Galadharagargitaghoshasusvaranakshatrarâgasankusumitâbhigña), Tathagata, arhat, samyak-sambuda. A sua terra chamava-se Adorno de Luz Brilhante(Vairokanarasmipratimandita) e o seu kalpa chamava-se Alegremente Visto(Priyadarsana). Nesta era da Lei de Buda existia um rei chamado Adorno Maravilhoso (Subhavyaha). A mulher do rei chamava-se Pura Virtude (Vimaladatta), e eles tinham dois filhos, um chamado Repositório Puro (Vimalagarbha) e o outro Olho Puro (Vimalanetra). Estes dois filhos possuíam grandes poderes sobrenaturais, mérito, virtude e sabedoria e durante muito tempo cultivaram a via apropriada a um Bodhisattva; levaram a cabo a dana-paramita, shila-paramita, kshanti-paramita, virya-paramita, dhynana-paramita, prajna-paramita e a paramita dos meios hábeis, praticaram a piedade, a compaixão, a alegria e a indiferença, bem como os trinta e sete auxílios para a via. Tudo isto eles entenderam e dominaram completamente. Além disso, obtiveram os samadhis do bodhisattva, nomeadamente, o samadhi puro e os samadhis sol, lua e estrela, o samadhi constelação, o samadhi luz pura, o samadhi cor pura, o samadhi pura iluminação, o samadhi longo adorno e o samadhi da grande dignidade e virtude; ambos aperfeiçoaram completamente todos estes samadhis.
“Nessa altura esse Buda, desejando atrair e guiar o Rei Adorno Maravilhoso, e também por pensar com compaixão nos seres viventes, expôs o Sutra do Lótus. Os dois filhos do rei, Repositório Puro e Olho Puro, foram ter com sua mãe, juntaram as palmas das mãos e disseram-lhe, “Rogamos à nossa mãe que visite o lugar do Buda Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade. Também nós iremos lá e, chegando próximos dele oferecer-lhe-emos esmolas e obediência. Porquê? Porque o Buda está a expor o Sutra do Lótus no meio da multidão de seres celestiais e humanos e é nosso dever escutá-lo e aceitá-lo.”
“A mãe anunciou aos seus filhos, “O vosso pai acredita em doutrinas não Budistas e está profundamente apegado à Lei Bramânica. Deveis ir ter com o vosso pai, falar-lhe acerca disto e persuadi-lo a ir convosco.”
“Repositório Puro e Olho Puro juntaram as palmas das suas mãos e disseram a sua mãe, “Somos filhos do Rei do Dharma, e apesar disso nascemos nesta família de ideias heréticas!”
”A mãe disse aos filhos, “Vós tendes razão ao falar com preocupação do vosso pai. Deveis manifestar algum poder sobrenatural perante ele. Quando ele vir isso, a sua mente será decerto limpa e purificada e há-de deixar-nos ir até onde está o Buda.”
“Os dois filhos, preocupados com o pai, elevaram-se no ar até à altura de sete árvores tala e executaram várias maravilhas sobrenaturais, andando, sentando-se e deitando-se em pleno ar, fazendo jorrar água da parte de baixo dos seus corpos e sair fogo da parte de cima dos seus corpos, manifestando corpos imensos que enchiam os céus e tornando-se pequenos novamente, tornando-se depois outra vez enormes, desaparecendo no céu e aparecendo subitamente no chão; desaparecendo no chão como se fossem de água, andando na água como se esta fosse terra. Manifestaram todos estes vários tipos de maravilhas sobrenaturais de modo a tornarem pura a mente do seu pai, fazendo-o acreditar e compreender.”
“Nessa altura, quando o pai viu os seus filhos demonstrarem poderes sobrenaturais deste tipo, a sua mente ficou repleta de grande deleite, tal como ele nunca tinha sentido, e então juntou as palmas das mãos e fitou os filhos e disse? “Quem é o vosso mestre? De quem é que sois discípulos?”
“Os dois filhos responderam, “Grande rei, o Buda Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade está neste momento sentado no lugar do Dharma sob uma árvore bodhi de jóias, entre a multidão de seres celestiais e humanos de todo o mundo, e expõe largamente o Sutra do Lótus. Ele é o nosso mestre e nós somos seus discípulos.”
“O pai disse aos seus filhos, “Gostaria de ir agora ver o vosso mestre, podeis vir comigo.”
“Com isto os dois filhos desceram do ar, prosseguiram para onde se encontrava a sua mãe, juntaram as palmas das mãos e disseram-lhe, “O nosso pai já acredita e compreende, e está inteiramente capaz de conceber o desejo de anuttara-samyak-sambodhi. Completamos o trabalho do Buda em prol do nosso pai. Rogamos à nossa mãe que nos permita ir ao lugar onde está o Buda, abandonar a vida familiar e praticar a via.”
“Nessa altura os dois filhos, desejando expor uma vez mais o sentido das suas palavras, falaram em verso, dizendo a sua mãe:
Rogamos à nossa mãe
que nos permita deixar a vida familiar
e tornarmo-nos shramanas.
Os Budas são muito difíceis de encontrar;
seguiremos este Buda
para aprendermos com ele.
Rara é a flor da udumbara,
mais raro é encontrar um Buda,
e escapar das dificuldades é igualmente difícil –
pedimos-te que nos deixes abandonar a vida familiar.
“A sua mãe disse-lhes então, “Permitir-vos-ei deixar a vida familiar. Porquê? Porque o Buda é muito difícil de encontrar.”
“Os dois filhos então dirigiram-se aos seus pais, dizendo, “Excelente, pai e mãe! Pedimo-vos também que vão prontamente ao lugar onde se encontra o Buda Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade, se dirijam a ele e lhe ofereçam esmolas. Porquê? Porque encontrar um Buda é tão difícil como encontrar a flor da udumbara. Ou tão difícil como uma tartaruga com um único olho enfiar o pescoço numa tábua com um orifício a flutuar no oceano. Nós fomos abençoados com uma grande boa fortuna de vidas anteriores e assim, nascemos numa era em que podemos encontrar a Lei do Buda. Por esta razão o nosso pai e a nossa mãe devem deixar-nos abandonar a vida de família. Porquê? Porque os Budas são difíceis de encontrar, e a ocasião apropriada é também difícil de encontrar.”
“Nessa altura, as oitenta e quatro mil pessoas do pavilhão das mulheres do rei Adorno Maravilhoso foram capazes de aceitar e promover o Sutra do Lótus. O bodhisattva Olho Puro já tinha há muito tempo aperfeiçoado o samadhi da flor e o bodhisattva Repositório Puro há várias centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de kalpas, tinha-se aperfeiçoado no samadhi da fuga aos reinos malignos da existência. Isto porque ele queria tornar possível a todos os seres viventes escapar dos reinos malignos. A esposa do rei adquiriu o samadhi da assembleia dos Budas e foi capaz de entender o repositório secreto dos Budas. Os seus filhos, tal como já foi descrito, tinham empregue o poder dos meios hábeis para melhorar e transformar o seu pai de modo a que ele obtivesse uma mente de fé, compreensão, amor e deleite na Lei do Buda.”
“Então, o Rei Adorno Maravilhoso, acompanhado pelo seu séquito de ministros e secretários, a sua rainha Pura Virtude e todas as residentes e servas do pavilhão das mulheres, os seus dois filhos com os seus quarenta e dois mil serviçais, foi para o lugar onde se encontrava o Buda. Ali chegados, inclinaram as suas cabeças até ao chão em sinal de obediência aos pés do Buda, andaram em sua volta três vezes e depois retiraram-se, ocupando um lugar na assembleia.
“Nessa altura o Buda expôs a Lei em benefício do rei, instruindo-o e trazendo-lhe benefício e alegria. o rei estava exultante.
“Nessa altura o Rei Adorno Maravilhoso e a sua rainha tiraram dos seus pescoços colares no valor de centenas de milhares e espalharam-nos sobre o Buda. No meio do ar os colares transformaram-se num palanquim de jóias com quatro pilares. Nesse palanquim estava uma larga almofada de jóias coberta com centenas, milhares, dezenas de milhares de mantos celestiais. Sentado com as pernas cruzadas em posição de lótus estava um Buda que emitia uma luz brilhante.
“Nessa altura o Rei Adorno Maravilhoso pensou para si mesmo: “O corpo do Buda é verdadeiramente raro, extraordinário em dignidade e adorno, tomando uma forma de suprema subtileza e maravilha!” Então o Buda Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade falou para os quatro tipos de crentes dizendo, “Vedes este Rei Adorno Maravilhoso que está à minha frente com as palmas das mãos juntas? No seio da minha Lei este rei tornar-se-á um monge; praticarará diligentemente a Lei que favorece a via do Buda. Será capaz de se tornar um Buda. O seu nome será Rei Árvore Sal, a sua terra chamar-se-á Grande Luz e o seu kalpa Rei Grande e Altivo. Este Buda Árvore Sal terá uma multidão imensurável de bodhisattvas, bem como incontáveis ouvintes. A sua terra será nivelada e suave. Tais serão os seus benefícios.”
“O rei imediatamente entregou o seu reino ao seu irmão mais novo e ele próprio, com a sua mulher, os seus filhos e todos os seus serviçais, no seio da Lei de Buda renunciaram à vida doméstica e praticaram a via.
“Após o rei ter deixado a vida familiar, aplicou-se constante e diligentemente pelo espaço de oitenta e quatro mil anos, praticando o Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa. Quando este período de tempo passou, obteve o samadhi do adorno de todos os benefícios puros. Elevando-se no ar à altura de sete árvores tala, dirigiu-se ao Buda dizendo: “Honrado Pelo Mundo, estes meus dois filhos levaram a cabo o trabalho do Buda, empregando poderes transcendentais e transformações para afastar a minha mente das heresias, permitindo-me acolher-me com segurança na Lei do Buda e fazendo com que eu visse o Honrado Pelo Mundo. Estes dois filhos foram bons amigos para mim. Quiseram despertar em mim as boas raízes das minhas existências passadas e enriquecer-me e beneficiar-me e por essa razão nasceram na minha casa.”
“Nessa altura o Buda Rei da Flor da Sabedoria da Constelação Som da Nuvem de Tempestade, disse ao Rei Adorno Maravilhoso, “Assim é, assim é. É tal como disseste. Se bons homens ou boas mulheres tiverem plantado boas raízes e consequentemente, em existência após existência, forem capazes de obter bons amigos, então estes bons amigos podem fazer o trabalho do Buda, ensinando, beneficiando, deleitando e permitindo-lhes entrar em anuttara-samyak-sambodhi. Grande rei, deves compreender que um bom amigo é a grande causa e condição mediante a qual se é guiado e conduzido, e que torna possível ver o Buda e conceber o desejo por anuttara-samyak-sambodhi. Grande rei, vês estes dois filhos? Estes dois filhos já ofereceram esmolas a Budas iguais em número às areias de sessenta e cinco centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de rios Ganges, aproximaram-se deles com reverência e na presença desses Budas aceitaram e promoveram o Sutra do Lótus, pensando com compaixão nos seres viventes que abraçam teorias heréticas e levando-os a aceitar as ideias correctas.”
“O Rei Adorno Maravilhoso desceu então do ar e disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, o Tathagata é de facto um ser raro! Devido aos seus benefícios e à sua sabedoria, o nódulo do topo da sua cabeça ilumina todos com luz brilhante. Os seus olhos são longos, largos e de cor azul escura. O tufo de cabelo entre as suas sobrancelhas, uma das suas características, é branco como uma lua de cristal. Os seus dentes são brancos, regulares, juntos e têm constantemente uma luz brilhante. Os seus lábios são vermelhos e belos como o fruto bimba.”
“Nessa altura o Rei Adorno Maravilhoso, tendo louvado desta forma as imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhar, milhões de benefícios, na presença do Tathagata juntou as palmas das mãos concentradamente e dirigiu-se uma vez mais ao Buda, dizendo, “Honrado Pelo Mundo, nunca no passado se conheceu algo assim! A Lei do Tathagata é inteiramente dotada de inconcebíveis, subtis e maravilhosos benefícios. Onde os seus ensinamentos e preceitos forem observados existirá tranquilidade e sentimentos benéficos. De hoje em diante eu abandonarei as teorias heréticas e a arrogância, raiva ou qualquer outro estado mental negativo.”
“Quando acabou de dizer estas palavras, curvou-se aos pés do Buda e partiu.”
O Buda disse à grande assembleia: ”Qual é a vossa opinião? Será o Rei Adorno Maravilhoso desconhecido para vós? De facto ele não é senão o actual Bodhisattva Virtude da Flor. E a sua rainha Pura Virtude é o Bodhisattva Marcas do Adorno de Luz Brilhante (Vairokanarasmipratimanditarâga) que está agora na presença do Buda. Por compaixão e piedade pelo Rei Adorno Maravilhoso e pelos seus serviçais, ele nasceu entre eles. Os filhos do Rei são os actuais Bodhisattvas Rei da Medicina e Medicina Superior.
“Estes bodhisattvas Rei da Medicina e Medicina Superior conseguiram já obter grandes benefícios como este, e na presença de imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de Budas plantaram numerosas raízes de virtude e adquiriram inconcebíveis benefícios. Se existirem pessoas que conheçam os nomes destes dois bodhisattvas, os seres celestiais e humanos de todo o mundo prestar-lhes-ão obediência.”
Quando o Buda expôs este capítulo sobre os Actos Passados do Rei Adorno Maravilhoso, oitenta e quatro mil pessoas alcançaram o olho puro do Dharma, libertando-se assim da poeira e sujidade em relação aos vários fenómenos.
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Sutra do Lótus
Saddharma Pundarika Sutra
O Sutra do Lótus da Boa Lei
Capítulo Vinte e Oito:
O Incentivo do Bodhisattva Universalmente Meritório (Samantabhadra)
Nessa altura o Bodhisattva Universalmente Meritório, conhecido pelos seus poderes transcendentais, dignidade e virtude, acompanhado por um imensurável, ilimitado e indescritível número de grandes bodhisattvas, chegou da região Este. As terras por onde passou tremeram e abanaram, nelas caíram chuvas de flores de lótus e soaram imensuráveis centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de diferentes musicas. Além disso, inúmeros seres celestiais, dragões yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, seres humanos e não humanos, rodeavam-no numa grande assembleia, cada um dando mostras da sua dignidade, virtude e poderes transcendentais.
Quando [o Bodhisattva Universalmente Meritório] chegou ao Monte Gridhrakuta no mundo Saha, inclinou a cabeça até ao chão em obediência ao Buda Shakyamuni, deu sete voltas em seu redor da esquerda para a direita e disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, quando eu estava na terra do Buda Rei Acima da Jóia da Dignidade e da Virtude (Ratnategobhyudgata), desde longe ouvi o Sutra do Lótus a ser ensinado neste mundo Saha. Na companhia desta multidão de imensuráveis, ilimitadas centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de bodhisattvas vim para o ouvir e aceitar. Rogo que o Honrado Pelo Mundo o esponha para nós. Os bons homens e boas mulheres no período após o Tathagata se ter extinguido – como poderão eles ouvir o Sutra do Lótus?”
O Buda disse ao Bodhisattva Universalmente Meritório: “Se bons homens ou boas mulheres reunirem as condições necessárias após o Tathagata ter entrado em extinção, então serão capazes de obter este Sutra do Lótus. Primeiro, deverão estar protegidos e mantidos em mente pelos Budas. Segundo, deverão plantar raízes de virtude. Terceiro, devem atingir o estado em que estão seguros de alcançarem a iluminação. Quarto, devem conceber a determinação de salvarem todos os seres viventes. Se os bons homens e as boas mulheres reunirem estas quatro condições, então após a extinção do Tathagata obterão seguramente este sutra.”
Nessa altura o Bodhisattva Universalmente Meritório disse ao Buda: “Honrado Pelo Mundo, na era malévola e corrupta dos últimos quinhentos anos, se houver alguém que aceite e promova este sutra, eu o guardarei e protegerei, libertando-o do declínio e da dor, velando para que alcance paz e tranquilidade, e garantindo que ninguém o espie e se aproveite das suas acções, nenhum demónio, filho ou filha de demónio, servo do demónio, ou possuído por demónios, nenhum yaksha, rakshasa, kumdhanda, pishacha, kritya, putana, vedata ou outro ser que atormente humanos será capaz de se aproveitar dele.
“Quer essa pessoa esteja parada ou a andar, se ler e recitar este sutra, então montarei o meu elefante branco real de seis presas e com a minha multidão de grandes bodhisattvas irei até onde ela estiver. Manifestar-me-ei, oferecerei esmolas, guardando-o, protegendo-o e confortando a sua mente. Farei isto porque também eu quero oferecer esmolas ao Sutra do Lótus. Se quando essa pessoa estiver sentada pensar neste sutra, nessa altura montarei o meu elefante branco real e manifestar-me-ei na sua presença. Se essa pessoa esquecer uma única frase ou verso do Sutra do Lótus, ajudá-la-ei e juntar-me-ei a ela na leitura e recitação de modo a que compreenda. Nessa altura, a pessoa que aceitar, promover, ler e recitar o Sutra do Lótus será capaz de ver o meu corpo, ficará repleta de alegria e aplicar-se-á com mais diligência do que nunca. Por me ter visto, adquirirá imediatamente samadhis e dharanis. Estes chamam-se o dharani repetido, o dharani das cem, mil, dez mil, um milhão de repetições e o dharani expedito do som do Dharma. Essa pessoa adquirirá dharanis como estes.
“Honrado Pelo Mundo, nessa última era, no período maléfico e corrupto dos últimos quinhentos anos, se existirem monges, monjas, leigos ou leigas que procurem, aceitem, promovam, leiam e recitem, e transcrevam este Sutra do Lótus, que queiram praticá-lo, devem fazê-lo diligente e concentradamente por um período de vinte e um dias. Ao fim desses vinte e um dias, montarei o meu elefante de seis presas e, rodeado por um número imensurável de bodhisattvas, e com este corpo que deleita todos os seres que o vêem, manifestar-me-ei na presença dessa pessoa e ensinar-lhe-ei a Lei, trazendo-lhe instrução, benefício e alegria. Dar-lhe-ei também encantamentos dharanis. Por terem adquirido esses encantamentos, nenhum ser não humano será capaz de os ferir e não serão confundidos ou levados a perder-se por nenhuma mulher. Guardá-los-ei pessoalmente em todas as ocasiões. Por isso, Honrado Pelo Mundo, espero que me permitas pronunciar estes dharanis.” Então, na presença do Buda pronunciou estes encantamentos:
adande dandapati dandavarte dandakushale dandasudhare
sudhare sudharapati Budapashyane sarvadharani-avartani
sarvandhashyavartani su-avartani samghaparikshani
samghanarghatani asamge samgapagate tri-adhvasamgatulya-
arate-prapty savasamgasamatikrante sarvadharmasuparikshite
sarvasattvarutakaushalyanugate simhavikridite
“Honrado Pelo Mundo, se algum bodhisattva for capaz de ouvir estes dharanis, ele deve compreender que tal é devido aos poderes transcendentais de Universalmente Meritório. Se quando o Sutra do Lótus for propagado pelo jambudvipa houver quem o aceite e promova, deve pensar para si mesmo: Isto é tudo devido à autoridade e poder sobrenatural de Universalmente Meritório! Aqueles que aceitarem este sutra, o memorizarem correctamente, compreenderem os seus princípios e praticarem de acordo com o que o sutra prescreve, devem saber que estão a levar a cabo as práticas do próprio Universalmente Meritório. Na presença de um imensurável e ilimitado número de Budas terão plantado profundamente boas raízes, e as mãos do Tathagata afagarão as suas cabeças.
“Se não fizerem mais do que copiarem o sutra, quando as suas vidas tiverem chegado ao fim renascerão no paraíso de Trayastrimsha. Nessa altura oitenta e quatro mil mulheres celestiais, tocando todos os tipos de música, irão recebê-lo. Tais pessoas usarão coroas feitas com os sete tesouros e recrear-se-ão entre essas mulheres. Quanto mais não será no caso daqueles que aceitam, promovem, lêem e recitam o sutra, que o memorizam correctamente e entendem os seus princípios; quando as vidas destas pessoas chegarem ao fim serão recebidas pelas mãos de um milhar de Budas, que os libertarão de todo o medo e os manterão a salvo de caírem nos planos negativos de existência. Imediatamente prosseguirão para o paraíso Tushita, para o lugar do bodhisattva Maitreya. O Bodhisattva Maitreya possui as trinta e duas características e está rodeado por uma multidão de grandes bodhisattvas. Tem centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de servas celestiais e estas pessoas nascerão entre elas. Esses serão os benefícios e vantagens de que usufruirão.
“Por isso as pessoas sábias devem concentradamente copiar o sutra ou fazer com que outros o copiem, devem aceitá-lo, promovê-lo, lê-lo e recitá-lo, memorizá-lo correctamente e praticar de acordo com o que o sutra prescreve. “Honrado pelo Mundo, empregarei os meus poderes transcendentais para guardar e proteger este sutra. Após o Tathagata ter entrado em extinção, eu farei com que seja propagado por todo o Jambudvipa e velarei para que nunca se perca ou acabe.”
Nessa altura, o Buda Shakyamuni disse estas palavras de louvor: “Excelente, excelente, Universalmente Meritório! És capaz de guardar e assistir este sutra e fazer com que muitos seres viventes alcancem paz, alegria e muitas vantagens. Tu adquiris-te já inconcebíveis benefícios e grande e profunda piedade e compaixão. Desde há longas eras no passado demonstraste o desejo por anuttara-samyak-sambhodi, e fizeste o voto de guardar e proteger este sutra. Empregarei os meus poderes transcendentais para guardar e proteger aqueles que aceitem e promovam o nome do Bodhisattva Universalmente Meritório.
“Universalmente Meritório, se houver quem aceite, promova, leia e recite este Sutra do Lótus, o memorize correctamente, o pratique e transcreva, deves saber que tais pessoas viram o Buda Shakyamuni. É como se tivessem ouvido este sutra da boca do Buda. Deves saber que tais pessoas ofereceram esmolas ao Buda Shakyamuni, deves saber que tais pessoas foram afagadas na cabeça pelo Buda Shakyamuni. Deves saber que tais pessoas foram cobertas pelo manto do Buda Shakyamuni.
“Elas não serão mais gananciosas nem apegadas aos prazeres mundanos, não terão gosto pelas escrituras ou sentenças dos não Budistas, não terão sequer nenhum prazer em se associarem com tais pessoas, ou com quem estiver envolvido em ocupações malévolas tais como carniceiros, criadores de porcos ou ovelhas, de galinhas ou cães, com caçadores ou com proxenetas, que ofereçam para venda os favores das mulheres. Serão honestas e rectas de mente e intenção, com uma memória correcta, e possuidoras de mérito e virtude. Não serão perturbadas pelos três venenos, nem serão perturbadas pela inveja, soberba, presunção infundada ou arrogância. Estas pessoas terão poucos desejos, serão de fácil contentamento e saberão como levar a cabo as práticas de Universalmente Meritório.
“Universalmente Meritório, após o Tathagata ter entrado em extinção, no último período de quinhentos anos, se vires alguém que aceite, promova, leia e recite o Sutra do Lótus, deves pensar para ti mesmo: Não tardará muito até que esta pessoa prossiga para o lugar da prática, conquiste as multidões de demónios e alcance anuttara-samyak-sambodhi. Fará girar a roda do Dharma, baterá o tambor do Dharma, fará soar a concha do Dharma e fará cair a chuva do Dharma. Merece sentar-se no trono de leão do Dharma, entre a grande assembleia de seres celestiais e humanos.
“Universalmente Meritório, em idades vindouras, aqueles que aceitarem, promoverem, lerem e recitarem este sutra, nunca mais serão apegados ou gananciosos por roupa, cama, comida, bebida ou outras necessidades da vida diária. Os seus anseios não serão vãos e na sua presente existência alcançarão a recompensa de uma boa fortuna. Se houver alguém que os despreze ou diminua, dizendo, “Vós sois meros idiotas! É inútil levar a cabo essas práticas – no fim não obtereis nada!”, como punição, essa pessoa nascerá cega em existência após existência. Mas se houver alguém que lhes ofereça esmolas e os louve, então nessa presente existência terão uma manifesta recompensa por esses actos.
“Se alguém vê uma pessoa que aceita e promove este sutra e tenta expor as faltas ou aspectos negativos dessa pessoa, quer sejam verdadeiros ou não, será nessa presente existência afligido por lepra branca. Se alguém despreza essa pessoa ou se ri dela, em existência após existência terá dentes em falta ou demasiado espaçados, lábios feios, nariz chato, mãos e pés nodosos ou deformados e olhos vesgos. O seu corpo terá um odor infecto, com chagas malignas de onde escorrerá sangue e pus, e sofrerá de líquido no ventre, falta de ar e outras doenças malignas e severas. Por isso, Universalmente Meritório, se vires uma pessoa que aceite e promova o Sutra do Lótus, deves levantar-te e saudá-lo de longe, mostrando o mesmo respeito que prestarias a um Buda.”
Quando este capítulo sobre O Incentivo do Bodhisattva Universalmente Meritório foi exposto, bodhisattvas imensuráveis e ilimitados como as areias do Ganges, adquiriram dharanis que lhes permitiram memorizar centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de repetições dos ensinamentos, e bodhisattvas iguais em número às partículas de pó de um universo completaram a via de Universalmente Meritório.
Quando o Buda expôs este sutra, Universalmente Meritório e os outros bodhisattvas, Shariputra e os outros ouvintes, em conjunto com os seres celestiais, dragões, seres humanos e não humanos – todo o grupo da grande assembleia ficaram repletos de grande alegria. Aceitando e promovendo as palavras do Buda, fizeram uma vénia em sinal de obediência e partiram.
